Índice de dramaturgas do século XIX

Organização de Valéria Andrade Souto-Maior 

 

Apresentação

Val’Ria

Tendo como principal objetivo reunir e tornar acessíveis informações sobre a dramaturgia brasileira escrita por mulheres no passado, o presente Índice foi organizado de modo a fornecer as principais notas biográficas dessas escritoras, seguidas de suas respectivas bibliografias no campo da dramaturgia, das fontes de referência sobre cada uma e, sempre que possível, da localização de suas obras. Nele estão registradas cinqüenta e quatro dramaturgas, agrupadas na seguinte ordem:           

1) Dramaturgas brasileiras - século XIX (trinta e oito, nascidas entre 1829 e 1895)

2) Dramaturgas brasileiras “sem data” (três, sobre as quais há informações apenas quanto ao local de nascimento e às respectivas obras)

3) Dramaturgas brasileiras apenas com pseudônimo (quatro, sobre as quais só foi possível saber nome e pseudônimo)

4) Dramaturgas brasileiras - século XVIII (três, nascidas entre 1775 e 1779)

5) Dramaturgas portuguesas atuantes no Brasil - séculos XVIII e XIX (seis, nascidas em Portugal, uma no século XVIII e as outras no XIX)

É verdade que, sobre algumas dessas cinqüenta e quatro dramaturgas, especialmente as dos grupos 2 e 3, os dados obtidos são apenas fragmentos de informação, incluídos, apesar disso, justamente para serem retomados como pistas para novas descobertas. Entretanto, a respeito da maioria delas, foi possível reunir um conjunto apreciável de informações. Assim, além do nome artístico, que aliás nem sempre aparece exatamente como o de batismo ou o de casamento, as partes excluídas aparecem entre parênteses, como por exemplo, Amélia (Augusta do Sacramento) Rodrigues, o Índice informa, logo de início, os locais e as datas de nascimento e morte, nem sempre, porém, de forma completa e absolutamente exata, nestes casos sendo sempre assinaladas com ponto de interrogação.

Com relação aos locais de origem das dramaturgas, o Índice permite ainda se ter uma idéia, por exemplo, de como se distribuiu regionalmente a produção da dramaturgia feminina em nosso país, muito embora uma informação precisa a esse respeito só possa ser obtida levando-se em conta também o local de residência das autoras, o que nem sempre foi possível saber com exatidão. Por exemplo, das nove dramaturgas gaúchas, quatro residiram, pelo menos por algum tempo, fora do Rio Grande do Sul, duas em São Paulo e duas no Rio de Janeiro, local de falecimento de uma outra gaúcha, Zélia Vilela de Manera (1885-1956), a respeito da qual, entretanto, não há informações quanto ao local de residência. Por outro lado, com relação às dez dramaturgas nascidas no Nordeste, o Índice registra, com certeza, que pelo menos cinco não se transferiram para o eixo Rio-São Paulo, o que, aliás, não surpreende, já que no século passado pelo menos duas cidades daquela região, Recife e Salvador, aparecem também como grandes centros culturais do país.

O Índice informa também quais foram as principais atividades exercidas profissionalmente por essas mulheres, dentro ou fora do campo literário. Por exemplo, além da atividade comum a todas na área da dramaturgia, a maioria delas exerceu principalmente o magistério, mas muitas delas atuaram também, muitas vezes simultaneamente, como jornalistas, romancistas, cronistas, conferencistas, tradutoras, poetisas, atrizes, pianistas, compositoras. Andradina de Oliveira (1864-1935), que foi professora, contista, dramaturga, romancista, poetisa, jornalista, conferencista e biógrafa, deve ser citada como um dos exemplos mais típicos dessa superposição de atividades, aliás, comum também em outros setores profissionais monopolizados pela presença masculina, como o próprio ambiente teatral dessa época, quando um mesmo autor podia atuar como dramaturgo, crítico, ensaiador ou promotor de espetáculo.[1] Por outro lado, há ainda o registro de casos sui generis como o de Aplecina do Carmo (1895-?), dramaturga, poetisa e tradutora, que atuou também nas artes plásticas, como desenhista e pintora; o de Guilhermina Rocha (1884-1938), dramaturga, tradutora e atriz, que diplomou-se em medicina, em 1922, abandonando então o teatro; o de Maria Lino (séc. XIX-1940), também atriz, que entre 1906 e 1910, fez muito sucesso, inclusive em Paris, Londres e Berlim, como dançarina do então popularíssimo teatro musicado; e o de uma outra atriz, Cinira Polônio (1861 ou 62-1938 ou 48), também cantora e compositora, que escreveu para o teatro musicado no início do século XX, seguindo aliás as trilhas abertas por uma outra compositora, Chiquinha Gonzaga (1847-1935), considerada “sem dúvida, uma das mais importantes figuras da nossa música popular entre 1870 e 1935,”[2] que além de ter musicado vários libretos de dramaturgos de sucesso na época, escreveu em 1880 o libreto e a música de uma peça de costumes campestres, Festa de São João, hoje ainda inédita.

Excepcionalmente foram incluídas nesse Índice, nos grupos 4 e 5 acima referidos, dramaturgas brasileiras nascidas no século XVIII, bem como dramaturgas nascidas em Portugal. As primeiras, porque, apesar do caráter esporádico e não profissional de suas obras teatrais, realizaram as primeiras tentativas femininas no campo da nossa dramaturgia[3] e as segundas, porque, tendo ou não fixado residência no Brasil, aqui atuaram de modo expressivo nesse campo e no da letras em geral.[4] Uma dessas, por exemplo, Guiomar Torresão (1844-1898), que teve algumas de suas peças representadas em palcos brasileiros, foi uma ativa colaboradora de vários periódicos brasileiros, entre eles a revista A Mensageira, que circulou em São Paulo entre 1897 e 1900 sob a direção de sua fundadora, Presciliana Duarte de Almeida (1867-1944).

Convém ainda dizer duas palavras a respeito da bibliografia sobre e de cada dramaturga incluída nesse Índice. Em primeiro lugar, devo esclarecer que, principalmente no caso de autoras cuja atuação em outras áreas já mereceu maiores atenções da crítica, como Júlia Lopes de Almeida e Chiquinha Gonzaga, por exemplo, minha intenção aqui não foi a de reapresentar a exaustiva bibliografia já existente sobre as mesmas, preocupando-me mais em indicar os estudos nos quais elas são focalizadas, ainda que superficialmente, também como dramaturgas. Em segundo lugar, por razões semelhantes, no caso da bibliografia pertinente a cada autora, o Índice informa sobre as obras produzidas no campo específico da dramaturgia; aí se informa o gênero dramático a que pertencem as peças mencionadas, bem como as datas e os locais de representação e/ou publicação das mesmas; as que não trazem tais indicações, são obras inéditas, cuja eventual representação vem indicada entre parênteses; além disso, quando se conhece pelo menos a data de sua criação, esta vem indicada também entre parênteses, logo após o título.

Possa o presente Índice cumprir sua modesta vocação de instrumento auxiliar no trabalho de resgate da dramaturgia brasileira de autoria feminina e contribuir assim para a continuidade da tarefa tão indispensável quanto urgente de reintegração dessas escritoras à história literária/teatral brasileira.


 

[1] Cf. SUSSEKIND, Flora. Crítica a vapor: a crônica teatral brasileira da virada do século. In: _____. Papéis colados. Rio de Janeiro : Ed. UFRJ, 1993. p. 57.

[2] [2] CALDAS, Waldenyr. Iniciação à música popular brasileira. São Paulo : Ática, 1985. p. 23.

[3] De uma delas, aliás, não se tem notícia do nome nem da data de nascimento, mas apenas da data em que escreveu o drama intitulado Tristes efeitos do amor, drama em que falam Pauliceia, a Prudência e a Desesperação na figura de uma Fúria por uma Anônima e Ilustre Senhora da cidade de São Paulo, 1797.

[4] Pelo mesmo motivo, foi incluída neste Índice uma dramaturga de nacionalidade argentina, Joana Paula Manso de Noronha.

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