Da estante dos
forasteiros
Augusto Meyer
Em 30 de abril de 1857, Maria Van Langendonck, uma
belga seduzida pela miragem do paraíso americano,
embarca no brigue Amanda, com destino ao porto
de Rio Grande. Começa a aventura de uma colônia
malograda, e Maria trava relações com um transporte
de emigrantes, cento e cinqüenta emigrantes
alemães. Durante a travessia, apesar da confusão e
da sujeira, a solidariedade é um fato: os emigrantes
catam-se mutuamente as muquiranas, a mão direita
lava a esquerda, o roto ajuda o esfarrapado.
Mantém-se o equilíbrio estatístico, pois morrem
três, mas nascem outros tantos.
A 9 de julho, a entrada na barra do Rio Grande é
aquela peleja de sempre. O despejo de toda a carga de
água potável não impede o encalhe pela proa;
removem-se de proa a popa as correntes e a ferragem
mais pesada, os passageiros fazem um passo de carga
acelerada muitas vezes, de um extremo a outro do
convés. Até que o brigue afinal recomece a flutuar,
desencalhado.
Maria demora-se uns dez dias em Porto Alegre e
segue depois para as suas glebas num lanchão, pela
estrada real, que era o Jacuí. O Jacuí anda
espelhado e clamo, as margens são pitorescas, pouco
antes do anoitecer os catraieiros amarram a
embarcação a uma das árvores marginais, que
esgalham à beira-rio. Mas, à meia-noite, desaba um
violento aguaceiro. No outro dia, as águas
correntosas começam a subir, os viajantes ficam
retidos naquele abrigo improvisado, e só ao cabo de
semanas chegam finalmente à sede da Colônia
Harmonia, do Conde de Montravel. A Sociedade
Montravel, Silveira & Cia., fundada em 1855,
assumia o compromisso de introduzir na Província
1440 colonos, mediante um adiantamento de quinze mil
réis por colono, conforme tivesse este mais ou menos
de doze anos de idade, além de um empréstimo de
cinqüenta e sete contos de réis. Estou seguindo as
aventuras de Maria numa obra que apareceu há mais de
um século em Antuérpia. Intitula-se Une colonie
au Brésil: récits historiques, par Madame van
Langendonck, Anvers, Imp. L. Gerrits, 1862. O
livrinho, de 152 páginas, está pedindo tradução,
introdução, anotação. É uma das grandes
raridades da nossa Estante dos Forasteiros; por
enquanto, há notícia de apenas dois exemplares, em
bibliotecas brasileiras.
Maria van Langendonck trava relações com a
derrubada de matas, a coivara, a lavoura de rotação
de terras. Todos nós sabemos que, até meados do
século, Portugal e Espanha conservaram o arado de
madeira, com a mesma forma originária do tempo dos
Faraós. É um arado venerável, que aparece na
história cerca de 3000 anos a.C. E todavia, nem esta
herança cultural imperfeita, de rotina ou
retardamento, chegou a penetrar na pobre Terra de
Santa Cruz, em que o engenho e a criação de gado
estrangulavam o desenvolvimento da agricultura,,
impedindo a difusão dos sistemas agrícolas
rudimentares, fossem eles de Portugal ou do sul da
Europa. Eram sistemas de há muito superados, e já
então o pequeno arado de ferro ou aço, o cavalo ou
mula como animais de tiro e carroção de quatro
rodas abriam novo período na história dos sistemas
agrícolas do norte da Europa e da América.
Quanto Maria van Langendonck vai estabelecer-se
nas suas glebas do Caí, em Santa Maria da Soledade,
colônia onde a esperava seu filho Léon, que já
construíra um rancho, entra em pleno desenvolvimento
a inevitável adaptação do colono aos processos
rudimentares da agricultura indígena, adaptação
que envolve uma verdadeira regressão a padrões
culturais inferiores. É a derrubada , a rotação de
lavouras. É o uso do fogo, não só como auxiliar no
preparo do solo, para combate às ervas daninhas, mas
no aspecto negativo, arrasador a longo prazo, de
exaustão de terras e erosão fatal. Em muitos casos,
não será usado nme mesmo o arado egípcio, com
junta de bois, mas o simples sistema de plantio de
cova.
Toda a América do Sul pode servir de exemplo
típico ao "cultural lag", experiência
ideal para antropólogos e sociólogos. Já o dizia
Lynn Smith com a serenidade e segurança de sempre,
em memorável tertúlia de 20 de agosto de 1946, na
sede do Conselho Nacional de Geografia: "O peso
morto do atraso cultural mantém em uso formas e
processos sociais obsoletos, muito após tendências
e processos mais adiantados e eficientes se
encontrarem à mão. E acrescentava: "Se até
mesmo esses traços culturais imperfeitos não podiam
passar de Portugal para o Brasil, a possibilidade de
uma difusão clandestina de outros países europeus
para o pequeno mundo português hermeticamente
fechado a Terra de Santa Cruz era,
naturalmente, ainda menor".
São considerações que logo acodem, à margem da
leitura deste livrinho tão sugestivo, em seu
genuíno conteúdo. Maria van Langendonck refere-se
à falta de meios de transporte, à incúria ou
velhacaria na seleção dos emigrantes, ao desleixo
ou corrupção dos diretores de colônias (v. p
89-92). Talvez não soubesse que as causas remotas
vinham de muito longe, no tempo e no espaço, e o
quadro cultural era o mesmo em quase todo o sul da
Europa e nos países ibéricos.
Mas, deixemos de lado as sugestões paralelas e
voltemos ao texto. Maria van Langendonck sabe relatar
com simplicidade. Assenta-lhe muito bem certa nota
ingênua, uns laivos de sensibilidade romântica,
aquele romantismo dos desiludidos da Europa os
"Europamuede" fascinados pela
miragem americana das terras virgens e atraídos
também pelos engodos da propaganda colonialista: é
só chegar, plantar, colher e enriquecer, diziam os
agentes na Europa. Foi tema de mais de uma novela,
bastando lembrar que sugeriu a Daudet essa pequena
obra prima: PortTarrascon, o terceiro
volume de sua trilogia tartarinesca.]
Desbravado um largo trecho de terra em meio da
mata, construído o rancho, vai começar o seu
aprendizado da solidão. Os filhos andam por longe,
na lida de agrimensores improvisados. Ao cair da
noite, a espessura parece que desperta com vozes
misteriosas. Serão os bugres de que tanto se fala
nas colônias? Arrasam, matam, saqueiam e levam as
mulheres.. Serão os negros fugidos, em
concentração nas brechas, demandando talvez algum
quilombo distante? De vez em quando um coro de bugios
prognosticando chuva... E aquele ganido rouquenho,
entremeado de uma espécie de miado lamentoso, na
certa há de ser o bocejo de fome de algum tigre...
Num desses momentos de terror, depois de ouvir
toda a noite estranhos rumores no galpão que lhe
servia de cozinha, , Maria, só ao raiar da madrugada
vem a descobrir a causa. Ao sair para o terreiro,
leva com um grosso galho de árvore pela cabeça. De
nariz no ar, descobre afinal um respeitável bugio à
espreita, entre a ramaria, "um gros singe roux
qui avait lair de regarder avec curiosité
leffet de sa provocation". Os bugios
arrastavam enormes cestos cheios de espigas de milho
e se banqueteavam ali mesmo. Afirma a autora que num
milharal granado eles se aproveitavam da palha para
atar as espigas em verdadeiras réstias, e carregavam
desse modo uma provisão de milho sob a forma de
cintos. "Ils se font une ceinture des épis
quils nouent ensemble avec leur paille, et
parfois dévastent em une nuit la plus grande partir
dune récolte."
A alimentação, ao fim de algum tempo, já não
podia contar com o reforço da caça abundante. Com a
devastação continuada, os jacus e jacutingas
("jacoutines", escreve ela) escasseavam,
já não se via nem sinal de tatus, e a perdiz, quase
oferecida a princípio, desaparecera de todo. Maria,
que tanto sofrera com as náuseas, provocadas pelo
charque (os catraieiros caminhavam sobre as mantas de
carne seca, estendidas no lanchão) aprenderá a dura
lição que é a dieta obrigatória do colono. Foi
como sempre o feijão preto o grande prato de
resistência, como de resto seria também o título
de glória, na produção dos primeiros colonos.
Mosquitos, tigres, cobras e aranhas, na sua
resignada experiência, ainda parecem flagelos suaves
comparados ao implacável "biche-des
pieds". Maria, como quase todos os viajantes,
consagra ao bicho de pé mais de uma página. Para
compensação, há também os momentos pitorescos: a
visita a um velho colono, estabelecido à margem do
Jacuí, a viagem pela mata virgem; uma noite de São
João no meio da picada, com fogueira, descante à
viola, sortes de clara de ovo; curas mágicas de
hérnia e mordida de cobra; um tigrezinho criado por
Maria; descrições de tipos e paisagens; certas
minúcias realistas com referência a usos e
costumes, que em duas ou três penadas traçam todo
um quadrinho social em flagrante.
Não é livro para vizinhar com os grandes, na
"Estante dos Forasteiros", ao lado de um
Saint-Hilaire, um Dreyz, um Isabelle, um
Avé-Lallemand. Mesmo no âmbito mais restrito do seu
tema, a vida colonial, não chega a ombrear com
Funke, Hornmeyer, Gerstaecker, Lange. Mas caberia
muito bem no programa editorial do Instituto Estadual
do Livro, que anda tão esquecido de seus
compromissos.