Masculino, feminino, plural
gênero na interdisciplinaridade

Organização de Joana Maria Pedro e Miriam Pillar Grossi


Apresentação

pelas organizadoras

Poucas são as oportunidades que temos de encontrar num mesmo livro textos que reflitam as significativas diferenças teóricas, para a abordagem da problemática do gênero, presentes hoje na produção acadêmica brasileira. Este campo de estudos, verdadeiramente interdisciplinar, se constituiu no Brasil sob a influência tanto de teorias européias e norte-americanas, preocupadas com as diferenças de sexo, quanto pelo engajamento de inúmeras/os pesquisadoras/es universitárias/os no movimento feminista do final da década de 70. Os textos desta coletânea refletem o estado atual do debate teórico-metodológico que se faz hoje nos  estudos de gênero, debate que ultrapassa fronteiras disciplinares e aponta para a originalidade da produção no Brasil, tanto no plano teórico quanto no temático.

Desde o início dos anos 80, núcleos de estudos da mulher e de gênero foram criados em muitas universidades brasileiras,[i] permitindo o diálogo entre pesquisadoras/es das mais diversas disciplinas. Esta troca, que na Universidade Federal de Santa Catarina ocorreu num primeiro momento entre pesquisadoras/es das Ciências Humanas (Antropologia, Filosofia, História, Psicologia, Sociologia) e de Letras (Teoria Literária, Literatura Brasileira, Literaturas de Língua Inglesa e Lingüística), vem se ampliando gradativamente a pesquisadoras/es de outras áreas, entre as quais Saúde, Direito, Educação, Ciências Sociais Aplicadas, Artes e Comunicação. A convergência dos interesses destas/es investigadoras/es, marcados nos momentos iniciais pela busca dos mecanismos de opressão das “mulheres”, aparece agora na rica e extensa produção acadêmica sobre as diferentes relações que envolvem o gênero, ou seja, as relações sociais marcadas pelas diferenças materiais e simbólicas entre feminino e masculino, relações entre mulheres e homens, mas também das mulheres e dos homens entre si.

Os textos que compõem este livro foram apresentados no encontro “Fazendo Gênero na UFSC”, realizado em maio de 1996, no Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina, no qual foram apresentadas mais de uma centena de comunicações com resultados de pesquisas realizadas em diferentes cursos de graduação e pós-graduação e com inúmeras orientações teóricas e disciplinares. Alguns dos textos ali apresentados foram publicados na Revista de Filosofia e Ciências Humanas n.21, v.15, 1º sem./97, Florianópolis: EDUFSC, do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFSC.

A escolha dos artigos para esta coletânea foi norteada não só pela qualidade dos textos como pelo enfoque teórico que ilustra o debate interdisciplinar presente no campo de estudos de gênero. A grande maioria dos textos se fundamenta sobre a teoria culturalista, proposta nos anos 30 pela Antropologia Norte-Americana, particularmente nos trabalhos de Margaret Mead, e retomada tanto por diferentes correntes psicanalistas de orientação freudiana, quanto pelo construtivismo das historiadoras sociais Michelle Perrot e Joan Scott e dos pensadores Norbert Elias, Michel Foucault, Roland Barthes e Michel de Certeau, precursores, de alguma forma, de posturas pós-estruturalistas. É sobre este paradigma que se fundamentarão a maioria dos textos fundadores do pensamento teórico feminista do pós-guerra, tanto nos países anglo-saxões quanto na França (incluindo a obra fundamental da francesa Simone de Beauvoir – O Segundo Sexo), pensamento que será marcado também pelas lutas feministas, oriundas do século XIX, em defesa da igualdade de direitos no plano da cidadania (expresso nas lutas sufragistas) e no plano do trabalho (singularizado na expressão “Salário igual para trabalho igual”, forjada no bojo das lutas revolucionárias femininas no seio da III Internacional Comunista). Mas, além da diversidade de referências teóricas culturalistas, destacamos também aqui o debate feito hoje no Brasil em torno de dois outros paradigmas – o estruturalista e o pós-estruturalista – ilustrados nos quatro primeiros artigos desta coletânea. No entanto, apesar das divergências em torno da forma de se pensar o gênero, há alguns pontos importantes de convergência entre as teorias culturalistas, estruturalistas e pós-estruturalistas. Todas se sustentam numa postura relativista e concordam que o sujeito é fruto de determinações culturais e históricas, rompendo portanto com a perspectiva essencialista, que reifica homens e mulheres em identidades fixas determinadas pela natureza.

Muitos são os objetos de estudo abordados: a adolescência e a meia idade; a conjugalidade e a separação; o aborto e a maternidade; a afetividade e a agressividade; o esporte; o cangaço; a cultura açoriana; o trabalho doméstico. Mas, no nosso entender, quatro são os grandes temas que percorrem estes artigos e dão a dimensão das principais linhas de investigação sobre gênero existentes hoje no Brasil: a masculinidade, a homossexualidade, o corpo e a violência.

O livro é um apanhado de diferentes recortes teóricos e temáticos sobre a problemática de gênero, longe das reflexões da década de 80, preocupadas apenas com “a condição da mulher” ou “das mulheres”. Trata-se aqui de inúmeras reflexões preocupadas quase sempre em ver as perspectivas propostas por homens e mulheres “em relação”, como, por exemplo, nos artigos sobre a masculinidade que dão o contraponto dos comportamentos femininos no interior das relações.

Esta coletânea é exemplar da forma interdisciplinar da composição do campo de estudos de gênero hoje no Brasil, composto por pesquisadoras/es de diferentes disciplinas e com inúmeras ancoragens teóricas. Os textos mostram que os resultados das investigações estimulam a busca de referenciais de outras disciplinas, promovendo diálogos ainda inexistentes para a apreensão de outros objetos de investigação, assim como uma grande preocupação em dialogar com os debates sobre gênero e sexualidade que se fazem hoje no plano internacional.

 Joana Maria Pedro e Miriam Pillar Grossi



[i] Inclusive na Universidade Federal de Santa Catarina, onde foi criado em 1984 o Núcleo de Estudos da Mulher, que a partir de 1989 passou a se chamar NEG -- Núcleo Interdisciplinar de Estudos de Gênero.

 

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