Oroonoko ou o escravo real

Aphra Behn

Crítica

   

“Espiã e dramaturga, viajante e intelectual, Aphra Behn foi a primeira mulher na Inglaterra a escrever profissionalmente. Numa época em que muitas mulheres de letras eram aristocratas, como Anne Finch, condessa de Winchilsea, e Margaret Cavendish, duquesa de Newcastle, ricas damas que alegavam escrever apenas por prazer e pelo reconhecimento de amigos, Behn era uma viúva da classe média que escrevia francamente por dinheiro e pelo reconhecimento público.”

 “Vagamente baseado em fatos reais, Oronooko (1688) supostamente narra as experiências de Aphra Behn no Suriname. Incluindo uma apaixonada denúncia da instituição da escravatura, constitui-se numa novidade literária que teria importante papel no desenvolvimento de uma nova forma narrativa, o romance, no qual segundo alguns críticos as mulheres finalmente encontraram um gênero literário todo seu.”

 Sandra Gilbert & Susan Gubar  
The Norton Anthology of Literature by Women (1985)

 


Seu humor [das comédias de Aphra Behn] parece ser geralmente reconhecido e é igualmente reconhecido que são deveras indecentes, razão pela qual não me senti na obrigação de examiná-las. Teria sido uma atividade desprezível a de avaliar um humor que, dedicado ao impudor e ao vício, não deve nem mesmo ser detestado e sim consignado, se possível, ao esquecimento eterno.

Dr. Kippis (1778)

 

Mrs. Behn foi uma mulher de classe média com todas as virtudes plebéias de humor, vitalidade e coragem; uma mulher forçada pela morte de seu marido e por algumas infelizes aventuras pessoais a ganhar a vida através de sua inteligência. Teve que trabalhar em igualdade de condições com os homens. Trabalhando muito duro, conseguiu o bastante para viver, fato que supera qualquer coisa que tenha efetivamente escrito [...], pois aí começa a liberdade da mente.

Virginia Woolf (1929)

 

Poetisa espirituosa e autora de comédias lascivas, [...] Aphra Behn levou uma vida cheia de aventuras e algo duvidosa. Passou certo tempo em Surinam; Oroonoko, romance meio autobiográfico, descreve com realismo surpreendente os sofrimentos dos escravos pretos [...]. Na verdade, ela pretendeu antes opor, em contraste vivo, os bárbaros primitivos aos civilizados decadentes e, portanto, corrompidos e cruéis [...]. Aphra Behn tinha muito talento. Oroonoko seria uma obra-prima se não fosse um romance heróico-galante, com os defeitos fatais do gênero.

Otto Maria Carpeaux (1954)

 

Há várias razões, além da natureza meta-histórica de Oroonoko, para que ele desperte o interesse tanto do novo-historicismo quanto do feminismo. Em primeiro lugar, e mais obviamente, trata-se de um texto do início do colonialismo inglês [...]. Em segundo lugar, é um texto de uma mulher em que a feminidade do sujeito que narra é fonte vital de sua autoridade [...]. É, portanto, um texto que levanta uma série de questões cruciais para a crítica contemporânea [...]. Como uma alegoria de conflitos raciais e sexuais, Oroonoko apresenta um drama conhecido do leitor contemporâneo, ao mesmo tempo em que o entrelaçamento de história política, ideologia conservadora (Tory) e teorias sobre raça e monarquia do final do século XVII o tornam radicalmente “outro” para nosso entendimento dessas categorias.

Ros Ballaster (1992)

 

Algumas das contradições de Oroonoko estão relacionadas àqueles elementos que o caracterizam como uma obra de transição no desenvolvimento do romance: a combinação do mundo cortês do “romance” (personificado ironicamente num escravo negro), e o novo mundo de leitor contemporâneo e da narradora. Estes elementos não podem ser separados da questão de raça. Oroonoko é a história do escravo real da perspectiva de uma senhora colonial de classe média. O protagonista, homem negro, só tem voz através da narradora, mulher branca.

Ruth Nestvold (1995)

 

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