Escritoras brasileiras do século XIX

Organização de Zahidé Lupinacci Muzart 

 

Excerto

Poemas de Júlia da Costa

Página solta  [1]

As horas caminham, esvaem-se os dias
No báratro fundo de um morno passado;
O sol esmorece, ¾ desmaiam as nuvens,
Por entre as estrelas de um céu adorado.

Nos mares perdido, o nauta cansado
Seus olhos estende fitando o arrebol,
E as doces imagens que a vida lhe ameigam
Lá surgem ao longe cercadas de sol!

Ditosa esperança, vestida de galas,
Lhe beija os cabelos com doce carinho,
E ele sorrindo de leve adormece,
Qual ave mimosa no flácido ninho!

As horas caminham, as aves acordam;
O nauta desperta; ¾ começa a viver!...
Só a pobre proscrita sem pátria, sem norte,
Começa chorando seu mudo sofrer!

E chora, e soluça!... das aves o canto
Saudade lhe trazem de um tempo feliz
Saudades da pátria, dos sonhos ditosos
Que a mente lhe ornaram de grato matiz!

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Enquanto tu vives, ó nauta ditoso,
Nas ondas sonhando venturas dos céus,
A pobre romeira, num sonho pressago,
Maldiz o destino descrendo de Deus!...

 

Sonhos ao luar [2]

Quem és tu, bardo noturno
Que me fazes meditar?...
Serás por acaso o eco
De meu triste cogitar?...

Eu também amo a saudade
Que me inspira a solidão;
Amo a lua que me fala
Do passado ao coração.

Como tu choro uma noite
De luar que se ocultou;
Como tu choro a esperança
De uma aurora que passou.

Quem és tu, bardo noturno
Que me fazes meditar?...
Quem és tu que na minh’alma
Vens de manso dedilhar?...

Serás inda a sombra errante
De uma noite que morreu?...
Meigo raio de ventura
Que em meu seio se escondeu?...

Quem és tu? Dize quem és
Branca sombra lá do céu!
Dize o nome do teu canto
Que eu direi-te [sic] quem sou eu!

 


[1] Bouquet de violetas. In Um século de poesia. Poetisas do Paraná, p.62.

[2] Ibid., p.63.

Para maiores informações sobre a poetisa, visite o Catálogo de Escritoras brasileiras

 

 

 

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