Quando Olympe de Gouges declarou, nos idos tempos
da Revolução Francesa, que as feministas eram
mulheres que só tinham paradoxos a oferecer, estava
na verdade expressando um modo de ser que tem
definido o feminismo através de sua história. Se
tal condição paradoxal tem marcado essa história
de impasses por vezes incontornáveis, por outro lado
tem imprimido no movimento, segundo Joan Scott, sua
própria força política.
É justamente isto o que propõe a historiadora
norte-americana em seu livro: a investigação da
condição paradoxal constitutiva do feminismo. A
primeira tese, sustentada aqui pela autora, é a de
que o feminismo possui efetivamente uma história,
está marcado por ela, e de que esta história deve
servir de base para o pensamento e a ação
contemporâneos. Em seguida, sua reflexão se
debruça sobre a histórica tensão que divide o
feminismo entre aquelas(es) que reivindicam a
igualdade e as(os) que empunham a bandeira da
diferença. Sem defender uma ou outra estratégia,
Joan Scott vai mais além, ao propor uma
revisitação da tradição liberal, pois, segundo
ela, tendo o feminismo surgido dentro do campo desta
tradição do individualismo liberal,
construído a partir do século XVIII ele não
é simplesmente um produto dessa história, mas um
vívido "sintoma de suas contradições".
Através de suas lutas específicas, notadamente
aquelas pelo direito ao voto, as feministas que
participaram do processo de construção do moderno
estado democrático puseram a nu as mais profundas
contradições desse processo. Se o direito ao voto,
que era teoricamente universal, e portanto extensivo
a todo cidadão, era vetado às mulheres, então era
passível da acusação de não-universal, porque ao
mesmo tempo em que se propunha extensivo a todo
cidadão, impunha um veto que definia o cidadão como
exclusivamente masculino. Assim enunciada, a
principal reivindicação feminista dos séculos
XVIII, XIX e boa parte do XX soa-nos algo simples
demais e por vezes tautológica.. Contudo, ela
sinaliza o que de mais contundente realizou o
feminismo nesta longa história: apontar a ferida
aberta, a contradição fundamental do discurso
democrático liberal, que encobre as exclusões que
promove.
Porém, ao apontar para a ferida do discurso
liberal, o feminismo, também ele, evidencia seus
paradoxos. Se as feministas inseridas nesta história
de lutas encarregaram-se de denunciar a diferença
sexual como fator de exclusão na consolidação do
estado democrático, elas paradoxalmente se
esforçaram por declarar irrelevante essa mesma
diferença. Ou seja, se a diferença sexual é o
ponto de partida para a reivindicação de igualdade,
como estratégia de luta as feministas se dividiram
(e ainda hoje se dividem) entre reafirmar essa
diferença ou lutar por minimiza-la, até, se
possível, suprimi-la (veja-se, por exemplo, Simone
de Beauvoir que, partindo da constatação da
diferença, conclui sua obra monumental acenando para
o ideal dos sexos igualados).
Escrever uma história do feminismo, para Joan
Scott, não é escolher entre a estratégia da
igualdade ou da diferença, como se uma delas pudesse
resolver os impasses vividos. Uma história do
feminismo deve ser, segundo a autora, "a
história de mulheres (e de alguns homens)
constantemente às voltas com a dificuldade de
resolver os dilemas que enfrentaram".
Para rever tais dilemas, expondo em profundidade
as contradições que os alimentam, a historiadora
elege quatro momentos da história moderna francesa,
na figura de quatro feministas intensamente
envolvidas na luta pelos direitos das mulheres, e em
especial na luta sufragista: Olympe de Gouges, cuja
atuação remonta ao movimento revolucionário do
final do século XVIII; Jeanne Deroin, que participou
dos acontecimentos da Revolução de 1848; Hubertine
Auclert, cuja militância se deu no período da
Terceira República, em fins do século XIX, e,
finalmente, Madeleine Pelletier, que atuou na
primeira metade do século XX, tendo morrido em 1939,
quando a II Guerra batia à porta da Europa.
Embora essas mulheres estivessem baseadas em
princípios e visões de mundo bastante divergentes,
elas compartilham uma mesma radicalidade no modo
visceral como denunciaram as contradições dos
cenários políticos em que atuavam. E pagaram muito
caro por isso: Olympe de Gouges foi levada à
guilhotina, Jeanne Deroin provocou escândalo, esteve
presa e acabou por se auto-exilar na Inglaterra,
Hubertine Auclert sofreu forte hostilidade, tendo
sido considerada extremamente nociva por seus
contemporâneos, e Madeleine Pelletier, ao final de
sua vida, foi aprisionada num manicômio. O que fica
evidenciado nas trajetórias de vida e de luta dessas
mulheres, antes de tudo, é o "perigo" que
o feminismo sempre representou dentro de sistemas
políticos e filosóficos supostamente democráticos
e universais. Esse perigo foi muito bem identificado
e devidamente punido por tais sistemas.
Pois o livro de Joan Scott também é uma ameaça
aos sistemas que não se querem mostrar em suas
lacunas e seus paradoxos, justamente pelo desconforto
que provoca naqueles que sustentam uma visão
historiográfica tradicional. Seu modo desconstrutivo
de ler a história - ou de propor uma
história - do feminismo na França revolucionária e
pós-revolucionária inquieta àqueles que, através
de um modo de narrar "linear ou
teleológico", acostumaram-se a eliminar
"relatos de conflitos e de poder". Nesse
sentido, este livro pode ser lido também como um
desafio, uma leitura a contrapelo da história
moderna, cheia de paradoxos a oferecer.
Entregando-nos ao prazer de ler este desafio, podemos
concordar com o que disse Jane Flax: "talvez
Freud estivesse certo quando declarou que as mulheres
são os inimigos da civilização".