A Silveirinha,  de Júlia Lopes de Almeida

Lésbia, de Maria Benedita Bormann (Délia)

 

Imprensa


Duas histórias de mulheres: resgate de um imaginário excluído

Em meio a uma grande pasmaceira política, que nos toma há tempos, podem-se perceber sinais de vida inteligente na área do movimento editorial

    A corajosa iniciativa da recente Editora Mulheres de republicar obras esgotadíssimas de escritoras brasileiras que, no seu tempo, foram alvo de interesse público fica patente com o lançamento de Lésbia (1890), de Maria Benedita Bormann, e de A Silveirinha (1913) , de Júlia Lopes de Almeida.

    Estas duas obras mereciam mesmo uma nova publicação. Explico.

    A atividade de escritor, entre nós e no século 19, era monopólio masculino, talvez mais por inércia do que por alguma obstinada política cultural. Resultado de tal situação era uma sistemática exclusão do “cânone” de obras que se afastassem, pouco que fosse, dos padrões acatados. A presença feminina escassa ajudava à manutenção deste estado de coisas.

    A nova edição destes livros é prova mais que suficiente disto. Esquecidas, ou melhor, relegadas ao esquecimento, tais autoras retornam agora pelas mãos hábeis de um grupo de pesquisadoras que vêm, nos últimos anos, realizando um meritório trabalho de arqueologia cultural, recuperando para o patrimônio literário brasileiro, obras altamente representativas de nossa cultura no século passado e no início deste.

    Lésbia, publicado em 1890, remete a cenários de realização literária feminina na antigüidade clássica, como forma de metaforizar a luta pela afirmação literária de uma escritora, no apagar das luzes do século XIX. Sua trama, toda ela, está marcada pelo denodo de uma mulher no afã de tornar-se escritora e, uma vez lá chegada, a luta ainda maior pelo reconhecimento da sua obra junto aos formadores de opinião.

    O que seguramente incomodou aos críticos seus contemporâneos foi a decidida coragem de Bela – a protagonista – em romper, logo nas primeiras páginas, com um casamento tradicional, mandando o marido autoritário literalmente às favas, para poder expandir-se seja como pessoa, seja como escritora. Livre, usa de sua liberdade como melhor lhe apraz, tomando amantes ou realizando suas ambições pessoais. Em tudo e por tudo afronta a moral vigente, plantando aos olhos dos leitores a naturalidade do amor e a maturidade das suas escolhas.

    Em tal clima e no uso de uma liberdade condenada, realiza-se como escritora e como personalidade do mundo cultural, sem pedir licença a nenhum patriarca, chame-se ele marido, chame-se instituição literária. Nesta trama um narrador sem nome – Terá sido ocasional tal escolha? – relata passo a passo as venturas e desventuras de Bela, renomeada Lésbia como autora de livros, como se o nome original não lhe servisse como marca definidora de uma personalidade literária a ser construída. E, como não poderia deixar de ser, segue o imaginário dominante, situando suas personagens e ações no mundo rarefeito da aristocracia da época, como se somente ali existisse vida pensante no país.

    Sua personagem não conheceu as agruras da miséria nem da falta de recursos, desdobrando sua existência na futilidade dos salões. É nisto perfeita seguidora de Virgílias, de Aurélias, de Sofias... Não se lhe poderia pedir muito mais, já que a ruptura com tal imaginário será obra de outro século e de outras condições históricas.

    É verdade que essa história é narrada com uma linguagem alambicada e muito ao gosto do romance da época, masculino ou não, excluído desde sempre o irônico bruxo do Cosme Velho. É, na verdade, uma narrativa extremamente pretensiosa e, a seu modo, arrogante. As citações literárias aparecem a cada página, como a alicerçar e legitimar a sua escrita – feminina sim – a partir do diálogo com as grandes obras da literatura universal.

    É, de qualquer forma, uma obra riquíssima para o conhecimento do tempo e da cultura em que se expressou. Este mérito não há exclusão capaz de sonegar-lhe.

   A Silveirinha, por seu lado, publicado em forma de folhetim entre abril e maio de 1913, no Jornal do Commercio, estranhamente escandalizou por outras vias. É um romance leve. Júlia Lopes de Almeida, sem as pretensões intelectuais da sua antecessora, busca relatar a crônica de uma temporada de férias na ainda imperial Petrópolis. Tudo se passa, outra vez, no seio de uma aristocracia postiça e sediça, que malgasta seu ócio em intermináveis festas e visitas, missas e maledicências. É talvez uma das melhores expressões que conheço do romance “sorriso da sociedade”. Nada de relevante acontece na história e toda a trama está centrada na luta da personagem central – a Silveirinha – em converter seu marido médico e ateu aos bons caminhos de um catolicismo formal e superficial, feito de orações, promessas e muitos santinhos. Depois de muitos sustos, apimentados por uma pouco platônica paixão por um padre confessor francês, que a ajudava na sua “campanha” religiosa, tudo chega ao final quase feliz, com uma solução de compromisso que não deixa mal nenhuma das personagens trazidas à cena do livro, com exceção, é claro, dos maus que devem, sempre e necessariamente, ser castigados.

    É uma narrativa linear e sem surpresas, clara e despretensiosa, apesar de alguns alambicamentos de estilo, facilmente perdoáveis pelo talento para o diálogo, que alivia bastante a leitura da extensão vazia do livro.

    Tudo isto entretanto é o que faz a sua riqueza. É este livro precioso documento de um tipo de imaginário social muito comum e de larga vigência entre nós. É uma acabada expressão de como as classes dominantes se viam a si mesmas e que importância se atribuiam na ordem do mundo. Na verdade, nenhuma! Não foi injusto Machado de Assis ao criar a figura enfatuada de Brás Cubas, com que fustiga a vacuidade de nossa postiça aristocracia.

    Assim, o livro ensina, e muito, sobre a dinâmica social e sobre os imaginários com que ela costuma se legitimar. Sai-se do livro com a impressão perfeita de uma classe social que nada tem a dizer sobre si mesma, porque nada tem a dizer sobre o mundo. Ela simplesmente aproveita-se do mundo e do seu domínio sobre ele, como se esta fosse a ordem natural das coisas. Uma ordem eterna e inamovível.

    Só o susto de uma eclosão bélica européia, no ano seguinte, parece ter levado alguns setores mais responsáveis de nossa aristocracia a dar-se conta de que o mundo é “amplo e alheio”, como as expressões literárias da década de 30 gritarão escandalosamente.

    Que mais se poderia exigir de duas autoras, senão fazer-nos compartilhar desse mundo aristocrático, mostrando-lhe, apesar de tudo, entranhas pouco recomendáveis?

 

Luís Felipe Ribeiro é mestre em Letras pela PUC/RJ, doutor em História pela UFF/RJ, autor de Mulheres de papel: um estudo do imaginário em José de Alencar e Machado de Assis, Eduff, e editor da Revista Brasil de Literatura, na Internet.

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