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Lutas do coração Inês Sabino
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Apresentaçã Susan
Canty Quinlan [1]
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O
romance Lutas do coração, de
Inês Sabino, faz uma análise psicológica da mulher brasileira,
atravessando as classes sociais. Enfoca os efeitos freqüentemente
severos decorrentes da ausência de direitos políticos, econômicos e
sociais da mulher numa sociedade classista. Maria Inês Sabino Pinho
Maia (31/11/1853-13/9/1911) leva suas idéias brasileiras à Europa e à
América do Norte e, ao voltar, traz à pátria novas idéias. Um breve
olhar para a história do Brasil nos mostra o rápido desenvolvimento a
testemunhar muitas mudanças importantes num período relativamente
breve, de cerca de 1880 a 1910. O
início da Primeira República, a abolição da escravatura, a produção
da borracha, os primeiros vestígios do movimento sufragista e a reforma
escolar são alguns dos eventos quase simultâneos em terras
brasileiras. As numerosas campanhas abolicionistas apoiavam e
manifestavam os esforços consolidados para a obtenção de paridade política
dos sexos, esforços tão visíveis no Brasil como nos Estados Unidos e
em alguns países da Europa.[2] Sabino
era filha da alta burguesia, sendo seus pais o Dr. Olegário Pereira
Sabino Ludgero Pinho[3] e sua mãe, D. Gertrudes
Pereira Alves Maciel Sabino. Inês Sabino completou parte de seus
estudos na Europa, experiência pouco comum para moças brasileiras suas
contemporâneas. Após visita à Inglaterra, iniciou estudos de
humanidades em Paris. Voltou ao Brasil depois da morte do pai,
radicando-se no Recife. Aí estudou filosofia alemã com os críticos
literários Tobias Barreto e Pedro Autran da Matta Albuquerque. Contudo,
foi Barreto o responsável pela “educação científica e literária
de dona Inês Sabino” (página xxi desta edição). Sabino
se casou depois com Francisco de Oliveira Maia, negociante português no
Recife, numa união vagamente descrita por Costa como baseada em
“indiferença provavelmente quase absoluta no pleno domínio de
insinuações amorosas”.[4]
Sabino teve uma filha, mais tarde mudou-se para São Paulo e finalmente
para o Rio de Janeiro, onde escreveu a maior parte de sua obra literária
e deu suas palestras. Sabino
escreveu seus primeiros poemas aos doze anos. Mais tarde eles foram
incluídos no volume Rosas pálidas
(1887). Ele editou também mais dois livros de poesia no mesmo ano, Impressões e Ave Libertas.
Um quarto volume, também de poesia, Contos
e lapidações, foi lançado em 1891. Ademais, contribuía para a
imprensa estabelecida, como a Gazeta
de Notícias, O País, O tempo, Gazeta da Tarde, Jornal
do Brasil e revistas femininas: A
Mensageira (1897-1890), Eco
das damas (1879-80) e A família
(1888-89). Sua
variada carreira de jornalista abrangeu os estados de Pernambuco,
Alagoas, Rio de Janeiro e São Paulo, chegando até Portugal. Seu
conhecimento de capitais brasileiras e cidades portuguesas
possibilitou-lhe a eclosão de fina sensibilidade política e certamente
deu forma a seu estudo exploratório da história da brasileira, Mulheres
ilustres do Brasil (1899)[5]
e sua investigação psicológica em Lutas
do coração. Também editou literatura infantil, com Noites brasileiras (1903). Tanto Affonso Costa como Alberto Pimentel
mencionam outro romance, Alma de
artista, que não conseguimos localizar. Exemplificando a carreira
da brasileira ativista do final do século passado, Inês Sabino: foi
uma das brasileiras que mais escreveram e publicaram, e ao seu acervo
literário, para mostra de seus valores intelectuais, se devem aduzir as
traduções do francês e do inglês que ela procedera.[6] Sabino
se empenha na defesa de direitos individuais para aqueles que via como
membros oprimidos pela sociedade: indígenas, escravos e todas as
mulheres. Insiste na imprescindibilidade da instrução pública como veículo
de opções esclarecidas para melhoria de vida de tais setores da população.
Sabino apoia as metas da filosofia positivista e prescreve estudos para
as jovens, assegurando assim a educação doméstica quanto a valores
morais e religiosos que reputava necessários para a manutenção de uma
estrutura familiar sadia. Mas também examina o desejo de algumas
mulheres e a necessidade de outras de trabalharem fora do lar, assim
como a responsabilidade social pela educação feminina como preparação
para a vida. Em sua defesa da liberdade da mulher burguesa quanto ao
direito à escolha consciente de ter tanto família como carreira,
Sabino se diferencia radicalmente da experiência elitista comum à
mulher brasileira da alta classe na segunda metade do século XIX. Seu
parecer é o mesmo de sua contemporânea Júlia Lopes de Almeida, ao
manter que a opção de casamento e maternidade precede qualquer outra
decisão profissional. Lutas do coração Lutas
do coração
concretiza a intenção de Inês Sabino de examinar a mulher brasileira
à luz de sua contribuição na formação da sociedade. Apesar de
manter a atitude essencialista típica de sua época — “A organização
da mulher... e a do homem..., como faces distintas do espírito humano,
seguem caminhos distintos” —, demonstra ousadia em enfrentar
assuntos escatológicos tanto em ficção quanto na vida real. E esta
faceta se revela das mais importantes em sua contribuição às letras
brasileiras: sua visão franca e sensível em relação às possíveis
razões pelas quais certas mulheres se mostram incapazes de se enquadrar
nas normas sociais. Para nós, leitoras, o fator importante não é que
ela atribua tais digressões a problemas genéticos ou históricos, mas
àqueles culturais e do meio. Sabino culpa taxativamente a sociedade
hegemônica pela subjugação feminina. Lutas
do coração
estuda o conflito e o amor na vida de três mulheres diferentes,
apaixonadas pelo mesmo homem. Ao fazê-lo, a autora empreende uma
investigação psicológica das personagens femininas no contexto de seu
relacionamento individual com o protagonista. O romance, então, examina
as convenções finisseculares brasileiras do casamento, do ponto de
vista feminino. O
único estudo crítico existente de Lutas
do coração[7] é de autoria de Alberto
Pimentel, seu prefaciador. Como ponto de partida e base para minha
leitura revisionista, examinarei a análise de personagens, a respeito
de discussões encontradas na maioria das histórias literárias de
autoria masculina, a fim de ver se tais comentários indicam compreensão
do ponto de vista feminino. Tais observações são necessárias por não
ter sido encontrado outro comentário extensivo e porque o trabalho de
Pimentel serve de modelo para a crítica oitocentista tradicional. Como
nota Pimentel em seu prefácio, “a mulher brasileira, estudada em três
tipos diferentes — Angelina, a mulher virgem, Madame Alencastro, a
mulher casada, e Ofélia, a mulher livre — constitui a corrente elétrica
que emociona o coração do protagonista e vitaliza o romance” (p. xxiv).
Alberto Pimentel lê as personagens com uma certa correção e indica
sucintamente as três abordagens usadas por Sabino no traçado de suas
personagens femininas. Contudo, não parece dar-se conta da gama
completa de experiência empregada pela autora, nem reconhece sua
modificação sui generis.
Mais abaixo, examinaremos o desenrolar dos eventos inesperados relativos
à personagem Ofélia. Ao
comentar sobre a produção de letras femininas no Brasil, Pimentel
descreve a escritora brasileira: Para
a mulher, no Brasil, a paixão das letras é talvez mais do que uma
predileção de espíritos delicados: será porventura um sonho da
imaginação acalentada pelos esplendores fantásticos da natureza
americana, pelos hábitos mimosos e lânguidos da vida brasileira. (p. xix) Assevera
o crítico: A
mulher brasileira, mais subjetiva do que a mulher da Europa, é freqüentemente
poeta e psicóloga, quando, auxiliada pela educação, se entrega ao
prazer da leitura. Ela não escreveria decerto alguns livros de Madame
de Stael, Considérations sur la Révolution française e De l’Allemagne...” (p. xx) Como
se disse acima, uma leitura revisionista de Lutas
do coração encontrará mais do que um romance costumbrista. Sabino
incorpora agudo estudo caracterológico a cenas descritivas da natureza
brasileira, refletindo o conflito interno de seu elenco. A “cor
local” ou o exuberante ambiente tropical, assim como a juventude da
nova república, não podem ser separadas das personagens individuais. A
trama desenvolve a volta do jovem engenheiro Hermano Guimarães ao Rio
de Janeiro, após 22 anos em Paris Em determinado nível, a história
mostra a luta do rapaz para desfazer-se de seus paradigmas europeus e
redescobrir a pátria. Em outro, descreve a vida de um canalha da época.
Longas passagens do romance cantam, de maneira lírica, a singularidade
do Brasil — como um país jovem. Finalmente o engenheiro consegue
encarar a pátria com novos olhos. Em tal contexto, Sabino escreve
longas descrições do campo, do sistema econômico e da realidade política
contemporânea. A
autora justapõe tais descrições materiais a finos apanhados psicológicos
de suas personagens femininas. Este método permite à leitora perceber
a razão e o modo de sua reação. As qualidades muito brasileiras —
ou a brasilidade — da escrita de Sabino propõem seu próprio palco
psicológico para o desenrolar do drama. “Era uma dessas noites
brasileiras em que o espírito se deixa levar pelo poder da fantasia e
caminha pelo mundo do infinito em busca de um doce ideal”. (p. 34) Angelina,
a jovem prima de Hermano, é a primeira personagem feminina apresentada
ao leitor. Filha única do barão de Santa Júlia, personifica a
brasileira aristocrática tradicional. Sua educação circunscrita a
prendas domésticas — bordado e culinária — rudimentos de música e
de catecismo indica a inocência, pureza e virtude de filha de família.
Contudo, o leitor percebe que a Angelina não repugna o uso de quaisquer
armas que encontre na conquista do coração de Hermano. A meta de sua
existência é um “bom casamento”. Sua instrução fora mínima
porque seus pais “não [a] deram à filha nem muito à antiga, nem
muito à moderna... O barão não quis que ela tivesse mais estudos por
o motivo de não gostar de mulheres eruditas”. (p. 31) Em
alguns trechos do livro, Angelina pede conselhos quanto à conquista
masculina a mulheres casadas e mais velhas. Plenamente consciente da
importância de sua aparência física, empenha-se em seguir a moda.
Quando Hermano não lhe retribui o afeto, Angelina usa chantagem
sentimental — neste caso doença emocional diagnosticada como
histerismo por seu médico. Pois é somente através destas medidas
extraordinárias que ela consegue casar-se com o primo. Nas
palavras de Pimentel, Matilde é a “mulher casada” (provável
eufemismo para sua experiência sexual). O que atrai nesta personagem é
a criação de seu meio pela romancista. Os pais, cariocas abastados e,
a princípio, sem filhos, adotam um menino, Alencastro. E como acontece
freqüentemente, tanto em ficção como na vida real, logo após, a
senhora se engravida. Nascem Matilde e seu gêmeo. Ao crescer, a menina
e seu irmão adotivo se tornam grandes amigos. A adolescente Matilde
demonstra fortes pendores musicais, com possibilidade de profissionalização.
Contudo, como tal atividade é inaceitável em seu meio social, nem a moça
nem a família pensa em carreira artística. Frustrada pelo desperdício
de seu talento musical e incapaz de encontrar uma identidade criativa,
Matilde relutantemente se casa com Alencastro, que a adora. A fim de
conservar a beleza física e a liberdade, recusa-se a ter filhos,
devotando-se por completo à vida social. Para
a autora, Matilde representa a mulher cujo erro é duplo: não escolhe
uma carreira nem a maternidade. Como logo se verá, Matilde representará
a frustração de mulheres que não querem agir construtivamente. Como vários
estudos feministas demonstram,[8]
para estas personagens oitocentistas o recurso derradeiro/a única solução
é um final trágico: desfiguramento ou loucura. Utilizando a
estrutura/os elementos didáticos desses populares romances de tese,
Sabino opta por demonstrar o destino de mulheres que não tomam a
iniciativa em sua própria vida. Matilde se torna vazia e narcisista.
Menospreza as qualidades sólidas e constantes do marido, não se
prestando a concretizar seu desejo de paternidade. Sua vida se limita a
festas, namoricos, visitas a cartomantes e boatos. A certa altura, chega
a reconhecer a futilidade em que vive, buscando solução em outrem. Ela
quer ser salva e não salvar-se. Ao perceber o interesse de Angelina por
Hermano, passa a ambicioná-lo para si própria. Quando falha a
costumeira tentativa de sedução, ela perde o autocontrole e o senso de
decoro. É então consumida pela tuberculose, que também lhe ataca o cérebro
e provoca a melodramática cena final. No escritório de Hermano, a magérrima
mulher se coloca à mercê do engenheiro. Em seus trajes mais elegantes,
a acentuar-lhe o aspecto cadavérico, ouve a negativa de Hermano mais
uma vez e morre. Ao engenheiro cabe retirar o corpo, tentando salvar a
dignidade da desgraçada defunta e de sua família. Pimentel
comenta sobre este final bastante artificial: A morte de
Madame Alencastro nos aposentos do engenheiro, conquanto o leitor não
esteja de antemão preparado para o rápido desfecho da congestão pela
tuberculose, é, como diriam os franceses um “trouvaille”
feliz, ou como diriam os portugueses antigos — um bom achado. Mas a ardência
do temperamento de Madame Alencastro requeria, também logicamente, essa
explosão insana de desespero na galantaria malograda. A morte daquela
mulher tão coquette é como
fora a sua existência. Talis vita
finis est. (p.52) Entretanto,
em comparação com Ofélia, a personagem mais enigmática do romance,
Matilde Alencastro tem pouquíssima ação. Aquela é, sob certos
aspectos, também a mais interessante, além de a mais bem desenhada e
completa. Sabino a molda com simpatia e bondade, mesmo que a leitora
sinta, desde o início, pouca chance para um final feliz. É
devido ao traçado cuidadoso da personagem Ofélia que a leitora pode
aceitar com maior compreensão as ações de Hermano Guimarães.
Pimentel, contudo, atribui pouco interesse a Ofélia, além do estereótipo
de “mulher perdida”. A diferença entre a leitura do crítico e a
informação oferecida pela escritora é marcada pela compreensão
falha/superficial e pela visão míope daquele em relação à intenção
declarada da autora: a criação de um romance psicológico que fale à
brasileira. Filha
de casal operário, muito jovem Ofélia é cortejada pelo Comandante
Bernardes, bem mais velho e aparentemente rico. Ao descrever o casamento
da moça, a romancista combina, eloqüentemente, a descrição da
paisagem com o estado interno, mental, de Ofélia: Quase que
fora um dia sem manhã, e tanto que, pela tarde, o crepúsculo tímido
se aninhava por entre as árvores, substituindo o sol, que não deixara
ver no céu sequer uma ligeira nesga azul, que se deslocasse das pesadas
nuvens que a encobriam. Realmente,
a natureza parecia comprazer-se em não concorrer ao ato matrimonial,
com a fidalguia dos seus esplendores, entristecendo um noivado de luxo
que tivera lugar numa capela particular (...) Com
suma graça distribuía as flores, símbolo da sua castidade, procurando
sorrir, pois queria ver todos contentes, procurando assim encobrir o mau
presságio que dela se tinha apoderado. Ao
dar o “sim” sacramental, chorou. Casava sem amor, somente para
satisfazer a família — pouco tempo depois que chegara da Europa. (p. 22) Este
casamento de conveniência somente funciona até Ofélia engravidar.
Bernardes foge para os Estados Unidos, deixando a mulher à míngua.
Criticada pelos vizinhos, que a responsabilizam pelo abandono do marido,
Ofélia sente medo e vergonha de voltar à casa paterna. Começa a
sustentar-se através de aulas de piano. Logo após, morrem-lhe os pais.
Uma senhora inglesa e o filho se tornam seus amigos. Após o nascimento
da filhinha, Ofélia se muda para a casa destes estrangeiros, a fim de
ajudar a tratar da senhora, adoentada. Ao morrer esta e depois ao perder
também a filhinha, Ofélia aceita a proposta do bondoso inglês de
mudar-se com ele para a Europa. Aí, assume posição de esposa do
benfeitor, começando a assimilar conhecimento, cultura e refinamento
social. Ao
falecer o amigo, Ofélia herda sua fortuna e regressa ao Rio, viúva de
recursos. Ao fazê-lo, entretanto, sabe que a sociedade carioca
tradicional jamais a aceitaria. Torna-se uma mulher assaz enigmática,
acompanhada que é de seu passado. Sabino
construiu o palco psicológico para narrativa naturalista de historia trágica.
Assim, a atenção da leitora se prende irrevocavelmente a Ofélia, em
detrimento do herói e da heroína aparentes, Guimarães e Angelina. De
certa maneira, a romancista aprendeu a lição de Machado de Assis e
Raul Pompéia. E é esta compreensão psicológica que é atípica dos
romances da época. Entretanto, essas observações sobre Ofélia e sua
motivação são tão aparentes que nos surpreendemos que Alberto
Pimentel não a tenha adequadamente mencionado. No
Rio de Janeiro, Ofélia assume papel tradicional na literatura. Dama
culta, educada e rica, abre as portas a um salão literário freqüentado
por homens, mas raramente por senhoras. Havendo adquirido visão
bastante cínica da vida, Ofélia conserva o decoro, assim como a distância
dos freqüentadores de sua casa. Seu comportamento se mantém impecável
até ser apresentada a Hermano Guimarães. Ofélia sabe que a sorte lhe
fora injusta e que o abandono do marido não fora culpa sua. Também
reconhece haver decidido, conscientemente, unir-se ao inglês. Está
ciente da fragilidade de sua posição social. Até conhecer Hermano,
havia escolhido eximir-se de qualquer ligação emocional ou sexual. Sabino
se esmera em mostrar-nos que a paixão de Hermano é genuína e sincera.
Como são almas irmãs, sua união não pode deixar de ser natural e
honesta. O problema se apresenta mais tarde, quando Hermano reconhece a
própria obrigação de tomar seu devido lugar na sociedade carioca. Ele
não escolhe esse tipo de casamento — socialmente sancionado, com
muitos filhos e vida de família — mas tanto o tio quanto vários de
seus melhores amigos insistem em sua necessidade. Os parentes atribuem a
estranha debilidade física de Angelina à falta de atenção de
Hermano. E todos gabam as vantagens sociais e econômicas do casamento
com a jovem prima. Sem
analisar seus sentimentos, tacitamente, Hermano concorda em desposá-la.
Tampouco pensa nas conseqüências que seu casamento traria a Ofélia.
Esta descobre que o amante está noivo de Angelina ao mesmo tempo em que
se vê grávida. Recusando a proposta de Hermano de manter as relações
após o casamento com a outra, Ofélia termina a ligação. Como Hermano
finalmente se dá conta de não ser possível ter ambas as mulheres,
descobre seu amor verdadeiro por Ofélia e, numa das cenas mais
comoventes, diz: — Perdoe-me,
querida amiga... Não posso viver sem a senhora. Eu bem sei que fui
culpado, que eu sou um réu, mas ainda estamos em tempo... Que me
importa a sociedade, desde que ela não dá paz à minha consciência e
que só a senhora pode dar-ma. (p.273) Ofélia
responde: — Ama-me
ainda (...) O
jogo da fisionomia de ambos dizia mais do que as palavras: ela era o
espelho das lutas de coração, medonhas, enormes ela deixando
transparecer o amor que nutria sempre, provava que em matéria de
sentimento o homem, leão, transforma-se no mais humilde cordeiro,
confessando-se o mais fraco dos mortais. (p.274) Dos
dois, contudo, Ofélia é a mais forte. Sabendo que a vida com Hermano
seria impossível para ambos, escreve-lhe uma carta, informando-o de sua
decisão de partir para a Suíça e de educar o filho: “[este] não
terá oficialmente pai mas, enfim, sua mãe há-de conseguir fazê-lo
venerar as virtudes que o exornam, Hermano, juro-lho eu” (p.277).
Hermano recebe a carta após a partida de Ofélia. Vê-se, então, livre
para honrar seu compromisso com Angelina, para manter sua posição na
nova geração de brasileiros e a responsabilidade pátria. Este
final sucinto à estória de Ofélia e Hermano ajuda a separar a obra de
Sabino dos romances oitocentistas mais tradicionais. Ao contrário de
muitas personagens femininas de então, Ofélia se realizará em sua própria
existência. Ao educar o filho de seu único amor, ela afirmará seus
valores morais e pessoais. Tal ato de maternidade altruística redime-a
plenamente. Ofélia não precisa morrer porque todas as suas ações
decorrem de um profundo conhecimento. Ao
lembrar-nos da descrição de Maria Benedita Câmara de Bormann, em Mulheres
ilustres do Brasil, podemos perceber um elogio ficcional à vida de
Délia. Talvez esta tenha sido o modelo para Ofélia, Talvez circunstâncias
extenuantes na vida de Bormann tenham informado suas ações radicais.
Isto ajudaria a explicar a inclusão deste capítulo tão diferente dos
outros neste livro de biografias. Podemos fortalecer a conexão entre Mulheres
ilustres do Brasil e Lutas do
coração e perceber como a interpretação de Sabino se diferencia
daquela de Alberto Pimentel, se refletirmos sobre os parágrafos finais
de Lutas do coração e compreendermos a perspectiva de Sabino quanto
aos papéis masculino e feminino: O espírito
humano é quase sempre incompreensível nos tons reflexos, em que deixa
transparecer o sentimento dizendo e contradizendo-se nos irrefletidos
pensamentos que o torturam. Daí,
talvez concluísse, a bem do próprio interesse que a mulher só vive
pelos carinhos e pela afeição que a têm tantas vezes tornado heroína
na própria fragilidade. Querer
refundir a sua matéria prima, o seu organismo, não está bem ao seu
alcance nem tão pouco na vontade de qualquer inteligência. [1]
Professora no Department of Romance Languages, The University of
Georgia, Athens, EUA. [2] Já que são numerosos os trabalhos atuais sobre a condição da mulher no Brasil oitocentista, e, em particular, a imprensa feminina, é-nos impossível citar uma lista completa, pois es publicam estudos constantemente. Para informações em inglês sobre meio, consulte-se J. Hahner,, H. Saffiotti, A. Pescatello, S. Quinlan e D. Sadlier. [3] Affonso Costa nota que Olegário Sabino Ludgero Pinto era “médico hahnemanniano”. V. Affonso Costa, Poetas do outro sexo. Rio de Janeiro, 1930. p. 117. Por praticar a homeopatia, o Dr. Sabino era provavelmente considerado avançado. [4] Idem, p. 122. [5] V. Inês Sabino, Mulheres illustres do Brazil (fac-símile). Florianópolis: Mulheres, 1996. [6] A. Costa, op. cit., p. 126. [7] É notável lembrar-nos que Norma Telles tem, prontos para publicar, uma biografia e um estudo critico. [8] Como, por exemplo as críticas Annis Pratt, Elaine Showalter, Nina Auerbach.
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