A Silveirinha

Júlia Lopes de Almeida

 

Excerto

Capítulo I

 

Capítulo I

Petrópolis. Noite de festa em casa
do banqueiro Korsakoff.

— Roberto?
— Sra. Condessa?...
— Quem é aquela morena que está conversando acolá com o Ministro da Itália?
— É a mulher do João Zacarias. O advogado Zacarias; não conhece?
— Sim, sim, a ele muito bem; mas supunha-o viúvo, ou casado com alguma jararaca que tivesse pejo de apresentar em público... É fantástico como esta pequena Petrópolis ainda nos fornece surpresas!
— É que essa senhora freqüenta pouco. Vive toda voltada para o marido e para os filhos.
— Não sei como há quem possa viver toda a vida voltada para o Zacarias!
— Roberto riu-se e acrescentou:
— Chamam-lhe por aí, Mme. Z. tout court[1].
— Ah, é essa a tal Mme. Z!...
— Em pessoa.
— O Zacarias é rico?
— O Zaxarias, como diz o Comendador Brandão — está bem.
— Oh, la lá! repare para o colar que traz a Ministra da China! e dizer-se que há tanto colo bonito que nunca sentiu o peso de uma jóia...
— Ao menos enquanto a gente olha para os brilhantes...
— O marido orgulha-se da sua propriedade!

    Nesse instante um homem alto, espadaúdo, louro, passou rente à Condessa. Era o ministro da Noruega. Como a não tivesse visto ela puxou-lhe pela manga da casaca:

— Ingrat! Il y a plus d'une demi-heure que je vous attends, et voilà que vous passez près de moi sans me dire un mot?[2]

   O ministro curvou a cabeça rosada, mal coberta por uma cabeleira curta, cor de palha seca, dividida em duas exíguas pastinhas retorcidas, e murmurou depois de ter roçado o bigode macio pela mão sem luva da condessa:

¾ Pardon, Madame, mais, croyez-le, c'tait à cause de vous-même... Je vous imaginais là-bas, au fond du salon... Et j'y allais, pour vous baiser la main, sans même regarder personne...
— Flatteur, va!... Eh bien, où est madame?
— La voilà.
[3]

    Olharam. A ministra entrava pelo braço do banqueiro Korsakoff, dono da casa. Ele, sorridente, deixando flutuar as lindas barbas brancas sobre o largo peito bem apresentado; ela, seca, com os longos braços finos bailando dentro de umas altas luvas, e a boca entreaberta num sorriso que lhe mostrava os dentes grandes, brancos como amendoas descascadas. Logo após, o ministro de Portugal conduzia Madame Baltazar Luz, a serpentina madame Luz, das belas toilettes e dos olhos de esmeralda, a quem Petrópolis denominava — Pratinho de arroz doce — por aparecer em toda a parte, como se o arroz doce aparecesse em toda a parte...
    Vendo-a, a condessa voltou-se para o seu amigo Roberto, arregalando os olhinhos castanhos:

— Sem canela.

   Roberto respondeu com o olhar, que não tinha entendido. Que diabo quereria dizer: sem canela?
    O ministro norueguês resmungou ainda algumas amabilidades. Quando o viu afastar-se a con­dessa explicou:

— A Baltazar Luz está toda de branco; só leite e açúcar. Por milagre parece ter-se esquecido até do carmin. Reparou?

   Roberto Flores não achou graça à condessa, que sempre que o espírito não lhe vinha naturalmente, o procurava à fina força. Por infelicidade para os outros, nem sempre o encontrava...

— No que reparei, respondeu ele, é que lhe vai a matar aquela túnica bordada a prata. Vem luminosa, como o próprio nome.

­— Sim, ao menos ela sabe vestir-se... e despir-se, porque aquele decote é bem atrevido.

   Roberto sorriu e observou:

— As duas Silveirinhas parece que estão procurando alguma cousa...
— Maridos! A mais nova está cada vez mais esganiçada... Será de tanto cantar de soprano. Ontem na Capela do Colégio fiquei arrepiada ao ouvi-la. A Guiomar foi pedida em casamento por um médico velhote, um tal Jordão...
— Bem vê que ao menos essa já não precisa procurar marido... Mas, o Jordão não é tão velhote. É um rapaz de trinta e poucos anos, e bonitão. Sabe se foi aceito?
— Foi. De onde o conhece você?
— Nem sei... de toda parte.
— É de boa familia? Será da casa Jordão, do Rio Negro?
— Talvez... Sei que é um médico estudioso, e livre-pensador...
— Já me disseram. Contaram-me até que, por saber disso, a Silveirinha, ao ser chamada pelo pai à sala para responder ao pedido do noivo, se apresentou com todas as insígnias religiosas que pôde arranjar na ocasião: fita ao pescoço, de Filha de Maria; no peito todas as medalhas de santos e santas da corte celeste; e, pendente das mãos, um grande rosário de contas grossas como araçás.
— Histórias...
— Verdade! É singular aquela pequena. Para mim, ela está doida...
— De amor. Eu acho-a muito interessante.
— Bem sei. Por que não se apressou você?...
— Por covardia... talvez...
— Não duvido. E fez bem. Com idéias tão dessemelhantes viveriam depois num conflito...
— Ah, por isso não! A minha lógica desfaria todos os seus preconceitos...
— Não creia! Mais facilmente a Silveirinha o converteria, a você. Verá o que vai acontecer ao outro. Olhe, o duelo começou mesmo antes do casamento.
— Como assim?
— Pois não acabei de lhe contar que ela se apresentou ao noivo coberta de santinhos? Certamente que não fez aquilo, senão para o avisar: veja bem como eu sou e quais as minhas idéias!
— E ele?
— Ora, ele naturalmente nem reparou; ou cuidará, como você, que isso não tem importância e que com a sua lógica de ferro demolirá os pre­conceitos da menina... Muito vaidosos são os homens! O que lhe afirmo é que se fosse minha filha com um ateu não se casaria ela, nem que mo pedisse de joelhos. Mas o Silveira não tem escrúpulos; tomara ele ver-se livre da filha...
— Olhe, lá vem a nossa terrível Magdalena!
— Por que a chama assim?
— Porque ela é implacável para com toda a gente... Não poupa ninguém, nem o próprio marido, quando se quer rir à custa das fraque­zas alheias... Apesar de tudo, eu gosto dela e das suas mordacidades... Diverte-me. Naturalmente procura pretextos para mostrar os dentes, que são lindos...
— Vá nessa ilusão indagar por que estarão hoje aqui o Zacarias e a senhora.
— Ele é advogado do Consulado russo; talvez essa circunstância o tivesse aproximado do Korsakoff. Entretanto, condessa, que notícias me dá da sua inseparável amiga D. Clara?
— Clara deve estar na outra sala conversando com o Max, que é de uma fidelidade de molosso...
Nesse instante a consulesa da Holanda precipi­tou-se para a condessa, perguntando-lhe em francês pelo programa da festa. Falava-se numa surpresa.
— Oui, ma chère. Nous allons voir danser la maxixe[4]...

E a condessa, fixando nas pupilas deslavadas da outra os seus olhinhos castanhos, já sublinhados por um núcleo de pequenas rugas, inda­gou se isso lhe daria prazer.



[1] simplesmente.

[2] Ingrato! Faz mais de meia hora que eu o espero, e o senhor passa perto de mim sem me dizer uma palavra?

[3] Perdão, senhora, mas acredite, foi por sua causa mesmo... Eu pensei que a senhora estivesse lá no fundo do salão... E já me dirigia para lá, sem olhar ninguém...

-- Lisonjeiro!... E então, onde está madame?

-- Ei-la que chega.

[4] Sim, minha cara. Nós vamos ver a dança do maxixe...

 

 

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