Sorrisos e prantos

Rita Barém de Melo

 

Excertos

 

Bogari

Diz se há no prado flor

Que Deus fizesse tão bela.

(J.B. de A. Garrett)

 

Bogari, me foste dado

Por quem me tem afeição,

A ti pois, oh! flor singela,

Eu oferto esta canção;

Vem penhor d’alta amizade

De um bem nobre coração,

Desta lira ouvir acentos

Que tristes, sentidos são.

 

Tens alva cor - castidade

Eu leio n’esse alvejar,

Nessas folhas - a esperança

Vai-se a pureza enlaçar;

No peito, teu grato aroma

Vem doçuras infiltrar,

Tens um langor indolente

Nesse teu frágil curvar.

 

Quando essa cor deslumbrante,

Florinha, empalidecer,

Nestas chamas que no peito

Sinto ativas me ferver,

Hei de dar-te novo alento,

De teu gelo te aquecer,

Retardar esse momento,

De eterno desfalecer.

 

Há um jardim em minh’alma,

Mas só tem flores de dor,

Tenho saudades -- martírios,

Sem um só perfeito amor;

Dá-lhe em vez d’agra tristeza

Suavidade e doçor,

Que vou agora guardar-te

Nesse jardim, doce flor.

 

E quando o tempo essas folhas

Te lançar enfim no chão,

Uma a uma hei de guardá-las

Junto a este coração

Hei de gravar este nome

Na minha imaginação,

No álbum de minha vida

Teus perfumes ficarão.

 

Serena, meiga florinha,

Meu bogari tão gentil,

Não poderás menear-te

Nunca mais em mês d’Abril;

Quando o sol é puro e brado,

Quando o céu traja d’anil,

Ou lá quando a primavera

Mostra a face juvenil.

 

Mas embora não os gozes,

Não hás de nunca murchar,

Tenho a vida neste peito

Para vida inda te dar;

Se não tens a aurora em nuvens

Radiante a despontar,

Tens a manhã desta vida

Que se vota a só te amar.

 

Tens um’alma a quem és caro,

Tens um altar d’afeições,

Uma lira que te pede

Suaves inspirações;

Oh! não desprezes meus cantos,

Minhas humildes canções,

Que contigo não receio

De dura sorte os baldões.

 

Mas como terás saudades,

Saudades do teu jardim,

Saudades dessa florinha

Como tu alva, oh! jasmim,

Esquece-a e os lindos prados

Onde brilhavas assim,

Deves também esquecê-los

E viver só para mim.

   

                          Porto Alegre, 25 de Agosto 1856.

 


 

 

Visão

 

Elle était de ce monde, où les plus belles choses

                    Ont le pire destin;

Et rose elle a vécu, ce que vivent les roses –

                    L’espace d’un matin!

(Malherbe)

 

Era noite, as estrelas se viam

Fulgurando mimosas no céu,

E a lua de jaspe surgia

Vaporosa, em diáfano véu.

 

E eu vi-a chorosa, tão linda,

Alva e loura a uma cruz abraçada;

E trajava os alvores d’aurora,

Essa angélica tão descorada.

 

Louras tranças beijavam formosas

O seu colo de níveo jasmim;

Era ouro, que o sol espargira

Sobre a neve de branco marfim.

 

Doloroso gemido, sentido,

De seus lábios de nácar fugiu,

E perdeu-se nas águas casado,

C’o o murmúrio saudoso do rio.

 

O reflexo da lua batia

Nessa fronte de pálido alvor,

As safiras do céu s’estampavam

Em seus olhos celestes na cor.

 

E a mão jaspeada passou

Pela fronte com acre aflição,

E o seio lhe arfava ansioso,

Das estrelas ao baço clarão.

 

E do seio do anjo inocente

Magoado suspiro fugiu,

E a loura cabeça donosa

A seu ombro de neve se uniu.

 

E o cândido ente que a terra

Por momentos viera habitar,

Foi num vôo ao céu, vaporoso,

De martírios a fronte c’roar!

 

1854

 


 

A meu irmão

 

Se tu sofres na vida, eu sofro:

Se não gostas do mundo, nem eu.

(João de Aboim)

 

Não te julgo, não, feliz,

Qu’estás longe do país

Em que nascestes, irmão;

Se tens saudades daqui,

Eu tenho-as também de ti

Profundas no coração.

 

Eu quisera que este canto

Fosse cheio de encanto

E não tivesse de pranto

Nem uma gota; mas oh!

Meu canto tem amargura,

Tem tristeza, desventura,

Que se casa c’o a tortura

Que tu sofres lá tão só!...

 

Tu sofres, tu choras,

Tu tremes, descoras,

Já sei, tu adoras

As terras daqui!

Não sofras, não chores,

Não tremas, descores,

Que eu sinto essas dores

Tão longe de ti.

 

Tu sofres, tão cedo

Não tens um só ledo

Momento que a medo

Te venha sorrir!...

Em tão curta idade

Já fez-te a saudade,

Da inf’licidade,

Mil dores sentir!

Março 1854.

 


Acróstico

 

Afeto celeste, suspiro dos anjos,

Morando no peito, chamando-se – amor; –

Oh! ele é bem puro, bem santo, bem nobre,

Remonta noss’alma aos pés do Senhor!

 

 

Nos jardins do coração

 

Dou-te, flor, que não desbota

Nem o tempo nem a idade;

Sincera é a mão que t’oferta

A casta flor d’amizade.

(Serda Pimentel)

 

As florinhas d’amizade,

Castas flores que elas são,

São florinhas que nos brotam

Nos jardins do coração.

 

Embalde quer esfolhá-las

Do outono a viração,

Essas flores nunca morrem

Nos jardins do coração!

 

São sorrisos inocentes,

Que vêm da imaginação,

E que vão depois gravar-se

Nos jardins do coração.

 

São olores debruçados,

Num arbusto mais loução;

São primaveras que brilham

Nos jardins do coração.

 

São as notas indolentes

Duma indolente canção,

Jasmins olentes, esparsos

Nos jardins do coração.

 

São esp’ranças que sentimos

No fervor duma oração,

São – pensamentos – nascidos

Nos jardins do coração.

 

São suspiros que nos lembram

Mil saudades dum irmão,

Tristezas que se amenizam

Nos jardins do coração.

 

Róscidas pet’las que vivem

Abrigadas pelo chorão,

São alfombras de verdura

Nos jardins do coração.

 

São safiras engastadas

Num céu puro de verão,

Estrelas que se refletem

Nos jardins do coração. 

Setembro de 1855

 


 

A...

Eu não posso te amar

 

Se te amara,

Confessara

Meu amor;

Nem te amo,

Nem m’inflamo

Nesse ardor.

(J. Aboim)

 

Eu não sinto por ti na minh’alma

Viva chama que fale de ardor;

Eu não sinto meu peito abrasado,

Eu não posso falar-te de amor!

 

Se soubesses que dor sinto n’alma

Quando fitas em mim teu olhar!...

Eu quisera sentir uma lava

A minh’alma por ti escaldar!

 

Eu quisera poder consagrar-te

Bem ardente, bem nobre paixão;

Mas por ti só a voz d’amizade

Vibra ardente no meu coração!

 

Esse pranto que choras, mancebo,

Sinto em fogo no peito calar;

Mas não posso mentir-te, dizer-te:

Eu te amo, te hei de adorar!

 

Mas não creias desprezo, sarcasmo,

Se não posso, mancebo, te amar;

Vale mais a franqueza sincera,

Do que um mentiroso enganar.

 

Eu falar-te mil falas ardentes,

Não será bem atroz, vil traição?

Tu mais tarde dirias – mentiras –

“Tu zombaste da minha paixão!”

 

“Tu fizeste crescer uma chama

Que brotara no meu coração;

E agora a verdade me mata:

Tu zombaste da minha paixão!”

 

“Ironias vertiam teus lábios

Nessas frases de consolação;

Não amor inspirei-te, donzela,

Mas – piedade só – e compaixão!”

 

Que dizer-te lá quando sentisse

Um amor verdadeiro nascer?

Dir-te-ia – é agora que sinto

A paixão em meu peito crescer!...

 

Eu não devo manchar esse afeto

Com fingido, com falso adorar!

Vale mais a franqueza sincera

Do que um mentiroso enganar!

 

Vais partir, oh! procura olvidar-me,

Ou me dar amizade d’irmão;

S’eu amar-te com fogo não posso, –

Eu te voto fraterna afeição.

 

Novembro de 1854.

 

 

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