| Oroonoko ou o escravo real |
|
Aphra Behn Excerto |
|
Não
é minha intenção, ao apresentar a história deste escravo real, entreter
meu leitor com as aventuras de um herói fictício, cuja vida e cujo destino a
imaginação pode manipular ao bel prazer do poeta; nem tampouco, ao relatar a
verdade, enfeitá-la com acontecimentos fantasiosos. Sua história vai ser
narrada com simplicidade, amparada apenas por seus próprios méritos e pelos
acontecimentos que ocorreram naturalmente, pois tem suficiente apoio na
realidade para que se torne atraente, prescindindo dos acréscimos da imaginação. Eu
mesma fui testemunha ocular de grande parte daquilo que aqui será narrado. O
que não testemunhei, ouvi da boca do principal protagonista desta história,
o próprio herói, que narrou todos os acontecimentos de sua juventude, embora
eu tenha omitido, por questão de brevidade, milhares de pequenos incidentes
de sua vida os quais, por mais agradáveis que tivessem sido a meu ouvido numa
época em que eram raras as histórias, poderão acabar sendo enfadonhos para
meu leitor, que vive num mundo onde a cada instante pode encontrar diversões
novas e raras. Como o caráter deste grande homem me encantava, eu não perdia
oportunidade para saciar minha curiosidade,
recolhendo os menores detalhes de sua vida. O
cenário da parte final de suas aventuras localiza-se em uma colônia na América,
chamada Suriname, nas Índias Ocidentais. No
continente onde eu me encontrava não havia rei entre os nativos. Obedecia-se,
porém, ao mais velho dos capitães de guerra com grande respeito. Um capitão
de guerra é um homem que conduziu combates com dignidade e sucesso. Deles
terei oportunidade de falar mais tarde, bem como de outros costumes e modos de
ser destes nativos, à medida que forem surgindo as oportunidades. Como
já disse, vivíamos em perfeita harmonia e em bom entendimento com estes
escravos, como nos convinha. Eles conheciam muito bem os lugares onde
conseguir o melhor alimento da região e os meios de consegui-lo. Por pequenas
bagatelas sem valor, supriam-nos com o que seria impossível para nós mesmos
conseguir. Na caça, eles mesmos faziam o papel dos cães, tanto nos matos
como nas savanas, embrenhando-se com rapidez por lugares praticamente impenetráveis
e, pela simples atividade de seus pés, alcançavam os mais ágeis veados e
outros animais comestíveis. Na água, julgar-se-ia que eram os deuses dos
rios, ou cidadãos das profundezas, tão extraordinária era sua arte de
nadar, de mergulhar e de conviver com o líquido elemento, o que lhes permitia
dominar os menos rápidos habitantes das águas. Eram certeiros com o arco e a
flecha: o que não podiam pegar com as mãos, atingiam com flechas, com
pontaria tão certeira que poderiam dividir ao meio um fio de cabelo. Atingiam
tudo o que estivesse ao alcance de suas flechas: para derrubar laranjas e
outras frutas, a ponta de seus dardos apenas cortava os talos, para que não
se machucasse a fruta. Sendo, portanto, um povo de grande utilidade para nós
em qualquer ocasião, achamos ser de absoluta necessidade tratá-los como
amigos e não como escravos. Nem ousaríamos agir de outra forma, visto que
eram muito mais numerosos do que nós naquele continente. Aqueles,
portanto, que empregamos para trabalhar em nossas plantações de açúcar são
negros, na verdade escravos negros, que para cá são transportados da forma
seguinte: os que querem escravos entram em negociações com um mestre ou
capitão de navio, estabelecendo por contrato que pagarão tanto por cabeça,
coisa de umas vinte libras, por um determinado número de escravos e que o
pagamento se efetuará quando da chegada dos mesmos à plantação. Ao chegar
o navio, aqueles que fecharam um contrato com o capitão vão a bordo e
recebem o lote de escravos. Num lote, poderá haver três ou quatro homens e
os demais mulheres e crianças, ou um número maior ou menor de escravos de um
ou outro sexo, mas o comprador tem que se contentar com o que lhe foi
destinado. O
país de negros chamado Coromantien era um dos lugares considerados mais
vantajosos para o tráfico de escravos, muito procurado pelos que faziam este
comércio, pois a mencionada nação era guerreira e brava e, como estavam
sempre em hostilidades com um ou outro príncipe de regiões vizinhas, tinham
a sorte de fazer muitos prisioneiros os quais, com exceção daqueles que
podiam pagar seu próprio resgate, eram vendidos como escravos. O lucro total
dos escravos assim vendidos ficava com os generais e era destes generais
mesmos que nossos mestres e capitães de navios compravam todo o resto da
carga. O rei de Coramantien era um homem de cento e tantos anos que não tinha filhos vivos, embora estivesse rodeado de muitas lindas mulheres negras, pois, sem dúvida, há mulheres negras muito belas e encantadoras. Nos anos de sua juventude, ele teve muitos filhos de grande dignidade, treze dos quais morreram no campo de batalha, nas guerras de conquista. Somente lhe restava um neto, seu sucessor, filho de um daqueles falecidos conquistadores. Assim que este neto conseguiu carregar um arco nas mãos e uma aljava nas costas, foi mandado para os campos militares, a fim de receber treinamento de um dos mais velhos generais e estar preparado para a guerra. Dada sua natural inclinação para as armas e o bom treinamento recebido do velho general, tornou-se, aos dezessete anos, um dos mais competentes capitães e um dos mais corajosos soldados que os campos de Marte já viram. Era reverenciado por todos como uma das maravilhas daquele mundo e era o preferido dos soldados. Além disso, era adornado de uma beleza nativa que excedia de tal forma a que caracterizava os de sua sombria raça que a admiração e a reverência que ele irradiava atingiam mesmo aqueles que não conheciam suas demais qualidades, exatamente como aconteceu comigo, ao vê-lo, surpreendida e maravilhada, quando chegou, mais tarde, a nosso mundo. Mal
tinha este belo capitão chegado aos dezessete anos quando o general do qual
ele tinha recebido treinamento, lutando a seu lado, foi morto por uma flecha
que o atingiu no olho. A flecha, de fato, vinha na direção do Príncipe
Oroonoko –
pois este era o nome de nosso galante herói – que
escapou por um triz. Na verdade o general, ao ver a flecha ser disparada e ao
perceber que o alvo da mesma era o príncipe, interpôs sua cabeça, a fim de
receber o dardo em seu corpo, assim salvando seu jovem tutelado. Foi
então que Oroonoko, ainda consternado, foi proclamado general, em substituição
ao herói morto. Terminada a guerra, que ainda continuara por dois anos, o príncipe
foi para a corte, onde apenas passara um
mês, ao todo, dos cinco aos dezessete anos. Era, porém, difícil imaginar
onde poderia ele ter adquirido tanta ciência humana; ou então, para que seus
méritos recebam um nome mais justo, onde teria ele adquirido tanta grandeza
de alma, tantas noções da mais lídima honradez, da mais absoluta
generosidade e toda aquela suavidade. Era capaz da mais elevada paixão, muito
embora seu objetivo único fossem as batalhas, onde via homens despedaçados e
mortos e onde não ouvia outros sons que não fossem os gritos de guerra e os
gemidos dos feridos e dos agonizantes. Tal nobreza de formação deve ser
parcialmente atribuída à dedicação de um francês de grande inteligência
e erudição o qual, vendo vantagens na tarefa de instruir este jovem príncipe
negro e percebendo sua prontidão, sua capacidade e sua facilidade em
aprender, ensinava-lhe com grande prazer a moral, as línguas e as ciências,
o que tornava tal mestre amado e valorizado. Por outro lado, o príncipe, ao
retornar das guerras, apreciava demais o contato com os comerciantes ingleses
que aportavam a seu país e com os quais aprendeu a língua inglesa.
Posteriormente, ao negociar escravos com os espanhóis, aprendeu-lhes também
a língua. Eu
freqüentemente conversava com este grande homem ou o via, depois que chegou a
nossas terras, tendo mesmo testemunhado muitas de suas demonstrações de
poder. Posso assegurar a meu leitor que as mais ilustradas artes deste mundo
teriam sido impotentes para produzir um homem de tal estatura, não só pelo
elevado grau de sua coragem e pela grandeza de sua alma, mas também pela
solidez de seus julgamentos, pela rapidez de seus raciocínios, pela doçura e
pelo prazer de sua conversação. Seu amplo conhecimento de tudo dava a
impressão de que era muito lido. Tinha ouvido falar dos romanos e os
admirava; tinha ouvido falar das recentes guerras civis na Inglaterra e da
morte deplorável de nosso monarca, sobre a qual discursava com grande erudição,
declarando-a uma injustiça abominável. Sua fisionomia era cheia de graça e
de bondade, espelhando toda a dignidade de um homem de estatura moral e de
incomum educação. Nada havia de bárbaro em sua natureza; pelo contrário,
portava-se em tudo como se tivesse sido educado em alguma corte européia. Tal
demonstração de grandeza e de integridade de caráter provocou em mim grande
curiosidade e desejo de conhecê-lo, especialmente depois que fiquei sabendo
que ele falava francês e inglês e que eu poderia me comunicar com ele. Embora
eu já tivesse ouvido falar tanto de suas qualidades, foi grande minha
surpresa quando o vi, pois descobri que a realidade superava de tal forma o
retrato que dele se fazia que tive a impressão que nunca tinha ouvido falar
de sua pessoa. |