A Cidadã Paradoxal

Joan W. Scott

Apresentação

Miriam Pilar Grossi

 


APRESENTAÇÃO

Joan W. Scott é uma das autoras mais citadas, no campo dos estudos de gênero no país. E isso principalmente por duas traduções em português, o texto "Gênero, uma Categoria Útil de Análise Histórica" e um capítulo na coletânea História das mulheres no Ocidente. No entanto, apesar da notoriedade de Joan W. Scott em terras brasileiras, este é seu primeiro livro traduzido em português, graças à iniciativa da Editora Mulheres de Florianópolis.

A cidadã paradoxal: as feministas francesas e os direitos do homem foi publicado inicialmente em 1996, em inglês, pela Harvard University Press, com o título Only paradoxes to offer (Apenas paradoxos para oferecer). Quanto ao título da edição brasileira, preferiu-se acompanhar o da tradução francesa, datada de 1998 e editada pela Albin Michel, na sua Bibliothèque Histoire. Os dois títulos são ilustrativos do que este livro pode significar para o feminismo e a história das mulheres não apenas nos Estados Unidos e na França, mas também no Brasil. Joan W. Scott, especialista na história da França no século XIX, é também uma das principais teóricas contemporâneas da história das mulheres e do feminismo.

Escrito por uma norte-americana, o livro nos traz um olhar estrangeiro sobre a história do feminismo francês, ao mesmo tempo em que dialoga com um dos principais estereótipos produzidos pelas teóricas dos estudos de gênero, norte-americanas coetâneas, a saber, a dicotomia igualdade/diferença. De forma incisiva, a autora desconstrói neste livro a idéia de que haveria dois tipos antagônicos de feminismo, o da igualdade e o da diferença, mostrando que ambos os conceitos, muito mais do que posições distintas, são duas estratégias discursivas utilizadas pelas feministas desde a Revolução Francesa, que vieram obtendo diferentes rendimentos políticos em sucessivos momentos históricos. Ao analisar os modelos pelos quais as norte-americanas percebem e opõem o feminismo francês ao norte-americano, Joan W. Scott está também nos ajudando a pensar na diversidade do feminismo contemporâneo em diferentes lugares do mundo.

O livro se divide em seis capítulos. No primeiro, a autora se situa em relação ao debate e às teorias sobre gênero e história das mulheres, introduzindo o leitor que não conhece seus trabalhos e re-atualizando o que os conhece nas suas principais posições. Nos quatro capítulos seguintes, recompõe a trajetória de importantes militantes feministas francesas — Olympe de Gouges, Jeanne Deroin, Hubertine Auclert e Madeleine Pelletier —, que contribuíram decisivamente para o debate a respeito da participação política das mulheres na República Francesa, seja pelo acesso ao voto, seja pelo direito de ser votada. Por detrás da contradição do Estado francês, que só permitiu o voto das mulheres em 1944, Joan W. Scott analisa essa luta complexa, que se inicia no bojo da própria Revolução Francesa e que continua até o presente, como é o caso da lei da paridade só recentemente votada na França.

O capítulo 2 é dedicado a Olympe de Gouges, que ousou publicar em 1791, a "Declaração dos Direitos das Mulheres e da Cidadã", referência fundamental para a história do feminismo e a da Revolução Francesa. Joan W. Scott demonstra, no decorrer do capítulo, como o feminismo, movimento que nasce na França daqueles tempos da Revolução, deve se defrontar com a ambigüidade que os homens, revolucionários, sentem quanto à representação política e à cidadania das mulheres. Em sua vida Olympe rompeu com uma série de papéis atribuídos às mulheres, iniciando pelo abandono do nome de seu pai e do de seu marido, passando pela interessante carreira de escritora de peças abolicionistas e feministas para teatro, culminando com sua condenação à morte pela guilhotina em 1793. Acusada de viver de excessos nocivos da imaginação, Olympe foi uma pensadora da mesma ordem de Rousseau e Voltaire, sem, contudo, ter tido idêntico reconhecimento posterior na história do pensamento filosófico.

O capítulo 3 é dedicado à Jeanne Deroin, militante socialista, casada com um engenheiro, mãe de três filhos, que após a derrota da Comuna de Paris, resolve se candidatar ao parlamento para desmascarar a própria lei que, sob o manto de "igualdade" dos cidadãos, excluía as mulheres tanto do voto, quanto da possibilidade de se elegerem. Na análise de Joan W. Scott, Jeanne Deroin é uma mulher fascinante, com idéias e atitudes muito próximas — já em 1849 — de algumas das que as feministas atuais assumem: recusa-se, ao casar, a usar o sobrenome do marido, reflete profundamente sobre a maternidade e a relação mãe/filho, propõe uma teoria sobre o indivíduo moderno que oscila entre dois modelos: a fusão do casal homem/mulher ou a mulher independente do homem na procriação. Fugindo ao estereótipo da mãe como ideal supremo para mulher, Jeanne Deroin vê a maternidade como um trabalho social e não como um destino biológico; a mãe é para ela a idealização máxima da cidadania, uma vez que os filhos são obra da mulher. Utópica, ela propõe que seja o Estado o responsável pela manutenção material das crianças que ficariam sob a responsabilidade moral das mulheres. A luta de Jeanne Deroin, apesar de extremamente significativa para a história do feminismo, dura pouco em solo francês, pois ela é condenada e presa por seis meses em 1850. Ao sair da prisão, em 1851, parte para o exílio na Inglaterra, onde permanecerá até sua morte em 1894. No exílio, Jeanne Deroin continua militando pela causa feminista e socialista, criando uma escola, publicando jornais, e também aderindo a novos valores de vida, tornando-se vegetariana e buscando um projeto de vida espiritual, que a aproxima de algumas correntes feministas contemporâneas conhecidas como feminismo new-age.

Hubertine Auclert é a personagem do capítulo 4. Autêntica militante feminista, Hubertine Auclert sai de uma cidade do interior e vai para Paris aos 25 anos, em 1873. Graças a uma herança familiar, funda o jornal La Citoyenne e passa a pugnar em favor da causa das mulheres, ação que desenvolverá durante mais de 50 anos. Joan W. Scott mostra como ela atuou no debate político do final do século XIX, no qual se discutia o significado da cidadania das mulheres, debate centrado no trabalho da mulher. Num período de intensa defesa de espaços profissionais masculinos, como mostra o exemplo dos tipógrafos que temiam a inversão de gênero com a entrada das mulheres no mundo deles, Hubertine Auclert advogava que as mulheres deviam ter direito ao trabalho remunerado. E ousou incluir neste mesmo patamar o ‘sagrado’ trabalho doméstico, desde sempre destinado às mulheres, demonstrando o seu valor econômico e o quanto era essencial para toda a sociedade. Encontramos no discurso de Hubertine Auclert algumas questões que ainda hoje são evocadas nos discursos feministas, como a existência de um "interesse" particular só das mulheres, revelado quando do seu ingresso no mundo da política. Este argumento está presente entre aqueles de alguns defensores da lei das cotas, por exemplo. Para H. Auclert, interesses masculinos e femininos seriam opostos: os homens se identificariam com os valores particulares (egoístas, sexuais) e conseqüentemente defenderiam a guerra e a morte; enquanto as mulheres se voltam para os valores gerais (altruístas, amantes) e por conseguinte defendem a paz e a preservação da vida. Destaco entre as questões de extrema atualidade defendidas por Hubertine Auclert também sua reflexão sobre o significado da linguagem e da inexistência na língua francesa de nominações no feminino de determinadas profissões, o que a leva a se perguntar como as mulheres poderiam exercê-las se elas nem estavam previstas nos dicionários.

O capítulo 5 é dedicado à Madeleine Pelletier, editora do jornal La Souffragiste, nascida em 1874. Personagem fascinante, que tem sido alvo de inúmeras biografias na França, ela foi uma das primeiras médicas-psiquiatras francesas, após conseguir derrubar, em 1902, a lei que impedia mulheres de fazer residência em asilos psiquiátricos, local onde paradoxalmente ela foi internada, no final de sua vida, e morreu em 1939. Marcada pelas descobertas científicas do inconsciente na virada do século XIX para o XX, ela via a identidade feminina como uma forma de opressão interiorizada. Para ela a diferença sexual era um conjunto de fenômenos psicológicos e não físicos. Fruto de sua época, Madeleine Pelletier, incarnava o modelo de individualismo moderno. Radicalmente oposta as diferenciações entre masculino e feminino, vestia-se com trajes masculinos como forma de desconstruir a diferença sexual e eliminando, assim, a subordinação que os trajes femininos impunham às mulheres. Grande defensora do voto das mulheres, também dedicou as últimas décadas de sua vida à luta pelo direito das mulheres à contracepção e ao aborto, sendo uma das precursoras das principais lutas do feminismo no final do século XX. Joan W. Scott aponta, em sua análise para o surgimento de novos valores feministas, que se iniciam com Madeleine Pelletier e que seriam desenvolvidos, em parte, mais tarde por Simone de Beauvoir, cuja obra é rapidamente analisada no último capítulo do livro.

No capítulo 6, Joan W. Scott retoma as questões levantadas no início do livro a respeito do feminismo contemporâneo, articulando-o com as conquistas políticas obtidas pelas mulheres ao longo desses três séculos. A reflexão feita por Joan W. Scott neste livro é de grande importância não apenas para aquelas/es que se debruçam sobre a história do feminismo, mas também por aquelas/es que "fazem" o feminismo hoje: militantes, teóricas e simpatizantes do movimento feminista brasileiro. O debate promovido por estas quatro mulheres desde a Revolução Francesa em suas lutas pela representação política feminina na assembléia legislativa é surpreendentemente contemporâneo e exemplar, na contraposição ou no reforço de argumentos que continuam sendo utilizados: contraposição para quem veta a candidatura das mulheres, porque a vêem como "antinatural" em relação às funções reprodutoras próprias de sua fisiologia, e, ao contrário, reforço para quem defende o ingresso das mulheres na política, porque nelas reconhece uma rara "sensibilidade" social que decorre justamente da maternidade (argumento de Jeanne Deroin, já em 1848).

Ao dissecar os discursos produzidos por estas quatro feministas francesas, ao longo de três séculos, a autora acaba remetendo o/a leitor/a, ao debate atual entre feministas francesas em torno das lutas pela paridade na representação política das mulheres, debate que divide inúmeras feministas entre "paritárias, igualitaristas liberais, diferencialistas militantes de esquerda, universalistas, etc". Além disto, o livro permite descontruir estereótipos difundidos por algumas teóricas feministas norte-americanas sobre o feminismo da diferença, marca, para algumas do french feminism e posição teórica que também influencia o campo dos estudos de gênero no Brasil. Traduções de textos fundadores são também atos políticos, e a escolha da Editora Mulheres, de traduzir A cidadã paradoxal, certamente permitirá novas leituras, no Brasil, não apenas da obra de Joan W. Scott, mas também das interpretações que têm sido feitas sobre os diferentes feminismos no mundo.

 

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