A luta

Carmen Dolores

 

Imprensa

O Estado do Paraná
Curitiba 15 de julho de 2001
Literatura do Continente - Cecilia Zokner

O Estado do Paraná
Curitiba 22 de julho de 2001
Literatura do Continente - Cecilia Zokner

O Estado do Paraná
Curitiba 05 de agosto de 2001
Literatura do Continente - Cecilia Zokner


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CECILIA ZOKNER

Adozinda

 

            Quarentona bem conservada, Adozinda Ferreira chegara de Iguaçu, com três filhas, dizendo-se viúva de um negociante português que falecera ao fazer uma visita a sua terra natal. Mostrava ter alguns recursos e, logo, “com esperteza e felicidade”, comprara um pequeno hotel, em Santa Tereza, onde se instalara com as filhas. Trabalhadeira e enérgica, de manhã cedo, percorria corredores, salas e dependências, sempre alegre e ativa. É assim que aparece pela primeira vez no romance A Luta (Editora Mulheres de Florianópolis e EDUNISC de Santa Cruz do Sul) que acaba de ser publicado, providenciando os últimos preparativos da festa de casamento de sua filha Celina. Surge “azafamada”, a correr, “cheia de corpo, clara, com uns bonitos olhos pretos sob os cílios longos, um buço já forte, desenhando-lhe a boca larga e carnuda (...)”. E, ainda que a tentação de viver um grande amor, à margem do casamento, que se ampara de Celina seja a intriga do romance, é ela, Adozinda, quem, no relato, se desenha com mais força, na alegre e espontânea exuberância de carnes e de atitudes. Balançando os quadris fartos, com os “braços grossos sempre a mostra entre as mangas largas e curtas”, ela se oferece à vista, expandindo-se no seu jeito brincalhão, em riso fácil e em gargalhadas sonoras. Numa “familiaridade ruidosa”, “numa jovialidade vulgar”se insinua e a sua voz forte ressoa pela casa ao oferecer um café, dar as boas-vindas ou, gritar ordens. Com a pele branca, a mão repolhuda, o seio abundante, o cabelo preto, enrolado “em nó sobre a nuca forte” e suas roupas decotadas a esvoaçarem pelos corredores se mostra moça e expansiva nos seus “modos desenvoltos”. No entanto, aos olhos do futuro genro, se constitui a mãe “suspeita”, “a dona de um hotel de segunda ordem”, a mulher a quem atribuíam amantes.

            Suposição que a  narrativa confirma numa seqüência exemplar de elegante picardia: pela manhã, “penetrava familiarmente nos quartos dos hóspedes, esquecia-se a palestrar com os prediletos, aos quais levava ela própria o café com biscoitos, muitas vezes alguma rosa ainda aljofrada de orvalho matutino e colhida por suas mãos no jardim ressoando através das portas fechadas os seus risos sonoros, não raro seguidos de inexplicáveis silêncios, até que o favorito da ocasião saía do quarto muito apressado, vermelho, a correr para apanhar o elétrico, e dona Adozinda voltava às suas funções domésticas, com o rolo do cabelo um pouco desmanchado, mas sempre enérgica e laboriosa no exercício dos seus deveres”. Outras, a mostrarão decepcionada, ao perder um hóspede que ‘tanto lhe valia nos apuros”e ao se dar conta que havia calculado mal ao casar Celina com Alfredo, na verdade, “muito menos remediado do que o supunham”.

Porém, o seu perfil irá se completar com o passar do tempo, esses cinco anos que lhe deram dois netos e a deixaram “mais acabada”, com o nariz menos fino e “os olhos vivos um pouco empapuçados”. Que, sobretudo, a mostram desprovida dos valores tradicionais que soem ser desejados numa boa mãe de família. Porque possui o respeito pelas “farturas da abastança”, não, porém, o respeito pelas suas filhas que não se preocupa em educar e que não hesita em usar em proveito próprio. Prefere que a casada se afaste do marido e dos filhos para se tornar amante de um rapaz rico e nada faz para impedir que a outra consiga dinheiro para o luxo em ausências inconfessáveis que desculpa como “excentricidades americanas”. Quando Celina, angustiada pelas escolhas que deve fazer e, em pânico por ter repelido, violentamente, os avanços do lúbrico velho hóspede do hotel e pelo trovão que, em meio à tempestade, se fez ouvir, na casa, com um “formidável estrépito de louças partidas”, diz chorando que está com medo e quer se refugiar no seu ‘vasto seio”, ela, rancorosa por ter perdido o hóspede que vai embora,ofendido, não olha para a filha, nem lhe estende os braços. Porém, quando Celina, enfim, decide que o seu lugar é junto do marido e dos filhos e não em casa montada por um amante, não titubeia em chamá-la de filha ingrata. Principalmente, se revela, na melancólica observação da filha mais nova ao perceber que está de acordo com a possível ligação extra-conjugal entre Celina e o pretendente rico: “Hum!... mamãe é imoral!...nunca vi!...”.

Carmen Dolores (pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo), no entanto, não julga esta sua personagem. Tampouco a pune. O conhecimento adquirido ao escrever ou sobre a mulher e suas emoções nos contos que antecederam este seu primeiro romance, publicado em1911, ou sobre aspectos do cotidiano nas suas crônicas, lhe permitiram aproximar-se da lógica e dos mistérios que existem nos relacionamentos humanos. Daí fazer de Adozinda, alguém que irá permanecer o que sempre foi: essa mulher livre de amarras e predisposta a ser feliz. Como deixa ver o olhar brilhante que pousa sobre as filhas. Nele renasce a esperança de que, embora Celina não tenha se submetido ao que dela havia pretendido, “tudo se arranjará” sem que, necessariamente, se preocupe em saber qual o preço que será preciso pagar por isso.          


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CECILIA ZOKNER

  Celina (1)

 

            Casava-se a Celina (...)”. Assim começa A Luta, romance de Carmen Dolores (pseudônimo de Emilia Moncorvo Bandeira de Melo), publicado em 1911, pela Garnier do Rio de Janeiro. Porém, a continuação da frase, assim como as páginas que seguem, apenas a mencionam – “toda branca, assomou à porta da sala envolta em véus virginais” –,dedicadas ao que acontece nesse dia e à descrição de tipos na qual sobressai a figura da mãe e da vida que transcorria no hotel da qual era proprietária: “Aos Belos Ares”. É entre suas paredes e seu jardim que, principalmente, se passa a ação desse romance que, no dizer de Maria Angélica Guimarães Lopes (nesse estudo que o antecede na edição de 2001, da Editora Mulheres de Florianópolis e EDUNISC de Santa Cruz do Sul) deixa perceber ecos de Balzac, Zola, Eça e Aluísio. No entanto, Celina a quem em determinado momento da narrativa, a autora chama de “Essa Bovary da rua das Marrecas”, cujo sonho era ter uma vida menos presa e a “independência da mulher elegante e rica, vestida com apuro, que sai só, vai a teatros e alimenta a corte ardente de muitos adoradores” guarda muito pouco da Emma de Flaubert ou da Luiza de Eça de Queiroz ou das adúlteras de Balzac. Embora se constitua a personagem ao redor da qual gire a intriga de A Luta, poucas seqüências lhe são dedicadas e, quase sempre, breves. Como a  mostrá-la apagada entre a figura austera e sóbria da sogra e a figura exuberante e chamativa da mãe.

            Nos seus dezessete anos, é a quase menina “esbelta”, de  “corpinho airoso”, cintura fina, “cabelos muito negros e abundantes”e “olhos grandes, como pincelados de bistre”. São os seus olhos que irão primeiro, impressionar Alfredo, logo  preso a seu sorriso, a seu olhar que não decifra, mas que o subjugam, fazendo com que lhe pareça “pura e virginal”, “pura, boa, inocente”, “uma pobre menina que não é responsável pelo meio em que o acaso a fez nascer”. E é esse meio que lhe amedronta a mãe e a faz compadecer-se desse “humilde destino de virgem, mal guardada por uma mãe leviana e espalhafatosa”, sem contudo, se esquecer que além da educação e dos hábitos diversos, ela e o filho ignoravam “afinal, a verdadeira natureza dessa menina refolhada, bonitinha, mas enigmática”.

            O casamento, no entanto, se faz. E o tempo que passa, tornando-a infeliz, no viver medíocre de todos os dias, induzem a que nela se assomem as impaciências, as raivas, as revoltas. “Celina tem gênio...”,  procura desculpar a sogra. E as atenções que antes dela recebera ao ser hóspede do hotel – quando lhe floria o quarto ou lhe oferecia uma flor – nessa “graça discreta dos gestos e passos” se transformam em malquerença como se da mãe de seu marido adviesse “todo o tédio de sua existência”. Escutava as suas lembranças de velha, detestando-a, mas sem ousar responder-lhe com “as impertinências que lhe borbulhavam no espírito”. Indolente, entediada, mal humorada, se deixava ficar no seu “roupão de manhã, todo enxovalhado”, os cabelos crespos sem pentear. Num descontentamento que lhe irá permitir-se desafiar normas como sair de casa desacompanhada, responder de mau modo ao marido, ir, sem avisar, para o hotel da mãe ou portar-se em desacordo com os ordeiros hábitos da casa, “fechando e abrindo janelas ora de cara zangada ora a cantarolar cançonetas, principiando e largando leituras, costuras, arranjos” num desejo de “ser desagradável e incômoda” É o começo de algo – emoções, ânsias – que irá quebrar a monótona aridez de seus dias numa sucessão de inevitáveis confrontos em que estarão à prova os princípios mantenedores da família nos começos do século XX.

            Mas, ainda que um exemplar modelo familiar Celina não tivera – e sim um “lar movimentado, onde crescera e tão mal se educara” – é por esse modelo que irá optar ao perceber o ilusório da felicidade com que lhe acenavam os pretendentes dispostos a mantê-la teúda e manteúda. E, se afastando do perfil feminino que, muitas vezes, é presença dos romances realistas, retoma o caminho da moral vigente que não chega a infringir, expressando a visão de mundo de Carmen Dolores na qual, como o aponta Eliane Vasconcellos no texto a ela dedicado, parte do volume Escritoras brasileiras do século XIX (Editora Mulheres de Florianópolis e EDUNISC de Santa Cruz do Sul), além de privilegiar a figura da boa mãe de família, não cabe a luta por novos padrões de comportamento da mulher.


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 CECILIA ZOKNER

Celina.(II)

 

            Passava o seu tempo com “uns crochês vagarosos”, alguma costura leve, a leitura de folhetins, pequenos flertes e, “dúbia”, um quase namoro com Gilberto, hóspede do hotel de sua mãe. E é no “Hotel Bons Ares” onde, ao levar a mãe para se recuperar, que a conheceu Alfredo. A cada noite, na hora do jantar, entre os comensais, de longe, entrevia-lhe o perfil, “cujos cabelos muito negros e abundantes se destacavam num penteado harmonioso e complicado, em que se enrolavam fitas”. Depois da sobremesa, saiam todos para o jardim e Alfredo pensava que havia ido para visitar a mãe e que não ficava bem deixá-la só para ir passear entre os canteiros, mas o seu desejo era “ir no sulco do vestidinho claro de Celina, que ele via errar como mimosa faléia sob a amendoeira, sob o grande pé de manacá em flor, sumindo-se entre as folhagens daqui, dali (...)”. E, assim, sem perceber o “leve riso de zombaria” que tivera no primeiro encontro, ao vê-lo se ocupar da mãe doentia, como que lhe bastou esse olhar que dela recebia, “raio luminoso (...), filtrando sonsamente por entre as pestanas baixas”, “morno e dúbio, dardejado por entre a sombra de uns cílios espessos” para imaginar um futuro a seu lado. À Celina, porém, não bastou a simplicidade dos dias e a vida rotineira e medíocre que lhe oferecera e a fez sentir-se ludibriada (“Não, deveras, a vida não lhe corria leve, nem jovial...Ah! não! Era uma monotonia, um isolamento!”). E, então, mostrar essa faceta de revolta que irá se revelar nas palavras maldosas e agressivas dirigidas à sogra (“Estou acaso prisioneira nesta casa?...”), ao marido quando a vai buscar no hotel da mãe para onde fora por uns dias (“Lá vamos outra vez para a tapera!...”), à irmã (“es uma oferecida, que levas a fazer olho a um rapaz que mostra bem não te querer...”). Ou no olhar irritado, enviesado que lança à irmã ou que esconde, “errante sob os cílios descidos”, seus sentimentos. Principalmente, nesse arroubo de indisciplina que a leva, sem licença do marido, para a casa da mãe que, outra vez, hospedava Gilberto, já não mais o estudante pobre e mofino que fora, mas um homem feito e rico. Ao saber que lhe cortejava a irmã, ele que havia prometido amá-la sempre, e que, ainda lhe faz juras de amor, enche-se de ciúme e, ao vê-los juntos, sente-se “ferida por uma ofensa grave”. Sucumbe a um só desejo: separá-los e, nesse momento, faz de menos o marido e os filhos. Quando, no entanto, se depara com as verdadeiras intenções de Gilberto – levá-la para viver com todo o conforto, num bairro distante, oferecendo-lhe belos trajes e jóias e distrações – e a sua pressa em dela tomar posse, não muito diferente daquela demonstrada por outro hóspede, velho e rico, debate-se, desorienta-se, recua. Então, quando a sogra, que a fora buscar, fala do amor do marido e das crianças e das inequívocas razões da moral vigente – “debaixo do teto de teu marido está a salvação, está a honra, está a felicidade garantida” –, chora muito e implora para ser levada de volta para casa. Logo, diante do marido e do grito de alegria do filho, ao tornar a vê-la, “esqueceu tudo e num ímpeto bom de alívio, de ternura, de remorso da sua loucura, pediu perdão e prometeu não dar mais razão de queixa.

            Redenção e retorno ao bom caminho, isto é, ao seio da família de quem, na verdade, muito pouco – ouvir galanteios, recebido um beijo – ou quase nada dele se afastara, que deixará clara a intenção moralizante de A Luta, estréia de Carmen Dolores (pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo) no romance (Garnier, 1911), agora reeditado pela Mulheres de Florianópolis e EDUNISC de Santa Cruz do Sul.

            Abstraída, porém, essa intenção, Celina e seus encantos – dentes de pérola, pescoço delicado que movia com graça, discrição nos gestos e passos, silenciosa – que por vezes se perdem no relato, se mostrará um personagem habilmente construído. A princípio, esmaecida, nesta figura de “sonsa”, “dúbia”, dona de um”risinho abstrato” de um “sorriso um tanto sonso nos lábios ambíguos”, ao poucos vai deixando a sua vontade atuar e acaba por se sobrepor `a virtude e à austeridade da sogra e à falta de escrúpulos e à leviandade da mãe cujas vontades, parecem, a priori, conduzir a ação do romance.

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