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Gênero em discursos da mídia |
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Susana Bornéo Funck & Nara Widholzer (orgs). GÊNERO EM DISCURSOS DA MÍDIA. Co-edição EDUNISC. 2005. 336 p. APRESENTAÇÃO
Os estudos de gênero surgiram e afirmaram-se como decorrência do alargamento das fronteiras teóricas da crítica feminista, oriunda por sua vez da vertente intelectual – mas não menos política – do movimento de mulheres que se instaurou no Ocidente nas décadas de 1960 e 1970. Se tomarmos como ponto de partida desse “feminismo da segunda onda” o clássico A política sexual (1970), de Kate Millett (embora o mesmo argumento possa ser construído a partir de outros “textos inaugurais”, como Um teto todo seu (1929), de Virginia Woolf, e O segundo sexo (1947), de Simone de Beauvior), veremos que a questão da representação discursiva é fundamental para que se compreenda e se busque desmantelar a assimetria de gênero que informa nossas práticas culturais. Argumentava Millett, a partir da leitura de autores canônicos como D.H. Lawrence e Henry Miller, que as personagens femininas eram produto de uma tradição literária – e, por extensão, de uma prática social e discursiva – em que a mulher só podia ser representada como subordinada ao homem. Considerando-se que os sistemas de gênero, ou seja, as relações entre masculino e feminino, são construções culturais históricas que não emanam da natureza dos corpos, e sim de uma ordem simbólica patriarcal, tornou-se politicamente necessário olhar para o discurso como lócus privilegiado de representação. Como enfatizaram várias teóricas feministas das décadas de 1980 e 1990, as histórias que contamos e o modo como nos imaginamos e nos representamos têm fortes implicações políticas, uma vez que o discurso é também um importante lugar de contestação de práticas sociais naturalizadas. Mesmo que, nestes tempos de crise do sujeito, de identidades múltiplas e provisórias, as representações possam ser vistas apenas como mediações, elas afetam nossas filiações e identificações ideológicas. Para Ella Shohat, em entrevista concedida à Revista Estudos Feministas, “O imaginário é muito real e o real é imaginado. Precisamos constantemente negociar a relação entre o material e sua narrativação”. Os estudos contemporâneos de gênero e da cultura em geral têm, portanto, suas bases solidamente firmadas na materialidade do discurso. Conforme sugere Judith Butler (1990), o gênero não é uma categoria fixa e sim “uma repetição estilizada de atos”, ou seja, algo temporário e performativo. A possibilidade de mudança reside exatamente no caráter arbitrário da relação entre os atos, na possibilidade de alterar ou impedir tal repetição, ou de parodiá-la de modo a expor sua precariedade. Para a autora, a força política do feminismo deixa de residir numa essência pré-discursiva, para se concentrar na desnaturalização das práticas de significação. Enfoques semelhantes informam os trabalhos de Donna Haraway (1991) e de Rosemary Hennessy (1993). Com base na figura do cyborg, definido como uma mistura de imaginação e realidade material, Haraway propõe uma prática de representação híbrida, que possa inverter “os dualismos hierárquicos de identidades naturalizadas”. Hennessy igualmente enfatiza a importância do discurso na contestação de práticas sociais e propõe a crítica ideológica como estratégia política, sugerindo o exercício de uma leitura sintomática, definida como um esforço para tornar visível “aquilo que a ideologia hegemônica não menciona.” Ler sintomaticamente, segundo ela, significa revelar a historicidade dos textos culturais e expor os arranjos sociais abusivos que tais textos encobrem. A resposta para relações de gênero mais simétricas e menos opressivas reside na possibilidade que temos de re-narrar-nos e de nos representarmos como sujeitos em nossa especificidade histórica e em nossas múltiplas diferenças. Outra importante teórica, Teresa de Lauretis (1987), vê o gênero como uma tecnologia foucaultiana, afirmando não só que gênero é uma representação, mas que “a representação do gênero é (também) a sua construção”. A teoria crítica feminista contemporânea parte, portanto, do pressuposto de que as convenções lingüísticas estão intimamente imbricadas com as hierarquias estabelecidas pelo sistema social de sexo/gênero na cultura ocidental. Convenções discursivas, mesmo nas suas mais “criativas” instâncias, tendem a traduzir e perpetuar relações sociais naturalizadas pelo senso comum. Mas, se levarmos em conta o caráter construído dessas relações, poderemos também reconhecer a possibilidade de des/re/construção que tais espaços proporcionam. O discurso aparece, desta forma, como o lugar por excelência da luta hegemônica, num sentido gramsciano, no qual os significados sociais podem ser revisados e subvertidos. Numa cultura em que as relações de poder são cada vez mais midiatizadas, conforme argumenta John Thompson em Ideologia e cultura moderna (1990), qualquer análise cultural deve ser “o estudo das formas simbólicas – isto é, ações, objetos e expressões significativas de vários tipos – em relação a contextos e processos historicamente específicos e socialmente estruturados dentro dos quais, e por meio dos quais, essas formas simbólicas são produzidas, transmitidas e recebidas”. Desse modo, a maior ou menor valoração dos bens simbólicos depende de sua inserção em instituições e mecanismos de comunicação de massa. O campo da semiótica social torna-se, assim, um lugar privilegiado para o trabalho de pesquisadores de diferentes áreas disciplinares no seu intuito de identificar e expor à crítica ideologias e formas de poder baseadas na diferença. Tornar visíveis as relações de gênero que nos interpelam através da mídia e proporcionar espaços para que se vislumbrem novos discursos são o objetivo maior dos trabalhos que ora apresentamos. Este livro surgiu de nossa atuação na linha de pesquisa Texto, Discurso e Relações Sociais, do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Católica de Pelotas. A partir de um interesse nas relações de gênero e em sua representação pelo discurso, buscamos reunir análises, de diferentes saberes disciplinares, que de uma forma ou de outra tratassem de questões de gênero e de representação (ou representatividade) em discursos da mídia. Na seção sobre Publicidade, Nara Widholzer, Edison Gastaldo, Ana Lídia Bisol e Ruth Sabat analisam anúncios dos mais variados produtos e serviços a partir de referenciais teóricos da Análise Crítica do Discurso, da Antropologia e dos Estudos Culturais. Widholzer focaliza a textualização dos corpos e analisa as marcas de gênero em anúncios publicitários direcionados ao público feminino. Apoiado nos trabalhos de Erwin Gofman e de seus críticos, Gastaldo parte da relação entre gravura e texto para demonstrar como a publicidade retrata as relações sociais estabelecidas no interior de uma família brasileira. Bisol aborda a publicidade turística, fazendo uma interessante análise do papel da mulher no interior desse setor de serviços. Sabat apresenta os conceitos hegemônicos de masculinidade e feminidade que são reforçados ou construídos por anúncios cotidianos, que vão de peças automotivas ao tradicional café de nossa rotina diária. O amplo espectro analisado acaba por revelar a necessidade de uma maior aproximação entre os estudos de gênero e a prática publicitária. Os artigos de Carmen Rosa Caldas-Coulthard, Astrid Nilsson Sgarbieri, Fabiana de Amorim Marcello e Nucia Alexandra Silva de Oliveira, que compõem a segunda seção, voltam o olhar crítico para a representação da mulher nas páginas das revistas populares de circulação nacional. A partir de aspectos teóricos pontuais da Análise Crítica do Discurso, Caldas-Coulthard aborda a pseudoliberação feminina tão decantada em periódicos como Marie-Claire e Nova, através de narrativas de transgressão sexual. Também baseando-se nas teorias de discurso de Fairclough e Van Dijk, Sgarbieri analisa a representação da mulher na política encontrada nas páginas de revistas semanais como Veja, Época e Isto É. Utilizando-se do referencial teórico foucaultiano, em especial dos conceitos de dispositivo e de visibilidade, Marcello focaliza sua atenção na maternidade, ou em como a mídia constrói diferentes formas de “ser mãe” e de “ser mulher”, a partir das representações atribuídas a personalidades femininas da mídia tão diversas quanto Xuxa, Vera Fischer, Luciana Jimenez e Cássia Eller. E o ideal de beleza feminina, conforme apresentado nas páginas de revistas publicadas entre 1960 e 1970, constitui o enfoque central da historiadora Nucia Oliveira. Na terceira parte do livro, apresentamos os estudos de Sônia Weidner Maluf, Miriam Adelman e Rosa Maria Bueno Fischer, que focalizam o cinema e a televisão. Maluf volta seu olhar para o “gênero na margem”, possibilitando uma importante e necessária mirada para além da dicotomia feminino-masculino que os estudos de gênero buscam desmontar. Adelman, partindo da consideração de mitos masculinistas, apresenta exemplos de re-significação da mulher e das relações de gênero no cinema. Fischer aborda a questão da subjetividade feminina e da diferença, na enunciação do feminino na televisão brasileira, com base em conceitos de Michel Foucault, Homi Bhabha e Maria Rita Kehl, articulando teorias sobre mídia, educação e gênero. Na quarta e última seção, Jussara Prá, Telia Negrão e Viviane Heberle abordam a Internet como espaço de empoderamento e de construção de (novas) identidades para a mulher. Prá e Negrão investigam como ambientes mediados por computador permitem novas interações comunicativas que se afiguram como elemento fundamental para a participação social e política da mulher, especialmente na América Latina. Heberle, tendo como fundamentação teórica a Análise Critica do Discurso e a multimodalidade, examina interações em ambientes multimidiáticos, argumentando que na comunicação mediada por computador, como em outras práticas discursivas, o discurso pode funcionar como reflexo, reprodução e perpetuação de relações sociais existentes, ao mesmo tempo em que pode ser um desafio a essas relações. Esperamos que os artigos aqui reunidos (oriundos de áreas distintas como discurso, antropologia, jornalismo, educação, história, ciência política e sociologia) possam suscitar novas discussões e investigações interdisciplinares que estabeleçam um diálogo cada vez mais íntimo e profícuo entre as áreas de gênero, discurso e mídia.
Susana Bornéo Funck Nara Widholzer
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