Coreografias do feminino 

Carla Rodrigues. Coreografias do feminino. Florianópolis: Editora Mulheres, 2009. 136 p. R$ 35,oo

Esse negócio de ser mulher é mais difícil

do que parecia originalmente.

Judith Butler


Apresentação

Quando, em março de 2008, a banca examinadora aprovou com indicação de publicação a minha dissertação de mestrado – O sonho dos incalculáveis: coreografias do feminino e do feminismo a partir de Jacques Derrida –, passei a perseguir a idéia de publicá-la, desde que fosse possível torná-la acessível ao público interessado nos temas que discuto. Ao objetivo inicial do trabalho  acabou se somando a intenção de trazer para o debate as questões que o pensamento da desconstrução – chamado de pós-estruturalista nos EUA, rótulo recusado por Jacques Derrida – aporta à teoria feminista.

Meu interesse por questões feministas vem de longa data e foi um privilégio ter a calorosa acolhida no Núcleo de Estudos sobre Ética e Desconstrução, e do meu orientador, o hoje amigo Paulo Cesar Duque-Estrada. Discutir gênero dentro da filosofia tem sido um desafio e ao mesmo tempo uma grande oportunidade de reflexão que compartilho com os leitores destas coreografias do feminino.

Trata-se de discussões que aparecem no entrelaçamento entre as proposições de Derrida e as teóricas feministas que, impulsionadas pelo seu pensamento, exploram formas e modos de levar adiante o pensamento da descontrução: desconstrução da primazia do masculino, desconstrução das hierarquias que subordinam o feminino, descontrução das lógicas opositivas que contrapõe masculino e feminino.

Estas reflexões aparecem em artigos que se pretendem independentes, mas que se entrelaçam em pelo menos um ponto: as possibilidades da aliança entre o pensamento da descontrução e a teoria feminista no sentido de abrir novas possibilidades ao feminismo, que chegou ao final do século XX sob forte questionamento. Acusado de ter se tornado desnecessário, o que esse livro pretende demonstrar é o quanto a política feminista ainda pode contribuir para o questionamento de estruturas hierárquicas e para o fim da suposição de superioridade do masculino em relação ao feminino.

Trata-se de embaçar, estremecer, abalar as posições fixas que fundamentam o masculino e o feminino, não para por um fim nas diferenças, mas para reconhecer que as diferenças são mais complexas do que as suas supostas estruturas binárias. Esta questão posta por Derrida se abriu como uma chance de estabelecer na filosofia o debate sobre gênero e sobre o arraigado campo das identidades, sobre o qual estão estruturados os movimentos emancipatórios como o feminismo. Coreografias é o título original de uma entrevista entre Derrida e a teórica feminista Christie Mcdonald. Eles trocaram correspondências num debate que tem o livro Éperons como ponto de partida. Apoiado numa leitura de Nietzsche, em Éperons ele vai afirmar que as feministas são como filósofos dogmáticos, que para Nietzsche, são messiânicos, metafísicos e moralistas.

Essa associação de Derrida às críticas de Nietzsche vai causar profundo desconforto e tensão entre o filósofo e muitas teóricas feministas. Explorar essa tensão foi um dos meus objetivos, sempre buscando explorar as aproximações possíveis entre o pensamento da desconstrução e muitas teóricas feministas que tomaram a desconstrução como ponto de partida de suas reflexões.

Muitos autores, na tentativa de explicar o pensamento da desconstrução, afirmaram que este pode ser entendido como “um pensamento que quer ir além”, “uma filosofia do impossível”, “uma filosofia do limite”. É neste “ir além” das conquistas já realizadas, é neste “impossível” que este trabalho coloca seu foco.

Para isso, divido o livro em três partes: na primeira, apresento em três artigos que mostram alguns dos aspectos que Derrida explorou no tema do feminino. Na segunda parte, três outros textos exploram as ligações entre o pensamento da desconstrução e a teoria feminista, de tal forma a demonstrar as possibilidades de aliança, dialogando com teóricas feministas como Judith Butler, Joan Scott, Gaiatry Spivak, Elizabeth Groz e Diane Elam, entre outras, em busca de argumentar a favor dessa aliança. Na parte final, discuto questões ligadas ao tema dos direitos iguais, levando em consideração a problematização que Derrida faz em relação aos direitos e me engajando na proposição de Drucilla Cornell a respeito da equivalência de direitos.

Todo esse trabalho só foi possível graças à Coordenação Central de Pós-Graduação, que me concedeu bolsa de isenção e tornou viável a realização desta pesquisa, feita no Programa de Pós-Graduação do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Fundamental também foi o apoio do professor Cesar Romero Jacob, do Departamento de Comunicação Social, em que leciono. Aos colegas do Núcleo de Estudos em Ética e Desconstrução (NEED/PUC-Rio), agradeço pelo acolhimento, cumplicidade, amizade e tudo mais. Ao meu orientador, Paulo Cesar Duque-Estrada, pelo dom, pela hospitalidade e pelo privilégio.

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