Escritoras brasileiras do século XIX– Vol. III       

Zahide Lupinacci Muzart (org.).Escritoras brasileiras do século XIX – Vol. III.  2009.  1200 p. Introd. Simone P. Schmidt. R$ 120,00.

APRESENTAÇÃO

LONGA VIDA AO TRABALHO CONTRA A MORTE E O ESQUECIMENTO


Simone Pereira Schmidt

A crítica feminista no Brasil, apesar das muitas resistências que encontrou – e ainda encontra – há cerca de vinte anos no meio acadêmico, pode se considerar extremamente bem-sucedida. Se levarmos em conta que, até os anos 80 do séc. XX, pouco existia, nas universidades e no ambiente cultural de modo mais amplo, em termos de uma discussão mais séria sobre a literatura produzida por mulheres, não deixa de ser admirável constatar o percurso que realizamos até aqui. O que de início era visto como “moda intelectual” efêmera, cópia de modelos estrangeiros e alvo de outros atributos desabonadores da mesma ordem, hoje se afirma como uma área de pesquisa de reconhecida consistência e de invulgar solidez, haja vista o número de publicações, seminários, congressos sobre temas afins ao feminismo, sem deixar de fazer alusão ao GT Mulher e Literatura, da ANPOLL, que comemora em 2009 seus 25 anos de existência.

Dentro desta grande área, que abriga diferentes interesses ligados à produção literária de autoria feminina, destaca-se o trabalho que vem sendo desenvolvido no campo que, de modo muito sumário, tem recebido a denominação de “resgate de escritoras”. O termo, na verdade, diz pouco sobre a densidade do trabalho desenvolvido pelas pesquisadoras que atuam nesta área. Dirigindo sua atenção crítica à releitura do cânone literário brasileiro, elas se dedicam não somente a escavar o silêncio e as lacunas produzidas pelo processo de canonização (que, como sabemos, institui legitimidades e consagra nomes e obras na mesma medida em que produz apagamentos e instaura silêncios sobre outros nomes e outras obras), trazendo à luz do dia os trabalhos de escritoras que ficaram à margem da instituição literária, mas ainda empreendem um trabalho teórico de grande importância, que é o de indagar e, em certa medida, desconstruir, o próprio cânone. Não por acaso, pode-se dizer que, graças a tais empreendimentos críticos e teóricos, as pesquisadoras que se debruçam sobre a historiografia literária foram as principais responsáveis pelo alargamento do campo feminista na crítica brasileira, pela divulgação deste trabalho, e pela visibilidade concedida ao mesmo no meio acadêmico e no ambiente cultural. Especialmente no Brasil, um país vulgarmente conhecido como aquele que “não tem memória” (lugar comum que, desafortunadamente, carrega uma incômoda verdade), é de se imaginar o peso e a definitiva contribuição de um trabalho que busca resgatar a existência e a produção daquelas escritoras que, conforme a lição de Walter Benjamin, haviam sido soterradas como “vencidas da História”. O sopro vivificador lançado em sua direção por este trabalho de “resgate” se assemelha àquela tarefa de “salvação do passado” que, segundo o pensador alemão, seria a missão do historiador.

O trabalho de resgate num país “sem memória” assume feição de pesquisa arqueológica, como afirma Zahidé Muzart. Por isso o termo “escavação do passado” não soaria impróprio neste caso. Conforme ainda as palavras da coordenadora desta edição, este é um projeto antes de tudo feminista e, portanto, político. Lembrando a proposição de Rita Schmidt, Zahidé esclarece a orientação desta iniciativa:

 

Ao resgatar, ou seja, ao livrar do seqüestro e do cativeiro as vozes femininas silenciadas/esquecidas, nossos trabalhos se configuram como “atos de resistência” à violência ideológica de premissas geradas nos quadros de referência hegemônica de nossa cultura.  

 

A tarefa do “resgate” se mostra assim multiplamente transgressora: em relação ao cânone literário vigente nas estruturas de poder–saber em nossa sociedade, em relação à própria idéia de cânone, com seus mecanismos de valoração e exclusão e, ainda, em ataque frontal à mítica “falta de memória” do leitor (cidadão?) brasileiro.

Numa atitude de grande coragem intelectual, a investigação que encontramos nestes três volumes de Escritoras Brasileiras do Século XIX, lança-se na busca de construção de uma outra história da literatura brasileira – aquela que não foi publicada, veiculada, ensinada – que não foi, em síntese, legitimada pelas instâncias de poder cultural em nosso país. Como observa muito atentamente a sempre lembrada Nara Araújo, na apresentação feita ao primeiro volume desta antologia, trata-se de uma obra que

 

[...]pertence igualmente à tendência de uma crítica feminista interessada no estabelecimento de uma tradição literária escrita por mulheres: uma literatura própria. Porém vai mais além desse propósito, pois ao mesmo tempo em que contribui para a história da escritura feminina no Brasil, participa da (re)escritura de sua história cultural.

 

Tarefa, como vemos, cuja importância e significado são tão grandes quanto a ousadia que a impulsiona.

Contudo, o olhar que lanço a todo este inovador campo de conhecimento não estaria completo, se não me referisse, de forma muito especial, ao trabalho desenvolvido por Zahidé Lupinacci Muzart. Acompanho-a há mais de uma década, o que para mim tem sido um privilégio, já que me permite ser testemunha de um dos mais expressivos trabalhos de indagação e revisão do cânone literário brasileiro. É interessante aqui recuperar algumas palavras suas, que dão depoimento de como surgiu sua substancial iniciativa. O trecho que transcrevo foi publicado no primeiro volume de Escritoras brasileiras do século XIX, num ensaio intitulado " Pedantes e bas-bleus: história de uma pesquisa”:

           

No começo dos anos 80, no intuito de ministrar um curso sobre a presença da mulher na literatura brasileira, desejando incluir escritoras do século XIX, tive a grande surpresa de descobrir a quase total ausência da mulher nas histórias da literatura brasileira. Seria crível que as senhoras brasileiras não tivessem deixado uma linha escrita? Nem um conto, um pequeno poema, um soneto, um acróstico? E do que tivessem, porventura, escrito, nada guardaria algum interesse que merecesse o registro? Esta, a origem da pesquisa [...]


Com os dois volumes anteriores de sua antologia de Escritoras Brasileiras do Século XIX, Zahidé Muzart certamente já fez história: convocou uma equipe dentre as mais prestigiadas pesquisadoras do país, e, com este grupo de reconhecida competência, investigou e divulgou a biografia e a obra de mais de uma centena de autoras praticamente (ou, em muitos casos, completamente) desconhecidas do público leitor brasileiro. O que certamente advirá deste respeitável (e volumoso) trabalho ainda não podemos antever em totalidade, mas já são visíveis os frutos de uma memória construída a partir do alcance crítico e teórico desta pesquisa: aos poucos, as escritoras investigadas e trazidas à tona pelo trabalho de Zahidé Muzart e suas colaboradoras começam a ser conhecidas, estudadas, indicadas para a lista de vestibulares... enfim, ingressam na corrente viva das trocas culturais, de onde haviam sido alijadas.  O significado cultural e político desta empreitada, como podemos já perceber, é algo que certamente marcará seu lugar na história da crítica literária brasileira.

Temos agora em mãos este terceiro volume, que com igual ousadia e fôlego investigativo se dedica à leitura e à divulgação da obra de mais outras tantas autoras, cumprindo com esta etapa da investigação o levantamento, exaustivo e rigoroso, das escritoras brasileiras do século XIX (cabendo destacar que as autoras presentes neste terceiro volume viveram grande parte de suas vidas, e produziram suas obras, na primeira metade do século XX) .Embora todas, ou quase todas, tenham vivido e morrido no anonimato e no esquecimento de leitores e críticos, suas palavras hoje encontram um outro lugar para viver, distante de seus contextos de origem, o que exige do leitor contemporâneo um redimensionamento espaço-temporal instigante e provocador. Suas escritas ganham, assim, permanência. E mais do que isso, através das páginas dessa antologia, elas são providas daquela força germinativa que, segundo Walter Benjamin, a verdadeira narrativa possui: ”ela se assemelha a essas sementes de trigo que durante milhares de anos ficaram fechadas hermeticamente nas câmaras das pirâmides e que conservam até hoje suas forças germinativas”. Claro está que nem todas, dentre essas obras por tanto tempo desconhecidas, frutificarão no sentido de alcançar um público, ou de efetivamente ganhar existência no presente. Mas aquelas que, dentre todas, alcançarem um conjunto de leitores que lhes atribua um sentido novo, justificarão todo o longo esforço despendido nesta empreitada.

Se “o esquecimento é a derradeira morte dos mortos”, como afirmou o escritor Mia Couto, eis que as escritoras do passado ressurgem aqui, mais vivas talvez do que jamais foram.


 

 


  

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