A Luta  

Carmen Dolores


Apresentação 

Desafio materno: a luta de Carmen Dolores


por Maria Angélica Lopes




Ao responder a inquérito publicado em O Paiz (9-1-1910), Carmen Dolores declarou que sua obra de maior importância era o romance A Luta.[1] É melancólico pensar-se que à autora dos contos de Um drama na roça, Gradações e Almas complexas, das crônicas jornalísticas, várias das quais reunidas em Ao esvoaçar da idéia, infelizmente não foi dado ver seu livro publicado. Lera-o em folhetim, crivado de erros, para seu desaponto (O Paiz 9-I-1909). Faleceu a 17 de agosto de 1910 e A Luta foi editado em 1911.  

Lúcia Miguel Pereira encara o romance com simpatia, lamentando haver sido publicado tarde demais para receber a devida atenção crítica e do publico ledor. Ressalta-lhe as qualidades: “[A Luta sustenta] o confronto com os [romances] de Júlia Lopes de Almeida" (Prosa de ficção, 136]. 

Cronologicamente, este romance póstumo quanto à autora, também o é quanto à vida literária brasileira, apesar de seu inegável valor. Apresenta ecos de Balzac, Zola, Eça e Aluísio. Na mesma época em que Lima Barreto publicava Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909) e Triste fim de Policarpo Quaresma (1911, em folhetim), Carmen Dolores ainda não transpusera a fronteira realista/naturalista até a nova estética a eclodir no modernismo dos anos 20 e 30.

O enredo de A Luta desenvolve os namoros sucessivos da moça Celina com dois hóspedes do Hotel Aos Belos Ares! de propriedade materna, nos morros cariocas de Santa Teresa. Casa-se, aos dezessete anos, com Alfredo Galvão, o pretendente que lhe escolhera a mãe, D. Adozinda, por lhe parecer o mais abastado dos dois. Romântica, esta "Bovary da rua das Marrecas" logo se desilude da vida conjugal.[2] Morando com a sogra viúva e vivendo do parco ordenado de Alfredo, Celina inveja a liberdade das irmãs em S. Teresa. Sai de casa com a filhinha, voltando para o hotel. Aí, sofre o assédio de dois hóspedes: o jovem e belo Gilberto, antigo namorado, e o amante da mãe, o repulsivo Coronel Juvenato. Rechaça o velho, mas aceita a corte do moço, até perceber que ele a quer como amante escondida em casinha de subúrbio.

Carmen Dolores escolheu excelentes modelos literários, trabalhando-os com afinco.[3] A Luta, romance inegavelmente bem feito, exibe a força de Zola e a vivacidade de Eça de Queiroz no registro revelador de determinado segmento social: a classe média e média-baixa no Rio de Janeiro durante a Bela Época brasileira. Há aí, breves  excursos, por grupinhos de funcionários públicos e de burgueses endinheirados, em cenas idoladas, no cais Pharoux e em Petrópolis. Como de praxe em ficção realista, várias personagens são construídas como "tipos" de acentuados traços caricatos ou de peculiaridades físicas a agirem como significantes morais. Também a seguir a linha de Balzac, a autora estabelece admirável correspondência entre o cenário —- o hotel e seus jardins — e a alma das personagens. Quanto à ideologia, a romancista imprime selo à obra, quer através de pronunciamento do narrador, quer indiretamente na própria diegese, em palavras e ações de personagens. Assim, o romance evidencia suas opiniões sobre a posição da mulher casada e do clero católico, bem conhecidas através de crônicas e ensaios.

O anticlericalismo de Carmen Dolores é aquele de vários de seus contemporâneos, como Júlia Lopes de Almeida, que dele faz o tema do romance A Silveirinha. No caso destas duas escritoras esta posição advém de defesa da mulher na sociedade brasileira. Ambas viam a prática da confissão particular como exigência intolerável por parte da Igreja Católica. Tal interferência na vida familiar exporia jovens impressionáveis e matronas recatadas a influência masculina estranha. Acresce que vários dos confessores, sacerdotes estrangeiros, recém-chegados ao país, desconheciam a psicologia feminina brasileira. Outro ponto importante na atitude anticlerical, para Carmen Dolores, discípula de Eça de Queirós, era o celibato sacerdotal. Condenava-o não só como exigência indevida e contra a natureza, como também por encorajar a hipocrisia. Para a escritora, o Padre Amaro não se limitava a personagem de ficção. Ao anticlericalismo de Carmen Dolores deve a leitora vários escritos de valor, a revelarem-na a argumentadora máscula elogiada pelo severo Agrippino Grieco, pois desenvolve o argumento com galhardia e paixão, mesmo que às vezes se manifeste injusta.[4] Um exemplo saliente é seu ataque ao que via como vaidade do famoso pregador, padre Júlio Maria, e que lhe acarretou a animosidade do gramático e colega jornalista, Carlos de Laet.  A polêmica em O Paiz, mais de noventa anos depois, ainda oferece apreciável interesse.[5] Além da confissão, o combate da Igreja ao divórcio civil programado para a Primeira Constituinte Republicana também exacerbara a autora, que se unira à banca divorcista, trabalhando com a advogada, dra. Mirtes Campos.[6] Sua posição se baseava em tentativa inteligente e corajosa de solidificar e aumentar os parcos direitos da mulher brasileira, através da separação legal permanente. Os excelentes ensaios de Ao esvoaçar da idéia oferecem proposta das mais bem informadas e persuasivas a favor do divórcio.

Em A Luta, duas importantes cenas exemplificam a ideologia anti-clerical da autora. Examinada da perspectiva retórica e estrutural no romance, ambas têm, contudo, caráter secundário por não determinarem e sim explicarem a ação. Na classificação de Roland Barthes, seriam elas acatalistas e não a núcleos.[7] A primeira destas cenas se dá em Petrópolis, onde personagens católicas reacionárias censuram sacerdote laicizado que fundara colégio. A hipocrisia, luxúria e crueldade são aí somente ultrapassadas por aquelas do odioso Coronel Juvenato, o vilão do romance. A segunda cena expõe o pároco indiferente, a quem consulta a angustiada dona Margarida. Seu modelo parece ser o Padre Bournisien de Madame Bovary, nem materialista nem egoísta como o carioca, mas ignorante e atarantado com os meninos do catecismo.

Em processo disseminado pela Comédia humana de Balzac, a fisiologia traduz a alma: o físico das personagens atua como significante de sua têmpera moral. A papada amarela e gelatinosa do Cel. Juvenato assinala-lhe a hipocrisia e lubricidade, igualmente repelentes. D. Adozinda, a hoteleira, tem tanta dificuldade em conter as carnes fartas através de espartilho e cinta como em controlar seus impulsos sexuais frente aos pensionistas. O olhar sonso e ambíguo da protagonista aparente, a jovem Celina, lembra aquele de Capitu (na versão de Bentinho adulto).Em A Luta, os coadjuvantes são construídos através de traços rápidos, a funcionarem como "etiquetas" da personagem[8]: cada vez que entra em cena é logo reconhecida. Assim, Alfredo Galvão, namorado, noivo e depois marido de Celina, é fraco e tímido, dominado pela paixão pela moça. Olga, a segunda filha de D. Adozinda, "gatinha repolhuda", assemelha-se à mãe na exuberante beleza física e na leviandade. A caçula Julieta puxa também à progenitora materialista, vendendo-se aos poucos a fim de conseguir "sustentar os vestidos chiques e chapéus". Em contraste com estas personagens e com a imbecilidade e desonestidade dominantes no hotel, D.Margarida, mãe de Alfredo, é figura sombria a imprimir dignidade à narrativa, com sua tristeza de viúva séria, sempre de negro.

Emilia Moncorvo (de casada Bandeira de Melo) nasceu em 1852 e faleceu em 1910.[9] Pertencente à alta burguesia e aristocracia, ingressou no jornalismo primeiro por gosto, mas depois, viúva, por necessidade. A princípio cronista de sociedade, aos poucos aumentou seu campo em amplitude e profundidade, escrevendo em defesa dos direitos alheios, principalmente aqueles da mulher quanto à educação, ao trabalho sério e bem remunerado. Como se mencionou acima, muito pugnou pela causa do divórcio civil, em pauta na altura da primeira Constituinte. Seus numerosos ensaios publicados em Ao esvoaçar da idéia impressionam pela inteligência, paixão e arcabouço retórico.Polemista arrojada, não hesitou em afrontar contemporâneos mais famosos que ela. Tanto eles quanto a ficção demonstram o cuidado e elegância estilísticos da autora. A fina observação e invenção fazem com que tanto A luta como os contos  ainda sejam lidos com prazer cem anos após sua publicação.

Voltando a A luta, temos que concordar com Lúcia Miguel Pereira que [se este romance] sólido ... tivesse sido escrito alguns anos antes... lograria grande fama (Prosa de ficção, 134). É obra de valor, a ultrapassar de muito a literatura frívola e elegante do "sorriso da sociedade", a caracterizar a nossa Bela Época. Do ponto de vista retórico, o romance representa o domínio do instrumento de ficção em mãos de sua autora, como os magníficos ensaios de Ao esvoaçar da idéia representam aquele ensaístico e polêmico. A romancista concatena a intriga e caracterização, realçando ambas com o cenário, parte integral do romance. Como as contemporâneas Júlia Lopes de Almeida e Inês Sabino, evidencia admiração e afeto pelo Rio de Janeiro. A inegável beleza da única metrópole no mundo a ostentar praias, morros e uma floresta tropical em seu seio, vai além da estética para as autoras.[10] Ao contrário da cruel natureza machadiana de Memórias póstumas de Brás Cubas, esta é a mãe generosa do poema de Olavo Bilac.

O Hotel Aos Belos Ares! representa microcosmo, com seus hóspedes variados: tímidas senhoras de meia idade, rapazes solteiros e senhores maduros. Como na Pensão Vauquer de Balzac e na Pensão Coqueiro de Aluísio Azevedo, algumas destas personagens se revelam desprezíveis, temíveis e mesmo sinistras. O romance propõe estudo de caracteres a estruturar a intriga. Inscreve-se aí a questão vital de Taine, a dirigir romances oitocentistas: o caráter é hereditário ou fruto do meio? O leitor segue o narrador na preocupação com as três filhas de D. Adozinda a se tornarem moças em ambiente excuso, onde a mãe habitualmente mantém casos amorosos com hóspedes sucessivos. Esta indagação (Seguirão o comportamento materno?) atravessa o livro, a guiar e marcar a intriga.

Para a autora, a questão hereditariedade/meio também carrega o peso ético dos naturalistas, pois significa o combate primordial entre o bem e o mal. Ademais, segue o catecismo católico vigente em sua compreensão popular, no qual a inocência da jovem representa o bem e a curiosidade o mal. Ao casar-se, a moça deveria ser ignorante quanto a assuntos sexuais, pois seu conhecimento teria provocado procedimento indesejável. Via-se o mal, no meio familiar, como lubricidade que em sociedade patriarcal tornaria a mulher desprotegida e mal vista. (Lição das mais amargas é aquela proposta através da protagonista Ofélia em Lutas do coração de Inês Sabino. Apesar de seu grande valor espiritual e intelectual, provado por anos de procedimento impecável, jamais conseguiria reaver o bom nome nem ser feliz no casamento.)

No romance de Carmen Dolores dá-se uma luta entre o bem e o mal, como se disse. Que lado vencerá? Porque no paraíso terrestre que são os jardins do hotel, mais de uma serpente tentará Celina e suas irmãs. Quanto a Celina, a primeira é a própria D. Adozinda, a princípio traçada com simpatia —-viçosa como flor em seus canteiros —- mas progressivamente tornada mais vulgar, materialista e malévola. Eclodirá na mãe primeva e cruel, devoradora dos filhos.[11] A segunda serpente é Gilberto, o antigo namorado pobre, agora rico, que ao ver Celina perturbada e longe de casa, quer comprá-la como amante. Outro ricaço inescrupuloso é a última serpente. O coronel Juvenato também quer subjugar a moça com seu dinheiro. A atitude de D. Adozinda é chocante. Enciumada com a paixão do amante abastado — o coronel — pela filha bem casada, tenta jogá-la nos braços de Gilberto, apesar de conhecer muito bem os escolhos inerentes à posição de mulher pobre mantida por amante rico.

Ideologicamente, A luta se escora na moralidade tradicional cuja pedra de toque é a castidade feminina a garantir ulteriormente a legitimidade dos filhos no casamento. Esta castidade, base da virtude doméstica judeo-cristã, apesar de meritória não é prova automática de caráter feminino, podendo significar nada mais que passividade.

O romance A luta espelha a ambivalência de sua autora, a oscilar entre os pólos da modernidade feminina e do passadismo patriarcal, posição refletida em suas crônicas, ensaios e contos. Se por um lado Carmen Dolores defendia o estudo e trabalho bem remunerado à altura da capacidade individual, como realizações devidas à mulher brasileira, por outro lado criticava a independência da moça moderna, que via como  prova de imprudência e pouco caráter devidos a uma educação falha. A seus olhos, estes "americanismos" eram, em última análise, prejudiciais à mulher e à família.[12]

Além da caracterização e cenário, outro aspecto importante de A luta como obra realista decorre de sua estruturação. Porque aqui não se trata de dois protagonistas jovens a defenderem sua felicidade, como prega o estatuto romântico, mas de duas matronas em conflito. Os "actantes" (na terminologia greimasiana) não são a moça Celina e seu marido, pouco mais velho. Pois, se aquela possui as características comumente associadas à heroína romântica —-juventude, beleza e encanto sexual — contudo não tem a necessária argúcia ou força moral para velar e lutar por seu próprio destino. Quanto a Alfredo, tímido e desprovido de iniciativa, não é herói, apesar de sua honestidade e sensibilidade.

Proposto como combate de titãs entre duas mães, A luta desloca e trabalha de modo sutil e sugestivo uma importante característica patriarcal brasileira e latino-americana em geral. Trata-se do poder da mulher madura no âmbito familiar. Com a economia de meios demonstrada em vários aspectos deste romance, a autora simplifica o conflito-mor da intriga — a luta — ao excluir os possíveis patriarcas, concentrando-se nas duas matronas antagonistas. Os maridos são figuras ausentes, somente mencionadas em raras passagens do romance. D. Margarida é viúva respeitada de funcionário público e D. Adozinda — lê-se nas entrelinhas — jamais se casara com o pai das três moças. Acostumadas a gerir as respectivas famílias, as duas mulheres não hesitam em interferir na vida dos filhos e netos. D. Margarida o faz com inteligência, escrúpulo e tato, ao contrário da consogra, injusta e imprudente.

Nesta sociedade, os filhos adolescentes e adultos dependiam financeira e emocionalmente dos pais. As moças se casavam jovens e ignorantes em relação não só ao mundo a seu redor como a sua própria identidade. Não eram encorajadas a tomarem iniciativas. Pelo contrário, aprendiam a esperar exemplos e instrução dos mais velhos e experientes: pais e marido. Isto porque a garantia da solidez do casamento, a virgindade feminina, era vista como inseparável da inocência — aqui sinônimo de ignorância em relação a assuntos além da órbita doméstica.

Muito mais que a sonsa Celina e o retraído Alfredo, D.Adozinda e D. Margarida, mulheres feitas, possuem a necessária força para a luta interfamiliar cujo prêmio é a felicidade cimentada no casamento dos filhos. As matriarcas adversárias se separam pelo temperamento, moral e educação. D. Margarida Galvão é viúva e mãe dorida, a quem dos seis filhos só restara Alfredo. Caracterizada como Hécuba carioca, em seus trajes e véus negros, coloca experiência e argúcia a serviço da salvação do filho, nora e netos pequenos — aqueles a quem ama. Já D. Adozinda, dúbia, é a pseudo-viúva que tivera de construir sua vida adulta sobre uma mentira. Ensina às filhas que, se for um bom negócio financeiro, uma ligação adulterina vale tanto como um casamento. É personagem bem traçada, descambando, contudo, para a caricatura. De enorme força vital, é equiparada a seu jardim. Com "os braços sempre nus" (AL 7) é aí calcada em arquétipo — deusa pagã e Ceres robusta — a lidar com verduras. A princípio simpática, aos poucos se desembesta na Vênus de amores excusos, em que a luxúria se confunde com o dinheiro. "Espírito primário e temperamento vulgar" para o narrador — alterego da autora — D. Adozinda se torna mais sinistra à medida que envelhece: revela medo e ódio, principalmente de Celina, por quem o amante ricaço quer abandoná-la.

A luta entre as mães maduras ocupa o terço final do romance. por parte de D. Adozinda, instintiva como seus jardins, faz-se ao sabor das circunstâncias e como reação. Já D. Margarida e o filho pensam nas consequências futuras de atos imediatos, ambos cientes do "pátrio poder". Em caso de abandono do lar por Celina, Alfredo teria custódia legal dos filhos menores, Lucília e Raul. D. Adozinda não percebe que os netos representam arma das mais importantes nesta luta, pois Celina é mae amorosa e conscienciosa.

Nem Celina nem Alfredo consegue curvar a hoteleira. Somente D. Margarida ousa enfrentar a consogra furibunda, de "olhos esbogalhados" e gritos histéricos. É ela quem consegue convencer Celina a voltar para casa, após haver-lhe proporcionado tomada de consciência. A anagnórise da personagem possibilitará sua mudança de atitude e de vida. Não mais a "Bovary da rua das Marrecas", afastar-se-á do modelo flaubertiano de degeneração e desespero finais: Celina experimentará o embate das paixões, mas não sucumbirá. E sua salvadora efetiva e eficaz é a sogra.

A Luta revela a flexibilidade de Carmen Dolores, que tanto pugnara pelo divórcio legal, em seus extraordinários artigos de Ao esvoaçar da idéia e, por outro defendia o casamento tradicional, quando este se revelava sólido. Ao contrário de vários dos contos da autora, de ambiente refinado e abastado, o romance enfoca um meio social mais humilde. A Luta não apresenta adultério de esposos ociosos, da alta burguesia e aristocracia, a procurarem diversão para suas vidas elegantes, mas algo sólido e honesto. Se o casamento de Celina se fizera por conveniência para ela, instigada pela mãe, que se enganara quanto às finanças de Alfredo, este, contudo , a amava. E este amor, unido à presença dos dois filhos, soleniza e enaltece o contrato matrimonial. Assim, há solução para o conflito dos esposos Galvão. E, realmente, ao tomar sua vida em mãos, na anagnórise, Celina reconhece o amor pelo marido. Fosse a solução o desquite, e a realista Carmen Dolores sabia muito bem o resultado. Todos seriam desgraçados: Alfredo, por não poder viver sem a mulher; as crianças pequeninas com a infância roubada; Celina por ficar separada dos filhos, perder a boa reputação e tornar-se amante excusa de ricaço egoísta; e D. Margarida pelo sofrimento do filho e netos.

     Assim, ao colocar o problema nestes termos, a romancista segue trilha didática compartilhada com contemporâneas como Júlia Lopes de Almeida e Inês Sabino, entre outras. Expõe problemas muito reais do Brasil de sua época. Pois não havendo divórcio legal, recorria-se ao desquite, medida que prejudicava principalmente a mulher (como a própria Carmen Dolores esclarece e prova em  Ao esvoaçar da idéia). O mais das vezes, ao perder a estabilidade social, a ex-esposa também se via em dificuldade financeira. Por mais séria que fosse, também perdia o bom nome. A separação não resolveria o problema de Celina, indecisa e mal-formada pela tutela materna. Pela lei do pátrio poder, como se disse, perderia o direito aos filhos. Indolente, sem preparação para o trabalho, ficaria à mercê de amantes. Ao envelhecer, sua vida se tornaria ainda mais problemática.

 Em conclusão, este romance tardio mas exemplar, representa homenagem da autora a dois de seus modelos literários, Emile Zola e Eça de Queirós, e, indiretamente, ao grande Flaubert, obliquamente mencionado no texto, através de seu livro mais famoso. Com impacto e frescor, Carmen Dolores cria um recanto carioca onde se debatem paixões, numa luta que se repete e multiplica entre vários contendores, inclusive entre Celina e si mesma. Contudo, as personagens a encetarem a luta básica são as consogras, D. Adozinda e D. Margarida, na qual Celina é o pomo de discórdia.

Reduzida a termos abstratos, esta é uma luta entre o Bem e o  Mal, em que a autora claramente indica aquele como o casamento tradicional sólido. Já o Mal significa egoísmos e pixões suspeitas a ameaçarem o núcleo familiar. Apesar de reconhecer e afirmar a importância da educação e oportunidade de trabalho digno e rendoso para as moças de sua era, Carmen Dolores não foi feminista inclusiva ou militante. Filha de sua êpoca de sua classe social, acreditava que nem a todas as mulheres seria dada vocação ou competência para atividades profissionais fora do lar. Como Celina, certas delas pertenciam à esfera doméstica. Desprovidas de curiosidade intelectual, talento ou energia, só deveriam trabalhar fora caso o necessitassem como arrimo de família, já que tais atividades não lhes trariam satisfação pessoal.

Celina é esboçada com finura psicológica, com seus traços dominantes a elucidarem a personagem. Ninfa nos jardins do hotel, à primeira leitura lembra Capitu, pela beleza morena, bastos cabelos e olhos misteriosos. De temperamento, contudo, é todo o contrário anêmica e passiva. A luta é uma bela obra realista a apresentar segmento da sociedade carioca contemporânea da autora, através de variadas personagens e quadros. Entretanto, não é romance de tese, mas precipuamento literário a unir ideologia e arte. Aí, Carmen Dolores não propõe modelo de educação feminina (apesar de criticar a educação doméstica das três filhas de D.Adozinda) intentando modificação da sociedade brasileira. Isto a autora concretiza em seus combativos e bem construídos ensaios de Ao esvoaçar da idéia.


[1] Uma das escritoras famosas da virada do século passado, Carmen Dolores (Emília Moncorvo Bandeira de Melo, 1852-1911) foi cronista de O Correio da Manhã e de O Paiz, este o "jornal de maior tiragem da América do Sul", em 1900. Conseguiu paridade salarial com os colegas masculinos e, como contista, teve um conto traduzido e publicado na antologia norte-americana, Four Brazilian Tales,1921, por I. Goldberg. Relegada ao esquecimento durante os idos modernistas, hoje recebe a atenção literária e cultural concedida às escritoras finisseculares de valor.

[2] Apesar da alusão direta a Emma Bovary, no romance, Carmen Dolores não se refere a Gustave Flaubert como mentor em outros escritos.

[3] A romancista é explícita em sua admiração por estes escritores. Na enquete estampada em O Paiz (17.8.1910), como parte do obituário da própria autora, ela declarara a influência exercida "pelos portugueses" sobre sua ficção. Romântica, começara com Herculano, para passar a Eça, que continuou a seguir como modelo. Quanto a Emile Zola, por ocasião do translado de seus restos mortais, elogiou-o como "o grande naturalista, o poderoso pintor de todos os quadros da vida, o épico defensor da justiça, da verdade e do amor. . . (O Paiz, 7.6.1908). Contudo, apesar das similaridades temáticas, não se refere a Aluísio Azevedo, irmão do amigo Artur Azevedo, que a ajudara a montar sua peça O Desencontro no Teatro João Caetano ( O Paiz, 25.10.1908).

[4] Agrippino Grieco, Evolução da prosa brasileira.(Rio de Janeiro: Ariel, 1933), p.198.

[5] O Paiz, 9.VIII.1908.

[6] O Paiz, 18.X.1908.

[7] V. Roland Barthes, Introduction à l’analyse structurale des récits, Communications, n. 8, Seuil, 1966.

[8] V. Philippe Hamon, "Pour un statut sémiologique du personnage", Littérature, no.6, 1972.

[9] A data de sua morte é dada, erroneamente, por R. de Menezes como 1911, talvez pela influência da publicação póstuma de A luta, no mesmo ano (Dicionário literário brasileiro. Ilustrado, vol.III. S.P.:1969). O ano do falecimento de C. Dolores é 1910, como se pode verificar no obituário de 17.VIII.1910, em O Paiz.

[10] A utilização das belezas naturais, aqui, transcende mera cor local de teor romântico, para as gerações finisseculares. Não só em A luta, como nos contos e crônicas da autora, sente-se o duplo impulso didático e patriótico, caracteristica igualmente marcante na literatura infantil da época. (V. R. Zilberman e M. Lajolo, Um Brasil para crianças. Para conhecer a literatura infantil brasileira: histórias, autores e textos. S.P./R.J.: Global Universitária,1986, p.19).

[11] A mãe destruidora dos filhos é um conceito milenar (V. "Terrible Mother" em J.E.Cirlot, A Dictionary of Symbols: New York: Philosophical Library, 1971. Esta mãe é a Esfinge (etimologicamente, a estranguladora) e para Freud, "a figure associated with powerful, grotesque and reversed images of infant and mother bonding and adult sexual bonding" (Jane S. van Buren, The Modernist Madonna. Semiotics of the Maternal Metaphor, Bloomington: Indiana University Press, 1989, p. 31). Para J.E. Cirlot, Jung a vê como "counterpart of the Pietà, representing not only  death but also the cruel side of nature -- its indifference towards human suffering" (A Dictionary of Symbols, 218).

[12] A certa altura, a autora nutria grande admiracao pelo que via como fortaleza de caráter "[anglo-]saxônica" (Ao esvoaçar da idéia, 219). Mais para o final da vida, contudo, passou a ver o "americanismo" como algo materialista, superficial e, portanto, nocivo às jovens brasileiras. Em crônica sobre o assassínio do advogado paulista Artur Malheiros de Oliveira, pela ex-amante, a professora Albertina Barbosa, Carmen Dolores chega a acusar o comportamento de Albertina, que classifica de "americanismo", como causa ulterior do crime. (V. M. A. Lopes, "A escritora como árbitro: O crime da Galeria Cristal", Travessia n. 23. 2 semestre 1991. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina.)  

Maria Angélica Guimarães Lopes

 

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