NOTA
Pelo interesse histórico,
reproduzimos no livro, seis cartas de Marie van
Langendonck a D. Pedro II. As informações sobre
esta documentação é de Abeillard Barreto, Bibliografia
Sul-Riograndense, II. Rio de Janeiro:Conselho
Federal de Cultura, 1976, pp. 788-789. V. Uma
colônia no Brasil. Org. por Odilon Nogueira de
Matos. PUCCAMP, 1990, p. 64. (N. E.)
A Sua Majestade, o Imperador do
Brasil
Sire,
Dispondo-se a vir retomar o cargo,
o chefe da mensuração para as colônias do governo
nesta província (Sr. Lassance) morreu subitamente em
Pelotas.
Esta morte torna definitivamente
vago o lugar que Vossa Majestade consentiu em
prometer a meu filho Leon, para quem tenho a honra de
novamente solicitá-lo.
Meu filho Hipólito, subtenente na
brigada Imperial, me volta estropiado para sempre,
coxeando horrivelmente da perna direita.
O pobre rapaz ainda não tem vinte
e nove anos; ele se resigna a sua desgraça; apenas
teria preferido devê-la a um tiro ou uma estocada,
em lugar de devê-la à inépcia, ou antes, à
ausência de médicos no exército.
Tendo chegado a S. Gabriel com um
inchaço acima do joelho, provocado pelo
endurecimento dos tendões, o esculápio do lugar
não viu outro remédio ao mal senão a amputação
da perna. Meu filho acabara de ver praticar
semelhante operação em um infeliz a quem se
torturou durante quatro horas e que morreu
imediatamente depois.
Recusou-se portanto à prescrição
e durante um mês sofreu dores atrozes, morais e
físicas.
Deitado em um pequeno cômodo que
não podia conter mais do que cinco leitos, quatro
estavam ocupados por doentes de tifo, que morriam um
após o outro e logo eram substituídos por outros
que não tardavam a se juntar a seus antecessores.
Nunca o ar deste pequeno cômodo foi renovado, aí a
infecção era tal que o médico não ousava entrar.
A farmácia do hospital consistia
em três medicamentos que os enfermeiros distribuíam
ao acaso. Enfim, se meu filho saiu dessa, devo
certamente esta graça à santa Consoladora dos
aflitos, a Cura dos doentes, a quem, dia e noite, eu
implorava por meu filho.
Estando no fim os parcos recursos
que faço chegar até ele, este se endivida até as
lembranças de sua irmã morta para se fazer
transportar em um carro de bois até Rio Pardo, de
onde o navio a vapor mo trouxe de volta.
Perdoai, Sire, o aborrecimento com
esses detalhes que me conduzem naturalmente a
submeter a Vossa Majestade algumas observações para
apoiar minhas observações absolutistas, conhecidas
e confessadas.
Porto Alegre, Sire, possui entre
trinta e quarenta médicos; uma dezena responderia
às necessidades dos habitantes. O excedente,
requisitado pelo serviço das enfermarias
temporárias talvez tivesse salvado a vida de vários
milhares de soldados. Mas teria sido necessária uma
lei para tornar constitucional esta medida. A câmara
e o senado teriam levado um ano a estudar este
projeto, um outro ano para discuti-lo e um terceiro
antes de apresentá-lo à sanção imperial. Nesse
meio tempo, os restos dos pobres soldados teriam
voltado a ser poeira e o país estaria privado do
elemento de prosperidade que lhe falta: os braços do
homem. Desastre irreparável que um traço a mais do
soberano absoluto pode prevenir.
Um homem que comandava quinhentos
homens recebia do estado os fundos necessários para
alimentá-los. Alimentou esses quinhentos infelizes
com duzentas rações. Morreram de fome, seus
cadáveres foram distribuídos na estrada e o ladrão
se retirou, rico.
Um chefe absoluto fazendo
exemplarmente pronta justiça a alguns ladrões como
esses teria detido as depredações desses infames
que têm uma pedra no lugar do coração e que a
impunidade tranqüiliza. Eles sabem que as lentidões
dos processos deixam toda liberdade à corrupção e
que a chave de ouro abre a porta de ferro.
E a colonização, sire, o que
lucra para os imensos sacrifícios de dinheiro que
afetaram o Brasil? Privada que é de uma produção
encorajadora e imediata, sua ação se prolonga cada
vez mais.
Os ministros parecem se esforçar
por conduzi-la. Um antecedente do Sr. Marcondes dizia
que o Brasil não tinha o que fazer dos estrangeiros.
O governo brasileiro retribui os
geômetras-agrimensores, que recebem salários fixos.
Esses funcionários poderiam portanto, sem prejuízo
para o estado, medir os terrenos concedidos por ele.
O ministro coloca esta despesa, que
no Brasil é enorme, a cargo do concessionário. O
imperador nada pode fazer.
Quanto a mim tinha um comanditário
para colonizar as duas léguas de terra que me
concedeu o governo imperial. Este indivíduo,
inteiramente disposto a arcar com as despesas de
envio e instalação dos colonos, recuou diante dos
custos com a medição. De maneira que forçoso me
foi ceder por quinhentos milhões ao engenheiro dos
trabalhos hidráulicos um privilégio, para a
obtenção do qual eu gastara, em solicitações,
duas vezes esta soma, ainda destinada, em parte, ao
equipamento e às necessidades de meu filho. Mas o
engenheiro colonizará, isto é o que me falava ao
coração. Irá a Lima em janeiro próximo, com meu
filho casado.
Vários diretores de colônias
nascentes, que conheci, aí fizeram fortuna e
renunciaram a suas funções quando a safra era
insignificante. Assim foi em Santa Maria da Soledade,
cujas terras, inicialmente concedidas ao Sr. Conde de
Montravel, retornaram ao estado.
Passei sozinha, em suas florestas,
os primeiros dois anos de minha estada no Brasil e
hoje sinto saudades da pobre choupana onde com tanta
freqüência tive medo. Agradaria a Vossa Majestade
aí fazer colocar como diretor meu pobre estropiado,
que sua enfermidade colocaria à vontade? Talvez esta
colocação seja pouco disputada, reduzida que está
aos simples emolumentos da direção.
Algumas colônias ainda se
encontram disponíveis, tentaremos povoá-las. Ouso
assegurar que faria estes colonos, vivendo perdidos
em uma localidade pouco acessível, abençoarem Vossa
Majestade. Entre eles, acham-se algumas famílias
belgas, que o trabalho perseverante fez prosperar
tanto quanto o permite a posição de um país onde a
dificuldade do transporte diminui consideravelmente o
valor das colheitas.
Todas essas pessoas guardam de mim
uma boa lembrança e se meu filho obtém viver perto
deles, eu me esforçarei por adotar meu projeto de
construir sobre as colônias não ainda exploradas
simples habitações, de que os novos colonos
reembolsariam com prazer a pequena despesa,
encantados que ficariam com encontrar um abrigo, em
lugar de ter de plantar em plena floresta virgem, com
uma picareta na mão, forçados a confeccionar para
si uma habitação, e com freqüência perturbados
por não saber como se virar, trabalho desencorajador
após as fadigas de uma longa travessia e a uma
distância de algumas mil léguas do solo natal.
Rogo a Vossa Majestade para que
decida sobre as duas demandas relativas ao
primogênito e ao meu filho caçula; sua decisão a
respeito deles me fará tomar a de permitir ou não
que minha filha junte-se a nós aqui. A menina tem
tanta vontade disso que recusou um partido muito
vantajoso de que estava noiva na Bélgica na
esperança de que eu a autorize a vir viver conosco.
Sire, coloco sob a égide da
indulgência com que honrais vosso vulto entusiasta o
modo franco de falar que me permiti e a inconveniente
extensão de minha prosa. É absurdo de minha parte
ousar entreter Vossa Majestade de assuntos pessoais,
quando interesses tão graves quanto aqueles que o
ocupam nestes tristes dias reclamam suas
combinações e idéias.
Que coisa terrível, a guerra! E
maldita corja de desordenados! Meu Deus, não fossem
essas detestáveis coisas, eu teria tomado a grande
liberdade de contar aqui a história contemporânea
deste bom landgrave de Hamburgo cujo pequeno número
de súditos exigiu uma constituição que, com
prazer, eles hoje entregariam às chamas eternas.
Sempre para sustentar minhas opiniões.
Mais uma vez, sire, que vossa
bondade cubra com o perdão a ousadia de minha
linguagem. Ai de mim, por vezes esqueço, ao me
dirigir ao homem de coração e de inteligência fora
do comum, que escrevo a um grande soberano. Oh, mas a
este meu entusiasmo comunicativo fará votar um
culto. Recolhi cuidadosamente, para publicar com
felicidade, os feitos dos três meses, únicos na
história dos príncipes, que Vossa Majestade passou
nessa província.
Vosso descontentamento, sire, sendo
a coisa no mundo que me faria verdadeiramente
infeliz, queira não se lembrar do que, nesta carta,
poderia atraí-lo a mim, entretanto só ficarei
tranqüila neste ponto quando Vossa Majestade me
houver dado um novo sinal de sua indulgência,
fazendo-me saber que ela sempre me permite
orgulhar-me do título de
Sua respeitosa, inteiramente
devotada e terna súdita,
Mme. Van Langendonck
Porto Alegre, 21 de novembro de
1865