Oroonoko ou o escravo real

Aphra Behn

Apresentação
Élvio Funck

 

Quem caminha no silêncio dos túmulos de uma das naves laterais da Abadia de Westminster se depara, quase de inopino, com uma lápide sobre a qual, em letras antigas e já bastante apagadas, se lê Aphra Behn, 1640-1689. O túmulo e o nome passarão despercebidos para quem não conhece um pouco mais a fundo a história da literatura inglesa. Aliás, o nome e a data, pisados e repisados pelas multidões de turistas e devotos que freqüentam a Abadia, já vão-se apagando, em contraste com a figura literária de Aphra Behn, que ficou por quase dois séculos no olvido, mas que vai adquirindo destaque cada vez maior entre os críticos atuais. E agora, através da tradução de sua principal obra, Oroonoko, o nome de Aphra Behn será também lembrado pelos leitores brasileiros, que certamente não se decepcionarão com esta obra, escrita há quase três séculos. Aqui está, portanto, a oportunidade para que os leitores de língua portuguesa conheçam melhor o valor literário e histórico desta mulher inglesa do século XVII, considerada como sendo a primeira escritora que viveu de seus escritos, sem ter que recorrer a padrinhos e a mecenas políticos, como ainda ocorreria com grande número de autores até meados do século XVIII.

Embora, porém, ela própria esperasse partilhar da imortalidade da arte tão bem expressa por Ovídio e por Shakespeare, a história foi-lhe cruel na própria Inglaterra, onde seus versos – muitos deles livres e eróticos – não tinham lugar em antologias e onde o Gentleman’s Magazine, em sua edição de 1738, sugeria que ninguém de seu sexo tinha direito de aparecer em publicações. O olvido a que ela foi por tanto tempo relegada talvez seja também um reflexo de sua simpatia pelo catolicismo – cujo cerimonial barroco ela muito admirava – numa época em que a Inglaterra ainda se ressentia dos sangrentos episódios e dos holocaustos hediondos ocorridos por ocasião do reinado de Maria I, a “Bloody Mary”, que, a ferro e fogo, procurara reestabelecer na Inglaterra o catolicismo, eliminado por seu pai Henrique VIII. Esta mesma Inglaterra, no início do século XVIII, preferiu buscar em Hanover um rei alemão, que não sabia uma palavra de inglês e detestava a Inglaterra, mas era protestante, a ver-se governada pelo filho de James II, James Edward Stuart, com muito mais direito ao trono, mas com o defeito de ser católico.

Aphra Behn vem a ressurgir na Literatura Inglesa no primeiro quartel do século XX, mais precisamente em 1915, quando Montague Summers publica uma coleção de suas obras. Mais tarde, em 1929, Virginia Woolf publica um dos clássicos do movimento feminista, A Room of One’s Own, no qual Aphra Behn recebe a homenagem que certamente a consagrou e a tornou um dos protótipos literários do citado movimento: “Todas as mulheres do mundo deveriam colocar flores no túmulo de Aphra Behn, pois foi ela que lhes conquistou o direito de falar abertamente.”

Mas, quem foi Aphra Behn? Segundo Albert Baugh, em sua abalizada History of English Literature, não se tem certeza sobre sua ascendência paterno-materna, mas é provável que ela tenha nascido perto de Canterbury, em 1640. Baugh ainda esclarece que a carreira literária de Aphra foi, no início, obscura e “provavelmente indecorosa”. É também de se supor que ela tenha estado no Suriname, antiga Guiana Holandesa, principal cenário da obra que ora se oferece traduzida para o português, como filha do então nomeado Vice-Governador deste território que, na época, era possessão inglesa. Ainda segundo Baugh, o Vice-Governador veio a falecer na viagem de ida ao Suriname, onde Aphra passou a viver por alguns meses. Foi ali, em contato com os escravos negros, que superavam em número os brancos de origem inglesa, que Aphra teria ouvido ou vivido histórias fantásticas de heroísmo, as quais veio a narrar, de modo especial, em Oroonoko. O estilo narrativo da obra, aliás, é de cunho jornalístico, pois Aphra descreve os acontecimentos ou como testemunha ocular ou como recebidos em primeira mão de testemunhas oculares. A exemplo de Daniel Defoe, a quem precedeu, e que descreveu com detalhes impressionantes os episódios relativos aos anos da peste em Londres sem nunca ter assistido a eles, Aphra, em Oroonoko, se esmera em descrever detalhes e a citar datas e nomes realmente históricos, emprestando grande verossimilhança a sua narrativa. A controvérsia, porém, sobre a presença física de Aphra Behn no Suriname provavelmente nunca será resolvida a contento, o que em nada desmerece sua obra. Em artigos que aparecem no PMLA de 1913 (Bernbaum) e de 1914 (Platt), Bernbaum traz argumentos bastante convincentes a favor da presença de Aphra no Suriname, ao passo que Platt, com argumentos também convincentes, se posiciona contra. Por outro lado, ainda segundo Baugh, se ela realmente esteve no Suriname, foi como amante de William Scot, e não como filha do Vice-Governador. Sabe-se com certeza que Aphra esteve na Holanda em 1666, como espiã do governo inglês, fato este atestado pela existência de  cartas que ela e seu William Scot trocavam, e as quais contêm informações resultantes de seus atos de espionagem. Foi somente ao voltar da Holanda para a Inglaterra em 1667, já então separada de Scot, que Aphra iniciou sua carreira literária, que passou a explorar como fonte de sustento, pois não tinha, ou não queria ter, o que na época se chamava de “patronage”, ou seja, o apoio financeiro de algum mecenas. Em 1689, aos 49 anos, veio a falecer. É certo que não teria recebido sepultura na Abadia de Westminster se não tivesse sido reconhecida por seus méritos literários, os quais vêm novamente à luz agora.

Em Oroonoko, publicado em 1688, pode-se dizer que, de certo modo, Aphra Behn se antecipa àqueles que, como Rousseau, Hudson, ou José de Alencar, levantaram a bandeira do “bom selvagem”. Oronooko é, na verdade, a biografia de um escravo negro imponente de corpo e alma, chamado Oroonoko, e de Imoinda, a escrava negra que Oroonoko amava com amor tão intenso e puro que nos traz à lembrança o casal edênico, como a própria autora afirma no texto da obra: “[Oroonoko e Imoinda] representavam para mim a mais absoluta idéia do primitivo estado de inocência, antes que o homem tenha aprendido a pecar”. O paraíso, ou pseudo-paraíso, em que este casal de inocência edênica viveu era o Suriname, então possessão inglesa, mas que foi mais tarde--ainda durante a vida de Aphra--cedido à Holanda pelo Tratado de Breda, em 1667. Aliás, no próprio texto, Aphra lastima que os ingleses tenham cedido este território aos holandeses: “Devo dizer que, sem dúvida, se nosso falecido rei [Carlos II], de sagrada memória, tivesse visto e conhecido o imenso e encantador território que estava sob seu domínio naquele continente, não teria tão facilmente entregue o mesmo aos holandeses”. A descrição que Aphra faz, no início da narrativa, do cenário onde os fatos se desenrolarão poderia, na verdade, ser uma fotografia do paraíso, onde a própria natureza se desvelava para proporcionar ao primeiro casal mil encantos e prazeres.

Para os leitores que ficarem chocados com a desumanidade e o sadismo com que os escravos são tratados na obra de Aphra Behn, recomendo que leiam a obra de Frei Bartolomeu de las Casas, muito apropriadamente denominada O Paraíso Destruído, sobre o inacreditável e cruel genocídio a que foram submetidos os índios latino-americanos por ocasião da dominação espanhola, e que poderá fazer nossos genocidas modernos parecerem aprendizes.

Quanto à tradução de Oroonoko para o português, é preciso que sejam esclarecidos dois pontos. Em primeiro lugar, não existe tradução isenta, ou com manipulação zero. A tradução revela necessariamente as idiossincrasias do tradutor, que a manipula de acordo com um conjunto de circunstâncias que moldam sua vivência, suas experiências, sua formação cultural. Aqui e ali, foram necessários pequenos ajustes que, tenho certeza, preservaram na medida do possível a equivalência textual. Houve, pelo menos, honestidade no esforço de retextualização.

Em relação ao item Bibliografia, imperioso em toda obra com foros de erudição, prefiro que os leitores curiosos sejam remetidos à Internet, ou à livraria virtual Amazon, pois há ali enriquecimentos quase diários sobre a obra de Aphra Behn. Em setembro de 1998, por exemplo, quando este prefácio estava sendo escrito, a Northernlight já listava 1.217 itens sobre Aphra Behn, ao passo que a Amazon dava 68 títulos de obras à disposição dos interessados em se aprofundar no estudo desta autora que agora chega também ao alcance dos leitores de língua portuguesa, graças ao trabalho e à seriedade acadêmica da Editora Mulheres.

Élvio Funck
Setembro de 1998  

 

 

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