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Editora Mulheres resgata obras de escritoras do século XVII ao XX
Em
1996, três professoras da Universidade Federal de Santa Catarina
resolveram dar um passo importante na luta pelo reconhecimento do
trabalho feminino na história da literatura brasileira e
mundial. Elvira dos Santos Sponholtz, professora de literatura
brasileira; Susana Bornéo Funck, P.h.D em Humanidades, e
Zahidé Lupinacci Muzart, doutora em Letras, fundaram a Editora
Mulheres, que resgata obras de escritoras do século XVII ao
início do XX através da publicação
não só de ensaios mas das obras propriamente ditas, como
romances, poesias e relatos de viajantes.
Nesta entrevista ao
USUFRUTO, Zahidé Lupinacci Muzart, autora de "Cartas de Cruz e
Sousa" e "Escritoras brasileiras do século XIX", fala do mercado
editoral e das obras de escritoras dos século passados
até então desconhecidas. "Sempre fomos feministas,
não só no sentido de reconhecer as dificuldades para a
mulher num mundo muito machista, mas também na luta cotidiana, e
é uma das razões para criarmos uma editora que publica
somente mulheres".
Por que e como surgiu a iniciativa de fundar uma editora voltada para a questão do gênero feminino?
As fundadoras da editora são três professoras de
literatura e aposentadas da Universidade Federal de Santa Catarina.
Estávamos aposentadas ha pouco tempo, em 1996, e
queríamos outra atividade mesmo que ainda ligada ao que
fazíamos. E a editora nasceu tambem de nossos projetos de
pesquisa. O meu, junto ao CNPq, era uma pesquisa de resgate das
escritoras brasileiras do século XIX.
A partir da constatação de que as escritoras brasileiras
existiram no século XIX, achamos que era hora de procurar
resgatá-las não somente com ensaios sobre elas mas
também publicando sua obra literária. Por isso, embora
publiquemos estudos de gênero, a editora fundamentalmente se
dedica a esse resgate da literatura do passado.
Resumindo, posso dizer que foi a preocupação com a
memória cultural e com a história literária, e a
partir de interesses comuns de pesquisa sobre Literatura e Mulher, o
principal impulsionador da criação da editora Mulheres.
Mas o outro impulsionador é uma questão mais
política, digamos assim. Sempre fomos feministas, não
só no sentido de reconhecer as dificuldades para a mulher num
mundo muito machista, mas também na luta cotidiana e é
uma das razões para criarmos uma editora que publica somente
mulheres. Não somente romances, poesia, teatro mas também
relatos de viajantes estrangeiras que visitaram o Brasil no
século XIX e, claro, estudos importantes sobre questões
de gênero.
Em maio, publicamos um livro muito importante da historiadora Joan
Scott que é citadíssima aqui no Brasil mas que,
até hoje, não tinha nenhum livro publicado entre
nós.
Vocês encontraram resistência no mercado editorial?
Não muito, acredito. Na verdade, somos uma micro-editora, e
ainda restrita a um público restrito com
preocupações bem definidas. Mas há um sentimento,
de parte de distribuidores e alguns livreiros, de condescendência
para com nosso projeto. Não há um grande respeito. Eu,
realmente, enfrentei dificuldades com distribuidores e livreiros. A
gente tem de correr atrás de pagamentos, um horror! Nunca pagam
no dia, quando pagam... e sempre muito gentis! Por isso, desisti de ter
distribuidores...
Como tem sido a receptividade do público leitor?
Tivemos uma receptividade muito grande desde a fundação,
por parte da mídia e por parte dos(as) leitores (as). Com muito
incentivo: muitas cartas, e-mails saudando a criação de
uma editora dedicada às mulheres. Mas às vezes, há
problemas na compreensão de nossos objetivos. Por exemplo,
recebemos muitos originais para publicar, poesia e também muitos
ensaios acadêmicos, em geral dissertações ou teses.
Analisamos com atenção as propostas e, às vezes,
publicamos, caso o assunto seja do interesse de nosso projeto, mas como
não somos uma editora propriamente comercial, que recebe
trabalhos e publica-os mediante pagamento, publicamos sempre somente
aquilo que nos interessa. E dependemos muito de nossas possibilidades
financeiras, que são pequenas.
Fale um pouco das escritoras (e de sua obras) dos
séculos XVII, XVIII e XIX que a Editora Mulheres procura
resgatar, Que resistência elas encontraram em suas épocas?
Apesar de desnecessário, é sempre bom lembrar que, no
Brasil, a literatura feminina somente começa a ser
visível no primeiro quartel do século XX. Ainda que
bastante produtivas, as escritoras do século XIX foram
sistematicamente excluídas do cânone literário,
que, é claro, era forjado unicamente pela crítica e pela
historiografia masculinas. Embora à margem, a literatura
feminina foi presença constante, principalmente nos
periódicos do século XIX, tanto nos dirigidos por homens
quanto nos inúmeros criados e mantidos por elas próprias.
Algumas dessas escritoras foram bem acolhidas por seus
contemporâneos, como a baiana Adélia Fonseca, que, em
1866, mereceu crítica elogiosa de Machado de Assis ou a
gaúcha Rita Barém de Melo, nascida em 1840 que teve uma
crítica muito elogiosa de Caldre e Fião, em 1875, e de
outros.
Temos de reconhecer uma característica da literatura feminina:
ficou muito tempo temerosa da opinião dos cavalheiros. E, assim
sendo, comportou-se bem, merecendo, em sua época, todos os
rapapés devidos às senhoras burguesas, sempre permeados
pelo "olhar condescendente", tão bem estudado pela pesquisadora
Sylvia Paixão.
A produção de livros de mulheres, ainda que hoje
desaparecidos, não foi nada desprezível. Estranhamente,
tudo isso foi sendo paulatinamente esquecido a partir do século
XX, melhor dizer, do Modernismo e, somente com algumas pioneiras como
Josefina Álvares de Azevedo, Carmem Dolores e, principalmente,
já no século XX, com a precursora obra de Gilca Machado,
ou a de feministas como Maria Lacerda de Moura, é que a mulher
vai conseguindo ser respeitada como escritora. Dessas, já
publicamos um belo romance de Carmen Dolores, a poesia de Rita
Barém e temos a intenção de publicar Adélia
Fonseca e Marai Lacerda de Moura.
O que melhorou, estagnou e piorou no encontro da mulher brasileira com a literatura? O regionalismo influencia esse encontro?
Acho que só houve
melhorias. A escritora hoje, muito mais liberta, não se submete
aos preconceitos, tem uma linguagem mais livre e sem medos.
A mulher brasileira,
como o homem, apresenta boa e má literatura. Mas há
também aquelas que estagnaram no tempo e que ainda escrevem como
nossas avós. Aí, não é o regionalismo mas a
falta de informação, de leituras... Mas creio que ficar
preso ao regionalismo pode cercear a expressão de um escritor/a.
É limitante fechar fronteiras e só ver o que acontece
dentro dos muros da cité. Mas isso é também
relativo...
Como você vê o sexismo na literatura brasileira de hoje?
Esta questão não sei responder. Veja você que há
um número muito grande de excelentes escritoras e
respeitadíssimas tais como Hilda Hilst, Márcia Denser,
Lya Luft, para citar somente algumas. Mas examinando uma série
de coisas como listas de livros aconselhados para vestibulares,
comissões de concurso, coisas assim, encontra-se um
número ínfimo de mulheres, de livros de mulheres,
às vezes nenhum... Então, me parece que há ainda
muito de sexismo que, se não aparente, sub-reptício e que
passa despercebido porque adoçado sempre pelo cavalheirismo! E
na representação isso pode ser estudado muito bem. Qual a
imagem da mulher que é passada ao leitor?
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