Diário da Baronesa E. de Langsdorff

 

 Excerto

10 de maio. O sr. Touchard mandou-nos avisar que a volta à França fora antecipada e, provavelmente, deveríamos nos instalar a bordo neste mesmo dia. O príncipe anunciara que ficaria ainda quinze dias após seu casamento e os cinco subtraídos, assim, em cima da hora, nos punham em grande agitação. Tínhamos apenas umas poucas horas para despachar nossas caixas e tomar as últimas providências quanto à casa que deixávamos toda mobiliada e desalugada. Até mesmo as poucas horas, porém, vieram a nos faltar, pois o sr. Touchard nos comunicou que o príncipe, no momento, alvo de despedidas da sociedade brasileira, nesta mesma manhã, iria em seguida ao teatro, onde executavam a música da Belle Poule, e, de lá, voltaria, a fim de fazer sua toalete de viagem para embarcar e dormir a bordo na mesma noite. Era difícil para a princesa fazer tanta coisa no mesmo dia, mas, para mim, que, além de tudo, deveria ainda acrescentar corridas da Glória ao paço, isso me pareceu absolutamente impossível; mas, nessas horas é difícil que o que pareça impossível, à primeira vista, realmente o seja. No momento em que comecei minha toalete forçada, para o último beija-mão, a Belle Poule enviou seus barqueiros, a fim de pegar nossas caixas e o Ville de Marseille, os dele, com o aviso de que o príncipe acabara de dar ordem de fechar os navios e que tudo o que não fosse mandado imediatamente, não mais seguiria. Foi no meio dessa extrema confusão que se fez toda a distribuição da bagagem. Aurélie corria até aos marujos para indicar em que escaler se deveria colocar determinada caixa, depois, voltava a arrumar um cacho de meus cabelos ou colocar uma echarpe de renda. Afinal, terminamos tudo e, quando subimos no nosso carro, Émile, que portava seu Grand Cordon Bleu recém-recebido, e eu, arrumada com o que tinha de melhor, vimos os marujos, separados em dois grupos, dirigir-se com nossos pacotes para seus respectivos escaleres.

Chovia quando chegamos ao paço. O carro do sr. de Saint Georges juntou-se a nós. Sua mulher e eu esperamos em um salão onde, pouco a pouco, todo o corpo diplomático veio alcançar-nos. O Núncio e o sr. de Jaegher cumprimentaram-me amavelmente; este demonstrou lamentar nossa partida e eu concordei com ele. Ao cabo de uma meia-hora, ouvimos o hino brasileiro que anunciava a chegada do imperador e sua irmã. O príncipe já chegara, e fui colocar-me atrás da Princesa de Joinville que recebia as despedidas de todo o corpo diplomático. Desta vez, a primeira em sua vida, a Princesa de Joinville fora separada das damas que a tinham educado e, quando entrei para me colocar atrás dela, a pobre criança tinha o ar triste, emocionado e sofrido. Minha presença a aliviou muito, pois só eu estava ao lado dela quando os homens a saudaram, despedindo-se.

Passamos, em seguida, para um outro salão onde se encontravam todas as damas do paço. A sra. Maria Antônia estava lá, sempre modesta e muito triste. Veio como se fora estrangeira, assim como as velhas damas da imperatriz, beijar a mão dessa criança que elas haviam embalado. Sentia-me demasiadamente constrangida ao me defrontar com elas, por medo de provocar-lhes inveja, mas, na verdade eu estava errada, pois a sra. Maria Antônia não cessou de me dirigir as palavras mais afetuosas e me repetiu várias vezes que estava triste de pensar que eu não estaria mais destinada a ficar junto de sua princesa. Após a apresentação das damas, passou-se a um terceiro salão, onde se achava o imperador, e todos as autoridades do Estado entraram para o beija-mão. Essa cerimônia foi extremamente silenciosa e tocante! Nenhuma palavra foi pronunciada durante o tempo em que durou. Ouvia-se apenas o ruído dos tacos dos sapatos batendo um contra o outro no momento da saudação, depois o leve ruge-ruge do vestido da princesa que se inclinava, estendendo a mão que era beijada.

Terminada a cerimônia, a princesa dirigiu-se a um quarto salão onde repousou comigo e as costumeiras damas. Retomou, então, a linguagem e a fisionomia infantis às quais tão rapidamente renuncia, logo que uma cerimônia começa. Não foi deixada por muito tempo assim em liberdade. O príncipe veio procurá-la para apresentar-lhe os franceses estabelecidos no Rio, o sr.Taunay à frente. Alegrei-me de ver que esse homem tão simples, modesto e absolutamente virtuoso, conservasse, num palácio, ao se dirigir a um príncipe, exatamente a mesma atitude de antes, mais cedo, a pé em nossa casa. Sua voz, ordinariamente muito baixa, soava, entretanto, cheia e forte; pronunciando seu discurso, era como se tivesse perdido aquela timidez que nunca o abandona no cotidiano. O príncipe respondeu com uma voz tão baixa que, embora eu estivesse atrás dele, ouvi flutuar apenas algumas palavras: “Amor da pátria... prazer de reencontrar compatriotas, etc...” Porém, o tom da voz era afetuoso e não havia a menor sombra de histrionismo na sua atitude. Quanto aos poucos franceses que o escutavam, concentrados em pequenos grupos no meio de uma sala imensa, mas vazia, um levantando a cabeça acima do ombro  do outro, espichando o pescoço para captar as palavras, pareciam-se a um pequeno rebanho retido no meio de um campo deserto. Após os franceses, não houve mais apresentações e cada um se despediu.

Há no Rio algo muito especial: é a passagem que se opera da solenidade extrema à mais completa informalidade. Num teatro as duas ações, a de erguer e a de baixar o pano, nunca marcam uma separação muito nítida para o espectador. Baixada a cortina, porém, este se retira e não segue as personagens até os bastidores. Aqui, ao contrário, são as mesmas pessoas que, juntas, passam de uma reverente cerimônia à mais familiar intimidade. Assim, após a última apresentação, a princesa se pôs em disparada pelos salões que há bem pouco percorrera com absoluta majestade; as damas, com seus vestidos de cauda, fizeram o mesmo e desapareceram, todas, por portas, corredores, cantos e nichos para mim desconhecidos. Os salões ainda estavam cheios de gente e eu, abandonada pelas companheiras, as quais nunca suspeitaria capazes de movimentos tão rápidos, achei-me ao pé de uma escada, sem saber aonde ir, tendo ouvido somente estas palavras ditas pela princesa apressada: “É preciso ir ao teatro em trajes de viagem”. Subi a escada e me achei nos aposentos da princesa, que fora invadido por alguns joalheiros, já meus conhecidos, e por pessoas totalmente estranhas para mim. Atrás desse salão, ouvi portas que se fechavam, depois, palavras ditas em um tom muito alto, cochichos, barulho de passos. Perguntei o que acontecia, responderam-me que a princesa tinha se fechado com suas damas brasileiras. Pensei que eram as despedidas pela partida. Aliás, eu tinha muito pouco tempo a perder. Desci novamente, procurei meu marido, achamos nossos carros com grande dificuldade, e, debaixo de chuva e de um calor úmido e triste, retomamos apressadamente o caminho da Glória. Tirei meu vestido de moiré, pus um de lã marrom, de gola alta. Comemos um naco de pão com pedaços de um bicho muito bizarro, caçado nos matos do Rio, mandado pelo sr. Taunay. Saímos para voltar ao paço, sob a mesma chuva que engrossara, deixando a Aurélie ordem de ir para  bordo da Belle Poule e, aos outros empregados, de ficar esperando na casa.

Apenas chegáramos, a princesa desceu com o príncipe e o imperador. Fez-me sinal para segui-la, com um ar de comando surpreendente numa criança da sua idade, e toda a corte entrou em seus carros para ir ao teatro.

O hino da Constituição anunciou nossa chegada. O teatro São Pedro estava inteiramente iluminado e as damas todas, muito enfeitadas, contrastando conosco, as do camarote imperial, todas muito discretas. Os camarotes estavam cheios Ouvimos duas ou três canções, depois passamos à sala de jantar, onde o príncipe e o sr. Touchard decidiam sobre a atitude a tomar. Chovia e todo mundo estava esgotado. O sr. Touchard, aproximando-se de mim, dizia:

— Não é possível partir esta tarde!

Mas a princesa queria de qualquer modo dormir a bordo e alardeava sua fantasia com uma vivacidade de criança. Percorria o quarto, dizendo:

— Vamos partir! Vamos partir!

Depois, levantando a cortina, disse:

— Não está chovendo!

Ela teve a última palavra. Passou, então, a um pequeno boudoir, cuja porta deixou entreaberta: percebi soluços abafados por abraços, depois a Princesa de Joinville desvencilhou-se do colo de sua ama, que me entregou uma caixinha cheia com os diamantes da princesa para levar a bordo, pegou o braço do marido com um ardor de criança, sapateando de impaciência para estar bem depressa ao pé da escada e subir no carro que devia levá-la para a Belle Poule.

A escada que tomamos não levava à porta de saída imperial, mas a uma outra pequena, obstruída por uma multidão de pedestres. Como o carro do imperador nunca passava por ali, o da princesa não conseguira chegar logo e a idéia de esperar produziu na princesa uma expressão de espanto, demonstrada com um olhar tão infantil e palavras tão singelas, que toda a cena era muito original. Já no carro, a princesa e eu ao fundo, o príncipe, na frente, ela não pôde deixar de rir. O príncipe, que nada escutara, não compreendeu o espanto de sua mulher e ficou atônito. Então, eu lhe disse:

 — Vossa alteza real se diverte por ter esperado; para mim é um prazer que me desagrada.

Então o príncipe se pôs a rir e a troçar muito amavelmente de sua infantilidade. Chegamos todos de bom humor ao barco que nos esperava; entramos no salão, mas não nos sentamos e, ao cabo de algum tempo, estávamos todos em nossos camarotes.

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