A Família Medeiros 

JÚLIA LOPES DE ALMEIDA. A Família Mediros. 496p. 2009.
Introd. Norma Telles, orelha Luiz Rufatto. R$ 54,00



ORELHA

A Família Medeiros, primeiro romance escrito por Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), cumpriu uma curiosa trajetória. Iniciado em 1886 e concluído em 1888, segundo o crítico Wilson Martins, acabou atropelado pelo ritmo da História: a Abolição da Escravatura aparentemente tornara obsoleto o tema do livro, um sincero libelo anti-escravagista. Assim, a estréia da autora ocorre efetivamente com a publicação de Memórias de Marta, em 1889. No entanto, dois anos depois, entre 16 de outubro e 17 de dezembro de 1891, A Família Medeiros aparece em folhetins no jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, e, no ano seguinte, lançado em livro, alcança excelente repercussão.
    Informado dessas premissas, fica mais fácil compreender porque, embora em A Família Medeiros já estejam presentes algumas preocupações recorrentes de Júlia Lopes de Almeida (como, por exemplo, a questão do papel da mulher na sociedade), esse livro ainda aparece como um corpo estranho em sua bibliografia. Único de seus romances totalmente ambientado no meio rural - a região de Campinas, em São Paulo, onde a autora morou entre os sete e os 23 anos –, é também o mais distante da sobriedade estilística que redundaria nas obras-primas A Falência e A Viúva Simões, ambos da primeira década do Século XX.
    Fruto de sua experiência pessoal, como confessa em famosa entrevista a João do Rio, A Família Medeiros evoca “a vida do lavrador brasileiro, dos escravos, das sinhás e das sinhazinhas, os problemas do campo, o drama das geadas, das secas e das enchentes, a tragédia das pestes, dos infelizes atacados da morféia!”, como relembra sua filha, Margarida, que acrescenta: “os seus olhos observavam, a sua alma inundava-se de comoção, de revolta, de desespero e de piedade”.
    Romance de transição, se a autora ainda divide as personagens em dois grupos distintos e inconciliáveis, os bondosos e os malvados, numa clara submissão a um já anacrônico modelo romântico, ao mesmo tempo mostra-se bastante atenta aos novos caminhos que se ofereciam, examinando o meio sócio-econômico onde se desenvolve a trama com lupa de naturalista. (Aliás, nesse sentido, vale a pena observar a preocupação antecipadora de Júlia Lopes de Almeida no registro de termos e expressões tipicamente paulistas - pelo menos uma década antes do surgimento do chamado “regionalismo” pós-romântico).
    Assim, o que leitor tem em A Família Medeiros é ainda uma jovem e hesitante Júlia Lopes de Almeida – mas que, por meio de um incessante trabalho, já mostra porque viria a se tornar um dos mais importantes escritores brasileiros.

Luiz Ruffato
Escritor

 

 

 

 

 

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