Peregrinações de uma pária

Flora Tristan

Imprensa

O Estado do Paraná
Curitiba 1º de abril de 2001
Literatura do Continente - Cecilia Zokner

O Estado do Paraná

Curitiba 15 de abril de 2001
Literatura do Continente - Sonho em Negro - Cecilia Zokner

O Estado do Paraná

Curitiba 22 de abril de 2001
Literatura do Continente -  Sonho em Branco - Cecilia Zokner

O Estado do Paraná
Curitiba 19 de agosto de 2001
Literatura do Continente -  O Engenho -Cecilia Zokner

Como uma pária no mundo
por Leandro Konder


LITERATURA DO CONTINENTE.voltar ao topo

CECILIA ZOKNER

O engenho.

 “Cana-de-açúcar,

Cana-de-açúcar,

Por que não adoças

O canavial ?

Amargo mal”.

(Eliseo Porta e Alfredo Zitarrosa)

            Eram quatrocentos negros, trezentas negras e duzentos negrinhos. O que sobrara dos mil e quinhentos que trabalhavam na grande plantação de cana-de-açúcar, dominada por um magnífico estabelecimento com seu aqueduto, vencendo as dificuldades do terreno para levar água aos moinhos que esmagam a cana, suas caldeiras e sua refinaria. E, pela elegante casa de moradia onde convivem, harmoniosamente, os tapetes ingleses, os móveis e os candelabros vindos da França e as gravuras e as curiosidades chinesas. É rodeada por um belo pomar onde as árvores carregam de frutos entre um jardim de muitas flores cujas espécies foram trazidas da Europa. Chama-se Villa Lavalle, o nome de seu proprietário, um antigo prefeito de Arequipa. Com a maior gentileza, se prontificou a mostrar a Flora Tristan, curiosa para ver a cana-de-açúcar, vislumbrada no Jardin des Plantes de Paris, crescer no seu habitat.

            Eram seus últimos dias no Peru onde fora em busca da herança paterna. Uma experiência em terra estranha sobremaneira adversa pois a família não lhe reconheceu os direitos que julgava ter, mas que lhe deu matéria para um livro: Perigrinations d’une paria, editado na França em 1838 e que a editora Mulheres de Florianópolis e a EDUNISC de Santa  Cruz do Sul publicou no ano passado, numa tradução de Maria Nilda Pessoa e Paula Berinson. Flora Tristan não apenas registra os dissabores que teve com sua família e o cotidiano que viveu nesses meses passados em Arequipa e em Lima como faz reflexões ou emite opiniões quando os hábitos ou os fatos a surpreendem.

            Nessa visita a Villa Lavalle, se depara com a escravidão. Não hesita em dizer a seu anfitrião o que pensa e o diálogo entre os dois é mais um testemunho da cupidez humana que, diante do desejo de riqueza,faz com que se anulem quaisquer princípios e faz reinar a lógica do absurdo a justificar todas as iniqüidades e todos os crimes.

            Assim, Flora Tristan afirma o óbvio – o clima é saudável, portanto os negros deveriam ser saudáveis; a espécie humana crescem, em meio a calamidades e os negros se multiplicariam se a sua existência fosse tolerável; a escravidão corrompe o homem; o tipo de escravidão exercido na América “excede o fardo de dor que foi dado ao homem suportar; se os produtos originados do “trabalho dos negros perdessem o seu valor (...) , a escravidão sofreria felizes modificações; os proprietários não se satisfazem com o lucro de seus engenhos de açúcar, eles querem que esse lucro lhes permita fazer fortuna. Em resposta, escuta argumentos, igualmente, óbvios dos defensores da escravidão: as negras se deixam abortar ou não tem cuidados com os filhos; por preguiça, os negros deixam os filhos pereceram; os negros só trabalham sob a chibata; a escravidão, entre os povos de origem espanhola é mais suave do que em outras nações; a forma com que ela, Flora Tristan considera a escravidão, apenas mostra que tem bons sentimentos e muita imaginação. Termina, dizendo que para ele, um velho plantador, nenhuma das belas idéias que ouviu é realizável.

            Flora Tristan entende que falar com um velho plantador de cana-de-açúcar do Peru significa falar com um surdo e opta por dar um fim à conversa na qual o seu interlocutor não deixou de se mostrar afável e sempre disposto a continuar a mostrar-lhe os seus domínios imensos a se estenderam ao longo do mar.

            Num belvedere, vê-se o mar e suas ondas a se quebrarem sobre os rochedos e os extensos campos cultivados. Mas, outra imagem, também emocionou Flora Tristan: a das duas negras trancafiadas num calabouço porque haviam deixado morrer os filhos, privando-os da amamentação. Estavam nuas e uma delas, ‘jovem e muito bela”fixou os olhos na visitante branca como a lhe dizer: “Deixei meu filho morrer porque sabia que ele não seria livre como tu; e eu o preferi morto a escravo”.

            Um universo desconhecido e sombrio a fazer com que todas as palavras pareçam vãs.

           

 

Cecilia Zokner

Flora Tristan no Continente.voltar ao topo

Publicada em 1838, pela Arthus Bertrand de Paris, Péregrinations d’une Paria, na sua tradução integral, em português, é oferecida aos leitores pela Editora Mulheres de Florianópolis e EDUNISC de Santa Cruz do Sul. Flora Tristan, sua autora, três anos antes publicara um folheto, Nécessité de faire un bon accueil aux femmes étrangères (Necessidade de dar uma boa acolhida às mulheres estrangeiras), fruto de observações e conclusões que a sua viagem ao Peru permitiu elaborar. Filha de uma francesa e de um general peruano, cujo casamento civil não foi realizado, viajou para a América à procura de um reconhecimento da família paterna. Com esse intuito, chega a Arequipa onde, recebida pelos parentes, permanece uns meses. Suficientes para tirar-lhe as ilusões sobre qualquer participação na herança e para permitir que, ao narrar em  Peregrinações de uma pária essa viagem longa e demorada que fez, deixe um testemunho que muitas vezes ultrapassa a experiência de tão difícil travessia do Atlântico e o deparar-se com um preconceituoso relacionamento familiar a negar-lhe os direitos que fora solicitar, para descrever paisagens, alguns aspectos das cidades e os costumes de seus habitantes.

            Assim, ao contemplar Arequipa não pode deixar de se extasiar diante dessas “casas, todas brancas, uma multidão de cúpulas reluzindo ao sol, em meio à variedade de tons verdes do vale e do cinza das montanhas(...)”. Nem de, mais adiante, deter-se no detalhe das construções (muito sólidas nas belas pedras brancas, térreas, espaçosas, feitas ao redor de pátios) e do mobiliário (pesado, de peças muito grandes). Mais detalhadamente, se referir aos hábitos alimentares cuja rusticidade a faz afirmar que a arte culinária dos habitantes de Arequipa  “ainda está na barbárie”. E a sua relação dos ingredientes que fazem parte de um dos pratos usuais, não deixa dúvida quanto a isso. Como ela diz, o puchero é, no Peru, uma confusa mistura de alimentos diversos (carnes legumes e frutas): “um concerto de vozes desafinadas, de instrumentos discordantes, não revoltaria mais do que a visão, o odor, o sabor desse amálgama bárbaro”. A ele, seguem-se outros pratos onde o uso exagerado do pimentão, assim como de muitos temperos, deixa, no seu entender, a boca cauterizada para suportá-los pois “o palato deve ter perdido a sensibilidade”.

            Essa desarmonia que domina a culinária também está presente nos costumes à mesa: em muitas casas, há apenas um copo para todos. Observa o quanto é de bom tom “fazer passar, na ponta do garfo, às pessoas para quem se quer fazer uma gentileza um pedaço de algum alimento tomado de seu prato” que, então, circula, derramando molho em torno da mesa, levado pelos escravos.

            São, certamente, notas curiosas sobre um cotidiano que poucos traços deixou para ser conhecido. Juntamente com as que descrevem os rituais religiosos e os espetáculos, completam o perfil da elite com a qual conviveu. Demonstram esse dom de observação que lhe permite retratar o que vê. A ele se acrescenta a rara capacidade de perceber as incongruências de que são feitas as relações entre os homens. Qualidades que, não apenas a tornam apta a fixar o momento em que vive, mas a adiantar-se a sua época na expressão de conceitos até então inusuais e que somente, muitas décadas mais tarde, começarão a serem compreendidos. Daí ser este seu livro uma bela fonte de informações sobre Arequipa e Lima do século XIX, as suas usanças e as suas gentes; sobre as alegrias e dissabores do convívio que a obrigaram os dias de viagem e o encontro com parentes até então desconhecidos; sobre os possíveis judiciosos conceitos a respeito das lutas políticas que se desenrolavam no Peru, das vantagens do uso de papel moeda e das iniqüidades do clero. Evidências de um espírito perspicaz e, sobretudo, independente em meio às amarras e obscurantismos do momento em que viveu.

 


Como uma pária no mundo

LEANDRO KONDER

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Quem foi Flora Tristan? Talvez algum leitor já tenha ouvido que Vargas Llosa está escrevendo um livro sobe ela. É possível que alguma leitora saiba que ela foi avó do pintor Paul Gauguin. E certamente poucos poderão informar que se trata de uma famosa socialista e feminista, admirada por Marx, que viveu na primeira metade do século 19. Flora Tristan nasceu na França em 1801. Sua infância transcorreu no período de Napoleão, a juventude nos anos da Restauração Monarquista, e a fase final no tempo do ''Rei Burguês''.

Nunca foi à escola: aprendeu a ler com a mãe, costureira semi-analfabeta. Apesar da formação deficiente, escreveu diversos livros (União operária, Passeios em Londres, etc) e fez sucesso como escritora. O pai morreu quando era bem pequena. Era um militar peruano, oficial do exército espanhol (porque o Peru ainda não era independente).

Quando Napoleão declarou guerra à Espanha, a casa que havia sido comprada pelo pai de Flora, então já falecido, foi confiscada pelo governo francês. Flora e sua mãe sobreviveram na maior pobreza.

Viagem - A vida pessoal de Flora é marcada por duas experiências: um casamento muito infeliz (que não podia ser legalmente desfeito, já que a monarquia abolira o divórcio) e uma família paterna longínqua e importante, que vivia num país estrangeiro que ela gostaria de conhecer.

Em 7 de abril de 1833, aos 30 anos, embarcou no navio ''Mexicano'' para o Peru. Despertou paixão no comandante do barco, de nome Chabrié. A viagem foi extremamente incômoda e durou 133 dias (segundo Flora, não houve dia em que ela não vomitasse).

Pior do que a viagem, foi a decepção que a esperava ao chegar a Arequipa, onde morava a família de seu pai. Sua avó paterna tinha morrido; seu tio Pio, militar e político, era a grande autoridade na condução dos negócios da família e só se dispôs a reconhecê-la como ''filha natural'' do falecido irmão.

Elite - Desde 1824, o Peru tinha se tornado independente, mas os líderes da nova república eram expressões de uma elite que Flora achava abominável: ''Se eles tivessem realmente desejado organizar uma república, teriam procurado desenvolver pela instrução as virtudes cívicas, até mesmo nas classes mais baixas da sociedade; como, porém, a meta para eles é a preservação do poder e não a liberdade, esses intrigantes se sucedem na direção dos negócios continuando a ação do despotismo''.

A família liderada por dom Pio lhe pareceu refletir uma estrutura social revoltante. Apesar dos preconceitos eurocêntricos que não conseguia superar, fez observações críticas muito agudas sobre a sociedade peruana. Em suas anotações, caracterizou vigorosamente o oportunismo e a frieza de coração da elite, e as ignomínias da exploração dos escravos.

De volta a Paris, em 1835, aproveitou as notas que havia tomado para escrever um livro, publicado em 1838. Refletindo a respeito da sua condição de mulher, de filha natural, de esposa impedida de se divorciar, de feminista e socialista, Flora comparou-se à mais excluída das castas na sociedade tradicional indu: a dos párias. E seu livro se intitulou justamente Peregrinações de uma pária. A cuidadosa tradução é de Maria Nilda Pessoa e Paula Berinson, com ensaio de Roland Forgues.

Alguns exemplares da edição original, na época, chegaram ao Peru e foram queimados em praça pública. A elite conservadora peruana prestou a Flora a homenagem de reconhecê-la como uma adversária temível.

* Leandro Konder é professor de Filosofia da PUC-Rio.

 Literatura do continente

Cecília Zokner

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 Sonho em negro.

             Tinha sessenta e oito anos e, aos sete, chegando da Espanha para viver em Arequipa, seu pai a colocou no Convento de Santa Rosa para que ali fosse educada.  Dele, não mais sairia. Anos mais tarde, Madre Superiora, dirigiria o Convento das Carmelitas, com mão de ferro. Abrirá suas portas para receber quem pede asilo, quando do perigo de uma invasão militar na cidade. E, assim, a família de Flora Tristan irá aceitar o refúgio de sua hospitalidade.

            No livro Peregrinações de uma pária (que a Editora Mulheres de Florianópolis e a EDUNISC de Santa Cruz do Sul publicaram no ano passado), em que a francesa Flora Tristan relata a sua viagem ao Peru, esses poucos dias, passados entre os muros do Convento, lhe permitem observar a vida que lá dentro transcorre e que a deixa impressionada “até a incredulidade”, a partir do momento que ali faz a sua entrada. Eram cerca de sete horas da noite quando a sua família, por uma escrava, se fez anunciar. Na porta do Convento, foram recebidas por algumas religiosas e, seguindo o cerimonial exigido pela etiqueta, foram conduzidas à cela da Superiora que se encontrava enferma. Perto dela, nos degraus que davam acesso ao estrado sobre o qual estava o leito, várias religiosas “hierarquicamente colocadas”. Uma hierarquia que lhes norteia a vida: uma religiosa nobre, despreza a religiosa plebéia; uma religiosa branca, despreza a religiosa de cor; uma religiosa rica, despreza a religiosa pobre. E o contraste, inequívoco, entre a humildade aparente – vestem-se todas com um hábito igual, dormem no mesmo dormitório, comem no mesmo refeitório – e o orgulho “mais indomável”, acompanha a prática dos votos feitos. As carmelitas se devem ao silêncio e à pobreza. Jamais devem pronunciar outras palavras que não sejam aquelas ditas quando se encontram: “Irmã, devemos morrer” cuja resposta será sempre  “Irmã, a morte é nossa libertação”. Todavia, se nunca se deixam ouvir nos pátios, no refeitório, na igreja, no dormitório, naqueles lugares onde crêem poder falar sem violar os votos, elas “falam e muito”. Igualmente, pelo voto de pobreza, não deveriam ter mais do que uma empregada  a seu serviço. Porém, muitas delas, possuem três ou quatro escravas, vivendo no interior do Convento, além de uma, fora, para comprar o que desejam, levar presentes para os amigos e permitir, nessas idas e vindas, a comunicação com os parentes. No entanto, observa Flora Tristan, embora o Convento de Santa Rosa fosse considerado um dos mais ricos do Peru, as suas religiosas lhe pareceram mais infelizes do que as de outros. Na verdade, a austeridade de seus hábitos, ultrapassa, de muito, a de todos os demais de Arequipa. A Superiora, com extremo rigor, lhes impõe uma vida das mais penosas, continuamente a rezar e a cumprir deveres que a sua exaltação religiosa exige. Uma exaltação que lhe permitiu com “fogo no olhar” e “energia na voz”, confessar a Flora Tristan: “Ai! Minha querida menina! Agora estou demasiado velha para empreender alguma coisa, meu tempo já se acabou. Mas se tivesse tão somente trinta anos partiria com você. Iria a Madri e ali perderia minha fortuna, meu ilustre nome ou, pela morte de Jesus Cristo que está ali na cruz, juro que restabeleceria a Santa Inquisição”.

            Palavras que ecoaram em Arequipa, Peru, no ano de 1836.

 

Literatura do continente

Cecília Zokner

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Sonho em branco.

             Fora um alarme falso. A família de Flora Tristan, francesa que, em 1833, veio ao Peru em  busca da herança paterna e que de sua viagem dá testemunho no livro Peregrinações de uma pária, (Florianópolis, Editora Mulheres e EDUNISC de Santa Cruz do Sul, 2000), temendo os desmandos de uma invasão militar, refugia-se num dos conventos de Arequipa, o de Santa Rosa. Um convento onde severas eram as leis e rígidos os seus hábitos. Embora rico e amplo com seus quatro claustros e seus três magníficos jardins, cuidados pelas religiosas, nele, o cotidiano é triste e penoso, submetido à práticas impostas por uma superiora exaltada na sua fé até um fanatismo que  “ultrapassa todos os limites da razão”.

            Os três dias ali passados cansaram, então, de tal modo as refugiadas que elas preferiram enfrentar os riscos a que estariam expostas fora dele e voltar para suas casas. Ao ultrapassar  “a soleira dessa enorme porta de carvalho, aferroada e travada a ferro”, todas se puseram a correr de felicidade. Porém, mal chegaram em casa, novo alerta as levou, outra vez, a procurar abrigo e, desta feita, no Convento de Santa Catalina. Embora também de Carmelitas, as normas que o regem  não obrigam à vida comunitária, nem à pobreza, nem ao silêncio. Vestem-se as religiosas com um hábito feito de “tecido muito fino, sedoso e de uma brancura radiosa”, habitam celas individuais e não estão submissas a infindáveis horas de oração. O tempo que lhes sobra, após aquele, dedicado ao cumprimento das obrigações conventuais, o ocupam a cuidar de sua cela, de seu jardim e a executar trabalhos de agulha. Com muita alegria, receberam as visitantes. Em meio a risos e muitas perguntas – queriam saber como se vestiam as pessoas, em Paris, quais suas comidas, se existiam conventos e, principalmente, o que acontecia em relação à música –, ofereciam “bolos de toda espécie, frutas, compotas, cremes (...)”, numa hospitalidade carinhosa e pródiga, em acorde com esse espírito que as fazia educar moças pobres, dar-lhes um dote e, diariamente, distribuir pão e milho e roupa para os pobres.

            A Superiora era “boa demais para aborrecê-las ou contrariá-las”. Magra e delicada nos seus setenta e dois anos, não parecia ter essa idade a não ser pelas mãos e pelo rosto pois a sua vivacidade se mostrava na conversa, extremamente alegre e brilhante, e no seu enorme gosto pela música. Daí o órgão da igreja do convento ser muito bonito e, como tudo o relacionado com a música, especialmente bem cuidado pelas religiosas. Nos seis dias em que hospedou a francesa  e suas tias e primas fez com que se realizasse cada noite um concerto na sua pequena capela onde três jovens religiosas executaram ao piano, importado de Londres, belas peças de  Rossini. Quando Flora Tristan lhe contou o que dissera a Superiora do Convento de Santa Rosa sobre o seu sonho de restaurar a Santa Inquisição, ela, num levantar de ombros e num sorriso de piedade, respondeu: “E eu, minha querida menina, se tivesse  apenas trinta anos, iria com você a Paris ver representar na grande Ópera as sublimes obras primas do imortal Rossini. Uma nota desse homem de gênio é mais útil à saúde moral e física dos povos do que os horrorosos espetáculos dos auto-de-fé da Santa Inquisição o foram para a religião.”.

           

 

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