Carmen Dolores
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Ao responder a inquérito publicado em O
Paiz (9-1-1910), Carmen Dolores declarou que sua obra de maior importância
era o romance A Luta.[1] É melancólico pensar-se que à autora
dos contos de Um drama na roça, Gradações
e Almas complexas, das crônicas
jornalísticas, várias das quais reunidas em Ao
esvoaçar da idéia, infelizmente não foi dado ver seu livro
publicado. Lera-o em folhetim, crivado de erros, para seu desaponto (O Paiz 9-I-1909). Faleceu a 17 de agosto de 1910 e A
Luta foi editado em 1911. |
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Lúcia Miguel Pereira encara o romance com simpatia, lamentando haver sido publicado tarde demais para receber a devida atenção crítica e do publico ledor. Ressalta-lhe as qualidades: “[A Luta sustenta] o confronto com os [romances] de Júlia Lopes de Almeida" (Prosa de ficção, 136]. Cronologicamente, este romance póstumo quanto à autora, também o
é quanto à vida literária brasileira, apesar de seu inegável valor.
Apresenta ecos de Balzac, Zola, Eça e Aluísio. Na mesma época em que
Lima Barreto publicava Recordações
do escrivão Isaías Caminha (1909) e
Triste fim de Policarpo Quaresma (1911, em folhetim), Carmen Dolores
ainda não transpusera a fronteira realista/naturalista até a nova estética
a eclodir no modernismo dos anos 20 e 30. O enredo de A
Luta desenvolve os namoros sucessivos da moça Celina com dois hóspedes
do Hotel Aos Belos Ares! de
propriedade materna, nos morros cariocas de Santa Teresa. Casa-se, aos
dezessete anos, com Alfredo Galvão, o pretendente que lhe escolhera a mãe,
D. Adozinda, por lhe parecer o mais abastado dos dois. Romântica, esta
"Bovary da rua das Marrecas" logo se desilude da vida conjugal.[2]
Morando com a sogra viúva e vivendo do parco ordenado de Alfredo, Celina
inveja a liberdade das irmãs em S. Teresa. Sai de casa com a filhinha,
voltando para o hotel. Aí, sofre o assédio de dois hóspedes: o jovem e
belo Gilberto, antigo namorado, e o amante da mãe, o repulsivo Coronel
Juvenato. Rechaça o velho, mas aceita a corte do moço, até perceber que
ele a quer como amante escondida em casinha de subúrbio. Carmen Dolores escolheu excelentes modelos literários,
trabalhando-os com afinco.[3]
A Luta, romance inegavelmente
bem feito, exibe a força de Zola e a vivacidade de Eça de Queiroz no
registro revelador de determinado segmento social: a classe média e média-baixa
no Rio de Janeiro durante a Bela Época brasileira. Há aí, breves
excursos, por grupinhos de funcionários públicos e de burgueses
endinheirados, em cenas idoladas, no cais Pharoux e em Petrópolis. Como
de praxe em ficção realista, várias personagens são construídas como
"tipos" de acentuados traços caricatos ou de peculiaridades físicas
a agirem como significantes morais. Também a seguir a linha de Balzac, a
autora estabelece admirável correspondência entre o cenário —- o
hotel e seus jardins — e a alma das personagens. Quanto à ideologia, a
romancista imprime selo à obra, quer através de pronunciamento do
narrador, quer indiretamente na própria diegese, em palavras e ações de
personagens. Assim, o romance evidencia suas opiniões sobre a posição
da mulher casada e do clero católico, bem conhecidas através de crônicas
e ensaios. O anticlericalismo de Carmen Dolores é aquele de vários
de seus contemporâneos, como Júlia Lopes de Almeida, que dele faz o tema
do romance A Silveirinha. No
caso destas duas escritoras esta posição advém de defesa da mulher na
sociedade brasileira. Ambas viam a prática da confissão particular como
exigência intolerável por parte da Igreja Católica. Tal interferência
na vida familiar exporia jovens impressionáveis e matronas recatadas a
influência masculina estranha. Acresce que vários dos confessores,
sacerdotes estrangeiros, recém-chegados ao país, desconheciam a
psicologia feminina brasileira. Outro ponto importante na atitude
anticlerical, para Carmen Dolores, discípula de Eça de Queirós, era o
celibato sacerdotal. Condenava-o não só como exigência indevida e
contra a natureza, como também por encorajar a hipocrisia. Para a
escritora, o Padre Amaro não se limitava a personagem de ficção. Ao
anticlericalismo de Carmen Dolores deve a leitora vários escritos de
valor, a revelarem-na a argumentadora máscula elogiada pelo severo
Agrippino Grieco, pois desenvolve o argumento com galhardia e paixão,
mesmo que às vezes se manifeste injusta.[4]
Um exemplo saliente é seu ataque ao que via como vaidade do famoso
pregador, padre Júlio Maria, e que lhe acarretou a animosidade do gramático
e colega jornalista, Carlos de Laet.
A polêmica em O Paiz,
mais de noventa anos depois, ainda oferece apreciável interesse.[5]
Além da confissão, o combate da Igreja ao divórcio civil programado
para a Primeira Constituinte Republicana também exacerbara a autora, que
se unira à banca divorcista, trabalhando com a advogada, dra. Mirtes
Campos.[6]
Sua posição se baseava em tentativa inteligente e corajosa de
solidificar e aumentar os parcos direitos da mulher brasileira, através
da separação legal permanente. Os excelentes ensaios de Ao
esvoaçar da idéia oferecem proposta das mais bem informadas e
persuasivas a favor do divórcio. Em A Luta,
duas importantes cenas exemplificam a ideologia anti-clerical da autora.
Examinada da perspectiva retórica e estrutural no romance, ambas têm,
contudo, caráter secundário por não determinarem e sim explicarem a ação.
Na classificação de Roland Barthes, seriam elas acatalistas e não a núcleos.[7]
A primeira destas cenas se dá em Petrópolis, onde personagens católicas
reacionárias censuram sacerdote laicizado que fundara colégio. A
hipocrisia, luxúria e crueldade são aí somente ultrapassadas por
aquelas do odioso Coronel Juvenato, o vilão do romance. A segunda cena
expõe o pároco indiferente, a quem consulta a angustiada dona Margarida.
Seu modelo parece ser o Padre Bournisien de Madame
Bovary, nem materialista nem egoísta como o carioca, mas ignorante e
atarantado com os meninos do catecismo. Em processo disseminado pela Comédia humana de Balzac, a fisiologia traduz a alma: o físico das
personagens atua como significante de sua têmpera moral. A papada amarela
e gelatinosa do Cel. Juvenato assinala-lhe a hipocrisia e lubricidade,
igualmente repelentes. D. Adozinda, a hoteleira, tem tanta dificuldade em
conter as carnes fartas através de espartilho e cinta como em controlar
seus impulsos sexuais frente aos pensionistas. O olhar sonso e ambíguo da
protagonista aparente, a jovem Celina, lembra aquele de Capitu (na versão
de Bentinho adulto).Em A Luta,
os coadjuvantes são construídos através de traços rápidos, a
funcionarem como "etiquetas" da personagem[8]:
cada vez que entra em cena é logo reconhecida. Assim, Alfredo Galvão,
namorado, noivo e depois marido de Celina, é fraco e tímido, dominado
pela paixão pela moça. Olga, a segunda filha de D. Adozinda,
"gatinha repolhuda", assemelha-se à mãe na exuberante beleza física
e na leviandade. A caçula Julieta puxa também à progenitora
materialista, vendendo-se aos poucos a fim de conseguir "sustentar os
vestidos chiques e chapéus". Em contraste com estas personagens e
com a imbecilidade e desonestidade dominantes no hotel, D.Margarida, mãe
de Alfredo, é figura sombria a imprimir dignidade à narrativa, com sua
tristeza de viúva séria, sempre de negro. Emilia Moncorvo (de casada Bandeira de Melo) nasceu
em 1852 e faleceu em 1910.[9]
Pertencente à alta burguesia e aristocracia, ingressou no jornalismo
primeiro por gosto, mas depois, viúva, por necessidade. A princípio
cronista de sociedade, aos poucos aumentou seu campo em amplitude e
profundidade, escrevendo em defesa dos direitos alheios, principalmente
aqueles da mulher quanto à educação, ao trabalho sério e bem
remunerado. Como se mencionou acima, muito pugnou pela causa do divórcio
civil, em pauta na altura da primeira Constituinte. Seus numerosos ensaios
publicados em Ao esvoaçar da idéia impressionam pela inteligência, paixão e
arcabouço retórico.Polemista arrojada, não hesitou em afrontar
contemporâneos mais famosos que ela. Tanto eles quanto a ficção
demonstram o cuidado e elegância estilísticos da autora. A fina observação
e invenção fazem com que tanto A
luta como os contos ainda
sejam lidos com prazer cem anos após sua publicação. Voltando a A
luta, temos que concordar com Lúcia Miguel Pereira que [se este
romance] sólido ... tivesse sido escrito alguns anos antes... lograria
grande fama (Prosa de ficção, 134).
É obra de valor, a ultrapassar de muito a literatura frívola e elegante
do "sorriso da sociedade", a caracterizar a nossa Bela Época.
Do ponto de vista retórico, o romance representa o domínio do
instrumento de ficção em mãos de sua autora, como os magníficos
ensaios de Ao esvoaçar da idéia
representam aquele ensaístico e polêmico. A romancista concatena a
intriga e caracterização, realçando ambas com o cenário, parte
integral do romance. Como as contemporâneas Júlia Lopes de Almeida e Inês
Sabino, evidencia admiração e afeto pelo Rio de Janeiro. A inegável
beleza da única metrópole no mundo a ostentar praias, morros e uma
floresta tropical em seu seio, vai além da estética para as autoras.[10]
Ao contrário da cruel natureza machadiana de Memórias póstumas de Brás Cubas, esta é a mãe generosa do poema
de Olavo Bilac. O Hotel Aos
Belos Ares! representa microcosmo, com seus hóspedes variados: tímidas
senhoras de meia idade, rapazes solteiros e senhores maduros. Como na Pensão
Vauquer de Balzac e na Pensão Coqueiro de Aluísio Azevedo, algumas
destas personagens se revelam desprezíveis, temíveis e mesmo sinistras.
O romance propõe estudo de caracteres a estruturar a intriga. Inscreve-se
aí a questão vital de Taine, a dirigir romances oitocentistas: o caráter
é hereditário ou fruto do meio? O leitor segue o narrador na preocupação
com as três filhas de D. Adozinda a se tornarem moças em ambiente excuso,
onde a mãe habitualmente mantém casos amorosos com hóspedes sucessivos.
Esta indagação (Seguirão o comportamento materno?) atravessa o livro, a
guiar e marcar a intriga. Para a autora, a questão hereditariedade/meio também
carrega o peso ético dos naturalistas, pois significa o combate
primordial entre o bem e o mal. Ademais, segue o catecismo católico
vigente em sua compreensão popular, no qual a inocência da jovem
representa o bem e a curiosidade o mal. Ao casar-se, a moça deveria ser
ignorante quanto a assuntos sexuais, pois seu conhecimento teria provocado
procedimento indesejável. Via-se o mal, no meio familiar, como
lubricidade que em sociedade patriarcal tornaria a mulher desprotegida e
mal vista. (Lição das mais amargas é aquela proposta através da
protagonista Ofélia em Lutas do
coração de Inês Sabino. Apesar de seu grande valor espiritual e
intelectual, provado por anos de procedimento impecável, jamais
conseguiria reaver o bom nome nem ser feliz no casamento.) No romance de Carmen Dolores dá-se uma luta entre o
bem e o mal, como se disse. Que lado vencerá? Porque no paraíso
terrestre que são os jardins do hotel, mais de uma serpente tentará
Celina e suas irmãs. Quanto a Celina, a primeira é a própria D.
Adozinda, a princípio traçada com simpatia —-viçosa como flor em seus
canteiros —- mas progressivamente tornada mais vulgar, materialista e
malévola. Eclodirá na mãe primeva e cruel, devoradora dos filhos.[11]
A segunda serpente é Gilberto, o antigo namorado pobre, agora rico, que
ao ver Celina perturbada e longe de casa, quer comprá-la como amante.
Outro ricaço inescrupuloso é a última serpente. O coronel Juvenato também
quer subjugar a moça com seu dinheiro. A atitude de D. Adozinda é
chocante. Enciumada com a paixão do amante abastado — o coronel —
pela filha bem casada, tenta jogá-la nos braços de Gilberto, apesar de
conhecer muito bem os escolhos inerentes à posição de mulher pobre
mantida por amante rico. Ideologicamente, A
luta se escora na moralidade tradicional cuja pedra de toque é a
castidade feminina a garantir ulteriormente a legitimidade dos filhos no
casamento. Esta castidade, base da virtude doméstica judeo-cristã,
apesar de meritória não é prova automática de caráter feminino,
podendo significar nada mais que passividade. O romance A
luta espelha a ambivalência de sua autora, a oscilar entre os pólos
da modernidade feminina e do passadismo patriarcal, posição refletida em
suas crônicas, ensaios e contos. Se por um lado Carmen Dolores defendia o
estudo e trabalho bem remunerado à altura da capacidade individual, como
realizações devidas à mulher brasileira, por outro lado criticava a
independência da moça moderna, que via como
prova de imprudência e pouco caráter devidos a uma educação
falha. A seus olhos, estes "americanismos" eram, em última análise,
prejudiciais à mulher e à família.[12] Além da caracterização e cenário, outro aspecto
importante de A luta como obra
realista decorre de sua estruturação. Porque aqui não se trata de dois
protagonistas jovens a defenderem sua felicidade, como prega o estatuto
romântico, mas de duas matronas em conflito. Os "actantes" (na
terminologia greimasiana) não são a moça Celina e seu marido, pouco
mais velho. Pois, se aquela possui as características comumente
associadas à heroína romântica —-juventude, beleza e encanto sexual
— contudo não tem a necessária argúcia ou força moral para velar e
lutar por seu próprio destino. Quanto a Alfredo, tímido e desprovido de
iniciativa, não é herói, apesar de sua honestidade e sensibilidade. Proposto como combate de titãs entre duas mães, A
luta desloca e trabalha de modo sutil e sugestivo uma importante
característica patriarcal brasileira e latino-americana em geral.
Trata-se do poder da mulher madura no âmbito familiar. Com a economia de
meios demonstrada em vários aspectos deste romance, a autora simplifica o
conflito-mor da intriga — a luta — ao excluir os possíveis
patriarcas, concentrando-se nas duas matronas antagonistas. Os maridos são
figuras ausentes, somente mencionadas em raras passagens do romance. D.
Margarida é viúva respeitada de funcionário público e D. Adozinda —
lê-se nas entrelinhas — jamais se casara com o pai das três moças.
Acostumadas a gerir as respectivas famílias, as duas mulheres não
hesitam em interferir na vida dos filhos e netos. D. Margarida o faz com
inteligência, escrúpulo e tato, ao contrário da consogra, injusta e
imprudente. Nesta sociedade, os filhos adolescentes e adultos
dependiam financeira e emocionalmente dos pais. As moças se casavam
jovens e ignorantes em relação não só ao mundo a seu redor como a sua
própria identidade. Não eram encorajadas a tomarem iniciativas. Pelo
contrário, aprendiam a esperar exemplos e instrução dos mais velhos e
experientes: pais e marido. Isto porque a garantia da solidez do
casamento, a virgindade feminina, era vista como inseparável da inocência
— aqui sinônimo de ignorância em relação a assuntos além da órbita
doméstica. Muito mais que a sonsa Celina e o retraído Alfredo,
D.Adozinda e D. Margarida, mulheres feitas, possuem a necessária força
para a luta interfamiliar cujo prêmio é a felicidade cimentada no
casamento dos filhos. As matriarcas adversárias se separam pelo
temperamento, moral e educação. D. Margarida Galvão é viúva e mãe
dorida, a quem dos seis filhos só restara Alfredo. Caracterizada como Hécuba
carioca, em seus trajes e véus negros, coloca experiência e argúcia a
serviço da salvação do filho, nora e netos pequenos — aqueles a quem
ama. Já D. Adozinda, dúbia, é a pseudo-viúva que tivera de construir
sua vida adulta sobre uma mentira. Ensina às filhas que, se for um bom
negócio financeiro, uma ligação adulterina vale tanto como um
casamento. É personagem bem traçada, descambando, contudo, para a
caricatura. De enorme força vital, é equiparada a seu jardim. Com
"os braços sempre nus" (AL 7) é aí calcada em arquétipo —
deusa pagã e Ceres robusta — a lidar com verduras. A princípio simpática,
aos poucos se desembesta na Vênus de amores excusos, em que a luxúria se
confunde com o dinheiro. "Espírito primário e temperamento
vulgar" para o narrador — alterego da autora — D. Adozinda se
torna mais sinistra à medida que envelhece: revela medo e ódio,
principalmente de Celina, por quem o amante ricaço quer abandoná-la. A luta entre as mães maduras ocupa o terço final do
romance. por parte de D. Adozinda, instintiva como seus jardins, faz-se ao
sabor das circunstâncias e como reação. Já D. Margarida e o filho
pensam nas consequências futuras de atos imediatos, ambos cientes do
"pátrio poder". Em caso de abandono do lar por Celina, Alfredo
teria custódia legal dos filhos menores, Lucília e Raul. D. Adozinda não
percebe que os netos representam arma das mais importantes nesta luta,
pois Celina é mae amorosa e conscienciosa. Nem Celina nem Alfredo consegue curvar a hoteleira.
Somente D. Margarida ousa enfrentar a consogra furibunda, de "olhos
esbogalhados" e gritos histéricos. É ela quem consegue convencer
Celina a voltar para casa, após haver-lhe proporcionado tomada de consciência.
A anagnórise da personagem possibilitará sua mudança de atitude e de
vida. Não mais a "Bovary da rua das Marrecas", afastar-se-á do
modelo flaubertiano de degeneração e desespero finais: Celina
experimentará o embate das paixões, mas não sucumbirá. E sua salvadora
efetiva e eficaz é a sogra. A Luta
revela a flexibilidade de Carmen Dolores, que tanto pugnara pelo divórcio
legal, em seus extraordinários artigos de Ao
esvoaçar da idéia e, por outro defendia o casamento tradicional,
quando este se revelava sólido. Ao contrário de vários dos contos da
autora, de ambiente refinado e abastado, o romance enfoca um meio social
mais humilde. A Luta não apresenta adultério de esposos ociosos, da alta
burguesia e aristocracia, a procurarem diversão para suas vidas
elegantes, mas algo sólido e honesto. Se o casamento de Celina se fizera
por conveniência para ela, instigada pela mãe, que se enganara quanto às
finanças de Alfredo, este, contudo , a amava. E este amor, unido à
presença dos dois filhos, soleniza e enaltece o contrato matrimonial.
Assim, há solução para o conflito dos esposos Galvão. E, realmente, ao
tomar sua vida em mãos, na anagnórise, Celina reconhece o amor pelo
marido. Fosse a solução o desquite, e a realista Carmen Dolores sabia
muito bem o resultado. Todos seriam desgraçados: Alfredo, por não poder
viver sem a mulher; as crianças pequeninas com a infância roubada;
Celina por ficar separada dos filhos, perder a boa reputação e tornar-se
amante excusa de ricaço egoísta; e D. Margarida pelo sofrimento do filho
e netos.
Assim, ao colocar o problema nestes termos, a romancista segue
trilha didática compartilhada com contemporâneas como Júlia Lopes de
Almeida e Inês Sabino, entre outras. Expõe problemas muito reais do
Brasil de sua época. Pois não havendo divórcio legal, recorria-se ao
desquite, medida que prejudicava principalmente a mulher (como a própria
Carmen Dolores esclarece e prova em Ao
esvoaçar da idéia). O mais das vezes, ao perder a estabilidade
social, a ex-esposa também se via em dificuldade financeira. Por mais séria
que fosse, também perdia o bom nome. A separação não resolveria o
problema de Celina, indecisa e mal-formada pela tutela materna. Pela lei
do pátrio poder, como se disse, perderia o direito aos filhos. Indolente,
sem preparação para o trabalho, ficaria à mercê de amantes. Ao
envelhecer, sua vida se tornaria ainda mais problemática. Em
conclusão, este romance tardio mas exemplar, representa homenagem da
autora a dois de seus modelos literários, Emile Zola e Eça de Queirós,
e, indiretamente, ao grande Flaubert, obliquamente mencionado no texto,
através de seu livro mais famoso. Com impacto e frescor, Carmen Dolores
cria um recanto carioca onde se debatem paixões, numa luta que se repete
e multiplica entre vários contendores, inclusive entre Celina e si mesma.
Contudo, as personagens a encetarem a luta básica são as consogras, D.
Adozinda e D. Margarida, na qual Celina é o pomo de discórdia. Reduzida a termos abstratos, esta é uma luta entre o
Bem e o Mal, em que a autora
claramente indica aquele como o casamento tradicional sólido. Já o Mal
significa egoísmos e pixões suspeitas a ameaçarem o núcleo familiar.
Apesar de reconhecer e afirmar a importância da educação e oportunidade
de trabalho digno e rendoso para as moças de sua era, Carmen Dolores não
foi feminista inclusiva ou militante. Filha de sua êpoca de sua
classe social, acreditava que nem a todas as mulheres seria dada vocação
ou competência para atividades profissionais fora do lar. Como Celina,
certas delas pertenciam à esfera doméstica. Desprovidas de curiosidade
intelectual, talento ou energia, só deveriam trabalhar fora caso o
necessitassem como arrimo de família, já que tais atividades não lhes
trariam satisfação pessoal. Celina é esboçada com finura psicológica, com seus
traços dominantes a elucidarem a personagem. Ninfa nos jardins do hotel,
à primeira leitura lembra Capitu, pela beleza morena, bastos cabelos e
olhos misteriosos. De temperamento, contudo, é todo o contrário anêmica
e passiva. A luta é uma bela
obra realista a apresentar segmento da sociedade carioca contemporânea da
autora, através de variadas personagens e quadros. Entretanto, não é
romance de tese, mas precipuamento literário a unir ideologia e arte. Aí,
Carmen Dolores não propõe modelo de educação feminina (apesar de
criticar a educação doméstica das três filhas de D.Adozinda)
intentando modificação da sociedade brasileira. Isto a autora concretiza
em seus combativos e bem construídos ensaios de Ao
esvoaçar da idéia. [1] Uma das
escritoras famosas da virada do século passado, Carmen Dolores (Emília
Moncorvo Bandeira de Melo, 1852-1911) foi cronista de O Correio da Manhã e de O
Paiz, este o "jornal de maior tiragem da América do
Sul", em 1900. Conseguiu paridade salarial com os colegas
masculinos e, como contista, teve um conto traduzido e publicado na
antologia norte-americana, Four
Brazilian Tales,1921, por I. Goldberg. Relegada ao esquecimento
durante os idos modernistas, hoje recebe a atenção literária e
cultural concedida às escritoras finisseculares de valor. [2] Apesar da alusão direta a Emma Bovary, no romance,
Carmen Dolores não se refere a Gustave Flaubert como mentor em outros
escritos. [3] A romancista é explícita em sua admiração por
estes escritores. Na enquete estampada em O
Paiz (17.8.1910), como parte do obituário da própria autora, ela
declarara a influência exercida "pelos portugueses" sobre
sua ficção. Romântica, começara com Herculano, para passar a Eça,
que continuou a seguir como modelo. Quanto a Emile Zola, por ocasião
do translado de seus restos mortais, elogiou-o como "o grande
naturalista, o poderoso pintor de todos os quadros da vida, o épico
defensor da justiça, da verdade e do amor. . . (O Paiz, 7.6.1908). Contudo, apesar das similaridades temáticas, não
se refere a Aluísio Azevedo, irmão do amigo Artur Azevedo, que a
ajudara a montar sua peça O
Desencontro no Teatro João Caetano ( O
Paiz, 25.10.1908). [4] Agrippino Grieco, Evolução
da prosa brasileira.(Rio de Janeiro: Ariel, 1933), p.198. [5] O Paiz,
9.VIII.1908. [6] O Paiz,
18.X.1908. [7]
V. Roland Barthes, Introduction à l’analyse structurale des récits,
Communications, n. 8, Seuil,
1966. [8]
V. Philippe Hamon, "Pour un statut sémiologique du personnage",
Littérature, no.6, 1972. [9] A data de sua morte é dada, erroneamente, por R. de
Menezes como 1911, talvez pela influência da publicação póstuma de
A luta, no mesmo ano (Dicionário
literário brasileiro. Ilustrado, vol.III. S.P.:1969). O ano do
falecimento de C. Dolores é 1910, como se pode verificar no obituário
de 17.VIII.1910, em O Paiz. [10] A utilização das belezas naturais, aqui, transcende
mera cor local de teor romântico, para as gerações finisseculares.
Não só em A luta, como nos
contos e crônicas da autora, sente-se o duplo impulso didático e
patriótico, caracteristica igualmente marcante na literatura infantil
da época. (V. R. Zilberman e M. Lajolo, Um
Brasil para crianças. Para conhecer a literatura infantil brasileira:
histórias, autores e textos. S.P./R.J.: Global Universitária,1986,
p.19). [11] A mãe destruidora dos filhos é um conceito milenar
(V. "Terrible Mother" em J.E.Cirlot, A Dictionary of Symbols: New York: Philosophical Library, 1971. Esta
mãe é a Esfinge (etimologicamente, a estranguladora) e para Freud,
"a figure associated with powerful, grotesque and reversed images
of infant and mother bonding and adult sexual bonding" (Jane S.
van Buren, The Modernist
Madonna. Semiotics of
the Maternal Metaphor, Bloomington: Indiana University Press,
1989, p. 31). Para J.E. Cirlot, Jung a vê como "counterpart of
the Pietà, representing not only
death but also the cruel side of nature -- its indifference
towards human suffering" (A Dictionary of Symbols, 218). [12] A certa altura, a autora nutria grande admiracao pelo
que via como fortaleza de caráter "[anglo-]saxônica" (Ao
esvoaçar da idéia, 219). Mais para o final da vida, contudo,
passou a ver o "americanismo" como algo materialista,
superficial e, portanto, nocivo às jovens brasileiras. Em crônica
sobre o assassínio do advogado paulista Artur Malheiros de Oliveira,
pela ex-amante, a professora Albertina Barbosa, Carmen Dolores chega a
acusar o comportamento de Albertina, que classifica de
"americanismo", como causa ulterior do crime. (V. M. A.
Lopes, "A escritora como árbitro: O crime da Galeria
Cristal", Travessia n.
23. 2 semestre 1991. Florianópolis: Universidade Federal de Santa
Catarina.) Maria Angélica
Guimarães Lopes
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