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A
Falência é considerado pela crítica um dos melhores romances de Júlia
Lopes de Almeida (1862-1934). Foi bem acolhido pelo público leitor e em 1901,
ano de seu lançamento pela editora A Tribuna, teve duas edições sucessivas.
As publicações subseqüentes foram feitas pela Francisco Alves e em 1978
houve mais uma, desta vez pela Hucitec. Não foi, como tantos outros bons
livros da época, primeiro publicado em folhetim, conforme nos aponta Eleonora
De Lucca em cuidadosa pesquisa bibliográfica.
Esta
obra conserva, até nossos dias, o frescor do estilo e a perspicácia da
observação de costumes da autora. Trata-se de um tema antigo de Júlia
Lopes, uma vez que já em 1886, em suas anotações de casos concretos, faz
uma sinopse do que seria o livro quinze anos depois. A ação se passa no Rio
de Janeiro na época de grandes especulações financeiras e jogatinas na
Bolsa. A trama gira em torno de Francisco Teodoro, comerciante português
enriquecido com o comércio de café. Ele é proprietário de armazéns, um
palacete e “dono”, segundo preceitos burgueses da época, de esposa, um
filho e três filhas; apesar de certo de que a esposa e o filho adulto têm
uma vida própria secreta. E além da empobrecida família da mulher,
Francisco também sustenta uma filha bastarda do cunhado. Outras personagens
giram em torno desse grupo central na investigação social de costumes
realizada pela autora neste romance.
O
momento é aquele, logo após a instauração da República, em que a urbanização
caminha de mãos dadas com a normatização médica da família brasileira,
como mostra Jurandir Freire Costa. Uma nova moral, a burguesa, novos
comportamentos e ideais se impõem, assim como a medicina higiênica impõe o
médico à família. Note o leitor que a relação entre a mulher da casa e o
médico não é nunca uma relação entre iguais pois é ele quem detém o
saber e, em conseqüência, o poder de nomear e ordenar as condições da vida
e do mundo.
A
falência se insinua, quase imperceptível, desde o início do enredo, ora na
casa ora entre conhecidos, até atingir exatamente a família de Francisco
Teodoro. Este se suicida e o filho se casa com uma moça rica e se afasta.
Restam as mulheres forçadas a sobreviver sem estarem preparadas para tanto,
um tema dileto de Júlia Lopes de Almeida que acreditava que só o trabalho e
a educação poderiam fazer surgir o verdadeiro talento e a capacidade para a
luta na vida cotidiana. As mulheres empobrecidas formam uma “comunidade de
mulheres”, nos moldes das descritas por Nina Auerbach, à margem da
sociedade, e reconstituem a vida em outros moldes e com outros valores. Dona Júlia
nos faz refletir, como afirma Peggy Sharpe, que “na luta pela mudança do
sistema, temos de ir além das transformações das causas e do gênero do
sujeito falante, temos em última instância de (re)repensar o sujeito de
forma inteiramente nova”.
Júlia
Lopes de Almeida, com direitos auferidos de seus livros e os estipêndios de
palestras que proferiu, conseguiu viver de sua pena, um feito para uma época
em que à mulher ainda não era permitido escrever nem expressar suas opiniões,
o que a escritora, jornalista, cronista e dramaturga fez em vários momentos e
sobre diversos assuntos. Em estilo simples, enxuto e elegante, em romances
realistas ou campanhas pacifistas, ecológicas ou pelos direitos das mulheres,
em projetos agrícolas ou educacionais, dona Júlia foi presença marcante na
sociedade e nas letras de seu tempo. Seu prestígio extrapolou o mundo da língua
portuguesa e foi, em mais de uma ocasião, festejada em Paris, Portugal e
Buenos Aires.
Em
1895, Júlia Lopes, já escritora consagrada, se estabelece com a família no
Rio de Janeiro. Seu novo endereço, uma chácara em Santa Tereza, onde anos
mais tarde João do Rio fez com ela uma entrevista muito divulgada, tornou-se
um centro intelectual para brasileiros e estrangeiros de passagem pela cidade.
Nesse ambiente a autora viveu muitos anos ao lado de uma família de artistas,
da qual se destacam, nas gerações seguintes, os filhos Afonso e Margarida
Lopes de Almeida e uma neta, Fernanda Lopes de Almeida, que atualmente escreve
contos instigantes.
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