A Cidadã Paradoxal

Joan W. Scott


Orelha do Livro

Simone Pereira Schmidt

 

Quando Olympe de Gouges declarou, nos idos tempos da Revolução Francesa, que as feministas eram mulheres que só tinham paradoxos a oferecer, estava na verdade expressando um modo de ser que tem definido o feminismo através de sua história. Se tal condição paradoxal tem marcado essa história de impasses por vezes incontornáveis, por outro lado tem imprimido no movimento, segundo Joan Scott, sua própria força política.

É justamente isto o que propõe a historiadora norte-americana em seu livro: a investigação da condição paradoxal constitutiva do feminismo. A primeira tese, sustentada aqui pela autora, é a de que o feminismo possui efetivamente uma história, está marcado por ela, e de que esta história deve servir de base para o pensamento e a ação contemporâneos. Em seguida, sua reflexão se debruça sobre a histórica tensão que divide o feminismo entre aquelas(es) que reivindicam a igualdade e as(os) que empunham a bandeira da diferença. Sem defender uma ou outra estratégia, Joan Scott vai mais além, ao propor uma revisitação da tradição liberal, pois, segundo ela, tendo o feminismo surgido dentro do campo desta tradição – do individualismo liberal, construído a partir do século XVIII – ele não é simplesmente um produto dessa história, mas um vívido "sintoma de suas contradições". Através de suas lutas específicas, notadamente aquelas pelo direito ao voto, as feministas que participaram do processo de construção do moderno estado democrático puseram a nu as mais profundas contradições desse processo. Se o direito ao voto, que era teoricamente universal, e portanto extensivo a todo cidadão, era vetado às mulheres, então era passível da acusação de não-universal, porque ao mesmo tempo em que se propunha extensivo a todo cidadão, impunha um veto que definia o cidadão como exclusivamente masculino. Assim enunciada, a principal reivindicação feminista dos séculos XVIII, XIX e boa parte do XX soa-nos algo simples demais e por vezes tautológica.. Contudo, ela sinaliza o que de mais contundente realizou o feminismo nesta longa história: apontar a ferida aberta, a contradição fundamental do discurso democrático liberal, que encobre as exclusões que promove.

Porém, ao apontar para a ferida do discurso liberal, o feminismo, também ele, evidencia seus paradoxos. Se as feministas inseridas nesta história de lutas encarregaram-se de denunciar a diferença sexual como fator de exclusão na consolidação do estado democrático, elas paradoxalmente se esforçaram por declarar irrelevante essa mesma diferença. Ou seja, se a diferença sexual é o ponto de partida para a reivindicação de igualdade, como estratégia de luta as feministas se dividiram (e ainda hoje se dividem) entre reafirmar essa diferença ou lutar por minimiza-la, até, se possível, suprimi-la (veja-se, por exemplo, Simone de Beauvoir que, partindo da constatação da diferença, conclui sua obra monumental acenando para o ideal dos sexos igualados).

Escrever uma história do feminismo, para Joan Scott, não é escolher entre a estratégia da igualdade ou da diferença, como se uma delas pudesse resolver os impasses vividos. Uma história do feminismo deve ser, segundo a autora, "a história de mulheres (e de alguns homens) constantemente às voltas com a dificuldade de resolver os dilemas que enfrentaram".

Para rever tais dilemas, expondo em profundidade as contradições que os alimentam, a historiadora elege quatro momentos da história moderna francesa, na figura de quatro feministas intensamente envolvidas na luta pelos direitos das mulheres, e em especial na luta sufragista: Olympe de Gouges, cuja atuação remonta ao movimento revolucionário do final do século XVIII; Jeanne Deroin, que participou dos acontecimentos da Revolução de 1848; Hubertine Auclert, cuja militância se deu no período da Terceira República, em fins do século XIX, e, finalmente, Madeleine Pelletier, que atuou na primeira metade do século XX, tendo morrido em 1939, quando a II Guerra batia à porta da Europa.

Embora essas mulheres estivessem baseadas em princípios e visões de mundo bastante divergentes, elas compartilham uma mesma radicalidade no modo visceral como denunciaram as contradições dos cenários políticos em que atuavam. E pagaram muito caro por isso: Olympe de Gouges foi levada à guilhotina, Jeanne Deroin provocou escândalo, esteve presa e acabou por se auto-exilar na Inglaterra, Hubertine Auclert sofreu forte hostilidade, tendo sido considerada extremamente nociva por seus contemporâneos, e Madeleine Pelletier, ao final de sua vida, foi aprisionada num manicômio. O que fica evidenciado nas trajetórias de vida e de luta dessas mulheres, antes de tudo, é o "perigo" que o feminismo sempre representou dentro de sistemas políticos e filosóficos supostamente democráticos e universais. Esse perigo foi muito bem identificado e devidamente punido por tais sistemas.

Pois o livro de Joan Scott também é uma ameaça aos sistemas que não se querem mostrar em suas lacunas e seus paradoxos, justamente pelo desconforto que provoca naqueles que sustentam uma visão historiográfica tradicional. Seu modo desconstrutivo de ler a história - ou de propor uma história - do feminismo na França revolucionária e pós-revolucionária inquieta àqueles que, através de um modo de narrar "linear ou teleológico", acostumaram-se a eliminar "relatos de conflitos e de poder". Nesse sentido, este livro pode ser lido também como um desafio, uma leitura a contrapelo da história moderna, cheia de paradoxos a oferecer. Entregando-nos ao prazer de ler este desafio, podemos concordar com o que disse Jane Flax: "talvez Freud estivesse certo quando declarou que as mulheres são os inimigos da civilização".

 

A Cidadã Paradoxal | Autora | Sumário | Apresentação | Imprensa |  Comprar