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Zahide Lupinacci
Muzart (org.).Escritoras brasileiras do século XIX – Vol. III. 2009. 1200 p. Introd. Simone P. Schmidt. R$ 120,00.
INTRODUÇÃO
Uma nova história
literária.
Zahide Lupinacci Muzart
Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
atraz
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Antonio
Machado
Há dez anos, publicamos o primeiro
volume da série Escritoras brasileiras do
século XIX e agora, com o terceiro, chegamos ao final de uma pesquisa
bastante demorada e que mobilizou pesquisadoras de várias universidades. Foi um
projeto com características muito próprias que criou uma rede de “sororidade”,
uma rede de amizades nascidas do amor à pesquisa e na paixão pelo objeto: as
escritoras oitocentistas, além do ato solidário de repartir “achados”,
informações e livros.
Na arrancada inicial, o projeto
contou com Constância Lima Duarte,
Eliane Vasconcellos, Rita Terezinha Schmidt, Sylvia Paixão assessoradas
pelo saudoso amigo, funcionário da Biblioteca Nacional, Olímpio José Garcia Matos
e por Marco Antônio Toledo Neder, cujo trabalho de editoria de originais foi
inestimável. A este pequeno grupo somaram-se muitas outras ensaístas cujo entusiasmo foi fundamental para
o bom êxito da empreitada. Alcançamos, com nossos esforços, algo bem
importante: mostrar o objetivo principal da antologia I: provar que, além de umas
poucas reconhecidas, permaneciam no anonimato um número significativo de escritoras
no século XIX e, ao fazer isso, a nossa crítica revisionista contribuiu para
revigorar a crítica feminista nas universidades, estimulando novas
pesquisadoras a produzirem textos novos sobre essas escritoras.
Podemos, além disto, assegurar,
sem exagero, que, depois deste projeto Escritoras
brasileiras do século XIX, amparado pelo CNPq, essa onda revisionista (já
existente) teve maior crescimento, no Brasil. Quando procuramos, por exemplo, trabalhos
críticos sobre certas autoras resgatadas pelo projeto no banco de teses da
Capes, é realmente digno de nota o número expressivo de dissertações e teses
que contemplam escritoras tais como Beatriz Brandão, Maria Josefa Barreto,
Maria Clemência da Silveira Sampaio, Delfina Benigna da Cunha, Ana Eurídice
Eufrosina de Barandas, Nísia Floresta Brasileira Augusta, Joana Paula Manso de
Noronha, Ana Luísa de Azevedo Castro, Maria Firmina dos Reis, Maria Angélica
Ribeiro, Rita Barém de Melo, Ana Ribeiro de Góis Bittencourt, Júlia Maria da
Costa, Josefina Álvares de Azevedo, Emília Moncorvo Bandeira de Melo (Carmem
Dolores), Maria Benedita Câmara Bormann (Délia), Inês Sabino, Delminda
Silveira, Emília Freitas, Corina Coaraci. Sobre todas essas autoras existem
artigos e ensaios, dissertações e teses, além de reedições de suas obras. Sobre
uma delas, Júlia Maria da Costa, há também livros de ficção. O primeiro foi Vésperas, de Adriana Lunardi. Neste, a
autora mostra a escritora em um capítulo de um livro que é uma homenagem a
grandes escritoras, transformadas em personagens e retratadas na sua solidão.
E, em 2008, foi publicado o romance Júlia,
de Roberto Gomes que reconta a história de Júlia da Costa na ilha de São
Francisco, onde ela viveu toda a vida.
Essa linha de
pesquisa na qual o projeto sempre esteve ancorado – denominada genericamente “resgate”
ou “memória” – desenvolveu-se nos últimos anos com força e intensidade
bastantes para desencadear não apenas a série de dissertações e teses sobre as
escritoras já observada, mas ainda resultar em um efeito excelente e
compensador do trabalho da equipe: a publicação das obras das próprias escritoras.
E temos certeza de que, embora elas continuem fora das histórias da literatura,
não será assim por muito tempo. Por uma razão, ou por outra, algumas já estão
sendo estudadas e citadas. Enfim... ressuscitadas!
A ORGANIZAÇÃO
Nos artigos, tivemos
a preocupação de fornecer todas as informações conseguidas, inclusive onde
podem ser encontrados os textos das escritoras, publicados ou inéditos. Aliás,
a grande dificuldade deste projeto, e talvez seu maior valor, está, em primeiro
lugar, na localização dos textos das escritoras. Para isso, os contatos
se fizeram com o maior número de bibliotecas, arquivos públicos e particulares,
bibliófilos, institutos de pesquisa e outros. À medida que a pesquisa avançava,
encontrávamos novos nomes, novos livros, o que a tornou quase interminável.
Os textos resgatados se acompanham
por uma introdução atualizada e uma minuciosa bibliografia. Como o disse a
escritora e pesquisadora cubana Nara Araújo:
Desta maneira, o
texto recebe uma nova luz, pois a escritora brasileira que o apresenta pertence
ao século XX — já no início de seu último ano —, e o lê de uma perspectiva
múltipla: do gênero, da história das mentalidades e da história cultural. A
informação bibliográfica dá dimensão ao texto, situa-o no conjunto da produção
da escritora oitocentista e da crítica que dela tratou. Labor múltiplo então,
de análise e de arquivo, de reflexão e investigação, de história da literatura
e de história da crítica. Labor que preenche o vazio e elimina o silêncio.
Este foi um trabalho coletivo e
várias pesquisadoras participaram do projeto dos três volumes, pois somente um
grupo cujas preocupações de investigação se situam-se, há muito tempo,
nas questões relacionadas com a linha Mulher e Literatura poderia efetuar o
trabalho monumental de mapeamento que foi o do projeto concluído.
O terceiro, e último volume,
resgatou 55 escritoras nascidas de 1880 a 1900 e contou com a mesma equipe de
pesquisadoras que já tinha participado dos volumes anteriores. Logramos, porém,
enriquecê-la com a contribuição da historiadora gaúcha Hilda Flores, da professora,
poetisa e ensaísta Darcy França
Denófrio, de Goiás, da
historiadora Elizabeth Rago, de São Paulo, da historiadora Alcilene Cavalcante,
também de São Paulo, da professora cearense Cecília Maria Cunha, da professora do Espírito Santo, Karina
de Rezende Tavares Fleury e da professora baiana Maria da Conceição Pinheiro de Araújo.
A pesquisa bibliográfica foi realizada em antologias, conferências,
dicionários especializados, enciclopédias, entrevistas,
folhetos, histórias literárias, livros de crítica
e de historiografia literária, periódicos e plaquetes, assim
como a pesquisa
em acervos
literários foi realizada em bibliotecas públicas de várias instituições:
Fundação Biblioteca Nacional, Fundação Casa
de Rui Barbosa, Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, Academia
Brasileira de Letras,
Real Gabinete
Português de Leitura,
Liceu Literário
Português, Academia Catarinense de Letras, e em
coleções particulares:
José Mindlin, J. Petersen, Erick Gemeinder e Iaponan Soares.
Para este trabalho, foi muito válido o auxílio dos bolsistas de Iniciação
Científica que fizeram sua aprendizagem na pesquisa bibliográfica
principalmente e na organização da fortuna crítica das escritoras. Alguns
bolsistas trabalharam com acervos e isso foi importante em sua formação, pois
levou-os a valorizar a sua preservação.
Na escolha das escritoras,
procuramos contemplar a todos os estados brasileiros, mas nem sempre isso foi
possível pela falta de material bibliográfico. Incluímos, no primeiro volume,
escritoras não brasileiras, como Joana Paula Manso de Noronha e Maria Benedita
de Oliveira Barbosa (Zaira Americana), ambas nascidas na Argentina, bem como
Adelina Lopes Vieira, nascida em Portugal, porque viveram quase toda a vida no
Brasil e aqui publicaram. Excluímos, no entanto, a escritora Teresa Margarida
da Silva e Orta, autora de Aventuras de
Diófanes, pois, embora nascida no Brasil, viveu sempre em Portugal e lá
publicou toda a sua obra não tendo uma obra “representativa da mentalidade
feminina de seu tempo.”, como o afirmou Lúcia Miguel-Pereira.
No segundo volume, incluímos a alemã Gertrud Gross-Hering (Alemanha, 1879 – SC
1968) e a portuguesa Mariana Coelho (Portugal, 1880 – PR, 1954). E no terceiro
volume, três escritoras nascidas em outros países, demonstrando a contribuição
valiosa dos imigrantes entre nós: Beatrix Reynal (Uruguai, 1892 - ?), Berta
Brandão Gonçalves (Lisboa, 1885- RS, 1973), Lucie Laval (Senegal, 1895 – PR,
1914).
O título deste volume nos inquietou muito, porque as
autoras, embora nascidas no final do século XIX, estudaram, trabalharam e
publicaram em pleno século XX. No entanto, uma grande parte, talvez a maioria,
manteve o olhar ainda preso ao século XIX. Os poemas e contos que produziram não
se libertaram dos cânones realistas e românticos, justificando assim permanecer o mesmo titulo
da coletânea.
Neste terceiro volume, mudamos a ordem de apresentação dos
artigos, porquanto nos dois primeiros a seqüência seguiu a ordem cronológica de
nascimento das autoras. Neste, a ordem é alfabética. Não há uniformidade no
tamanho dos artigos. Isso se deve à quantidade de material obtido e livros
publicados pelas escritoras. Outra diferença entre este volume e os que o
antecederam está na inclusão de fotos ou desenhos de quase todas as escritoras.
Somente as de sete não foram encontradas. Infelizmente, nem todas as fotos se
encontram em perfeitas condições. Na verdade, algumas, reproduzidas de velhas
revistas ou livros, estão um tanto apagadas, esmaecidas.
A transcrição dos excertos das obras realizou-se de acordo
com os seguintes critérios:
1. Atualizamos, de acordo com as
normas ortográficas ainda vigentes, todos os textos, bem como os nomes e
sobrenomes das escritoras. Neste caso, por exemplo, Luísa, Ana em vez de Luiza,
Anna. Não seguimos a nova reforma
ortográfica porque o livro já estava quase todo revisado quando foi sancionada,
e porque sua aplicação não é, por
enquanto, obrigatória;
2. Mantivemos os estrangeirismos
em itálico tal como na edição consultada;
3. Respeitamos a pontuação da
autora, mesmo em casos que hoje nos pareçam contrários à norma, mas corrigimos
alguns erros óbvios;
4. Há divergências no uso do
feminino “poetisa” no lugar de “poeta”, usual nos dias de hoje. A maioria das
colaboradoras optou pelo feminino gramaticalmente correto, sobretudo, porque no
século XIX era aquela a palavra costumeira e não “poeta”.
5. Quanto à questão de direitos
autorais, embora tenhamos procurado pelos possíveis herdeiros dessas 55
escritoras, somente encontramos um pequeno número que nos autorizou a divulgar
excertos de suas obras. São trechos pequenos e já publicados ou em periódicos
ou em livros por editoras em grande maioria extintas.
Ainda
há muitos nomes de escritoras não resgatadas e isso se deve principalmente às
sempre imensas dificuldades de encontrar as obras dessas mulheres. Quantas
escritoras foram, então, estudadas nos três volumes? 53 no primeiro volume, 53,
no segundo e 55 no terceiro: 161 no total, portanto. Muitas ficarão no
anonimato em virtude do gênero escolhido, pois a grande maioria optou pela
poesia e, se houve algumas poetisas notáveis como Ana Amélia Carneiro de
Mendonça, Gilka Machado, Laura da Fonseca e Silva ou Maria Eugênia Celso,
outras permaneceram estacionadas no Romantismo e não acompanharam as mudanças
literárias de sua época, deixando-se levar pela tendência da literatura
sentimental. Tal constatação incomoda e nos leva a indagar o porquê da
reiterada permanência do Romantismo na poesia feminina. Dentre as inúmeras razões
que poderiam ser aqui lembradas está a baixa escolaridade da mulher e as
condições adversas para estudos mais aprofundados, pois ela continuava a ser
preparada apenas para o casamento e para criar filhos. Lygia Fagundes Telles a celebrizou
com a expressão “mulher-goiabada”:
[...]
[a mulher-goiabada] é a mulher caseira, antiga “rainha do lar” que sabe fazer a
melhor goiabada no tacho de cobre. A minha mãe, uma excelente pianista, não
prosseguiu na carreira que começou na adolescência, porque estava dentro da
mentalidade preconceituosa de seu tempo e também minha avó, minhas tias lá
longe... Mulheres sem condições de ousar a profissão, sem coragem de atender ao
chamado, vocare em latim. A vocação, a paixão. Eu me lembro, era
menina quando ia com a cesta para colher goiabas no quintal da nossa casa lá em
Sertãozinho e onde meu pai era promotor. Minha mãe seria mais feliz se fosse
pianista? E se ela continuasse estudando e compondo naquele antigo piano preto
com os quatro castiçais, hein? Mas esta seria uma extravagância, uma ousadia e,
em vez de abrir o álbum de Chopin, ela abria o caderno de receitas.
Outra razão para o apego anacrônico
das escritoras ao Romantismo relaciona-se por certo com o fato de a leitura de
obras de inspiração realista e naturalista ter sido firmemente proibida às
jovens leitoras. Os colégios femininos, ciosos de seu papel formador de futuras
donas de casa e mães de família, mantinham rígido controle sobre o acesso das
meninas à literatura, chegando inclusive a formular index próprio de obras que lhes eram proibidas. Machado de Assis
e Flaubert, por exemplo, tiveram suas
obras censuradas, enquanto o pieguismo romântico esteve sempre liberado.
Este livro, como se viu,
destina-se a tornar lembrados os nomes de mulheres que tentaram romper com apenas
um dos muitos controles a que eram subjugadas. Se uma dessas escritoras pudesse
agora se manifestar, diria, provavelmente, que está contando com sua
benevolência, no caso de chegar a ter lidos os seus escritos, pois parte
significativa deles foi realizada apesar de tudo e de todos. Cabe, por último, à
leitora e ao leitor analisar, ponderar e
concluir, agora, se concorda ou não com o que sobre elas afirmamos.
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