Itinerário de uma viagem à Alemanha

Nísia Floresta 

 

Excerto

Estrasburgo
30 de setembro
 

 São dez horas da noite. Diletos amigos, estou de novo em com­panhia de minha querida filha e escapei de terrível indisposição que me afetou, quando do meu retorno. Não se abusa impunemente das forças físicas que a boa natureza nos deu.

Havia dormido um pouco em Hérimoncourt, para tratar de resistir à viagem de quarenta léguas que me separavam de minha filha. Apesar dos rogos cativantes do casal P***, para que eu ficasse ao menos mais um dia com eles, preferi partir. Levantei-me às duas horas. A excelente dona de casa estava junto a mim, apressada em prestar-me esses pequenos cuidados de que uma alma sensível tem tanta necessidade, sobretudo quando se acha longe daqueles pelos quais e para os quais respira. Cumu­lou-me de carinho e atenções, acompanhando-me à sala de jantar, onde copioso desjejum era servido como se fosse dia.

O senhor P*** recebeu-me com uma afeição bem fraterna. Fiquei emocionada com tanta delicadeza e amabilidade; para lhes ser agradável, tomei uma xícara de café com leite, mas recusei-me a tocar em tudo mais.

Sentia-me indisposta; mas, não querendo ser retida, por causa de minha filha, que me esperava aqui, não disse nada e apressei-me em partir, pretextando o embaraço que lhes causava a tal hora da noite. Seria necessário vê-los, ouvi-los naquele momento, para ter uma idéia de seu bom coração. Fizeram questão absoluta de conduzir-me até sua carruagem, que tinham preparado para mim. O senhor P*** colocou uma grande manta sobre meus pés e cuidou ele mesmo em que eu estivesse comodamente instalada.

Não estava lá um estrangeiro, ó meu filho, meu Brasil, meu Henrique! Estava um de vocês três, encarnado neste excelente senhor, para com o qual sinto o mais vivo reconhecimento e a mais sincera simpatia! As despedidas me tocaram sempre, pois penso em nossas despedidas e nas despedidas da pátria. E depois, as emoções que eu experimentara em Montbéliard não se tinham ainda dissipado. Somente por um esforço de minha vontade enérgica era que me mantinha de pé.

A viatura rolava através da escuridão de uma noite muito fria. Forte brisa soprava contra as portinholas que tinham fechado para proteger-me da umidade da noite. A  duas léguas de caminhada, senti como que um zumbido me passando pela cabeça e uma nuvem, mais escura que a noite que envolvia a terra, atravessou meu espírito! Acreditei, num instante que ia sentir-me mal; abri uma das portinholas, tateando, a fim de conseguir ar, pois sufocava. Fui tomada de forte crise de vômito.

O cocheiro parou os cavalos e desceu às pressas para oferecer-me seus serviços. O pobre homem deve ter-se encontrado bem embaraçado no meio de um campo isolado, sem nenhum socorro profissional para aquela que conduzia e cujos vômitos continuavam mais e mais!

Ofereceu-se para me tirar da viatura; preferi deitar-me e mandei que fizesse os cavalos andar lentamente.

Em alguns momentos, senti-me tão mal que tive medo de morrer ali, abandonada naquela solidão, em meio ao silêncio da noite, sem nenhum de vocês, caros objetos do meu amor, aos quais eu dirigia meus tristes suspiros, cujo último eco ficaria sufocado no meio dos Vosges. . . Oh! se eu pintasse para vocês o que se passou então em meu espírito, nessas horas de silêncio e de agonia física! Prefiro, todavia, poupar-lhes essa dor!

Os primeiros clarões da aurora tornaram-me um pouco mais calma. Meu mal tinha diminuído, e, graças aos cuidados atenciosos do velho cocheiro, que de tempo em tempo parava a viatura para me deixar repousar a cabeça, pude descer sem inconveniente ao albergue da nova estrada que tínhamos tomado.

Eram seis horas da manhã. A diligência devia partir às seis e meia. Mandei preparar uma xícara de café e dispensei o cocheiro, depois de lhe ter agradecido muito as suas atenções e encarregá-lo de transmitir a seus patrões minhas expressões de amizade e profundo reconhecimento. Tinha grande necessidade de repouso e me restavam ainda doze léguas a percorrer em diligência, para chegar a Cernay e lá tomar o trem até Estrasburgo.

Sozinha, cansada, triste, não tendo ninguém para prevenir minha filha, em caso de acidente na estrada, invoquei minha santa mãe e a lembrança de vocês. Voltou-me a coragem. Subi à diligência, um cupê. Nela encontrei uma senhora alemã que voltava à França, depois de haver visitado a Suiça; sua companhia me teria sido muito agradável em outra ocasião, mas eu estava tão acabrunhada!

Essa senhora me foi muito útil. Teve por mim muita condescendência. Em cada muda ela me fazia descer para descansar um pouco da viatura e se colocava de maneira a deixar que eu repousasse minha cabeça sobre seu ombro. Minha boa estrela me tinha reservado essa caridosa companheira de viagem. Chegamos enfim a Cernay. A mesma senhora me conduziu a um albergue para me fazer tomar um caldo. Nessa pequena cidade, onde só se fala alemão, eu era bem feliz em ter comigo uma alemã: sem isso, não teria podido ser compreendida.

Um fato pareceu-me singular: na parte da Alemanha que eu acabara de percorrer, sempre tinha encontrado alguém que falasse francês; enquanto isso, numa aldeia da França ninguém compreendia essa língua!

Tomei o trem para Lutherbach. Fui conduzida diretamente a Estrasburgo, depois de ter atravessado ainda os Vosges e várias cidades muito movimentadas. Eu tinha esquecido de falar-lhes de Colmar, capital do Alto-Reno (Alsácia), que se estende até Bâle, na Suiça. Sinto-me de tal modo fatigada que me é impossível refletir sobre essa cidade.

A senhora Fr*** recebeu-me com uma verdadeira afeição. Veio da casa de  campo, com sua filha e a minha, para me esperar aqui; não quis me deixar ir ao hotel. Os elogios que ela e seu estimável marido me fizeram de nossa Lívia e o prazer que me testemunharam por tê-la com eles, durante esses três dias, tocaram profundamente meu coração de mãe, vocês o compreendem facilmente.

Minha filha me disse que toda essa boa família a tinha cumulado de um mundo de atenções. Assim, vocês vêem que, enquanto eu estava cercada de cuidados amáveis e de provas de simpatia em casa de uma das filhas de nosso venerável amigo, minha querida filha gozava da mesma felicidade em casa da outra. Essas famílias cativaram para sempre nossa afeição, fazendo-nos contrair, em relação a elas, uma dívida de coração.

Fiquei feliz em rever minha filha; a querida criança se jogou em meus braços com efusão, sem suspeitar que estivera a ponto de perder a mãe nesta curta ausência. Após esses três dias, pareceu-me que não a tinha visto há três meses! Longe de vocês, é ela a minha única companheira íntima, e, revendo-a depois do perigo que minha vida correra, minha ternura por ela aumentava ainda mais.

A senhora Fr***, boa e solícita em nos agradar, conduziu-me para visitar o museu de História Natural e o gabinete ali existente, onde seu excelente pai trabalhava outrora em Estrasburgo.

Observei um mundo de objetos doados por ele e trazendo seu nome, que é ainda venerado aqui. Não pude ver esse gabinete e todos os seus objetos, sem uma emoção profunda. Ainda completamente abalada por aquelas que experimentei em Montbéliard e Hérimoncourt, sinto-me incapaz de lhes fazer o relato.

Os costumes exemplares, a bondade e a notável caridade de que a senhora Fr e sua família dão exemplos diários fazem dela a verdadeira mulher cristã, pelas virtudes que pratica com a mais tocante simplicidade.

Sua filha, encantadoramente modesta e angelicalmente bondosa, é a digna herdeira das virtudes de sua mãe.

Verdadeiro tipo de família alemã, as duas dignas filhas do sábio Duvernoy apresentam, entre seus compatriotas franceses, o modelo da esposa, da mãe e da mulher.

Esquecia de lhes dizer que, chegando em Montbéliard, não encontrei mais ali minha amiga, a estimável viúva Duvernoy. Minha estada na Alemanha, de alguns dias a mais do que pensava ao partir de Paris, foi a causa desse desencontro.

Amanhã, portanto, retornarei a Paris com minha filha, e passarei apenas algumas horas em Nancy para ali visitar, se puder, recordações de Carlos, o Temerário.

Sinto-me extremamente fatigada e enfraquecida. As cartas de vocês, que vou encontrar em Paris, reanimarão minhas forças esgotadas por tantas emoções, durante uma viagem empreendida nas tristes disposições em que se acha meu espírito, pela perda recente da minha terna e excelente mãe!

Mais tarde, com calma talvez, escreverei para vocês, com mais ordem, este simples itinerário traçado algumas vezes sem seqüência, aqui e ali, por toda parte onde estive, mas sempre do mais profundo do coração. Deste coração que lhes dirige de Estrasburgo, como de todas as terras que percorri sem vocês, seus mais íntimos suspiros e os votos mais ardentes pela felicidade de vocês!

 

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