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Imprensa
Iguais e diferentes
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08.Jul.2002 | Mesmo com a saída prematura de Roseana Sarney da disputa, as eleições deste ano já têm a sua marca: é recorde a participação de mulheres na campanha. A mais vistosa é a deputada Rita Camata (PMDB), vice na chapa tucana de José Serra na corrida presidencial. Mas do lado do eleitorado, é recorde a participação feminina: são 58,7 milhões de mulheres nas urnas em outubro, número que ultrapassa a quantidade de homens eleitores.
No Rio de Janeiro, são três mulheres brigando pelo governo do estado. A todas, em especial a Rosinha Garotinho Matheus, sugere-se a leitura do recém-chegado ao Brasil "A cidadã paradoxal: as feministas francesas e os direitos do homem", da professora americana Joan W. Scott, lançado pela Editora das Mulheres.
Scott traça o perfil de quatro heroínas, todas forjadas no início da luta feminista, na Revolução Francesa. Políticas num momento em que às mulheres sequer era dado o direito à cidadania, quanto mais a atividades políticas, as quatro personagens servem para que a autora demonstre que não há contradição entre a tese feminista americana – de que as mulheres devem reivindicar igualdade em relação aos homens – e a tese feminista francesa, de que as mulheres devem pleitear o direito à diferença.
Scott quer mostrar que mulheres são iguais e diferentes dos homens ao mesmo tempo – e por isso o título original do livro é "Apenas paradoxos a oferecer" (a tradução brasileira seguiu o título da obra na França). Na biografia das quatro mulheres perfiladas por Scott, a história mostra que a todas foi necessário – e que ainda é, mais de 200 anos depois – compatibilizar estas duas idéias aparentemente tão contraditórias.
Olympe de Gouges e Jeanne Deroin
Dois anos depois do lançamento, no outono de 1789, da "Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão", Olympe de Gouges publicou a sua "Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã", em que afirmava que as mulheres tinham os mesmo direitos dos homens – eram, portanto, iguais – e também tinham necessidades específicas por serem mulheres, ou seja, diferentes. Embora não tenha sido o único documento feminista da revolução, foi o mais significativo justamente por ser o que fazia reivindicações mais amplas naquele período.
Foi ali que surgiu a idéia de que o homem, sozinho, não representa a humanidade. Era o ano dos debates na Assembléia nos quais nasceriam a Constituição de 1791, e Olympe apoiou a posição, minoritária e perdedora, de Camille
Desmoulins: deveriam ser considerados "cidadãos ativos" todos aqueles, independente de sexo, que tivessem lutado pela queda da Bastilha.
Venceu a idéia de que cidadãos eram os homens acima de 25 anos e às mulheres foi negado o direito à cidadania e ao voto, que só chegaria na França em 1944. A principal bandeira de Olympe era a ampliação das possibilidades político-sociais das mulheres. Terminou executada como traidora, em 1793, mas morreu como autora da frase que se tornou o lema do movimento feminista do século 19: "A mulher tem o direito de subir ao patíbulo; deveria ter igualmente o direito de subir à tribuna".
Hoje, mulheres como Rita Camata, Solange Amaral e Benedita da Silva têm o direito de subir à tribuna, e nem precisam ser heroínas de seu tempo para exercer seus cargos públicos. Nem todas, no entanto, honram a história de luta das mulheres. Rosinha Garotinho Matheus, por exemplo, poderia se dedicar com especial atenção ao capítulo sobre Jeanne, personagem que assumiu a herança política de Olympe de Gouges e, em 1832, se recusou a adotar o sobrenome do marido. Dezoito anos depois, presa como revolucionária, a decisão de Jeanne pesou contra ela no tribunal e ajudou na sua condenação.
Em 2002, para sustentar uma candidatura sem pé nem cabeça, Rosinha apossou-se do apelido do marido, Garotinho. Manobra oportunista com a qual tenta dar o peso da identidade do ex-governador a um nome sem qualquer consistência política. Ao submeter sua candidatura a este truque, Rosinha põe por terra toda a argumentação de Jeanne, a defensora do feminismo da diferença e da difícil idéia de que a distinção entre sexos é simétrica, mas não hierárquica.
Na tribuna
As outras duas mulheres biografadas em "A cidadã paradoxal" são Madeleine Pelletier e Hubertine
Auclert, que foi defensora do direito ao voto, editora do jornal "A cidadã" e militante feminista radical até a morte, em 1914. Sua campanha a favor do sufrágio universal começou em 1876, e sua luta era de um tempo em que os argumentos contra o trabalho das mulheres eram muito simples: Jacques
Alary, presidente do sindicato dos tipógrafos, justificava a proibição das mulheres na profissão dizendo que, "caso se admitissem as mulheres como tipógrafas, elas se tornariam homens, e, então, inevitavelmente, os homens se tornariam mulheres".
Apesar de ter sido defensora de primeira hora do voto feminino, Hubertine, conta Scott, nunca alcançou o reconhecimento histórico do seu papel no movimento feminista. Suas dificuldades, embora datem do início do século 20, são exemplares do dilema com o qual o feminismo se debate ainda hoje.
Para além das divergências entre feministas francesas e americanas, o movimento feminista ainda tem muito o que discutir na sociedade. Pelo menos até que se cumpra a defesa da quarta personagem do livro de Scott, Madeleine
Pelletier: "A mulher será um indivíduo antes de ser um sexo".
Igualdade e Diferença - Visões dicotômicas do Feminismo em debate
Gema Galgani S. L. Esmeraldo
Especial para o Delas voltar ao topo
Os trabalhos da pesquisadora Joan Walach Scott são, no Brasil e no mundo, referências obrigatórias para estudiosos da questão da mulher e das relações de gênero. Seu último livro "A cidadã paradoxal. As feministas francesas e os direitos do homem", oportunamente traduzido e publicado no Brasil, pela Editora Mulheres, em maio deste ano, constitui-se numa obra instigante, diante de sua intenção de travar uma profícua problematização entre a falsa inscrição do movimento feminista no viés dicotômico da igualdade ou da diferença. Para desmistificar essa divisão, a norte-americana vai se debruçar sobre a história e a militância feminista de algumas mulheres francesas, figuras precursoras na luta pela conquista de direitos iguais entre os sexos masculino e feminino.
Inicialmente, Scott remonta à Revolução Francesa para recompor a trajetória de Olympe de Gouges (1748-1793) que desenvolve a sua imaginação ativa (considerada qualidade masculina), visando superar os limites estabelecidos na diferenciação dos sexos. Olympe escreve a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, onde expõe o caráter contraditório da nova legislação e da expressão de universalidade da Revolução. Com base na constituição e representação de um sujeito universal de direitos e de deveres - o cidadão civil, Olympe aponta para a materialização de direitos e deveres para os homens e, para as mulheres, apenas o cumprimento de deveres, quando denuncia a negação do direito ao voto, às mulheres.
Para provar que as mulheres possuem capacidades para se constituírem sujeitos ativos, a feminista problematiza o pensamento de Rousseau e de Voltaire e escreve inúmeros panfletos, folhetos e peças abolicionistas e feministas para o teatro. Dedica-se a criar representações voltadas para indicar que a mulher também é possuidora de características que constituem o sujeito universal de direitos e a demonstrar que a imaginação das mulheres poderia se exercitar de forma ativa (vista como condutora da cidadania ativa) e não somente passiva.
Jeanne Deroin (?-1894) é uma feminista que, a partir da consideração das diferenças de sexo, irá combater seu caráter hierárquico e defender uma relação simétrica. Propõe direitos iguais na política formal, com a constituição do indivíduo social, que Jeanne o fundamenta no respeito às diferenças biológicas e nos diferentes papeis sociais desempenhados por homens e por mulheres, para o funcionamento harmônico da sociedade. A feminista expõe assim, um conflito no pensamento vigente, ao trazer dúvidas em torno da relação entre o indivíduo como abstração política e o indivíduo como ser socialmente diferenciado.
Em 1849, Deroin candidata-se à Assembléia Legislativa como estratégia para expor o princípio da igualdade e denunciar uma cidadania negada. Madaleine Pelletier (1874-1939) defende a eliminação total de qualquer diferença de gênero, como meio para se alcançar a igualdade. Seja negando as diferenças que as excluem, seja positivando a natureza, as francesas intensificam lutas pelo reconhecimento de suas capacidades intelectuais. Nesse percurso, sinalizam para o caráter excludente do projeto democrático liberal, ao tempo em que buscam se igualar ao homem para sua inclusão social. Scott enxerga paradoxos nessas práticas e por isso, sugere um olhar não linear ou teleológico nos estudos feministas. Propõe sim, encontros criativos com esses paradoxos.
"A cidadã paradoxal. As feministas francesas e os direitos do homem", de autoria de Joan Walach Scott. Editora Mulheres de Florianópolis. Pedidos por E-mail: editoramulheres@floripa.com.br
Gema Galgani S. L. Esmeraldo
Coordenadora do curso de Economia Doméstica da UFC
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Ana Barradas,
Revista
"Política Operária" ,
Set-Out
2002, Portugal.
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A
cidadã paradoxal: as feministas francesas e os direitos do homem,
Joan W. Scott, lançado pela Editora das Mulheres, Florianópolis.
Esta
professora americana traça o perfil de quatro mulheres francesas –
Olympe de Gouges, que escreveu a Declaração dos Direitos da Mulher e
da Cidadã durante a Revolução Francesa; Jeanne Deroin, uma
socialista utópica e candidata ao parlamento em 1848; Hubertine
Auclert, uma sufragista da III República; e Madeleine Pelletier,
psiquiatra que viveu no início do século XX e que defendia que as
mulheres se deviam “virilizar” para conseguir a igualdade –
todas forjadas na luta feminista.
Pela
análise destas quatro vidas, a autora procura demonstrar que não há
contradição entre a tese feminista de que as mulheres devem
reivindicar igualdade em relação aos homens e a tese feminista de
que as mulheres devem reivindicar o direito à diferença. Scott quer
mostrar que mulheres são iguais e diferentes dos homens ao mesmo
tempo – e por isso o título original do livro é “Apenas
paradoxos a oferecer” (a tradução brasileira seguiu o título da
obra em França).
Em
protesto por não lhes ser concedido o direito à cidadania plena,
proclamado como universal pela Revolução Francesa mas apenas
reservado aos homens, as primeiras feministas fizeram surgir a ideia
de que o homem, sozinho, não representa a humanidade e que deveriam
ser considerados “cidadãos activos” todos aqueles que,
independente do sexo, tivessem lutado pela queda da Bastilha.
Venceu
a ideia de que cidadãos eram os homens acima de 25 anos e negou-se às
mulheres o direito à cidadania e ao voto, que só se obteria em França
em 1944.
Olympe
de Gouges, em 1832, recusou-se a adoptar o sobrenome do marido.
Dezoito anos depois, presa como revolucionária, esta decisão pesou
contra ela no tribunal e ajudou à sua condenação. Terminou
executada como traidora, em 1793, mas morreu como autora da frase que
se tornou o lema do movimento feminista do século XIX: “A mulher
tem o direito de subir ao patíbulo; deveria ter também o direito de
subir à tribuna.”
Hubertine
Auclert, defensora do direito ao voto, foi editora do jornal A
cidadã e militante feminista radical até a morte, em 1914. A sua
campanha a favor do sufrágio universal começou em 1876, quando os
argumentos contra o trabalho das mulheres eram muito simples: Jacques
Alary, presidente do sindicato dos tipógrafos, justificava a proibição
das mulheres na profissão dizendo que, “caso se admitissem as
mulheres como tipógrafas, elas se tornariam homens, e, então,
inevitavelmente, os homens tornar-se-iam mulheres”. Apesar de ter
sido defensora do voto feminino, Hubertine nunca alcançou o
reconhecimento histórico do seu papel no movimento feminista.
A
quarta personagem do livro de Scott, Madeleine Pelletier, psiquiatra
que viveu no início do século XX e que defendia que as mulheres se
deviam “virilizar” para conseguir a igualdade, dizia, abrindo o
caminho a Simone de Beauvoir: “A mulher será um indivíduo antes de
ser um sexo”.
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Igualdade e Diferença
- Visões dicotômicas
do Feminismo em debate
Gema Galgani S. L. Esmeraldo
Especial para o Delas
Os trabalhos da
pesquisadora Joan Walach Scott são, no Brasil e no mundo, referências
obrigatórias para estudiosos da questão da mulher e das relações
de gênero. Seu último livro "A cidadã paradoxal. As feministas
francesas e os direitos do homem", oportunamente traduzido e
publicado no Brasil, pela Editora Mulheres, em maio deste ano,
constitui-se numa obra instigante, diante de sua intenção de travar
uma profícua problematização entre a falsa inscrição do movimento
feminista no viés dicotômico da igualdade ou da diferença. Para
desmistificar essa divisão, a norte-americana vai se debruçar sobre
a história e a militância feminista de algumas mulheres francesas,
figuras precursoras na luta pela conquista de direitos iguais entre os
sexos masculino e feminino.
Inicialmente, Scott remonta à Revolução Francesa para recompor a
trajetória de Olympe de Gouges (1748-1793) que desenvolve a sua
imaginação ativa (considerada qualidade masculina), visando superar
os limites estabelecidos na diferenciação dos sexos. Olympe escreve
a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, onde expõe o caráter
contraditório da nova legislação e da expressão de universalidade
da Revolução. Com base na constituição e representação de um
sujeito universal de direitos e de deveres - o cidadão civil, Olympe
aponta para a materialização de direitos e deveres para os homens e,
para as mulheres, apenas o cumprimento de deveres, quando denuncia a
negação do direito ao voto, às mulheres.
Para provar que as mulheres possuem capacidades para se constituírem
sujeitos ativos, a feminista problematiza o pensamento de Rousseau e
de Voltaire e escreve inúmeros panfletos, folhetos e peças
abolicionistas e feministas para o teatro. Dedica-se a criar
representações voltadas para indicar que a mulher também é
possuidora de características que constituem o sujeito universal de
direitos e a demonstrar que a imaginação das mulheres poderia se
exercitar de forma ativa (vista como condutora da cidadania ativa) e não
somente passiva.
Jeanne Deroin (?-1894) é uma feminista que, a partir da consideração
das diferenças de sexo, irá combater seu caráter hierárquico e
defender uma relação simétrica. Propõe direitos iguais na política
formal, com a constituição do indivíduo social, que Jeanne o
fundamenta no respeito às diferenças biológicas e nos diferentes
papeis sociais desempenhados por homens e por mulheres, para o
funcionamento harmônico da sociedade. A feminista expõe assim, um
conflito no pensamento vigente, ao trazer dúvidas em torno da relação
entre o indivíduo como abstração política e o indivíduo como ser
socialmente diferenciado.
Em 1849, Deroin candidata-se à Assembléia Legislativa como estratégia
para expor o princípio da igualdade e denunciar uma cidadania negada.
Madaleine Pelletier (1874-1939) defende a eliminação total de
qualquer diferença de gênero, como meio para se alcançar a
igualdade. Seja negando as diferenças que as excluem, seja
positivando a natureza, as francesas intensificam lutas pelo
reconhecimento de suas capacidades intelectuais. Nesse percurso,
sinalizam para o caráter excludente do projeto democrático liberal,
ao tempo em que buscam se igualar ao homem para sua inclusão social.
Scott enxerga paradoxos nessas práticas e por isso, sugere um olhar não
linear ou teleológico nos estudos feministas. Propõe sim, encontros
criativos com esses paradoxos.
"A cidadã
paradoxal. As feministas francesas e os direitos do homem", de
autoria de Joan Walach Scott. Editora Mulheres de Florianópolis.
Pedidos por E-mail: editoramulheres@floripa.com.br
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