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Gênero, feminismos e ditaduras no Cone Sul |
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Este livro foi financiado pela Secretaria Especial de Políticas para Mulheres-e não será vendido. APRESENTAÇÃO
Os capítulos deste livro são
oriundos das mesas redondas apresentadas no Colóquio Internacional Gênero,
Feminismos e Ditaduras no Cone Sul, realizado na UFSC - Universidade Federal de
Santa Catarina, entre 4 e Desde março de 2006 Joana Maria Pedro vem coordenando uma pesquisa A partir destas pesquisas, formamos uma equipe no Laboratório de Estudos
de Gênero e História da Universidade Federal de Santa Catarina que vem se
empenhando em realizar investigações comparativas que enfocam o tema Gênero,
feminismos e ditaduras nos países do Cone Sul. Entre estes projetos estão
“Movimento de Mulheres e Feminismos em tempos de ditadura militar no Cone Sul
(1964-1989)”, coordenado por Joana Maria Pedro e “Relações de gênero na luta da
esquerda armada: Uma perspectiva comparativa entre os países do Cone Sul. Para realizar o trabalho investigativo, contamos ao longo destes anos com
financiamentos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Científico
(CNPq – através do Edital conjunto com a Secretaria Especial de Políticas para
as Mulheres; Edital Universal, Edital de Ciências Humanas, Bolsas de
Produtividade em Pesquisa, Bolsas de Iniciação Científica e de Pós-doutorado
Júnior) da Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado de
Santa Catarina (FAPESC, através de Editais Universais). Com estes recursos
visitamos os vários países do Cone Sul e entramos em contato e conhecemos
várias/os pesquisadoras/es que trabalham com temáticas semelhantes, realizamos
entrevistas, coletamos dados do período de Nesta atividade o movimento realizado foi o nosso, de sair do Brasil e ir
para estes países. O que propusemos com o Colóquio Internacional Gênero,
Feminismos e Ditaduras no Cone Sul foi um movimento contrário: a vinda de
algumas pessoas que significaram, para além da escrita de uma história
comparativa – nosso projeto inicial – a formação de uma rede de
pesquisadoras/es; a constituição A escolha dos intelectuais que participaram no evento foi pautada por suas trajetórias de pesquisa no assunto, por sua vida relacionada com os acontecimentos que estamos focalizando e, também, por serem pessoas importantes para a constituição de redes de relações acadêmicas. Além disso, são pessoas que têm uma produção sobre uma temática comum, se considerarmos o Cone Sul. Outra questão que convém salientar é que o tema do debate não é apenas a história recente do Cone Sul, mas a articulação entre “Gênero, Feminismo e Ditaduras”. Ou seja, o que foi destacado no debate foi a forma como as ditaduras nestes diversos países interferiram ou não nos movimentos feministas e de mulheres dos anos setenta e oitenta, na produção de mudanças ou permanências nas relações de gênero. Debatemos ainda de que maneira os movimentos sociais e as próprias ditaduras utilizaram o gênero em suas estratégias discursivas e em suas práticas de luta e/ou repressão, como viveram homens e mulheres suas trajetórias de luta e de exílio, a partir de uma perspectiva de gênero. Estes são os temas que aparecem neste livro em dois tipos de textos. Os textos colocados no início do livro são textos que fazem análises de processos ocorridos em um ou mais países, estabelecem comparações e apresentam resultados de pesquisas minuciosas. Ao final do livro, no entanto, consideramos importante também apresentar quatro textos que são também depoimentos de pessoas que viveram o momento estudado, mas que não deixam de também apresentar uma reflexão, calcada na experiência ulterior de cada uma das “depoentes”, sobre a centralidade do gênero e da discussão feminista para a compreensão do processo histórico em foco. No primeiro capítulo, ao centrar sua discussão sobre a relação entre gênero e memória, Alejandra Oberti analisa depoimentos de mulheres militantes de esquerda da Argentina que evidenciam como elas colocavam a militância e as tarefas da organização acima de tudo em suas vidas. Depoimentos sobre como se sentiam nas organizações, sobre partos realizados em situações difíceis, entre outros, mostram outras possibilidades de pensar as relações entre público e privado, valorizando questões que dificilmente foram pensadas como objeto da história e das ciências sociais. Andrea Andújar, no capítulo seguinte, analisa a questão das relações amorosas nas décadas de 1960 e 1970 na Argentina marcada pela emergência dos movimentos revolucionários, do rock’ and roll e do amor livre, usando como contraponto para as novas relações propostas aquelas que as novelas mostravam no cotidiano e que expressavam valores bastante tradicionais. Em seu capítulo Los desafíos del Cono Sur desde las perspectivas de las mujeres. La democratización de al democracia o la reinvención de una democracia latinoamericana, Margarita Iglesias Saldaña focaliza a emergência, nos anos setenta e oitenta de movimentos de mulheres, especialmente os dedicados aos direitos humanos no Uruguai, no Chile e na Bolívia. Articula esta história com a das mulheres que desde o final do século XVIII e especialmente no século XIX vem clamando por igualdade e cidadania. Alfredo Boccia Paz em seu capítulo Represión política y gênero em la dictadura paraguaya, apresenta uma ampla pesquisa sobre as formas de repressão sofridas por homens e mulheres no Paraguai. Fala de violações, torturas, exílio. Compara os números e principalmente, focaliza a diferença no tratamento que homens e mulheres receberam da polícia de Alfredo Strossner. Para Graciela Sapriza no capítulo Memória y memórias de mujeres em el relato de la dictadura (Uruguay, 1973-1985), memória e esquecimento tem um sentido ético e político. A autora se utiliza de vários tipos de fontes para empreender uma abordagem de gênero sobre o processo de repressão às iniciativas políticas de esquerda no Uruguai. Mostra como o corpo se constituiu em um espaço político nas mãos dos torturadores e constata assim que não era somente informações o que se buscava na tortura. Joana Maria Pedro apresenta narrativas sobre o feminismo nos vários países do Cone Sul, realizando uma comparação através de quadros em que demonstra a existência de muitas semelhanças e diferenças significativa também, nas trajetórias e nos discursos de mulheres que se tornaram feministas, ou se identificaram de alguma maneira com o feminismo no período das Ditaduras Militares. Em seu capítulo, Cristina Scheibe Wolff procura apresentar maneiras alternativas de se estabelecer comparações entre os diversos países do Cone Sul, com respeito às relações de gênero e a participação de mulheres em diversas organizações de esquerda armada. Utilizando especialmente depoimentos orais, e alguns documentos escritos, a autora atenta também para as diferenças entre as linhas ideológicas das organizações, e nas conjunturas sociais, econômicas e políticas entre os países. Através da analise do depoimento oral de Criméia Alice de Almeida Schmidt, que participou do episódio da Guerrilha do Araguaia, sendo uma das únicas sobreviventes, Margareth Rago chama a atenção em seu capítulo para as maneiras pelas quais o fato de ser mulher atuava na clandestinidade e na situação dada pela prisão e pela tortura. Ana Alice Alcântara Costa no capítulo O feminismo brasileiro em tempos de ditadura militar, narra a história do feminismo no Brasil durante o período da ditadura, articulando esta narrativa com sua própria trajetória de vida como feminista. Fala dos principais eventos que, desde o início da década de 1970 marcaram a formação dos grupos de mulheres, o surgimento de periódicos feministas, debates entre feministas e partidos de esquerda. Em seu texto, Cláudio Elmir problematiza a memória e a escrita autobiográfica ao analisar o livro Memórias do Esquecimento, de Flávio Tavares. Na narrativa da prisão, da tortura, de seus longos anos de exílio, o autor vai mostrando como Tavares explora elementos de seu corpo masculino, a sexualidade que perpassava as sessões de tortura e o próprio processo narrativo que se torna uma reconstrução do eu do narrador, também marcado pelo masculino. Rachel Soihet em seu capítulo Mulheres brasileiras no exílio e consciência de gênero, articula participação política e gênero. Mostra como o exílio proporcionou o contato de inúmeras mulheres brasileiras com o feminismo internacional, levando a formação de inúmeros grupos. Fala das dificuldades, das atividades e destaca a trajetória de Zuleika Alambert. Esta, de mulher envolvida com partido político veio a tornar-se feminista, ligada a partido. Enfim, o capítulo fala de transformações pessoais provocada pelo contado com o feminismo. Finalizando esta parte do livro, Olívia Rangel Joffyli mostra em O corpo como campo de batalha , através de testemunhos de mulheres torturadas pela repressão no Brasil, como o gênero era usado na tortura das mulheres, através da violência sexual, da tortura psicológica, do constrangimento, do apelo à maternidade e afetividade e, ao mesmo tempo, mostra as respostas e elaborações destas mulheres sobre o que viveram. Abrindo a segunda parte do livro,
numa rica mistura de testemunho e reflexão filosófica sobre a própria noção de
testemunho, memória e experiência, Alejandra
Ciriza conta de sua trajetória de militante do Partido Revolucionário de
los Trabajadores ( Miriam Suarez no seu depoimento intitulado Recordar pensando el pasado para repensar el presente, narra sua trajetória de vida no interior da história de seu país, a Bolívia, desde 1964, com a presença de Che Guevara. As ditaduras e as lutas através de organizações e partidos políticos, as prisões, as torturas, o nascimento de sua filha na prisão para quem deu no nome de “Libertad”, o exílio na Suíça, o contato com o feminismo, a crítica aos companheiros de luta, o enfrentamento e a união com a luta dos povos indígenas, são alguns dos temas que aparecem neste manifesto pela Liberdade. Em Memórias do cárcere de uma feminista ex post, Albertina de Oliveira Costa narra como vê as relações de gênero e classe que vivenciou na cadeia. Focaliza as relações entre torturada e torturador, entre presas e policiais. Destaque-se à análise que faz dos elogios à “coragem” das mulheres, presentes no discurso dos próprios militares e torturadores. Para fechar este livro e abrir o coração, Maria Amélia Telles apresenta um testemunho de sua militância, sua prisão, a tortura, a separação dos filhos, contando toda uma luta de constante reconstrução de si e de sua família. Mostra sua luta intensa e a esperança, que nunca deixou morrer, de uma sociedade transformada, com valores socialistas e feministas. Para encerrar esta apresentação gostaríamos de expressar nossos agradecimentos a todos os participantes do Laboratório de Estudos de Gênero e História – LEGH/UFSC que organizaram e trabalharam muito na realização do evento que gerou este livro. Além deste livro, o Colóquio gerou também um vídeo com as conferências e os anais do evento em que os textos completos foram publicados, disponíveis em http://www.coloquioconesul.ufsc.br. Vários dos componentes do Laboratório foram incansáveis e sem estas pessoas este Colóquio e todos os seus resultados não poderiam existir. Queremos destacar a atuação de Adriano Luna de Oliveira Caetano, Ana Maria Veiga, Andrei Martin San Pablo Kotchergenko, Cláudia Nichnig, Deusa Maria de Sousa, Felipe Bruno Martins Fernandes, Gabriel Felipe Jacomel, Gabriela Miranda Marques, Isabel Cristina Hentz, Isabella Cristina de Souza, Ivonete Pereira, Jaqueline Trajano, Joana Vieira Borges, Juliana Bez Kroeger, Larissa Viegas de Mello Freitas, Lídia Maria Vianna Possas, Lílian Back, Lorena Zomer, Luciana Rosar Fornazari Klanovicz, Maíse Caroline Zucco, Maria Cristina de Oliveira Athayde, Maria Laura Osta Vazquez, Mariana Joffily, Mário Martins Viana Júnior, Priscila Carbonieri de Sena, Roselane Neckel, Rosemeri Moreira, Sergio Luis Schlatter Junior, Soraia Carolina de Mello, Vivian Moretti. Queremos ainda agradecer a Carmem Ramos que, como um verdadeiro “anjo da guarda” vela por todas/os nós, e sempre que estamos em apuros é a ela que recorremos. Outras pessoas ligadas ao IEG – Instituto de Estudos de Gênero e à Revista Estudos Feministas também nos ajudaram, foi o caso de João, Raphaela Cavalheiro, Jair Zandoná e André Parachen. Da mesma forma gostaríamos de agradecer a todos os que coordenaram grupos de pesquisa e que participaram do Colóquio, aos que com sua assistência, discussões, textos apresentados, certamente contribuíram para o aprimoramento dos textos aqui publicados. Um agradecimento especial vai também para as/os conferencistas convidadas/os, inclusive aquelas que acabaram por não apresentar seus textos para esta publicação. Vale ressaltar o apoio que tivemos
para a realização do Colóquio e financiamento da publicação deste livro da
Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres e da Coordenação e
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, CAPES, além de toda a infra-estrutura
oferecida pela Universidade Federal de Santa Catarina, com a participação
valiosa do Programa de Pós-Graduação em História e do Programa de Pós-Graduação
Interdisciplinar Para terminar mesmo, uma menção ao trabalho dedicado da Zahidé Muzart, nossa editora, que soube com paciência e a dose certa de pressão, fazer com que concluíssemos nossa parte do livro.
Joana
Maria Pedro e
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