Elas escrevem o épico

CHRISTINA RAMALHO. Elas escrevem o épico. 2005. 188 p. Co-edição EDUNISC.

 

Prefácio

Elas escrevem o Épico, de Christina Bielinski Ramalho, é uma viagem literária, teórica e crítica pelo mar do épico em voz feminina. Esta viagem épica, como define a autora, é um “canto de pesquisadora, escritora e mulher”, dedicado “às mulheres que souberam ousar” e o Canto tem como Proposição verificar a ocorrência de manifestações literárias épicas de autoria feminina, assim como a assunção do heroísmo épico feminino.

A autora lança mão da história da Épica para então eleger a Semiotização Épica do Discurso, de Anazildo Vasconcelos da Silva, como a teoria mais competente para abordar o corpus recortado. Também como apoio teórico recorre à discussão sobre o Hibridismo, para refletir acerca da experiência humano-existencial na atualidade e sobre sua representação discursiva, fundando uma categoria própria, a “circularidade cultural das imagens míticas”. Conclui que a poesia épica ocidental está impregnada pela circularidade cultural das imagens míticas clássicas, que cultuam a dominância da estrutura patriarcal, ressaltando características socialmente negativas atribuídas às mulheres ou reafirmando a estrutura misogínica da religiosidade cristã nas estruturas sociais, ao representar a mulher dicotomicamente como santa ou pecadora.

Christina Ramalho pretende demonstrar como o acesso da mulher à escritura épica e também ao heroísmo épico pode contribuir para a desconstrução, a transgressão e a reformulação do registro histórico-literário da experiência humana.

Outros ganchos teóricos que a autora aproveita e desenvolve são: a relação entre os discursos histórico e artístico em tempos de globalização; a formação de novas identidades culturais; a história das mulheres e em que espaço se insere a produção épica na Nova História que está sendo construída, mostrando como o texto épico produzido por mulheres contribui para o redimensionamento da história e das identidades nacionais; a desconstrução da dicotomia público/ privado e a revisão do conceito de família, que permitem o redimensionamento da atuação da mulher nos espaços físico, cultural, socioeconômico, institucional, assim como a visibilidade dos textos femininos como discursos históricos. Ao assumir sua “significância cultural”, as mulheres passam a escrever as suas nações.

Analisando ainda a relação entre o heroísmo épico e o sujeito histórico, tomando como ponto de partida o enclausuramento feminino e chegando até a assunção da heroína, Christina Ramalho vai interessar-se pelo estudo das heroínas épicas, principalmente em textos femininos, e também pelas conexões entre a intencionalidade épica e a intencionalidade feminista.

Com base em repertório teórico semiológico relacionado ao gênero épico, que enfatiza a dupla instância de enunciação, a elaboração da matéria épica (fusão de referentes históricos e míticos), a coexistência dos planos histórico, maravilhoso e literário, a autora parte para usufruir a liberdade de ler e analisar textos de 10 (dez) autoras, ressalvando, com sabedoria, o caráter “problemático” do corpus quanto à literariedade, visto que muitos dos textos ainda habitam o limbo do cânone.

Investigando as “possíveis contribuições que as epopéias escritas por mulheres possam trazer (ou ter trazido) para as releituras histórica, mítica e cultural da experiência humano-existencial”, a autora examina textos das escritoras Teresa Margarida da Silva e Orta, Nísia Floresta, Cecília Meireles, Gabriela Mistral, Leda Miranda Hühne, Stella Leonardos, Neide Archanjo, Raquel Naveira, Teresa Cristina Meireles de Oliveira e Silvia Jacintho, deixando à mostra aspectos como a intencionalidade épica, a intencionalidade feminista, o heroísmo feminino e a afirmação de identidade, a reprodução e o revisionismo mítico e histórico, as transgressões no nível da linguagem e da estética, as contaminações retóricas.

Christina Ramalho, nesta bela obra, resgata o épico como um gênero vivo e acessível ao protagonismo histórico feminino, no campo da voz e das ações.

A enriquecer o corpo-a-corpo com o texto das autoras, Christina Ramalho ainda dialoga em entrevistas com algumas delas e com estudiosas dos textos em foco, assumindo uma polifonia crítico-teórica que amplia as visões sobre o texto literário acessíveis ao leitor.

Tomando como ponto de partida o Poema Épico-Trágico, da luso-brasileira Teresa Margarida da Silva e Orta (autora que não é incluída na historiografia literária brasileira), Christina Ramalho apresenta aqui uma épica ainda “enclausurada”, mas com intencionalidade: o poema é centrado num “eu” feminino que assume a condição heróica, dando “relevância mítico-dramática ao seu martírio particular”, de sexagenária enclausurada por 7 anos no Mosteiro de Ferreira e Aves. Dividindo o poema em “Prantos”, ao invés de Cantos, a poeta denuncia o hibridismo de gênero (épico-trágico). Transgredindo o modelo épico tradicional, Teresa não invoca as musas, mas a inocência, que motivará esta “epopéia particular”, representante do enclausuramento das mulheres no século XVIII. A ousadia formal reside em elevar seu martírio a uma dimensão mítico-dramática, a fim de resgatar a sua condição de sujeito, inserindo uma história privada no âmbito da discursividade épica.

Nísia Floresta, brasileira do Rio Grande do Norte, com A lágrima de um caeté, protagoniza o segundo Canto no texto de Christina Ramalho, que considera a obra um épico romântico-realista que representa “um indianismo transgressor”, ao denunciar o martírio do indígena submetido a uma realidade opressora. Desde a primeira estrofe, o poema revela intencionalidade épica de herança camoniana, dupla instância de enunciação (lírica e narrativa) e um herói (o caeté) bastante consciente de sua condição culturalmente subalterna, que busca o resgate da dignidade e a preservação de sua cultura obliterada pelo colonizador.

Como podemos perceber, um outro olhar sobre o épico se vai revelando a partir dos textos de autoria feminina. Continuemos viajando com Christina Ramalho como guia.

O Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, é um poema épico inserido no cânone brasileiro e, à diferença dos dois textos anteriores, tem merecido atenção da crítica. O hibridismo denuncia-se já a partir dos tipos de letra utilizados no poema, que diferenciam o discurso dramático do épico-lírico. Embora algumas personagens, como Marília, Bárbara Eliodora e Juliana Mascarenhas, ainda se inscrevam na ótica patriarcal, o texto épico de Cecília contribui para dar voz às vivências das mulheres no contexto da Inconfidência Mineira. Vozes múltiplas e marginais começam a reconstruir a História no texto de Cecília: a donzela assassinada, a ama e Chica da Silva, ícone da insubmissão.

Do lúdico ao épico, Gabriela Mistral faz ressoar “a voz da terra” em seu Poema de Chile, em que assume um compromisso com o seu país através da educação e da conscientização veiculadas por meio da viagem de aventura e experiência empreendida por uma mulher-guia, acompanhada de um menino. O caráter espacial dos Cantos (Araucanía, Patagônia, Aconcagua) amplia-se no sentido de apresentar a geografia física, humana e mítica do Chile ao menino-cervo, representante do povo, com quem a mulher troca experiências e aprendizagens. No texto de Gabriela Mistral a aventura tem um sujeito feminino, que rompe o círculo fechado da tradição épica caracterizado pela centralização de todo heroísmo na virilidade, na força bélica e na destreza masculinas.

Os longos poemas de Leda Miranda Hühne também são objeto do olhar e da experiência de Christina Ramalho, que percebe neles uma importante contribuição épica ou “uma epicidade plural”. A cor da terra, Fim de um juízo, As cantilenas do Rei e da Rainha, Porta bandeira, O jardim silencioso parecem construir um unidade poética, em que se destacam a voz da mulher e o engajamento que levam a estudiosa a considerá-la uma “legítima porta-voz da consciência crítica feminista”. Vozes vitimadas pela exclusão, como a da índia amordaçada, a dos escravos, a dos favelados, confundem-se com a voz da terra escravizada (Terra escrava). Mendigos, prostitutas, indigentes, infratores irmanam-se a trabalhadores, todos “desvertebrados/no ventre/da pátria”, terra que, para além da cor, deve acordar (“Acorda terra”, proposição do poema A cor da terra). As representações sociais, inscritas no corpo da Porta-bandeira (“O corpo se dobra; rebola; nas pernas argolas de ferro; na boca mordaça; entre castidade e carnaval”), no texto de mesmo nome, vão desvelando a trajetória da mulher do imobilismo de seu cotidiano doméstico à experiência erótica “escancarada” do Carnaval.

Os poemas longos de Stella Leonardos, por ela denominados romanceiros ou cancioneiros, segundo Christina Ramalho constituem um “Projeto Brasil” épico, pois que a maioria deles retoma episódios da História oficial com intenção épica evidente, mas sob uma ótica popular. As heroínas épicas aqui também comparecem, como Anita Garibaldi (Romanceiro de Anita e Garibaldi) e Delfina Benigna Cunha, a primeira mulher a publicar um livro de poemas no Brasil (Romanceiro de Delfina). A intenção de lançar um outro olhar sobre a História e de transgressão patriarcal é explícita (“Mas faltava o poema de Anita e Garibaldi no Brasil. Todo um romance surdido na vivência histórica, do populário”). No Romanceiro do Contestado, a voz poética se faz representante daqueles que não tiveram voz na “guerra covarde/ de extermínio aos sertanejos” e na “Anti-ode”, canta o heroísmo dos caboclos vencidos pela fome.

Operando a “reintegração histórica” através do lirismo sintético”, Guerra entre irmãos, Senhora e Caraguatá, de Raquel Naveira, são outros poemas longos visitados por Christina Ramalho. Neles, a história privada surge dos fatos históricos brasileiros recontados, como a Guerra do Paraguai e a Guerra do Contestado. Por meio de quadros sintéticos, Naveira dá voz às senhoras enclausuradas em seus cotidianos e retoma personagens históricas portuguesas clássicas, como Inês de Castro e Leonor Teles, assim como brasileiras do povo, no sentido de resgatar as vivências femininas obliteradas pelo cânone.

Teresa Cristina Meireles de Oliveira, em Cantares de Marília, relê epicamente Marília de Dirceu, de Tomás Antonio Gonzaga, metamorfoseando o tom de pranto (“A fala que não houve”) e a condição de musa silente na voz lírica feminina que assume a sua verdade (“Alétheia”) e refaz a sua experiência histórica (“Letrada sou/e tenho idéias/tão revolucionárias/quanto belas”). Surge a Marília “viva, vencedora, capaz de se salvar pela voz”, como afirma Teresa em entrevista, confessando um feminismo imanente. A identidade de Marília revela-se: “Agora já sou”.

Do épico universal ao nacional, os poemas Helênica e Brasiliana, de Silvia Jacintho, transitam da formação do épico ocidental ao canto da terra brasileira, dando voz tanto a Helena de Tróia (“Grega histórica”) quanto às heroínas tupis e denunciando a “democracia da mulher calada”, restrita ao espaço da “Casa” (título de poema), que borda sua própria exclusão e submissão ao regime patriarcal.

No principal Canto de seu ensaio épico, Christina Ramalho aprofunda a análise dos textos épicos femininos por meio da investigação da obra de Neide Archanjo. A transgressão operada em vários níveis no poema épico As marinhas, demonstrada passo-a-passo por Christina, acaba por patentear que chegou, com êxito, ao que chamo de Ilha dos Amores de sua escritura-viagem, “estabelecendo parâmetros para uma metodologia de investigação crítico-feminista de poemas épicos”. Vale a pena ler com atenção tanto o belíssimo texto de Neide Archanjo quanto a análise realizada por Christina Ramalho, de título “Mulher ao mar”.

Escrito em Portugal, sob inspiração do texto e da terra de Camões, o poema de Neide Archanjo aproxima-se da forma da epopéia clássica com seus Cantos, mas constrói-se em verso livre. Invocando Nossa Senhora da Conceição dos Navegantes (Oxum) e Uiara para proteger a sua navegação, a poeta traça a sua Proposição com o apoio de textos de Fernando Pessoa e Jorge de Lima e lança-se ao mar, cercando-se de autores e de heróis épicos, de musas e de personagens mitológicas alheias. Esta vivência plural possibilita ao eu lírico existir no caos, trafegando tanto o mar mítico quanto o mar histórico, e projetar uma identidade híbrida, bissexual, que mergulha no mar de si mesma (a fusão épico-lírica). Epopéia que se mostra propositadamente escrita por mulher, As marinhas apresenta um heroísmo que Christina Ramalho chama de polêmico, que denuncia o abandono da mulher, ser colocado à margem da aventura épica masculina: acrescento que Neide Archanjo, no Canto III (“Oceânico”), radicaliza uma situação que já surgia na fala do Velho do Restelo (Os Lusíadas, de Camões) e persistia sob a forma de lamento em “Mar portuguez”, na Mensagem de Pessoa., incitando as mulheres, antes apagadas coadjuvantes, a acordarem e assumirem o seu protagonismo histórico. No Canto IV, “Ilhas idílicas”, o heroísmo assume-se como dual e sexualmente ambíguo, e tal qual na Ilha dos Amores camoniana o desejo explode sem qualquer preconceito, assunção de liberdade total para a expressão do ser humano.

Ressalto finalmente que, ante o reduzido número de estudiosos que se têm dedicado à produção épica, Christina Bielinski Ramalho, com seu Elas escrevem o Épico, preenche um vazio secular, com o apoio de uma teorização eficiente para acompanhar as transformações estruturais da epopéia, como afirma Anazildo Vasconcelos da Silva, e estou certa de que o livro que ora apresento dará uma contribuição importante também para a leitura de poemas longos produzidos por mulheres.

Recomendo, pois, efusivamente aos estudiosos do épico e de textos contemporâneos, especialmente os de autoria feminina, a leitura deste trabalho de Christina Bielinski Ramalho, com o qual tive o privilégio de ter um diálogo estreito e que tanto prazer me causa como leitora, pelo seu didatismo sem reducionismo, repleto de abertura crítica e criativa.

 

                                   Simone Caputo Gomes

(Profa. Doutora em Letras, Literaturas da Língua Portuguesa, PUC/RJ; Pós-Doutoramentos em Literaturas Portuguesa e Africanas de Língua Portuguesa na Universidade de Lisboa; Profa. da UFF/RJ)

 

 

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