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Falas de gênero: teorias, análises, leituras Organização
de Alcione Leite da Silva,
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Apresentação pelas organizadoras
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Este livro é uma das publicações que resultaram do Encontro Fazendo Gênero
3, com o tema Gênero e Saúde, realizado no Centro de Ciências da Saúde
da UFSC, no período de 13 a 15 de maio de 1998, organizado por
profissionais de várias áreas do conhecimento, mantendo uma tradição
que já está consolidada na UFSC. Vários dos trabalhos apresentados,
neste Encontro, compõem também um número da Revista de Ciências da
Saúde (v.17, n.1, 1998), publicado pela Editora da UFSC. A presente publicação contém uma pluralidade de abordagens referentes às questões de gênero, as quais foram selecionadas e agrupadas em três seções, intituladas de “Teorias”, “Análises” e “Leituras”. A primeira parte, “Teorias”, inicia com o texto Experiência de Joan W. Scott. O primeiro artigo de Joan Scott traduzido e publicado no Brasil (Revista Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 16, n. 2, dez. 1990) tornou-se referência obrigatória nos estudos feministas, permitindo afirmar ser ele o texto mais citado entre nós do gênero e no gênero (e não só historiadoras/es como estudiosas/os de diversas procedências disciplinares). No artigo traduzido para esta antologia, Joan Scott reflete sobre a experiência e sua utilização como categoria de análise no campo dos estudos teóricos. Na realidade, Scott está, neste texto, refletindo sobre a antiga oposição acadêmica entre teoria e prática (idéia/realidade; discurso/experiência). Na entrevista que concedeu para antropólogas brasileiras em Paris, publicada no v. 6, n. 1/98 da Revista Estudos Feministas, a autora revela que pretendeu, ao tratar do tema, tomar posição na polêmica entre os/as autores/as que privilegiam a linguagem, tomando os textos como textos, e aqueles/as que insistem na realidade da experiência, desligando-a de qualquer contexto de discurso, considerando-a como algo fundador, verdade não suscetível de análise lingüística. A intenção da autora no texto publicado nessa antologia foi a de historicizar e também teorizar as experiências. Maria Ignez Paulillo apresenta os principais elementos constituintes dos métodos utilizados nas pesquisas feministas na Grã-Bretanha na última década (1987-97), enfatizando especialmente a insistente rejeição ao positivismo. Para a autora, tal rejeição está baseada em uma visão estereotipada do mesmo, o que impede qualquer reflexão sobre possíveis contribuições dessa linha de pensamento. Cláudia
Lima Costa insere seu debate nas possíveis contribuições da
etnografia feminista. Nesta perspectiva, o reconhecimento, a partir da
virada lingüística nas ciências sociais, do caráter narrativo de
qualquer etnografia reorientou as discussões sobre relações de poder
no campo antropológico para relações semióticas no texto. Argumenta
sobre o deslocamento nas discussões sobre política do encontro etnográfico
para debates sobre poética da narrativa, defendendo que, apesar dos
paradoxos epistemológicos e metodológicos entre feminismo e
etnografia, as etnografias feministas exploram de forma produtiva as
tensões entre a poética e a política do texto etnográfico. Tendo como referencial teórico a vertente feminista pós-moderna, Alcione Leite da Silva defende a pesquisa como prática de cuidado importante para a emancipação da mulher. Esta defesa passa pela compreensão de ser o cuidado uma prática eminentemente social, política, de irreverência pelas ações coativas e de inconformismo com as formas opressivas de vida. A pesquisa é vista enquanto instrumento para o desenvolvimento de novas formas de consciência crítica e de ação social e política, para o reconhecimento das diferenças individuais e coletivas, e para a concretização de formas solidárias de se viver em sociedade. Neste sentido, a pesquisa se caracteriza como prática essencialmente ética, na medida em que pode se constituir em prática de socialização de poder e de privilégios nas relações sociais. O artigo de Mara Coelho de Souza Lago faz uma reflexão sobre os usos das categorias teóricas por diferentes matrizes disciplinares das ciências humano-sociais, especialmente quando aplicadas a temas que se caracterizam por seu interesse interdisciplinar, como é o caso dos estudos de gênero. A autora discute, entre outras, as categorias de identidade e identidade de gênero, apontando a forma como têm servido, em algumas de suas utilizações por teóricos/as das ciências sociais, para perpetuar e aprofundar a dicotomia indivíduo/sociedade. A seguir, recorre à psicanálise freudo-lacaniana para refletir sobre o conceito de identidade pessoal, no que este se relaciona ao conceito de identidade cultural e ao tema da fragmentação de identidades (individuais, de gênero, culturais...) na pós-modernidade. Em “Ensaios”, Eva Blay apresenta uma síntese histórica das relações de gênero e dos movimentos femininos no Brasil, de acordo com a orientação política do governo em cada período, incluindo uma análise da “cultura da subordinação feminina”. Demonstra que o Brasil, mesmo não tendo atingido um estado de bem-estar social, convive com o processo de globalização, sendo que neste contexto as mulheres brasileiras, com seus filhos, ainda constituem o segmento mais empobrecido, e portanto excluído, deste processo. Clair Castilhos Coelho nos contempla com uma análise histórica sobre a luta das mulheres em relação aos direitos humanos, demonstrando como as mulheres, em função de uma cultura patriarcal e androcêntrica, são excluídas das principais cartas de direitos humanos e sofrem toda sorte de violações sem que estas sejam consideradas como tais. Com base em sua análise, traça considerações a respeito da visão de gênero e defende a necessidade de reconstruir a compreensão acerca do conceito de Direitos Humanos. Estela Leão de Aquino evidencia em sua análise as contribuições das teorias de gênero na saúde, com vistas à superação de noções essencialmente biomédicas e à ampliação da compreensão do processo saúde-doença. Nesta perspectiva, destaca as contribuições das reflexões do movimento de mulheres sobre a integralidade de atenção à saúde, as quais se contrapõem ao modelo fragmentado de assistência por especialidades e partes do corpo, hegemônico na Medicina Moderna, enriquecendo o debate sobre eqüidade e direito à saúde e as estratégias para sua obtenção. Joana Maria Pedro dirige sua reflexão para as práticas abortivas que ainda hoje são alvo de incriminação e de penas no Código Penal no Brasil e em vários países. A partir de uma análise histórica da civilização ocidental, constata os esforços realizados pela igreja e pelo setor público para tentar controlar e criminalizar tais práticas. Ressalta que a história das tentativas de incriminalização e da resistência destas práticas pode nos ajudar a desnaturalizar a discussão sobre o aborto, a perceber os investimentos feitos na mudança de sentimentos e a observar as contradições do processo civilizador. Maria Juracy Tonelli Siqueira analisa as transformações que vêm sofrendo as pautas tradicionais das relações de gênero e, paralelamente, os padrões de masculinidade/feminilidade, paternidade/maternidade no século XX, em especial neste final de milênio. Discute possíveis motivos, alcances e implicações que estas transformações engendram. Entre outros fatores, destaca o movimento feminista, as modificações no mundo do trabalho, os avanços tecnológicos. No bojo desta discussão, uma das questões fundamentais a ser debatida é a possibilidade ou não de apontarem para relações de gênero mais igualitárias. Maria Bernardete Flores evidencia em seu estudo que a morfologia do corpo, do comportamento e da profilaxia do sexo nas décadas de 1920 e 1930 liga-se às estratégias implementadas pelos médicos eugenistas, nos investimentos para a depuração da raça. Demonstra que na fundamentação epistemológica desta política, acirra-se um discurso masculino, pregando o retorno das tradicionais identidades falocêntricas, rompidas, de alguma forma, especialmente mas não apenas em relação às mulheres, com as mudanças ocorridas no final do século XIX e início do século XX. Rafael
Andrés Villari tece uma análise do romance de Marguerite Duras, O
Deslumbramento, buscando uma aproximação entre a Literatura e a
Psicanálise, resgatando elementos no texto literário para pensar a
subjetividade moderna. Seu texto visa a retomar a trilha do romance de
Marguerite Duras, disposto ao encontro possível de elementos que nos
ajudem numa aproximação a uma forma de sofrimento particular. Sônia
Maluf, ao tomar como referência as noções de corpo, gênero e pessoa,
esboça uma reflexão sobre a emergência, no cenário urbano contemporâneo,
de todo tipo de transexualidade, travestismos e transformismos de gênero,
que reúne sob a denominação de metamorfoses de gênero. Tais
multiplicidades de práticas e vivências questionam, segundo a autora,
a própria concepção de identidade de gênero. Em
“Leituras”, vamos encontrar o ensaio de Simone Pereira Schmidt, Falar ou falar-se: o corpo no [do] texto pós-moderno, no qual
aborda as duas faces divergentes da cena pós-moderna: por um lado, a
descorporificação e o conseqüente esvaziamento dos sujeitos; de
outro, o movimento em direção à re-significação do corpo como mapa
de identidade e de poder. Sua análise utiliza, especialmente, o Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago. Maria
Teresa Santos Cunha tematiza a textualidade e a sexualidade em Nas
margens do instituído: memórias de mulheres. Ela analisa dois
conjuntos de diários femininos escritos entre 1964 e 1974 por duas
jovens normalistas e, na perspectiva da História Cultural, discute as
potencialidades do texto memorialístico com uma certa construção que
se faz lançando mão de significados disponíveis no contexto social. Já
Susana Bornéo Funck fala-nos das Representações
da maternidade e da paternidade na literatura feminista contemporânea.
Tendo como suporte a análise da produção de escritoras contemporâneas
das literaturas de língua inglesa, mostra-nos como a partir dos
conceitos surgidos com o feminismo radical aparecem representações
alternativas e idealizadas, acompanhadas de novas concepções da
maternidade e da paternidade. Zahidé
Lupinacci Muzart resgata uma figura do velho oeste americano, Calamity
Jane e estuda as cartas que deixou para sua filha, mostrando que tais
cartas são uma autobiografia muito ficcional, com objetivos de
contribuir à construção do mito. Tânia
Regina Oliveira Ramos, em seu ensaio Os
brutos também choram: dores e refletores, procura mostrar que se o
machão brasileiro está em desuso, o suposto homem moderno está diante
de um campo minado e a qualquer passo estará desviando-se do que ele
considerava a sua constituição básica. Através da leitura de um
poema de Vinícius de Moraes, ilustra a interdição do desejo no
“homem sou belo, macho sou forte”. Este
livro emerge de um esforço colaborativo de profissionais experientes na
área, que nos ajudaram a avaliar, selecionar e revisar cada artigo aqui
presente. Deste modo, queremos agradecer a todas/os aquelas/es que
direta ou indiretamente contribuíram para a publicação de mais esta
obra resultante dos Encontros Fazendo Gênero. Esperamos que a
pluralidade das discussões presentes neste livro possa favorecer a
continuidade dos debates e suas repercussões nas práticas sociais. Florianópolis, novembro de 1999
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