Lutas do coração 

                   

Excerto

Capítulo I 

 

Um dos melhores vapores da Mala Real, em viagem da Europa para aqui, trouxe, entre outros passageiros, o Dr. Hermano Guimarães, engenheiro civil, que voltava à pátria depois de vinte e tantos anos de ausência. Antes disso, porém, telegrafara a seu tio, o barão de Santa Júlia, capitalista bem conhecido no alto comércio do Rio como homem honrado e pessoa do mais fino trato, que lhe arranjasse aposentos em qualquer hotel de primeira ordem.

Com os seus hábitos de rapaz solteiro, escrupulizava ir morar com a família do titular, a quem passou procuração logo que tomou posse dos seus haveres, aumentando-os este com a mais correta fidelidade.

O fidalgo mais de uma vez escrevera pedindo-lhe para voltar ao Brasil, ao que se resolveu o Dr. Hermano pouco depois que terminara o jogo da Bolsa, que tantas fortunas deu da noite para o dia, mas que na louca vertigem arrastou também enormes desgraças.

Ele, porém, nada sofreu; pelo contrário, o tio aumentara-lhe os prédios e as ações, de sorte que tinha rendimentos bastantes para viver com luxo.

Logo que resolveu voltar ao Rio, jurou empregar a sua atividade na ‘Luta pela vida’, que desconhecia.

Naturalmente, aqui não tinha os divertimentos de Paris nem os das grandes capitais Européias... Se, porém, lhe desse saudades de lá, faria anualmente uma viagem de três ou quatro meses, voltando depois.

Durante o trajeto não enjoou; teve uma viagem divertida, captou sérias simpatias, movendo-o uma grande curiosidade acerca da Baía de Guanabara, que sabia ser muito linda.

O seu amigo e companheiro, o Dr. Mendonça, conversava com ele a respeito do nosso esplêndido torrão, e das belezas naturais do solo. Ao amanhecer, no dia da chegada, ambos, de binóculo em punho, observavam o refletir do sol sobre as águas, assestando-o para todos os pontos, inclusive para o ‘Pão de Açúcar’, que saía delas como uma bonita cripta de encantado palácio de sereias, quando o Dr. Hermano viu num bote um cavalheiro idoso, que lhe sorria e acenava.

Era o barão de Santa Júlia, que, não obstante morar em Botafogo, de há muito que aguardava o viajante. Abraçaram-se estreitamente. As perguntas atropelavam-se, mostrando-se ambos muito satisfeitos.

— E como vai a baronesa? e Angelina? — perguntava o recém chegado.

— A primeira um tanto adoentada; a segunda, assim, assim, com o seu todo de moça dengosa, e, como é filha única, por tanto muito adorada.

Os remos a baterem na água não os impedia de falarem vivamente sobre vários assuntos.

Ao pisarem o cais de Faroux, entraram ambos na carruagem que os aguardava, seguindo para o Hotel dos Estrangeiros, onde se encontravam os aposentos que o tio lhe mandara preparar.

Aí, depois de alguma demora, o fidalgo prometeu vir vê-lo no dia imediato.

— E almoçará comigo.

— Está dito.

— Não falte.

— Até amanhã.

No dia seguinte, pelas dez horas, o titular lá estava.

Almoçaram fartamente, seguindo depois para a sala particular que deitava para a chácara, com excelente vista para o oceano.

Saboreavam um excelente havana, sentados nas cadeiras de braços que se perfilavam junto ao sofá, intermediadas por um tapete felpudo e negro, semeado de estrelas cor de ouro.

A sala, além das cadeiras, dos Dunquerques e um gueridon a um canto, tinha um excelente piano de Herz, alugado; confronte, numa coluna de ébano, estava um relógio, representando uma cena bucólica com o tique-taque a bater pausada e metodicamente, marcando o ponteiro doze horas em marteladas iguais.

Cavaquearam muito, descambando a conversa para assuntos familiares. Hermano, que na véspera tomara um bonde e fora ao Jardim Botânico, não se fartava de elogiar a vegetação brasileira.

O parente, pondo-o ao fato do que era a vida no Rio, lembrou-lhe dizer que muito breve lhe mandaria um retrato a óleo da mãe do moço, retrato este tirado na Bélgica, pouco antes do seu falecimento.

— Mande-mo, pois dela apenas tenho esta miniatura tirada de uma fotografia antiga.

Era com efeito preciosa a medalha que o encerrava, circulando o esmalte umas bonitas pérolas e diamantes de certo preço.

— O quadro de que falo — continuou o barão — acha-se bem conservado; minha mulher cuidava dele com esmero para lhe entregar quando cá viesse.

E a falar largamente sobre a família, o engenheiro, homem de coração, achava-se um tanto comovido, em vista do que o fidalgo foi mudando o tema da conversa para uma clave mais alegre:

— Um homem sempre é homem, Hermano, e, a propósito dos homens, o que me diz sobre o novo advento político?

Hermano sacudiu os ombros:

— Sei lá... precipitaram os acontecimentos nessa crise política, esperada desde o dia treze de maio.

— Que a mim não me fez mal, em razão de já ter de há muito alforriado os meus escravos, não obstante ferir a República as minhas prerrogativas de titular. Eu lhe garanto que não quero saber de semelhante gente, nem com ela pretendo fazer roda.

— Todavia há de permitir, meu tio, que eu discorde das suas opiniões, por ser republicano convicto. Mais tarde, pela sucessão dos fatos, não haverá sobre o globo senão o elemento republicano: veja as tentativas e as estatísticas.

O tio fez um gesto de dúvida.

Depois de mais alguns bons minutos de amigável palestra, o relógio bateu uma hora.

Aquela pancada seca, única, matemática, fez com que o hóspede desse a entender que ia partir.

 

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