Escritoras Brasileiras do Século XIX - vol II 

Apresentação

para um novo olhar

   Há livros que mudam inevitavelmente a perspectiva de visão que tem o leitor ou leitora do objeto que neles se examina. Estes livros memoráveis têm a capacidade de abrir os horizontes para mais do que uma simples informação ou evocação. Ao desfilarem um repertório significativo de dados e dispondo-os mediante a diversidade que os caracteriza, ao livrá-los finalmente do esquecimento e do imobilismo histórico, provocam, em quem os lê, a construção de um novo olhar crítico.

  A série Escritoras brasileiras do século XIX tem esse mérito. Dando seqüência à publicação do primeiro volume, este segundo, que ora se publica, em edição também organizada por Zahidé Lupinacci Muzart e elaborado por equipe competente de pessoas ligadas à docência e à pesquisa universitária, constitui mais um passo no sentido de se colaborar para a melhor compreensão do modo como se inscreve a produção literária feita por mulheres no Brasil num contexto mais geral da cultura brasileira.  

  Não se trata de trabalho recente. Pode-se afirmar que as fichas de leitura foram se acumulando, ao longo dos anos, na busca ferrenha por dados na sua maioria difíceis de se encontrar. Um título de publicação aqui, embora o livro não se encontre mais...Um número de periódico ali, embora outros, mas não exatamente este, o procurado, façam parte de uma dada coleção... Uma data de nascimento de escritora acolá, embora falte ainda a data de falecimento... Nesse terreno árido de informação, qualquer dado que se some aos demais faz fartura e é bem vindo. Não importa o volume do conjunto ainda nem delineado. Vale o sabor do pedaço, degustado aos poucos, acrescentado com respeito e confiança na continuidade do trabalho assumido.

   Assim se foi montando esse jogo da pesquisa. Se bem me lembro – pois tive a satisfação de acompanhar, de perto, esse verdadeiro movimento investigatório – houve dois núcleos instigadores, a partir de meados dos passados anos 80, em torno dos quais se desenvolveu também este projeto: o Grupo de Trabalho A mulher na literatura, com seus encontros anuais da Associação de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística (ANPOLL) e, alternadamente, os encontros bienais dos Seminários Nacionais A mulher na literatura.

   Contando na maioria das vezes com apoio institucional, pesquisadores no assunto foram circulando pelo Brasil afora, discutindo projetos, somando os dados, trocando idéias, ora em João Pessoa, ora no Rio de Janeiro, ora em Natal, ora em Porto Alegre, ora em Recife, ora em São Paulo, ora em Florianópolis, ora em Caxambu...

   Aliando uma experiência pessoal sólida aos trabalhos do grupo, os responsáveis pelos estudos deste volume dedicaram-se à caça dos dados conseguindo, por vezes, praticamente ressuscitar, outras vezes, reanalisar autoras, personagens, fatos, instituições, edições, interpretações, passando por arquivos, coleções, em bibliotecas, hemerotecas, no caminho do que se entende por pesquisa séria e obstinada. Assim procederam, em várias regiões e instituições do país, Ana Helena C. Belline, Constância Lima Duarte, Eliane Campello, Eliane Vasconcellos, Francisco Aurélio Ribeiro, Ívia Duarte Alves, Izabel Brandão, Katia Bezerra, Letícia Nassar Matos Mesquita, Luciana Fonseca, Luiza Cristina dos Santos, Luzilá Gonçalves Ferreira, Peggy Sharpe, Rita Terezinha Schmidt, Rosana Cássia Kamita, Sylvia Perlingeiro Paixão, Tânia Regina Oliveira Ramos, Valéria Souto-Maior, e a própria organizadora deste volume, Zahidé Lupinacci Muzart.

   Porque para se viabilizar, este trabalho precisaria de um eixo catalisador, que Zahidé Lupinacci Muzart assumiu, como organizadora da série, acompanhada, a certa altura, por Susanna Bornéo Funck. Num trabalho duplamente profícuo, esta função de organização engatou-se a um outro trabalho, o de direção da Editora Mulheres, cujo catálogo já é conhecido e exibe textos de teóricas, ensaístas e críticas do feminismo, além de textos de ficção, de correspondência e de diários de escritoras estrangeiras e nacionais que estavam a merecer uma publicação ou uma nova edição.

   Os trabalhos sobre a literatura feita por mulheres seguiram assim seu rumo, em diferentes perspectivas. Na linha do resgate, objetivavam ressuscitar textos esquecidos, ou porque estes não saíram das páginas de jornais para o livro, ou porque não foram criticamente prestigiados e devidamente divulgados. Na linha da revisão crítica, objetivavam suscitar leituras à luz das novas teorias do feminismo, em suas várias vertentes teóricas e metodológicas, sensíveis às  questões da reivindicação política dos direitos da mulher e, mais recentemente, às avaliações das diferenças a partir da análise pautada na categoria do gender.

   Pode-se afirmar que este livro é produto do entrecruzamento de tais preocupações, que geram um esboço de história dessa literatura elaborado mediante a reunião de dados de informação biográfica, bibliográfica e crítica, acompanhados de antologia, exibindo textos mais significativos de cada uma das escritoras selecionadas. Ressalte-se a importância do registro da fortuna crítica – porta de acesso a estudos mais aprofundados por parte dos interessados no assunto. E, em alguns casos, informações sobre bibliotecas ou coleções onde alguns dos livros de autoras ali mencionadas podem ser hoje encontrados – anotação valiosa, tendo em vista as dificuldades de acesso a volumes raros.

   Mantém-se ainda, em relação ao primeiro volume da série, o critério não só de seções – que compreendem apresentação com dados de ordem biográfica e bibliográfica, bibliografia crítica, textos mais representativos – mas o da disposição do elenco, que continua sendo o cronológico – agora reunindo as que nasceram a partir da década de 60 do século XIX, com atuação no campo da literatura e do jornalismo sobretudo na última década do século XIX e início do século XX.

   E percebe-se, ao longo do volume, manifestações provenientes de diversos estados brasileiros, numa listagem geral que inclui 51 escritoras. E quem disse que não havia mulheres escritoras no Brasil do século XIX?  

   Ali estão elas, surgindo em voz direta, nos textos que compõem a seleção, ou pela via indireta, nos textos que as apresentam e que por vezes tecem considerações de caráter analítico, crítico e interpretativo. Se há transcrição dos textos das escritoras, é porque têm realce, seja do ponto de vista estético, seja do ponto de vista de importância no trabalho implícito de luta pela afirmação de uma mentalidade emancipatória da mulher, ciente da necessidade de se livrar dos jugos de violência e dominação patentes no contexto social brasileiro de seu tempo.

   Através de tais seções, pode-se acompanhar a preocupação da mulher em preservar o espaço doméstico das ameaças da via pública, enquanto mãe e esposa, guardiã dos preceitos morais do território privado, por vezes temerosa e insegura diante do perigo e das ameaças do território público. No entanto, tal caminho vai cedendo lugar à aceitação e necessidade do trabalho fora de casa, aos apelos da ação social aliada à militância pedagógica e política, ao estudo especializado a gerar mais alto grau de eficácia profissional.

   Esse universo cultural em mutação se alicerça numa produção artística diversificada, que inclui poesia, romance, conto, artigo, ensaio, carta, pronunciamento, lições, literatura de viagens, anotações... que variam, desde um confessionalismo ainda tímido, até o tom mais ousado e confiante. Examinados em conjunto, desenham o perfil da mulher brasileira na sua luta reivindicatória pela consciência e construção de sua própria identidade, ora mais ora menos compromissada com uma linha da tradição, ora mais ora menos atrelada a um campo renovador e, por vezes, desconstrutor de velhos estereótipos redutores.

   Eis pois um retrato da história da literatura feita pela mulher que se mostra não apenas negativamente, pelo que lhe faltou, mas positivamente, pelo que a mulher conseguiu, apesar de tudo, ser e fazer, na escrita. Essas marcas da ação cultural estão patentes em gestos, esboços, interjeições, propostas, denúncias, que se configuram materializadas em linguagem literária e jornalística.

   Natural que, paralelamente, o volume desenhe também a história das edições, ao identificar casas editoriais que acabaram executando trabalhos de descoberta, preparação, impressão e comércio de textos, apontando para diferentes modos de inserção gradativa do livro no mercado.  Natural também que tais considerações tenham se somado a uma história da recepção, ao se mencionar a reação crítica de pessoas, instituições, grupos sociais, patentes na imprensa e em depoimentos, em textos mais leves de divulgação ou nos mais argumentativos e ensaísticos. 

   No entanto, subrepticiamente a esse fio narrativo de história das mulheres que escreveram no Brasil, o volume permite que capítulos da sua própria história de pesquisa sejam desvendados: papéis nunca encontrados, embora alguém em algum momento os tenha mencionado; livros raros, de edição esgotada, que não foram encontrados nas bibliotecas. É a função da boa pesquisa, a mapear para outros o caminho que não conseguiu trilhar, fazendo história através de simples pistas referentes a uma estante perdida, acenos que remetem a futuras procuras e encontros. 

   Por isso considero significativo qualquer desses sinais, se percebidos nesta engrenagem de sensibilidade e de reflexão crítica diante de tais manifestações culturais, e se encenados com o objetivo de traduzir diferentes posturas na constatação dos papéis artísticos assumidos pela mulher. 

   Passadas quase duas décadas em convívio, é com emoção que reconheço o resultado deste trabalho de grupo que ora se publica. E é com orgulho que me reconheço testemunha dos seus resultados altamente positivos, ou, como se diz nas agências de fomento, do trabalho que evidencia um elevado grau de efeito multiplicador...

   E recorro aos versos sentimentalmente entusiásticos de Júlia Cortines, uma das escritoras presentes neste livro, versos que integram o volume Vibrações, publicado há quase cem anos atrás: em 1905. Porque neles se evidencia o sempre necessário apelo à consciência do papel artístico da mulher no sentido de liberar a vista e a voz. E também porque, de certa forma, este livro, com o trabalho de pesquisa que traz, recupera esta proposta de redimensionamento do seu objeto, alertando para uma literatura sempre em processo, na iminência de se tornar, a cada texto, uma nova realidade para quem a lê, acatando os riscos de um novo e revigorado olhar crítico:

                    Olha!

Levanta agora a pálpebra descida

E o segredo desvenda enfim do teu olhar!

Fala!

Descerra a boca há tanto tempo emudecida

Deixa o segredo enfim da palavra escapar!

 

Nádia Battella Gotlib

Universidade de São Paulo

Novembro de 2003

 

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