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Peregrinações
de uma pária
Flora
Tristan
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LITERATURA DO CONTINENTE.voltar ao topo
CECILIA ZOKNER
O engenho.
“Cana-de-açúcar,
Cana-de-açúcar,
Por
que não adoças
O
canavial ?
Amargo
mal”.
(Eliseo Porta e Alfredo Zitarrosa)
Eram quatrocentos negros, trezentas negras e duzentos negrinhos. O que
sobrara dos mil e quinhentos que trabalhavam na grande plantação de cana-de-açúcar,
dominada por um magnífico estabelecimento com seu aqueduto, vencendo as
dificuldades do terreno para levar água aos moinhos que esmagam a cana, suas
caldeiras e sua refinaria. E, pela elegante casa de moradia onde convivem,
harmoniosamente, os tapetes ingleses, os móveis e os candelabros vindos da França
e as gravuras e as curiosidades chinesas. É rodeada por um belo pomar onde as
árvores carregam de frutos entre um jardim de muitas flores cujas espécies
foram trazidas da Europa. Chama-se Villa Lavalle, o nome de seu proprietário,
um antigo prefeito de Arequipa. Com a maior gentileza, se prontificou a mostrar
a Flora Tristan, curiosa para ver a cana-de-açúcar, vislumbrada no Jardin des
Plantes de Paris, crescer no seu habitat.
Eram seus últimos dias no Peru onde fora em busca da herança paterna.
Uma experiência em terra estranha sobremaneira adversa pois a família não lhe
reconheceu os direitos que julgava ter, mas que lhe deu matéria para um livro: Perigrinations
d’une paria, editado na França em 1838 e que a editora Mulheres de
Florianópolis e a EDUNISC de Santa Cruz
do Sul publicou no ano passado, numa tradução de Maria Nilda Pessoa e Paula
Berinson. Flora Tristan não apenas registra os dissabores que teve com sua família
e o cotidiano que viveu nesses meses passados em Arequipa e em Lima como faz
reflexões ou emite opiniões quando os hábitos ou os fatos a surpreendem.
Nessa visita a Villa Lavalle, se depara com a escravidão. Não hesita em
dizer a seu anfitrião o que pensa e o diálogo entre os dois é mais um
testemunho da cupidez humana que, diante do desejo de riqueza,faz com que se
anulem quaisquer princípios e faz reinar a lógica do absurdo a justificar
todas as iniqüidades e todos os crimes.
Assim, Flora Tristan afirma o óbvio – o clima é saudável, portanto
os negros deveriam ser saudáveis; a espécie humana crescem, em meio a
calamidades e os negros se multiplicariam se a sua existência fosse tolerável;
a escravidão corrompe o homem; o tipo de escravidão exercido na América
“excede o fardo de dor que foi dado ao homem suportar; se os produtos
originados do “trabalho dos negros perdessem o seu valor (...) , a escravidão
sofreria felizes modificações; os proprietários não se satisfazem com o
lucro de seus engenhos de açúcar, eles querem que esse lucro lhes permita
fazer fortuna. Em resposta, escuta argumentos, igualmente, óbvios dos
defensores da escravidão: as negras se deixam abortar ou não tem cuidados com
os filhos; por preguiça, os negros deixam os filhos pereceram; os negros só
trabalham sob a chibata; a escravidão, entre os povos de origem espanhola é
mais suave do que em outras nações; a forma com que ela, Flora Tristan
considera a escravidão, apenas mostra que tem bons sentimentos e muita imaginação.
Termina, dizendo que para ele, um velho plantador, nenhuma das belas idéias que
ouviu é realizável.
Flora Tristan entende que falar com um velho plantador de cana-de-açúcar
do Peru significa falar com um surdo e opta por dar um fim à conversa na qual o
seu interlocutor não deixou de se mostrar afável e sempre disposto a continuar
a mostrar-lhe os seus domínios imensos a se estenderam ao longo do mar.
Num belvedere, vê-se o mar e suas ondas a se quebrarem sobre os rochedos
e os extensos campos cultivados. Mas, outra imagem, também emocionou Flora
Tristan: a das duas negras trancafiadas num calabouço porque haviam deixado
morrer os filhos, privando-os da amamentação. Estavam nuas e uma delas,
‘jovem e muito bela”fixou os olhos na visitante branca como a lhe dizer:
“Deixei meu filho morrer porque sabia que ele não seria livre como tu; e eu o
preferi morto a escravo”.
Um universo desconhecido e sombrio a fazer com que todas as palavras pareçam
vãs.
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Cecilia
Zokner
Flora Tristan no
Continente.voltar ao topo
Publicada
em 1838, pela Arthus Bertrand de Paris, Péregrinations
d’une Paria, na sua tradução integral, em português, é
oferecida aos leitores pela Editora Mulheres de Florianópolis e
EDUNISC de Santa Cruz do Sul. Flora Tristan, sua autora, três anos
antes publicara um folheto, Nécessité
de faire un bon accueil aux femmes étrangères (Necessidade de
dar uma boa acolhida às mulheres estrangeiras), fruto de observações
e conclusões que a sua viagem ao Peru permitiu elaborar. Filha de uma
francesa e de um general peruano, cujo casamento civil não foi
realizado, viajou para a América à procura de um reconhecimento da
família paterna. Com esse intuito, chega a Arequipa onde, recebida
pelos parentes, permanece uns meses. Suficientes para tirar-lhe as
ilusões sobre qualquer participação na herança e para permitir
que, ao narrar em Peregrinações
de uma pária essa
viagem longa e demorada que fez, deixe um testemunho que muitas vezes
ultrapassa a experiência de tão difícil travessia do Atlântico e o
deparar-se com um preconceituoso relacionamento familiar a negar-lhe
os direitos que fora solicitar, para descrever paisagens, alguns
aspectos das cidades e os costumes de seus habitantes.
Assim, ao contemplar Arequipa não pode
deixar de se extasiar diante dessas “casas, todas brancas, uma
multidão de cúpulas reluzindo ao sol, em meio à variedade de tons
verdes do vale e do cinza das montanhas(...)”. Nem de, mais adiante,
deter-se no detalhe das construções (muito sólidas nas belas pedras
brancas, térreas, espaçosas, feitas ao redor de pátios) e do mobiliário
(pesado, de peças muito grandes). Mais detalhadamente, se referir aos
hábitos alimentares cuja rusticidade a faz afirmar que a arte culinária
dos habitantes de Arequipa “ainda
está na barbárie”. E a sua relação dos ingredientes que fazem
parte de um dos pratos usuais, não deixa dúvida quanto a isso. Como
ela diz, o puchero
é, no Peru, uma confusa mistura de alimentos diversos (carnes
legumes e frutas): “um concerto de vozes desafinadas, de
instrumentos discordantes, não revoltaria mais do que a visão, o
odor, o sabor desse amálgama bárbaro”. A ele, seguem-se outros
pratos onde o uso exagerado do pimentão, assim como de muitos
temperos, deixa, no seu entender, a boca cauterizada para suportá-los
pois “o palato deve ter perdido a sensibilidade”.
Essa desarmonia que domina a culinária
também está presente nos costumes à mesa: em muitas casas, há
apenas um copo para todos. Observa o quanto é de bom tom “fazer
passar, na ponta do garfo, às pessoas para quem se quer fazer uma
gentileza um pedaço de algum alimento tomado de seu prato” que,
então, circula, derramando molho em torno da mesa, levado pelos
escravos.
São, certamente, notas curiosas sobre um
cotidiano que poucos traços deixou para ser conhecido. Juntamente com
as que descrevem os rituais religiosos e os espetáculos, completam o
perfil da elite com a qual conviveu. Demonstram esse dom de observação
que lhe permite retratar o que vê. A ele se acrescenta a rara
capacidade de perceber as incongruências de que são feitas as relações
entre os homens. Qualidades que, não apenas a tornam apta a fixar o
momento em que vive, mas a adiantar-se a sua época na expressão de
conceitos até então inusuais e que somente, muitas décadas mais
tarde, começarão a serem compreendidos. Daí ser este seu livro uma
bela fonte de informações sobre Arequipa e Lima do século XIX, as
suas usanças e as suas gentes; sobre as alegrias e dissabores do convívio
que a obrigaram os dias de viagem e o encontro com parentes até então
desconhecidos; sobre os possíveis judiciosos conceitos a respeito das
lutas políticas que se desenrolavam no Peru, das vantagens do uso de
papel moeda e das iniqüidades do clero. Evidências de um espírito
perspicaz e, sobretudo, independente em meio às amarras e
obscurantismos do momento em que viveu.
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Como uma pária no mundo
LEANDRO KONDER voltar ao topo
Quem foi Flora Tristan? Talvez algum leitor já tenha ouvido que Vargas Llosa está escrevendo um livro sobe ela. É possível que alguma leitora saiba que ela foi avó do pintor Paul Gauguin. E certamente poucos poderão informar que se trata de uma famosa socialista e feminista, admirada por Marx, que viveu na primeira metade do século 19. Flora Tristan nasceu na França em 1801. Sua infância transcorreu no período de Napoleão, a juventude nos anos da Restauração Monarquista, e a fase final no tempo do ''Rei Burguês''.
Nunca foi à escola: aprendeu a ler com a mãe, costureira semi-analfabeta. Apesar da formação deficiente, escreveu diversos livros (União operária, Passeios em Londres, etc) e fez sucesso como escritora. O pai morreu quando era bem pequena. Era um militar peruano, oficial do exército espanhol (porque o Peru ainda não era independente).
Quando Napoleão declarou guerra à Espanha, a casa que havia sido comprada pelo pai de Flora, então já falecido, foi confiscada pelo governo francês. Flora e sua mãe sobreviveram na maior pobreza.
Viagem - A vida pessoal de Flora é marcada por duas experiências: um casamento muito infeliz (que não podia ser legalmente desfeito, já que a monarquia abolira o divórcio) e uma família paterna longínqua e importante, que vivia num país estrangeiro que ela gostaria de conhecer.
Em 7 de abril de 1833, aos 30 anos, embarcou no navio ''Mexicano'' para o Peru. Despertou paixão no comandante do barco, de nome Chabrié. A viagem foi extremamente incômoda e durou 133 dias (segundo Flora, não houve dia em que ela não vomitasse).
Pior do que a viagem, foi a decepção que a esperava ao chegar a Arequipa, onde morava a família de seu pai. Sua avó paterna tinha morrido; seu tio Pio, militar e político, era a grande autoridade na condução dos negócios da família e só se dispôs a reconhecê-la como ''filha natural'' do falecido irmão.
Elite - Desde 1824, o Peru tinha se tornado independente, mas os líderes da nova república eram expressões de uma elite que Flora achava abominável: ''Se eles tivessem realmente desejado organizar uma república, teriam procurado desenvolver pela instrução as virtudes cívicas, até mesmo nas classes mais baixas da sociedade; como, porém, a meta para eles é a preservação do poder e não a liberdade, esses intrigantes se sucedem na direção dos negócios continuando a ação do despotismo''.
A família liderada por dom Pio lhe pareceu refletir uma estrutura social revoltante. Apesar dos preconceitos eurocêntricos que não conseguia superar, fez observações críticas muito agudas sobre a sociedade peruana. Em suas anotações, caracterizou vigorosamente o oportunismo e a frieza de coração da elite, e as ignomínias da exploração dos escravos.
De volta a Paris, em 1835, aproveitou as notas que havia tomado para escrever um livro, publicado em 1838. Refletindo a respeito da sua condição de mulher, de filha natural, de esposa impedida de se divorciar, de feminista e socialista, Flora comparou-se à mais excluída das castas na sociedade tradicional indu: a dos párias. E seu livro se intitulou justamente Peregrinações de uma pária. A cuidadosa tradução é de Maria Nilda Pessoa e Paula Berinson, com ensaio de Roland Forgues.
Alguns exemplares da edição original, na época, chegaram ao Peru e foram queimados em praça pública. A elite conservadora peruana prestou a Flora a homenagem de reconhecê-la como uma adversária temível.
* Leandro Konder é professor de Filosofia da PUC-Rio.
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Literatura
do continente
Cecília Zokner
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Sonho
em negro.
Tinha sessenta e oito anos e, aos sete, chegando da Espanha
para viver em Arequipa, seu pai a colocou no Convento de Santa Rosa
para que ali fosse educada. Dele,
não mais sairia. Anos mais tarde, Madre Superiora, dirigiria o
Convento das Carmelitas, com mão de ferro. Abrirá suas portas para
receber quem pede asilo, quando do perigo de uma invasão militar na
cidade. E, assim, a família de Flora Tristan irá aceitar o refúgio
de sua hospitalidade.
No livro Peregrinações
de uma pária (que a Editora Mulheres de Florianópolis e a
EDUNISC de Santa Cruz do Sul publicaram no ano passado), em que a
francesa Flora Tristan relata a sua viagem ao Peru, esses poucos dias,
passados entre os muros do Convento, lhe permitem observar a vida que
lá dentro transcorre e que a deixa impressionada “até a
incredulidade”, a partir do momento que ali faz a sua entrada. Eram
cerca de sete horas da noite quando a sua família, por uma escrava,
se fez anunciar. Na porta do Convento, foram recebidas por algumas
religiosas e, seguindo o cerimonial exigido pela etiqueta, foram
conduzidas à cela da Superiora que se encontrava enferma. Perto dela,
nos degraus que davam acesso ao estrado sobre o qual estava o leito, várias
religiosas “hierarquicamente colocadas”. Uma hierarquia que lhes
norteia a vida: uma religiosa nobre, despreza a religiosa plebéia;
uma religiosa branca, despreza a religiosa de cor; uma religiosa rica,
despreza a religiosa pobre. E o contraste, inequívoco, entre a
humildade aparente – vestem-se todas com um hábito igual, dormem no
mesmo dormitório, comem no mesmo refeitório – e o orgulho “mais
indomável”, acompanha a prática dos votos feitos. As carmelitas se
devem ao silêncio e à pobreza. Jamais devem pronunciar outras
palavras que não sejam aquelas ditas quando se encontram: “Irmã,
devemos morrer” cuja resposta será sempre “Irmã, a morte é nossa libertação”. Todavia, se nunca
se deixam ouvir nos pátios, no refeitório, na igreja, no dormitório,
naqueles lugares onde crêem poder falar sem violar os votos, elas
“falam e muito”. Igualmente, pelo voto de pobreza, não deveriam
ter mais do que uma empregada a
seu serviço. Porém, muitas delas, possuem três ou quatro escravas,
vivendo no interior do Convento, além de uma, fora, para comprar o
que desejam, levar presentes para os amigos e permitir, nessas idas e
vindas, a comunicação com os parentes. No entanto, observa Flora
Tristan, embora o Convento de Santa Rosa fosse considerado um dos mais
ricos do Peru, as suas religiosas lhe pareceram mais infelizes do que
as de outros. Na verdade, a austeridade de seus hábitos, ultrapassa,
de muito, a de todos os demais de Arequipa. A Superiora, com extremo
rigor, lhes impõe uma vida das mais penosas, continuamente a rezar e
a cumprir deveres que a sua exaltação religiosa exige. Uma exaltação
que lhe permitiu com “fogo no olhar” e “energia na voz”,
confessar a Flora Tristan: “Ai! Minha querida menina! Agora estou
demasiado velha para empreender alguma coisa, meu tempo já se acabou.
Mas se tivesse tão somente trinta anos partiria com você. Iria a
Madri e ali perderia minha fortuna, meu ilustre nome ou, pela morte de
Jesus Cristo que está ali na cruz, juro que restabeleceria a Santa
Inquisição”.
Palavras que ecoaram em Arequipa, Peru, no ano de 1836.
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Literatura
do continente
Cecília Zokner
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Sonho em
branco.
Fora um alarme falso. A família de Flora Tristan, francesa
que, em 1833, veio ao Peru em busca
da herança paterna e que de sua viagem dá testemunho no livro Peregrinações
de uma pária, (Florianópolis, Editora Mulheres e EDUNISC de
Santa Cruz do Sul, 2000), temendo os desmandos de uma invasão
militar, refugia-se num dos conventos de Arequipa, o de Santa Rosa. Um
convento onde severas eram as leis e rígidos os seus hábitos. Embora
rico e amplo com seus quatro claustros e seus três magníficos
jardins, cuidados pelas religiosas, nele, o cotidiano é triste e
penoso, submetido à práticas impostas por uma superiora exaltada na
sua fé até um fanatismo que “ultrapassa
todos os limites da razão”.
Os três dias ali passados cansaram, então, de tal modo as
refugiadas que elas preferiram enfrentar os riscos a que estariam
expostas fora dele e voltar para suas casas. Ao ultrapassar
“a soleira dessa enorme porta de carvalho, aferroada e
travada a ferro”, todas se puseram a correr de felicidade. Porém,
mal chegaram em casa, novo alerta as levou, outra vez, a procurar
abrigo e, desta feita, no Convento de Santa Catalina. Embora também
de Carmelitas, as normas que o regem não obrigam à vida comunitária, nem à pobreza, nem ao silêncio.
Vestem-se as religiosas com um hábito feito de “tecido muito fino,
sedoso e de uma brancura radiosa”, habitam celas individuais e não
estão submissas a infindáveis horas de oração. O tempo que lhes
sobra, após aquele, dedicado ao cumprimento das obrigações
conventuais, o ocupam a cuidar de sua cela, de seu jardim e a executar
trabalhos de agulha. Com muita alegria, receberam as visitantes. Em
meio a risos e muitas perguntas – queriam saber como se vestiam as
pessoas, em Paris, quais suas comidas, se existiam conventos e,
principalmente, o que acontecia em relação à música –, ofereciam
“bolos de toda espécie, frutas, compotas, cremes (...)”, numa
hospitalidade carinhosa e pródiga, em acorde com esse espírito que
as fazia educar moças pobres, dar-lhes um dote e, diariamente,
distribuir pão e milho e roupa para os pobres.
A Superiora era “boa demais para aborrecê-las ou contrariá-las”.
Magra e delicada nos seus setenta e dois anos, não parecia ter essa
idade a não ser pelas mãos e pelo rosto pois a sua vivacidade se
mostrava na conversa, extremamente alegre e brilhante, e no seu enorme
gosto pela música. Daí o órgão da igreja do convento ser muito
bonito e, como tudo o relacionado com a música, especialmente bem
cuidado pelas religiosas. Nos seis dias em que hospedou a francesa
e suas tias e primas fez com que se realizasse cada noite um
concerto na sua pequena capela onde três jovens religiosas executaram
ao piano, importado de Londres, belas peças de
Rossini. Quando Flora Tristan lhe contou o que dissera a
Superiora do Convento de Santa Rosa sobre o seu sonho de restaurar a
Santa Inquisição, ela, num levantar de ombros e num sorriso de
piedade, respondeu: “E eu, minha querida menina, se tivesse
apenas trinta anos, iria com você a Paris ver representar na
grande Ópera as sublimes obras primas do imortal Rossini. Uma nota
desse homem de gênio é mais útil à saúde moral e física dos
povos do que os horrorosos espetáculos dos auto-de-fé da Santa
Inquisição o foram para a religião.”.
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Peregrinações
de uma pária
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