A Silveirinha

Júlia Lopes de Almeida

Apresentação

Sylvia Paixão
 

Júlia  Lopes de Almeida nasceu no Rio de Janeiro em 24 de setembro de 1862 e faleceu em 30 de maio de 1934. Filha do educador Dr. Valentim José da Silveira Lopes, Visconde de São Vicente e da musicista Antonia Adelina Pereira. Era irmã de Adelina Lopes Vieira, também escritora. Foi casada com o escritor Filinto de Almeida. Passou grande parte de sua infância e adolescência em Campinas no interior de São Paulo, cidade de características conservadoras e que contava com muito boas escolas. Foi nessa cidade em que se revelou a inclinação de Júlia para a literatura e onde publicou seu primeiro livro, Contos Infantis,.escrito em colaboração com a irmã. Considerada como uma das maiores escritoras do início do século, Júlia Lopes da Almeida deixou uma vasta obra literária, incluindo romances, artigos e crônicas, tendo alcançado reconhecimento por parte da crítica e  êxito junto aos leitores que lhe outorgaram um lugar de destaque no meio intelectual brasileiro. 

Numa época em que era raro encontrarem-se mulheres escritoras, desde cedo sentiu a inclinação pelas letras, num lar cercado de artistas. Em depoimento a João do Rio, ela confessa: “Pois eu em moça fazia versos. Ah! Não imagina com que encanto. Era como um prazer proibido! Sentia ao mesmo tempo a delícia de os compor e o medo de que acabassem por descobri-los. Fechava-me no quarto, bem fechada, abria a secretária, estendia pela alvura do papel uma porção de rimas... De repente, um susto. Alguém batia à porta. E eu, com a voz embargada, dando volta à chave da secretária: já vai! já vai!”(RIO, 1994. p.28).

A Silveirinha, publicado em 1914, por Júlia Lopes de Almeida, com o subtítulo “Crônica de um verão” traz uma história que se passa em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, para onde se dirigiam as famílias abastadas da sociedade carioca com o intuito de fugir ao calor do verão abrasador dos meses de janeiro e fevereiro. O título refere-se à personagem principal, uma jovem recém-casada que,  “de aparência delicada, guardaria, embora depois de casada 20 anos, o nome por que fora sempre conhecida em solteira: Silveirinha, tanto era nela acentuada uma expresssão de inconfundível individualidade”. (ALMEIDA, 1914. p.63). A força dessa jovem mulher estava, sobretudo, na sua inabalável fé e no desejo incorruptível de converter o marido, ateu, ao catolicismo. Para isso, não mede esforços, que se resumem a constantes idas à Igreja em busca do conselho de Padre Pierre, um jovem francês sedutor e vaidoso. Aconselhada pelo confessor, a jovem tece uma rede de seduções e negaceios para o marido que, apaixonado, se desespera sem poder entender a inexplicável atitude da mulher. Nas entrelinhas, a paixão da Silveirinha, vista pelo leitor e ignorada da personagem, pelo Padre Pierre aflora. Depois de grave doença, o marido aceita levar uma corrente com a efígie de Nossa Senhora, ao pescoço e a Silveirinha julga-o convertido, o que não é verdade, como ficamos sabendo pelas palavras do marido que apenas quer a paz no lar e as atenções da mulher: O romance relata os falatórios e intrigas que sustentam a vida mundana e fútil de famílias da alta sociedade carioca,  através de personagens cujo único objetivo parece ser o de poderem usufruir das amizades a fim de alcançarem uma posição melhor no meio em que vivem. Evidentemente, a hipocrisia está presente em vários, como é o caso do jovem Ludgero, advogado que aspira a uma ascensão social através de conquistas amorosas que ignoram a existência de barreiras, facilmente contornadas por meio de ações ilícitas. Como par nas suas investidas pouco confiáveis, está a Xaviera, bem casada, com duas filhas de quem soube se livrar internando-as no tradicional Colégio Sion em Petrópolis, a fim de poder transitar mais livremente nas suas investidas sedutoras.

            Mas esse enredo é apenas a linha principal do livro que faz um notável painel da sociedade burguesa do Rio de Janeiro da época, de modo irônico, com uma crítica bastante mordaz. Os mais ignóbeis motivos das ações sociais são desvendados por essa escritora tão injustamente esquecida.

            O romance A Silveirinha, pelo espaço de férias, pelas personagens ociosas, lembra bastante o livro da escritora americana Kate Chopin. Só que o drama das duas mulheres principais é muito diferente. Uma luta por sua liberdade, a outra por suas arraigadas crenças religiosas.

             Inicialmente publicado sob a forma de folhetins no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, em abril e maio de 1913, o  romance  de Júlia Lopes de Almeida guarda as características da ficção breve, cuja popularidade incentivou a leitura ao mesmo tempo que possibilitou o contato da literatura com um público maior, instigando os seus leitores a escreverem, dentre os quais a mulher, o leitor em potencial a quem serão destinadas as histórias sentimentais, constituindo a forma de lazer própria à dona de casa ou à moça de família que, dessa maneira, encontrava um espaço de evasão dentro do espaço a ela reservado, nos domínios do lar. 

Sylvia Paixão

 

 

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