Uma aventureira nos trópicos
Paraíso vira inferno no relato de sexagenária que vem para o Brasil no século
19
Márcia Cavendish Wanderley
[02/NOV/2002]
UMA COLÔNIA NO BRASIL
Madame van Langendonck
Edunisc/Editora Mulheres, 171 páginas
R$ 25
Relatos de viagens feitas ao Brasil por estrangeiros anônimos no século 19 não
costumam despertar grande entusiasmo entre leitores comuns. A literatura de
viajantes, tema freqüente em dissertações de mestrado e teses de doutorado
em literatura brasileira, é pouco absorvida por um público mais amplo. Este,
entretanto, é um depoimento diferente, pois relata a experiência de uma
mulher em idade que, no século 19, era considerada avançada ou, para ser
mais radical, temida como o ocaso da vida.
Sem chances para ser, como Sofia Loren, a mais bela do mundo apesar dos 60
anos, mas com muita saúde e disposição, Madame Langendonck despenca, em
abril de 1857, de sua longínqua Bélgica para o Brasil, em aventura digna de
um Indiana Jones.
Destino: as matas selvagens do Rio Grande do Sul. A idealizada selva
brasileira, o admirável mundo novo, o paraíso tropical romantizado por mais
de uma geração de escritores europeus despertaram em nossa madura
exploradora os transportes emotivos mais juvenis: ''Enfim, vi-me em plena
floresta virgem! As árvores, as enormes lianas, a vegetação inteira, os pássaros
de esplêndida plumagem: tudo me era novo , tudo me maravilhava.'' Certamente,
''idade é estado de espírito'' para alguém que assim fala depois de
atravessar o Atlântico num navio de imigrantes, o brigue Amanda,
atravessar campos e prados gaúchos, rios caudalosos, escalar montanhas
escarpadas, e sofrer toda sorte de desconforto para cumprir o programa que se
prometera: uma vida nova num país novo. E, como seu singelo mas competente
relato testemunha, cumpre esta meta. Depois de um breve período em Porto
Alegre vai estabelecer-se em glebas do Caí, em Santa Maria da Soledade, na
Província de São Pedro, onde a esperava seu filho Leon em rancho rudimentar.
Ali então começa verdadeiramente sua aventura. Enfrenta perigos que vão do
contato com animais selvagens e insetos peçonhentos à convivência com
imigrantes degredados e assassinos recrutados em prisões ou entre a escória
mendicante da Europa.
Quase uma Robinson Crusoé de saias, enfrenta a solidão de uma choupana em
meio à mata virgem (pois seus filhos, agrimensores improvisados, ganhavam os
campos), combatendo bandos de macacos bugios que lhes roubavam as cestas de
milho deixadas no alpendre, e cobras , serpentes que invadiam sua casa e
instalavam-se até em sua cama. Uma história de terror passada em noites onde
não faltava ''aquele ganido rouquenho, entremeado de uma espécie de miado
lamentoso, na certa o bocejo de fome de algum tigre''. Terror maior ainda,
entretanto , encontrou no nosso famoso bicho-de-pé, que provocava gangrenas e
até amputações entre os colonos europeus desavisados.
Neste cenário dantesco, onde o paraíso tropical transforma-se em inferno
verde, Marie Barbe Antoinette Rutgeers van Langendonck vive dois anos de sua já
longa vida, adaptando-se ao feijão-preto e ao milho, dieta básica dos
colonos, aos processos rudimentares da agricultura indígena que critica pelos
danos causados à terra, assim como denuncia a corrupção e a velhacaria dos
diretores de colônias, ladrões de índios e negros, em seu ilícito
enriquecer. Nada lhe passa ao largo ao observar a avalanche em que esse mundo
novo se constrói numa rapidez que não é, segundo ela, acompanhada pelos
poderes públicos.
Lentidão irritante para seu dinamismo herdeiro de um capitalismo industrial já
dominante mas ainda ideologicamente atado a regimes absolutistas, que viam no
sistema constitucional brasileiro a causa de seu pouco progresso social:
''Somente um príncipe com vontade firme, conhecedor das necessidades de seu
país e das atitudes de seu povo, poderia, dispondo de um poder sem controle,
empurrar o Brasil, em poucos anos, por um caminho avançado de bem-estar e
progresso.'' E não é muito difícil imaginar quem seria para ela este príncipe:
dom Pedro II , que a recebeu pessoalmente no Paço de São Cristóvão no Rio
de Janeiro, em sua viagem de volta à Bélgica.
E foi o charme discreto da nobreza, e não o da burguesia, que encantou essa
aventureira romântica saída de um livro de Alexandre Dumas, entusiasta de
coroas e brazões, mas infelizmente confusa em suas idéias de justiça social
e étnica.
Enquanto cobre de pétalas o príncipe brasileiro, ''um dos mais belos homens
que se pode ver'', enfatizando a ''dignidade no porte, a estatura, a doçura
do olhar, a simplicidade e a bonomia'' do seu ídolo, à influência dos
negros escravos imputa o desleixo moral e dos instintos que constituiriam os
malefícios de nossa educação: ''A escravidão, tal como a vi no Brasil,
parece-me menos funesta aos negros do que prejudicial à raça branca.
Quaisquer que sejam as causas, o fato é que os maus instintos inerentes à
natureza do negro deixam bem pouco espaço para os sentimentos de probidade,
de pudor e de moral. No entanto, é no meio destas criaturas que os
brasileiros deixam seus filhos chegarem à idade da razão: essas crianças são
educadas com os negrinhos e brincam com eles, que, para algumas coisas, nunca
são crianças.''
As evidências moralistas desta e de outras pérolas preconceituosas arrancam
a máscara desta nem tão jovem e nem tão moderna ''quase heroína romântica'',
que, para ser legítima, teria de colorir-se das tintas do ideário liberal
democrático, que, em si próprio, nem é tão liberal e nem tão democrático
quanto se espera.
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