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Era o século 19 e havia poetas de outro sexo no Brasil. Eram mulheres de uma "época de opressão e secretos desejos". Mulheres que se recusavam a viver apenas na beira do fogão ou, em alguns casos, a apenas estudar francês e piano. Autoras que já refletiam sobre a questão dos direitos da mulher, a educação, a relação entre o sexo e o direito a escrever e publicar.
O nome da grande maioria delas não consta dos compêndios de história da literatura nem das coletâneas de escolas e épocas literárias -todas sob domínio de vozes masculinas.
Elas não dispunham de quase nada, mas ainda assim venceram obstáculos e escreveram. A escritora inglesa Virginia Woolf dizia, já em 1929, que uma mulher precisa de "Um Quarto Todo Seu" para escrever: "uma mulher precisa de dinheiro e de um quarto só seu para escrever ficção."
Poucas escritoras bra-sileiras do século 19 -al-gumas delas nascidas no século 18- tiveram essas condições que Woolf aponta como ideais.
Mesmo assim, não se calaram, escreveram, criaram jornais literários, abriram escolas, publicaram livros, ensaios, artigos. Recusaram a reclusão voluntária de uma Emily Dickinson (1830-1886), a poeta americana que mal saía de casa. Também não se esconderam por trás de nomes masculinos, como George Sand (1804-1876), pseudônimo da francesa Amandine Aurore-Lucie Dudevant.
É verdade que passaram todo um século esquecidas, mas voltam agora à cena (pelo menos algumas) com o lançamento desta impecável antolo-gia organizada pela professora Zahidé Lupinacci Muzart.
São 52 autoras de norte a sul do país, introduzidas por biografia, ensaio crítico, bibliografia e pequena mas representativa amostragem da prosa literária e jornalística, do ensaio, das memórias e da poesia das mesmas.
O trabalho é resultado de um projeto realizado por 16 pesquisadoras da Uni-versidade Federal de Santa Catarina (UFSC), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), com apoio do CNPq.
Mais do que tirar do anonimato poetas, escritoras e jornalistas injustamente esquecidas, as 900 páginas desta antologia revelam uma produção literária e jornalística de valor, cheia de qualidades, de um vigor estético e de uma atualidade surpreendentes.
Humor pessimista
O caso da carioca Alexandrina da Silva Couto dos Santos, nascida em 1859, é exemplo disso. Jornalista e poeta, era bilíngüe, ora escrevendo em português, ora em francês, uma poesia humorística divertidíssima mas pessimista, marcada por trocadilhos, jogos de palavras e ambigüidade. Basta observar o espirituoso trocadilho entre s'enlace e s'en lasse na quadra a seguir:
"On s'enlace
Puis un jour
on s'en lasse;
c'est l'amour."
"Nós nos enlaçamos
Depois um dianos cansamos disso; é o amor."
Como observa a estudiosa Ana Helena Belline, a ambigüidade e o chiste são o recurso principal do humorismo de Alexandrina, um mecanismo de desrecalque do inconsciente, muito mais do que a simples vontade de gracejar.
"(...) Bem sabes que na vida és o meu norte
E se tiveres morte prematura,
Talvez esse desgosto eu não suporte;
Pois eu receio tanto essa tortura,
Que somente a lembrança de tua morte
Postou-me no urinol... a obrar soltura."
("A um Apaixonado", de Alexandrina da Silva Couto dos Santos)
Personagens revolucionárias
Surpresa maior ainda é a obra da gaúcha Délia (nascida em 1853), pseudônimo de Maria Benedita Câmara Bormann. Em 1890, Délia publicou o romance "Lésbia", história cuja heroína é uma escritora que se separa do marido porque este não admite a superioridade intelectual da mulher e caçoa quando esta expressa suas idéias.
Toda a obra de Délia, conforme explica Norma Telles, já naquela época questiona o casamento -que ela considera o "local da anulação do corpo e da mente"- por meio de personagens femininas que ansiavam por independência, autonomia financeira, intelectual e sexual numa sociedade que julgavam hipócrita.
Diante da rudeza dos homens e da superficialidade das mulheres de sua época, Délia chegou a desejar que "houvesse um sexo neutro".
"Há momentos em que, precisando sentir a posse de mim mesma, abstraio-me deste mundo, elevo-me nas asas da fantasia e vôo vertiginosamente por aí além, vivendo horas que os próprios deuses invejam. (...) Cada indivíduo é destinado a sentir na vida a vibração exclusiva de uma de suas fibras afetivas, eu fui votada ao que sinto, submeti-me ao seu império, mas recuso viver sem retribuição: nasci passiva, como todos os que esperam; parto revoltada, como todos os oprimidos! E a tu, a quem não conheço, cujo olhar me fita compassiva, sê feliz, aceita meu último suspiro e meu supremo ósculo!... Adeus!..."
("Nevrose", de Délia, pseudônimo de Maria Benedita Câmara Bormann)
Abolicionista escandalosa
A maranhense Maria Firmina dos Reis, nascida em São Luís em 1825, mulata e bastarda, viveu e escreveu em condições opostas às que sonhava Virginia Woolf. Enfrentou todas as barreiras do preconceito e publicou, em 1859, o romance "Úrsula", considerado nosso primeiro romance abolicionista e um dos primeiros escritos por mulher brasileira. Em 1887, Firmina escreveu também um conto sobre o mesmo tema, "A Escrava". Foi professora de primeiras letras, colaboradora de jornais literários e fundadora de uma escola gratuita e mista, para meninos e meninas, que causou escândalo no povoado de Maçaricó, em 1880, e teve que ser fechada.
" Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que abordamos as praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão fomos amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa."
("Úrsula", de Maria Firmina dos Reis)
Individualidade feminina
O campo da poesia traz outro nome importante, o da baiana Adélia Fonseca, nascida em 1827. Seu verso comovente, "marcado pela economia, excluindo dele qualquer exagero sentimental" e de influência camoniana, teve sua força reconhecida por ninguém mais ninguém menos que Machado de Assis, em resenha no "Diário do Rio de Janeiro": "O que nos agrada, sobretudo, é que este livro exprime uma verdadeira individualidade feminina; não há essa pompa afetada, essa falsa imitação dos tons másculos, que algumas escritoras procuram mostrar nas suas obras, como recomendação dos seus talentos."
"(...) Amar é verbo de mistério infindo; amarga taça que tem mel no fundo; martírio que se sofre, às vezes rindo! Amar é sentimento em bens fecundo; é o sétimo céu, formoso e lindo, gozar no pobre e miserável mundo!"
("Soneto", de Adélia Fonseca)
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Um toque
feminino na
literatura
brasileira voltar ao topo
O livro Escritoras Brasileiras
do Século 19 reúne e analisa cartas, diários, romances, poemas, crônicas, ensaios e outras produções de autoras do período, oferecendo subsídios para uma verdadeira história das mentalidades femininas no País
Por Paulo Bezerra
Dizia Spengler que uns indivíduos fazem a história e outros sofrem as suas conseqüências. Quando nos debruçamos sobre a história da nossa literatura anterior ao século 20, verificamos, em primeiro lugar, que ela foi toda escrita por homens e, em segundo, que nessa literatura há uma ausência quase total de mulheres, que só aparecem esporadicamente e ainda assim entre escritores menores. O feito que não se registra apaga-se da memória coletiva, tende a desaparecer e cair no esquecimento. Marginalizadas da historiografia, as mulheres escritoras dos séculos 18-19 sofreram entre nós aquelas conseqüências referidas por Spengler, foram objeto do silêncio, daí resultando uma lacuna e a pergunta: será que no passado não tivemos mulheres letradas que deixaram por escrito algum vestígio ou esboço de sua visão de mundo? Felizmente essa lacuna vem sendo preenchida pelo trabalho pioneiro da editora Mulheres, da Universidade Federal de Santa Catarina, que já publicou vários romances escritos por mulheres no século passado e acaba de lançar a antologia Escritoras Brasileiras do Século 19 (900 págs., R$ 60,00), organizada por Zahidé L. Muzart com mais 13 pesquisadoras e ensaístas.
Esta não é a primeira antologia de mulheres entre nós. Como mostra Zahidé Muzart, há outras que falam de mulheres escritoras, mas não reproduzem os seus textos, logo, não lhes dão voz. A presente traz, além dos textos de todas as autoras arroladas, importantes estudos introdutórios que as contextualizam e apresentam uma visão geral de suas respectivas obras, permitindo ao leitor avaliá-las e situá-las no panorama geral da literatura brasileira.
As autoras do livro partiram de um objetivo geral: resgatar parte da vida e da obra daquelas mulheres, mostrar que elas desejaram fazer-se ouvir e se rebelaram contra o “papel natural” de confinadas à vida doméstica que a sociedade patriarcal lhes reservara. Para atingir tais objetivos, as autoras enfrentaram obstáculos seríssimos, mas produziram um alentado livro, resgatando cartas, diários, romances, poemas, crônicas, contos, dramas, comédias, teatro, operetas, ensaios, crítica literária, importantes reflexões sobre educação, sobre a condição da mulher numa sociedade patriarcal e sua luta pela emancipação de fato, pelo direito ao voto e a uma participação real na vida da sociedade, trazendo para o leitor de hoje todos os gêneros em que as mulheres escreveram no passado século, oferecendo importantes subsídios para uma história das mentalidades femininas naqueles idos e uma substancial contribuição para quebrar o silêncio a que aquelas escritoras foram relegadas.
Ao longo do livro, 52 escritoras de 12 estados praticam todos os gêneros literários, e destacamos algumas em poesia. Beatriz Francisca Brandão (1779-1868), poetisa mineira e professora, publicou bastante nos periódicos da época. Escreveu sonetos primorosos em que o tema do amor funde tradição clássica com lampejos românticos. Sua concepção do amor como valor maior da existência chega a assumir um tom filosófico ao esboçar rejeição à ordem divina, que proíbe o amor de fato, e defendê-lo para o homem por ser este universal. Maria Clemência S. Sampaio (1823), gaúcha, deixou uma poesia de exaltação da natureza local, e captou bem o clima generalizado de euforia pós-independência. Sua poesia tem mais valor documentário que estético. Ildefonsa L. César (1794), poetisa baiana, levou vida amorosa à margem das regras sociais. Professora, mãe solteira, deixou uma poesia marcada pelo tema da paixão e foi a primeira autora cuja poesia teve condimento erótico, afrontando a sociedade com revelação de paixões proibidas e alusão desvelada ao prazer sexual. Esteve acima de outros poetas de seu tempo pela franqueza e a naturalidade.
Nísia Floresta (1810-1885), poetisa e prosadora potiguar das mais importantes do século 19, foi resgatada para a historiografia literária e para a nossa história nacional pelo trabalho pioneiro de Constância Lima Duarte. Escritora e combatente pelas causas mais nobres, teve forte participação na imprensa nacional desde 1830, publicou vários livros no Brasil, na França e na Itália, nos quais se destaca a defesa consciente da mulher. A erudição e a amplitude dos temas nacionais discutidos por Nísia Floresta em uma sociedade de poucas mulheres efetivamente instruídas deixaram Gilberto Freyre “pasmo”.
Como poetisa, Nísia é autora do poema épico-trágico “A lágrima de um caeté”, em que trata com originalidade o tema do indianismo, narrando da óptica dos derrotados e construindo a imagem de um índio condenado à civilização, com valores culturais superiores ao do colonizador, de quem ele cobra os bens que lhe foram roubados. A narradora revela empatia total com o indígena, e graças a isto e à maneira desvelada com que trata da tragédia do nosso indígena coloca-se acima de indianistas como José de Alencar e até Gonçalves Dias. Na questão social, a defesa da igualdade entre homens e mulheres mostra um pensamento tão avançado quanto atual.
Adélia Fonseca (1827-1920), poetisa baiana, foi elogiada por Machado de Assis e agraciada com um poema por Gonçalves Dias. Destaca-se como sonetista de alta qualidade formal e sensibilidade original, levando Machado a diferenciar claramente textos escritos por homens e por mulheres. Versos como “Amar é verbo de mistério infindo;/amarga taça que tem mel no fundo;/martírio que se sofre, às vezes rindo” a associam claramente a Camões.
Rita Barém de Melo (1840-1868), notável poetisa gaúcha de vida breve, marcada por grandes tragédias, mas de poesia densa, em que a dor da experiência vivida jamais transborda no verso chorão tão comum em muitos românticos. Há uma musicalidade tipicamente feminina em sua poesia, o que lhe dá graça e originalidade. Em um momento em que muitos dos nossos escritores mais famosos revelam profunda ambigüidade diante da guerra do Paraguai, Rita Barém destila uma ironia corrosiva sobre esse acontecimento no poema “O soldado do Paraguai”, denunciando a guerra como tragédia para uns e negócio para outros e, assim, marcando seu distanciamento em relação à ideologia oficial.
Narcisa Amália (1852-1924), poeta fluminense, foi também a primeira jornalista profissional do Brasil. Movida por forte sensibilidade social, combateu a opressão da mulher, o regime escravista, defendeu os oprimidos e foi, segundo Sílvia Paixão, “um dos raros nomes femininos que falam de identidade nacional” e busca sua própria identidade “numa poética uterina que imprime o retorno ao lugar de origem”. Gabriela de Andrade (1852-1922), foi uma poetisa paulista atormentada pela sensação de brevidade da existência, o que fez sua poesia mesclar elementos barrocos e românticos. Sonetista de grande qualidade, chama atenção com sua angústia existencial de fundo filosófico à procura de explicação para a existência. Deixou uma poesia cheia de inquietação, que mexe fundo com a alma do leitor.
Adelaide de Castro Guimarães (1854-1940), poetisa, irmã querida de Castro Alves, foi sonetista primorosa, e cantou o amor carnal como o fizera o ilustre irmão. Com uma poesia de forma popular (“Amor”), dá voz às meretrizes e atinge um efeito excepcional, pois o amor aí se manifesta na sua total naturalidade, sem aqueles véus que muitas vezes levaram bons poetas românticos ao quase ridículo. Graças à sua atitude madura em face da vida, consegue “sentir as harmonias,/dos gozos das melodias/das partituras do amor”, sentimento que tudo neutraliza e domina como um carpinteiro que “Põe pregos de resistência,/Ferrolhos na consciência,/Tranca as portas da razão”. Maria Carolina Sousa (1856-1910), catarinense, deixou em sua poesia um interessante documento sobre a condição da mulher na república das letras.
Alexandrina da Silva C. dos Santos (1859-1934), interessantíssima poetisa do Rio de Janeiro, parodiou em seus poemas a morbidez romântica, centrada no exagerado desejo de morrer, e o pretenso saber acadêmico. Usou uma linguagem irreverente com imagens do baixo corpóreo. Júlia da Costa (1844-1911), paranaense, foi mulher de vida muito infeliz, marcada pela frustração profunda de amar um homem muito inferior a ela. Mas, poetisa de grande talento, fez do desencontro trágico entre o sonho do amor irrealizado e a brutalidade da frustração uma poética da perda que, mesmo carregada de uma terrível melancolia, em nenhum momento resvalou da qualidade estética. Sua poesia merece integrar qualquer antologia de poesia romântica.
Nas várias modalidades da prosa, predominam temas como a condição da mulher na sociedade patriarcal, sua educação para o lar e o mundo, a sociedade escravocrata, a participação da mulher na vida pública, artes, costumes e temas afins. Em muitos casos, revelam grande conhecimento do assunto e, às vezes, grande erudição, como ocorre com Escritora Anônima, autora da sugestiva obra As Mulheres – Um Protesto por Uma Mãe (Salvador, 1887). Ela levanta questões essenciais como a restrição do mercado de trabalho para as mulheres, a inferioridade salarial da mulher, o trabalho superior reservado aos homens, em suma, preocupa-se com questões concretas das quis depende a existência do gênero humano. E respalda sua argumentação citando escritores, filósofos, sociólogos.
Violante de Bivar Velasco (1817-1875), baiana, usou o jornalismo para discutir o tema da emancipação feminina. Culta, traduziu peças de teatro do italiano, do inglês e do francês. Para ela, o homem, na prosa ou na poesia, não é capaz de falar do amor da mulher: quando o faz, está falando do seu amor, imaginando falar do feminino.
Ana Luísa de Azevedo Castro (1823-1869), catarinense, foi educadora avançada e romancista, simpática aos índios. Sob o pseudônimo de Indígena do Ipiranga publicou em 1859 o romance D. Narcisa de Vilar, no qual, além de denunciar a falta de liberdade da filha mulher para decidir o seu destino, inova profundamente no processo narrativo ao introduzir uma narradora índia e conferir grande peso à oralidade. Conduzida por vozes femininas, a narração apresenta o casamento como negócio em que a mulher aparece como mercadoria, oprimida pela sociedade e pela família, e denuncia a escravização dos índios pelos colonizadores.
Maria Firmina dos Reis (1825-1917), mulata bastarda nascida no Maranhão, foi professora primária e em 1859 publicou Úrsula, primeiro romance abolicionista do Brasil. Foi colaboradora assídua de jornais e publicou em 1887 o conto “A Escrava”, o “Hino da libertação dos escravos”, dando voz ao escravo que, pela primeira vez em nossa literatura, conta a sua história desde a África. Zahidé considera Úrsula superior ao romance A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães.
Maria Benedita Barbosa, que escrevia sob o pseudônimo Zaira Americana, nasceu na Argentina e depois radicou-se no Rio de Janeiro, casando-se com brasileiro e abrasileirando-se. Via na educação e na cultura os meios da real emancipação da mulher, considerava a leitura dos clássicos como fundamental na formação da mulher e protestava contra a falta de liberdade para escrever. “Eu escrevo com mão algemada.”, disse. Para ela, o trabalho era o meio mais adequado de sustento e real emancipação da mulher.
Maria Angélica Ribeiro (1829-1890), nasceu no Rio de Janeiro, onde foi dramaturga de grande sucesso, tendo merecido artigo elogioso de Machado de Assis. Abolicionista militante, escreveu 22 peças, entre elas o drama Os Cancros Sociais (1865), um dos primeiros libelos contra a escravidão, que alcançou grande sucesso de público. Derrubando barreiras até então exclusivas de homens, produziu uma obra teatral de atestada qualidade, abrindo o espaço público para as mulheres na dramaturgia. Pela solução firme do desenlace, produto de sua posição política clara, a peça é superior ao drama Mãe, de José de Alencar.
Luciana de Abreu (1847-1880), educadora gaúcha e defensora da emancipação feminina, foi, sem dúvida, senão a primeira, uma das primeiras ideólogas de uma educação avançada e voltada para a efetiva emancipação da mulher. Carmem Dolores (1852-1910), fluminense, foi dramaturga, romancista, cronista e boa contista (“Duelo”, “Um drama na roça”), mesclando literatura e jornalismo. Via o divórcio como uma necessidade, mas foi ambígua em relação a outros direitos da mulher.
Inês Sabino (1835-1911), poetisa, contista, romancista, biógrafa e memorialista baiana foi uma das mulheres mais atuantes no mundo das letras e na nossa história cultural. Autora de Mulheres Ilustres do Brasil, livro de resgate de mulheres por civismo ou participação literária, Inês Sabino é a prova cabal de que não basta ser mulher para escrever da ótica feminina. No essencial, seu pensamento repete a ideologia da sociedade patriarcal. Emília de Freitas (1855-1908), poetisa e romancista cearense, abolicionista, é autora do instigante romance A Rainha do Ignoto, que Constância Duarte considera um dos pioneiros “do gênero fantástico no Brasil”. Em raro estudo publicado sobre o livro, Luís Filipe Ribeiro já salientara o seu caráter ousado.
Corina Coaraci (1859-1892) nasceu nos EUA e radicou-se no Rio de Janeiro Abolicionista ativa, intelectual acima da média brasileira, foi dramaturga, cronista, tradutora, crítica de artes de excelente nível e grande erudição, dotada de uma visão avançada da história da cultura. Deixou um excelente ensaio sobre Sara Bernhardt e um notável estudo comparado dos D. Juans. Sua crítica do servilismo brasileiro diante de tudo o que é estrangeiro permanece atual. Revocata H. de Melo (1860-1944), poetisa, jornalista, teatróloga e educadora gaúcha, foi porta-voz do movimento feminista e abolicionista. Revela notória contradição entre a vigorosa atividade político-jornalística voltada à transformação da vida e o romantismo de tonalidades mórbidas dos seus poemas.
Escritoras Brasileiras do Século 19 resgata aquela escrita que Paul Zhumthor vê como “inscrição do homem e de sua história, pessoal e coletiva, na realidade do destino”. Sem qualquer ranço exclusivista, suas autoras deixam muito claro que a qualidade estética e não o sexo deve ser o critério de inclusão das mulheres escritoras no cânone literário. Sua publicação certamente vai tirar a questão do cânone do imobilismo em que se encontra.
Paulo Bezerra é professor livre-docente e tradutor
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