Rachel Liberato Meyer

 

Uma Senhora de Florianópolis

Alfredo Liberato Meyer

 

Êste não é um livro de memórias, nem pretende ser a autobiografia da autora. Não é, também, a crônica da vida de uma cidade, ou tentativa de reconstituição, de uma época.

É apenas um livro de recordações, retorno à juventude, lembranças de um passado distante e feliz.

Um livro de saudade, de bem-querer, canto singelo de amor a uma cidade e sua gente.

Fala-nos de Itajaí, no início do século, e parece-nos ver a cidade pequenina, suas ruas sem calçamento, iluminadas a querosene  iluminadas a querosene - um lampião de longe em longe - os casas de muitas janelas, e o terreno grande, junto ao mar, onde os rapazes soltavam pandorgas...

Ali, atrás da igreja, ficava a vendo do seu Mathias, o "chorão”, a quem a crueldade inocente da infância impedia o sono; caminhamos mais, e eis a casa de seu Emílio Coutinho, com seu barrete de veludo, e, à janela, D. Guilhermiina, que esperava, longos anos, pacientemente. . .

É noite em Itajaí, noite de baile. Baile de Sete de Setembro no "Estrêla", o velho clube, tão simpático, e os pares rodopiam ao som da valsa "Sôbre as ondas", D. Ritinha, D. Idalina Navarro, D. Rosinha, D. Sinhá, comentando os pares, discretamente, meio escondidas por seus grandes leques ...

Itajaí do rio ltajaí, cheio de curvas, coleante, e o vaporzinho que assustava as vacas cochilando à beira do barranco ... Rio de uma cidade, evocativo, fita de prata em noites de luar, lembra-nos os versos de Da Costa e Silva: "Saudade! ... o Parnaíba, velho monge, os barbas brancas alongando, e ao longe, o mugido dos bois de minha terra."

Itajaí de Lauro Müller, de Adolfo e de Victor Konder, das noites boêmias de Camilo Navarro e Jáu Guedes da Fonseca.

Essa é a minha terra, como a conheci na infância, através das histórias que minha mãe tanto gostava de contar. Itajaí antiga, ainda não tocada do progresso, tão diferente da cidade de hoje em dia.

Itajaí de minha mãe menina.. .

Eu a contemplo agora, ao folhear um velho “Álbum de Santa Catarina”, editado em 1908, que me informa possuir a cidade perto de 4.000 habitantes, "apresentando aspecto extraordinariamente agradável e animador; as suas ruas são largas, bem cuidados e de grande comprimento; é iluminada a querosene e dispõe de excelente água potável".

Não menos importante é a vida social, mantendo a cidade "dois hebdomadários: "Novidades" e "O Pharol", e quatro sociedades de senhoritas "Perseverança" e "Edelweiss", para leitura e bordados, "Estudantina Iracema", para concertos, e "Estudantina dos Mognólias" para bailes e pic-nics".

Fala-nos ainda, o velho álbum, de duas importantes sociedades recreativas e dramáticas, "Guarani" e "Estrêla do Oriente", tendo cada uma seu teatro, "nos quais já tem dado espetáculos diversas companhias".

E há também o "Centro aformoseador de ltajaí" e o Grêmio 3 de maio, "sociedade literária e patriótica".

A obra é profusamente ilustrada, mostrando-nos aspectos citadinos: o pôrto, e, próximo, a importante Casa Asseburg; a rua Dr. Pedro Ferreira, o imponente edifício da Sociedade Guarani, a escola pública, de D. Alzira, e a escola alemã, com os alunos fazendo pose e rodeando os dois professôres - certamente Mestre Kick e seu adjunto, o muito calado e bondoso professor Hans.

Em outra página, a diretoria da Guarani, em traje de gala, ,e, mais abaixo, a fotografia do corpo cênico do clube, onde brilhavam os irmãos Brandão.

O "Estrela do Oriente" mereceu destaque, em página dupla: ao alto, os membros da diretoria, de sobrecasaca, fotografados no meio do salão, o palco ao fundo. Em pé, ladeando o estandarte do clube, estão Antonico Inácio, "com a grande calva lustrosa", e Juvêncio Amaral; sentados: Edi Heusi, o “par constante"; Samuel Heusi, o presidente; Mário Pereira Liberato e Alcebíades Seara.

Na parte, inferior da mesma página, a fotografia, em ponto grande, do corpo cênico - onde brilhavam os Heusi. Os homens em pé, trajados a rigor, muito tesos e compenetrados; na frente, sentados, as artistas, elegantemente vestidas, com ares de prima-donas. Ao centro, com um grande bigode e imponente cabeleira, e um jeito de importante, o ensaiador, o grande amigo de Samuel Heusi, que com êle revesava na presidência: meu avô Mário Pereira Liberato.

A foto foi batida em dia festivo: o grande salão, todo enfeitado, ostenta em seu redor as enfiadas de bandeirinhas de papel, e ao alto, as "correntes" coloridas, ornamentando o teto; pelos lados, alinhados junto às paredes, as cadeiras, de onde os senhoras, sentadas um pouco distantes dos mocinhas casadouras, olhavam o baile e comentavam os pares.

Minha mãe, com sua letra inconfundível, registrou os nomes dos membros da diretoria, e os dos artistas. Vejo que a moça da esquerda, tão elegante, é minha tia Cicy, que tem a seu lado sua irmã Zoé, a boa e inesquecível tia Zoé; ao centro, a "estrêla" Tilda Heusi. Mas não está completa a informação. Faltam os nomes de duas bonitas moças, também artistas, e de uma menina de olhos grandes e profundos, cabelos negros e compridos, penteados para trás, e um ar compenetrado e sério. Está, também muito elegante, de vestido de cetim, botinhas de cano alto.

Chamava-se Rachel do Canto Liberato; chamavam-na Florzinha.

Viro algumas páginas, e agora é a "Sociedade Perseverança" que aparece, com minha tia Zoê posando em meio de um grupo de moças, tôdas de branco, muito sérias.

O álbum rende homenagem às figuras importantes da cidade, com retratos e biografias. O homem de chapéu côco, fotografado de jornal na mão, é o "grande Tibúrcio de Freitas, com seu olhar distante"; o moço de belos bigodes, presidente da importante Sociedade Guarani, é João Marques Brandão, o Jóca Brandão que contava anedotas e estava sempre de bom humor. Mais além, o Dr. Navarro Lins, "ornamento de nossa sociedade e glória da magistratura"; o Dr. Pedro Ferreira e Silva, que foi "superintendente durante doze anos, nunca recebendo os subsídios"; o Dr. Castilho, cuja fotografia não saiu por não ter chegado a tempo o "cliché", mas "não quisemos deixar de prestar esta homenagem de que é digno".

E Bruno Malburg, Luiz Abry e outros, que construíram, naqueles tempos, a cidade radiosa, moderna e linda que minha mãe reviu, tantos anos passados.

 

* * *

 

Rachel Liberata Meyer nasceu em ltajaí, em 1895, "numa fria manhã de maio", dia 17. Era filha de Mário Pereira Liberato e Elvira do Canto Liberato, êle à época, abastado industrial, membro de uma das famílias tradicionais da cidade.

Eram dez irmãos: Cecília (Cicy), Zoê, Telêmaco e Ubaldo, filhos do primeiro casamento de seu pai, e Mário (Maninho), Rachel (Florzinha), João Alfredo (Sinhôca),Celso (Mocinho), Lamartine (Bola) e Judith.

Estudou em Itajaí, na escola de D. Júlia, onde aprendeu as primeiras letras, depois na escola alemã e finalmente na escola pública, onde pontificava D. Alzira Müller, "alta, loura e de olhos azuis”.

Conheceu meu pai em 1912, casando-se em 1917, após um noivado que deveria ser curto, mas que os revezes da sorte prolongaram por três anos e meio.

Em 1923 veio para Florianópolis, de onde nunca mais saiu. Só uma vez voltou a Itajaí: em 1945, quando do nascimento de seu netinho Mário, filho de José Luiz Pereira, o "Zéquinha da Casa Maiburg", de ltajaí, e de minha irmã Vera. Nunca reviu Blumenau e a rua das palmeiras, apesar dos convites insistentes de seu irmão Celso, o "Mocinho" que com ela se hospedou, certa feita, na casa de seu Zittlow. Avêssa a viagens, amiga de seus cômodos, vivia em seu pequeno mundo, cuidando, da casa e da família, quase sem sair.

Gostava muito de ler e foi em seus livros que vim a conhecer Camilo (possuía a coleção completa, em antiga edição da Casa Lello, encadernada em vermelho, com a efígie do autor no capa), Herculano, Eça, Júlio Diniz e muitos outros. Tinha predileção pelos autores portugueses antigos, e pelos romances de costume. Gostava dos livros de Machado, inclusive em sua fase romântica, relia sempre o "Tio Goriot" e "Eugênia Grandet", de Balzac, o "Amor de Salvação" e "Doze Casamentos Felizes", de Camilo, "A Fadazinha"', de Georges Sand, e. tantos, tantos outros que falavam a sua sensibilidade e inteligência. Era admiradora de Rachel de Queiroz, de quem possuía, guardadas, tôdas as crônicas sôbre a ilha do Governador e sobre a vida no Ceará dos seus tempos de menina.

Amava os bons livros e a êles se referia com carinho. Lembro-me de vê-la em minha casa, examinando a estante, olhando as novidades, livros que eu comprara e que ela ainda não tinha lido. Vinha depois um dos netinhos - o Rubens ou o Sérgio- e eu lhe enviava os VoIumes da "Casa Grande e Senzala", obras de Dostoievski, "O Vermelho e o Negro", de Stendhal, ou a coleção de Sherlock Holmes, que conhecera quando moça e tinha vontade de reler. Quando encontrava, em jornais e revistas, referências a algum livro novo ou recentemente editado, que lhe despertava o interesse, escrevia a seu irmão Lamartine e êle lhe mandava, de São Paulo, "Dona Guidinha do Poço", ou um volume de Camilo cuja perda não se conformara.

Gostava de lembrar coisas antigas, fatos ocorridos na sua meninice, em ltajaí, e nos contava histórias em que entravam sempre D. Guilhermina, seu Emílio, a Picucha e o João, o Maninho e o Sinhôca, e a Babá, a boa e velha Babá de minha mais remota recordação.

Sentimental e romântica, não conheceu o tédio e o conformismo tão comuns entre os que passam juntos uma existência inteira. Era uma eterna enamorada do marido de sua inteligência, de ser riso franco e comunicativo. Lembro-me da admiração de alguns de meus amigos, ao vê-los, já de cabelos quase brancos, passeando abraçados no quintal, como dois namorados.

Tinha saúde delicada e era emotiva ao extremo. Quando Babá, já idosa e de cabelos brancos, perdeu a razão e foi levada para o hospital de alienados, minha mãe nunca a visitou. Mandava-lhe frutos doces de que ela gostava, indagava de sua saúde e de como era tratada, mais não tinha coragem de ir vê-la. E martirizava-se com isso, acusando-se de falta de caridade. Não conseguia, entretanto reunir fôrças para ver, no hospício, a preta boa e amiga - membro da família, dizia - que ajudara D. Sinhá a cuidar dos filhos e a ajudara a nos criar e educar.

Depois de viúva, passava a maior parte do dia no quintal e no jardim, de que, tanto meu pai gostara. "Minha vida agora é aqui " disse à irmã Judith, "porque era aqui que êle gostava de estar".

Não pôde, nunca, ir ao cemitério, e só conheceu o túmulo do marido agora, dia 24 de março de 1959, levada pelos filhos e parentes, e lá repousam os dois, definitivamente.

 

 

 

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Uma menina de Itajaí