Oroonoko ou o escravo real

Aphra Behn

Excerto

   

Não é minha intenção, ao apresentar a história deste escravo real, entreter meu leitor com as aventuras de um herói fictício, cuja vida e cujo destino a imaginação pode manipular ao bel prazer do poeta; nem tampouco, ao relatar a verdade, enfeitá-la com acontecimentos fantasiosos. Sua história vai ser narrada com simplicidade, amparada apenas por seus próprios méritos e pelos acontecimentos que ocorreram naturalmente, pois tem suficiente apoio na realidade para que se torne atraente, prescindindo dos acréscimos da imaginação.

Eu mesma fui testemunha ocular de grande parte daquilo que aqui será narrado. O que não testemunhei, ouvi da boca do principal protagonista desta história, o próprio herói, que narrou todos os acontecimentos de sua juventude, embora eu tenha omitido, por questão de brevidade, milhares de pequenos incidentes de sua vida os quais, por mais agradáveis que tivessem sido a meu ouvido numa época em que eram raras as histórias, poderão acabar sendo enfadonhos para meu leitor, que vive num mundo onde a cada instante pode encontrar diversões novas e raras. Como o caráter deste grande homem me encantava, eu não perdia oportunidade para saciar minha curiosidade,  recolhendo os menores detalhes de sua vida.

O cenário da parte final de suas aventuras localiza-se em uma colônia na América, chamada Suriname, nas Índias Ocidentais. Antes, porém, que eu passe a contar a história deste galante escravo, é apropriado esclarecer o modo pelo qual tais escravos eram trazidos a estas novas colônias, pois os mesmos não eram nativos da região. Com estes escravos, porém, convivíamos em perfeita amizade, sem ousar dar-lhes ordens; muito pelo contrário, os estimávamos com todo amor fraterno e afeição própria de amigos e com eles negociávamos peixe, caça, búfalos, peles e algumas pequenas raridades, tais como o sagüi, um tipo de macaco do tamanho de um rato ou de uma doninha, mas de formas delicadas e maravilhosas, com feições e mãos muito humanas, bem como  um animalzinho com formas e jeito de leão, mas do tamanho de um gatinho e tão idêntico em tudo àquele nobre animal que é sua miniatura. Além disso, caturritas, papagaios, araras, e inúmeros outros pássaros e animais de formas e cores maravilhosas e surpreendentes. Negociávamos também peles de serpentes prodigiosas por seu tamanho, algumas com perto de sessenta jardas de comprimento, como aquela que está em exposição e pode ser vista no museu de antigüidades de Sua Majestade, onde também se encontram algumas raras borboletas, de espantosas formas e cores, que eu mesma lhe dei de presente, algumas do tamanho de meu punho; enfim, outros tipos diversos de raridades, cuja excelência arte nenhuma poderia imitar. Conseguíamos também penas, as quais eles organizam de todas as maneiras, fazendo indumentária e coroas para a cabeça, para o pescoço, para os braços e para as pernas, com cores absolutamente incríveis.  Um destes conjuntos foi-me presenteado e acabei doando-o ao Teatro do Rei em Londres, tendo sido utilizado na peça The Indian Queen, causando imensa admiração e sendo considerado inimitável. Além disso tudo,  inúmeras outras bugigangas e raridades da natureza, bem como artefatos artísticos, tais como cestas, armas e aventais. Trocávamos seus produtos por contas coloridas, canivetes, machados, alfinetes e agulhas, com as quais eles perfuram as orelhas, os lábios e o nariz, ali pendurando todo tipo de pequenos objetos, como contas alongadas, pedacinhos de metal martelado, de latão ou de prata, ou qualquer outro objeto brilhante. As contas são entretecidas em aventais de mais ou menos um metro de comprimento e da mesma largura, formando lindas flores de diversas colorações. Os aventais são usados na parte anterior do corpo, como Adão e Eva usavam as folhas de figueira. Os homens também usam longas tiras de pano, que são também parte de nosso comércio. Eles enfiam as contas em longos fios de algodão que usam em volta da cintura, em vinte ou mais voltas, para atar o avental. O mesmo fio é também passado transversalmente da cintura ao pescoço, por ambos os lados, passando também por volta do pescoço, dos braços e das pernas.  Tal adorno, combinando com seus longos cabelos negros e com seus rostos salpicados de flores coloridas aqui e ali, os torna figuras maravilhosas para a vista. Alguns destes belos espécimens, que ainda são privilegiados por suas belas formas corporais, como é comum entre eles, e que ainda ostentam belas fisionomias, são de fato encantadores e de beleza inédita, pois têm tudo aquilo que é próprio da beleza, exceto a cor, que é de um amarelo avermelhado. Depois que eles se untam com um certo tipo de óleo, o que é freqüente, ficam da cor de um tijolo novo, porém liso, macio e lustroso. São extremamente modestos e ariscos, muito tímidos e relutantes em se deixar tocar. Embora estejam desnudos, não se percebe entre eles nenhuma ação ou olhar indecente. Visto estarem perfeitamente acostumados a se verem assim despidos, exatamente como nossos primeiros pais antes da queda, tem-se a impressão de que eles não têm desejos.  Nada havendo para aguçar a curiosidade, pois tudo o que pode ser visto é visto de vez, e visto sempre, nada há de novidade e lá onde desaparece a novidade não há campo para a curiosidade. Não que eu não tenha visto algum destes simpáticos escravos morrendo de amor por alguma belíssima escrava; toda a sua corte se resumia, porém, em cruzar os braços, persegui-la com os olhos, e falar apenas por suspiros; ela, por sua vez, agia como se não estivesse ali seu amante ou mesmo como se ela desejasse que ali ele não estivesse, vigiando cuidadosamente seus olhos para que não o vissem; dele nunca se aproximando, dirigia o olhar para o chão com toda aquela pudica modéstia que já vi nas pessoas mais severas e mais reservadas de nosso mundo. Essas pessoas representam para mim a idéia absoluta do primitivo estado de inocência, antes de o homem ter aprendido a pecar. Ficava também evidente que a simples Natureza é a mais inofensiva e a mais virtuosa das mestras. Ela sozinha, se autorizada, instrui o mundo muito melhor do que todas as invenções humanas. A religião, aqui, apenas destruiria aquela tranqüilidade que a ignorância dá às pessoas e as leis seriam apenas mestras da transgressão, da qual as mesmas não têm noção. Certa vez estes nativos fizeram luto e jejum pela morte do governador inglês, que lhes havia prometido aparecer num certo dia, mas  nem apareceu nem mandou alguém com explicações. Estavam convencidos de que sua morte era a única explicação para seu não aparecimento. Quando viram que o governador, de fato, estava vivo, perguntaram-lhe que nome se dava a uma pessoa que prometia algo e não cumpria o prometido. O governador lhes disse que tal pessoa não passava de mentirosa, palavra esta cheia de infâmia para um cavalheiro. Um dos escravos então lhe disse: “Governador, o senhor é um mentiroso e culpado de infâmia.” Eles são donos de uma justiça nativa que desconhece a palavra fraude. Somente entendem de vícios ou de esperteza quando recebem lições de vício ou esperteza dos brancos. Não conhecem a monogamia. Quando algumas esposas envelhecem, prestam serviços para aquelas que as sucedem, que são jovens, mas com servidão espontânea e respeitosa e a menos que façam escravos numa guerra, não têm outras pessoas que lhes prestem serviços.

No continente onde eu me encontrava não havia rei entre os nativos. Obedecia-se, porém, ao mais velho dos capitães de guerra com grande respeito. Um capitão de guerra é um homem que conduziu combates com dignidade e sucesso. Deles terei oportunidade de falar mais tarde, bem como de outros costumes e modos de ser destes nativos, à medida que forem surgindo as oportunidades.

Como já disse, vivíamos em perfeita harmonia e em bom entendimento com estes escravos, como nos convinha. Eles conheciam muito bem os lugares onde conseguir o melhor alimento da região e os meios de consegui-lo. Por pequenas bagatelas sem valor, supriam-nos com o que seria impossível para nós mesmos conseguir. Na caça, eles mesmos faziam o papel dos cães, tanto nos matos como nas savanas, embrenhando-se com rapidez por lugares praticamente impenetráveis e, pela simples atividade de seus pés, alcançavam os mais ágeis veados e outros animais comestíveis. Na água, julgar-se-ia que eram os deuses dos rios, ou cidadãos das profundezas, tão extraordinária era sua arte de nadar, de mergulhar e de conviver com o líquido elemento, o que lhes permitia dominar os menos rápidos habitantes das águas. Eram certeiros com o arco e a flecha: o que não podiam pegar com as mãos, atingiam com flechas, com pontaria tão certeira que poderiam dividir ao meio um fio de cabelo. Atingiam tudo o que estivesse ao alcance de suas flechas: para derrubar laranjas e outras frutas, a ponta de seus dardos apenas cortava os talos, para que não se machucasse a fruta. Sendo, portanto, um povo de grande utilidade para nós em qualquer ocasião, achamos ser de absoluta necessidade tratá-los como amigos e não como escravos. Nem ousaríamos agir de outra forma, visto que eram muito mais numerosos do que nós naquele continente.

Aqueles, portanto, que empregamos para trabalhar em nossas plantações de açúcar são negros, na verdade escravos negros, que para cá são transportados da forma seguinte: os que querem escravos entram em negociações com um mestre ou capitão de navio, estabelecendo por contrato que pagarão tanto por cabeça, coisa de umas vinte libras, por um determinado número de escravos e que o pagamento se efetuará quando da chegada dos mesmos à plantação. Ao chegar o navio, aqueles que fecharam um contrato com o capitão vão a bordo e recebem o lote de escravos. Num lote, poderá haver três ou quatro homens e os demais mulheres e crianças, ou um número maior ou menor de escravos de um ou outro sexo, mas o comprador tem que se contentar com o que lhe foi destinado.

O país de negros chamado Coromantien era um dos lugares considerados mais vantajosos para o tráfico de escravos, muito procurado pelos que faziam este comércio, pois a mencionada nação era guerreira e brava e, como estavam sempre em hostilidades com um ou outro príncipe de regiões vizinhas, tinham a sorte de fazer muitos prisioneiros os quais, com exceção daqueles que podiam pagar seu próprio resgate, eram vendidos como escravos. O lucro total dos escravos assim vendidos ficava com os generais e era destes generais mesmos que nossos mestres e capitães de navios compravam todo o resto da carga.

O rei de Coramantien era um homem de cento e tantos anos que não tinha filhos vivos, embora estivesse rodeado de muitas lindas mulheres negras, pois, sem dúvida, há mulheres negras muito belas e encantadoras.  Nos anos de sua juventude, ele teve muitos filhos de grande dignidade, treze dos quais morreram no campo de batalha, nas guerras de conquista. Somente lhe restava um neto, seu sucessor, filho de um daqueles falecidos conquistadores. Assim que este neto conseguiu carregar um arco nas mãos e uma aljava nas costas, foi mandado para os campos militares, a fim de receber treinamento de um dos mais velhos generais e estar preparado para a guerra. Dada sua natural inclinação para as armas e o bom treinamento recebido do velho general, tornou-se, aos dezessete anos, um dos mais competentes capitães e um dos mais corajosos soldados que os campos de Marte já viram. Era reverenciado por todos como uma das maravilhas daquele mundo e era o preferido dos soldados. Além disso, era adornado de uma beleza nativa que excedia de tal forma a que caracterizava os de sua sombria raça que a admiração e a reverência que ele irradiava atingiam mesmo aqueles que não conheciam suas demais qualidades, exatamente como aconteceu comigo, ao vê-lo, surpreendida e maravilhada, quando chegou, mais tarde, a nosso mundo.

Mal tinha este belo capitão chegado aos dezessete anos quando o general do qual ele tinha recebido treinamento, lutando a seu lado, foi morto por uma flecha que o atingiu no olho. A flecha, de fato, vinha na direção do Príncipe Oroonoko pois este era o nome de nosso galante herói que escapou por um triz. Na verdade o general, ao ver a flecha ser disparada e ao perceber que o alvo da mesma era o príncipe, interpôs sua cabeça, a fim de receber o dardo em seu corpo, assim salvando seu jovem tutelado.

Foi então que Oroonoko, ainda consternado, foi proclamado general, em substituição ao herói morto. Terminada a guerra, que ainda continuara por dois anos, o príncipe foi para a corte, onde apenas passara  um mês, ao todo, dos cinco aos dezessete anos. Era, porém, difícil imaginar onde poderia ele ter adquirido tanta ciência humana; ou então, para que seus méritos recebam um nome mais justo, onde teria ele adquirido tanta grandeza de alma, tantas noções da mais lídima honradez, da mais absoluta generosidade e toda aquela suavidade. Era capaz da mais elevada paixão, muito embora seu objetivo único fossem as batalhas, onde via homens despedaçados e mortos e onde não ouvia outros sons que não fossem os gritos de guerra e os gemidos dos feridos e dos agonizantes. Tal nobreza de formação deve ser parcialmente atribuída à dedicação de um francês de grande inteligência e erudição o qual, vendo vantagens na tarefa de instruir este jovem príncipe negro e percebendo sua prontidão, sua capacidade e sua facilidade em aprender, ensinava-lhe com grande prazer a moral, as línguas e as ciências, o que tornava tal mestre amado e valorizado. Por outro lado, o príncipe, ao retornar das guerras, apreciava demais o contato com os comerciantes ingleses que aportavam a seu país e com os quais aprendeu a língua inglesa. Posteriormente, ao negociar escravos com os espanhóis, aprendeu-lhes também a língua.

Eu freqüentemente conversava com este grande homem ou o via, depois que chegou a nossas terras, tendo mesmo testemunhado muitas de suas demonstrações de poder. Posso assegurar a meu leitor que as mais ilustradas artes deste mundo teriam sido impotentes para produzir um homem de tal estatura, não só pelo elevado grau de sua coragem e pela grandeza de sua alma, mas também pela solidez de seus julgamentos, pela rapidez de seus raciocínios, pela doçura e pelo prazer de sua conversação. Seu amplo conhecimento de tudo dava a impressão de que era muito lido. Tinha ouvido falar dos romanos e os admirava; tinha ouvido falar das recentes guerras civis na Inglaterra e da morte deplorável de nosso monarca, sobre a qual discursava com grande erudição, declarando-a uma injustiça abominável. Sua fisionomia era cheia de graça e de bondade, espelhando toda a dignidade de um homem de estatura moral e de incomum educação. Nada havia de bárbaro em sua natureza; pelo contrário, portava-se em tudo como se tivesse sido educado em alguma corte européia.

Tal demonstração de grandeza e de integridade de caráter provocou em mim grande curiosidade e desejo de conhecê-lo, especialmente depois que fiquei sabendo que ele falava francês e inglês e que eu poderia me comunicar com ele.

Embora eu já tivesse ouvido falar tanto de suas qualidades, foi grande minha surpresa quando o vi, pois descobri que a realidade superava de tal forma o retrato que dele se fazia que tive a impressão que nunca tinha ouvido falar de sua pessoa.

 

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