Dicionário de escritoras portuguesas 

Conceição Flores; Constância Lima Duarte e Zenóbia Collares Moreira. Dicionário de Escritoras Portuguesas - das origens à atualidade . 2009. 336 p. R$ 45,00.

Orelha


Tinham razão as famosas três Marias ao se perguntarem, nos anos 70 que já são história: “mas o que pode a literatura? Ou antes: o que podem as palavras?” Sua pergunta ecoava num tempo em que as mulheres, em Portugal, ainda lutavam contra um espesso manto de silêncio, a encobrir cada uma de suas palavras, de forma aberta ou velada, mas de todo modo violenta. No entanto, sabemos hoje, as mulheres em Portugal, como em outras partes do mundo, sempre encontraram formas de se expressar, ainda que silenciadas, censuradas ou simplesmente ignoradas. Já na origem dessa literatura, encontramos seus cantos de trabalho, de amor e de folguedos, que seriam incorporados à tradição como “cantigas de amigo”. Na forma como tais cantigas passam a integrar o cânone ocidental, percebemos, como assinala Ria Lemaire, o processo de desaparecimento de ricas tradições orais em que predominava a autoria feminina. Este processo se estende, de modo mais ou menos contínuo, perpetuando a hegemonia de uma cultura escrita e predominantemente masculina, até meados do século XX. De fato, como assinala Chatarina Edfeldt, em sua investigação sobre o lugar da autoria feminina na historiografia literária portuguesa, até a década de 50, não se encontram, nesta tradição literária, os rastros de uma genealogia feminina. Nesse sentido, o trabalho de Constância Lima Duarte, Conceição Flores e Zenóbia Collares Moreira, dedicado a recolher, reunir e dar forma inteligente e sensível às informações dispersas sobre duas mil mulheres escritoras em Portugal, vem alterar significativamente esta história de imperdoáveis esquecimentos e lacunas. Do século XV até o presente, encontramos, neste Dicionário de Escritoras Portuguesas, as vozes de duas mil mulheres a manifestarem suas lutas e sofrimentos, suas alegrias e amores. Encontramos, enfim, o registro escrito, nas mais variadas formas, de uma experiência feminina que, felizmente, não se perdeu. Resultado de um respeitável empreendimento de pesquisa, este Dicionário nomeia e celebra as escritoras do passado, e dialoga também, com igual vibração e rigor acadêmico, com as escritoras do presente. Tal procedimento nos faz recordar as palavras de Virginia Woolf, quando afirmava que, através do nosso trabalho, a “irmã de Shakespeare” encontra sua chance de nascer, “extraindo sua vida das vidas das desconhecidas que foram suas precursoras”. A concretização de um projeto como este renova nossa certeza no caráter transformador da crítica feminista, que alterou definitivamente o cenário da história literária, promovendo, como vemos nestas páginas, o encontro das escritoras que, em diferentes momentos da história, recusaram o silêncio.

Simone P. Schmidt(UFSC)

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