Interdisciplinaridade em diálogos de gênero:

 teorias,sexualidades, religiões

Apresentação

Os textos aqui reunidos são de autoria dos participantes do II Seminário Internacional de Estudos Interdisciplinares, realizado em novembro de 2003, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pelo Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas, organizado por professoras e alunos/as da Área de Concentração em Estudos de Gênero deste programa de pós-graduação. O seminário teve como foco das apresentações e debates, a temática interdisciplinar gênero, que caracterizamos como diálogos peculiares entre gênero, teorias, sexualidades, homossexualidades, religiões

A área de concentração Estudos de Gênero, criada inicialmente como linha de pesquisa do Doutorado Interdisciplinar (DICH), em maio de 2000, resultou de um longo exercício de interdisciplinaridade que vem ocorrendo na UFSC entre professoras de vários Departamentos e Centros da instituição, cuja trajetória foi bem descrita por Miriam Grossi, no posfácio da coletânea Falas de Gênero (1999). Como ressalta a autora, interdisciplinaridade praticada desde as primeiras discussões de pesquisas individuais, que enfocavam inicialmente as condições das mulheres, em estudos das ciências sociais humanas e de letras, literatura, lingüística, com a realização de eventos, já em 1989, como “Estudos Sobre a Mulher na UFSC”, no Centro de Filosofia e Ciências Humanas e o concorrido “III Encontro Nacional de Mulher e Literatura”, do Centro de Comunicação e Expressão. O encontro Fazendo Gênero, que reuniu as pesquisadoras da UFSC no Centro de Comunicação e Expressão (CCE), em 1994, foi o embrião dos encontros bianuais que já estão em sua sexta edição e adquiriram um caráter internacional, com o envolvimento de pesquisadoras/es de várias áreas disciplinares da UFSC e de outras instituições acadêmicas e organizações feministas do Brasil e de outros países, onde a troca de experiências e reflexões têm sido a tônica, envolvendo os vários núcleos e laboratórios da UFSC que se voltam para as questões de gênero. Núcleos e laboratórios que, no Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH), dão sustentação à área de concentração Estudos de Gênero do DICH.

Estas práticas acadêmicas capacitaram as pesquisadoras do CFH e CCE a assumirem, em 1999, a edição da Revista Estudos Feministas, em uma proposta editorial participativa.

No programa de Doutorado Interdisciplinar, que iniciou centrado nas questões de Sociedade e Meio Ambiente, o exercício da interdisciplinaridade no ensino de gênero começou em 1995, com as disciplinas de Movimentos Sociais, ministradas pela professora Ilse Sherer –Warren que chamava a participação de outras/os professoras/es do CFH, entre elas/es, Joana Maria Pedro, História, e Mara Lago, Psicologia, discutindo as teorias e o movimento feministas e as questões de gênero. Disciplinas ministradas em diversos semestres, com a participação discente de alunos/as de outros programas de pós-graduação do CFH e da UFSC, proporcionando uma rica experiência de reflexão e troca acadêmica, para docentes e discentes.

A partir dessas experiências e com o envolvimento de outras professoras que ministravam disciplinas sobre gênero em vários cursos de graduação e pós-graduação do CFH, foi proposta ao Doutorado uma disciplina optativa específica (Seminários Temáticos Sobre Gênero), cujos temas, definidos pelos alunos em função de seus projetos de tese, eram ministrados por diferentes professoras, envolvendo vários Departamentos (Antropologia, História, Sociologia, Psicologia). Foram experiências interdisciplinares de docência que culminaram com a implantação de uma linha de pesquisa em estudos de gênero, logo transformada em área de concentração do Doutorado Interdisciplinar, lócus ideal, em nosso entendimento, para abrigar os estudos de doutoramento dos alunos advindos de diferentes campos disciplinares, que privilegiavam, em suas propostas acadêmicas, perspectivas de gênero. Pelo caráter intrinsecamente interdisciplinar da temática, acordamos que esse seria o programa de pós-graduação em que melhor se desenvolveriam estudos/pesquisas sobre gênero.

 Assim, tanto nas disciplinas ministradas, quanto nos núcleos que dão apoio aos estudos de gênero do DICH, há um dinâmico intercâmbio entre professores/as e alunos/as dos programas de pós-graduação e, através das pesquisas e estágios docentes, com graduandos/as de diferentes cursos da UFSC. As/os alunas/os do DICH têm-se tornado agentes ativos nestas dinamizadoras trocas de experiências interdisciplinares, nos vários eixos de pesquisa, ensino, extensão.

Como foi implantada mais recentemente no Programa, a área de Estudos de Gênero ainda tem poucas teses defendidas (a de Marlene Tamanini foi defendida em 2003 e a de Mirian Adelman, em maio de 2004). Vários dos doutorandos estão desenvolvendo trabalhos que nos permitem prever novas defesas até 2005.

O II Seminário de Estudos Interdisciplinares: a questão de gênero, foi realizado em relação de continuidade com o II Encontro de Publicações Feministas, razão porque pode trazer várias convidadas internacionais, como Jules Falquet, da França, Mônica Tarducci, da Argentina, Susana Rostagnol, do Uruguai e Sandra Lassak, da Alemanha. Foram convidado/as também professor/as do próprio país, como Júlio Simões, da USP, Bila Sorj, da UFRJ, Sandra Azeredo, da UFMG, e Lourdes Bandeira, da UNB. Pesquisadoras convidadas para debater os projetos de tese de nossos doutorandos, em três blocos de discussões, enfocando os temas: homossexualidades, famílias e gerações; sexualidades e direitos reprodutivos; epistemologias de gênero e tecnologias com gênero. Agradecemos a essas professoras e ao professor Júlio Simões, as contribuições que puderam prestar aos trabalhos dos/as alunos/as do doutorado. Agradecemos ainda a participação da professora Maria Regina Lisboa, na função de debatedora dos trabalhos apresentados na mesa redonda Gênero e Religião.

Essa publicação, constando das palestras proferidas pelos convidados que compuseram as duas mesas redondas apresentadas no evento, reúne também artigos elaborados pelos doutorandos da área de Estudos de Gênero do DICH, referidos a aspectos dos trabalhos de tese que estão desenvolvendo.

O primeiro bloco de artigos trata de sexualidades, reunindo os textos de Jules Falquet e das doutorandas Olga Regina Zigelli Garcia e Nadia Covolan, que se referem à homossexualidades femininas.O artigo de Júlio Simões enfoca homossexualidades masculinas e os doutorandos Luis Fernando Córdova e Eduardo Saraiva, abordam questões homossexuais em geral. Os artigos seguintes tratam da sexualidade, Susana Rostagnol escrevendo sobre prostituição e Miriam Santin sobre direitos sexuais e reprodutivos.

Jules Falquet articula os efeitos dos questionamentos dos movimentos das minorias e dos movimentos lésbicos, em especial, sobre as teorias feministas e os estudos de gênero, comparando essa imbricação entre estudos acadêmicos e militância na França e Estados Unidos. Seu artigo é um relato histórico da relação tensa e profícua entre movimentos sociais e teorias.

Olga Regina Zigelli Garcia reflete sobre a pluralidade das práticas sexuais hetero e homoeróticas, debruçando-se sobre o material de pesquisa realizada com mulheres que, definindo-se como heterossexuais, relacionam-se sexualmente com homens e com outras mulheres.

Nádia Covolan apresenta sua proposta de investigação da menopausa em mulheres de orientação homoerótica, analisando os discursos da biomedicina e os aportes feministas de gênero sobre este acontecimento da vida sexual reprodutiva feminina. Discorre sobre a naturalização da heterossexualidade em relação ao homoerotismo feminino, apresentando algumas de suas entrevistadas e discutindo questões norteadoras de suas reflexões.

Júlio Simões reflete sobre a obra de pesquisadores de língua inglesa que buscaram articular o tema da periodização da vida, com as questões da identidade homossexual masculina, em contextos modernos da chamada cultura gay urbana, detendo-se na questão do envelhecimento homossexual.

Luís Fernando Córdova etnografa sua trajetória de pesquisador em busca dos sujeitos que vai entrevistar, em seu estudo sobre gays e lésbicas de diferentes gerações em Florianópolis.

Eduardo Saraiva, comentando, em seu artigo, autores orientados pela teoria psicanalítica, reflete sobre a inconveniência da utilização do conceito de identidade homossexual, frente a multiplicidade das práticas, no que se refere à sexualidade humana.

Susana Rostagnol apresenta as reflexões que desenvolve a partir da análise do material etnográfico obtido em sua pesquisa com prostitutas de rua em Montevideo. Destacando a prostituição como fenômeno que se situa nas intersecções entre sexualidade, economia, trabalho, poder, moral, relações de gênero, a autora analisa mulheres que se produzem como prostitutas conforme modelos estereotipados de gênero.

Miriam Santin discorre sobre os debates que integram a construção do campo dos direitos reprodutivos e direitos sexuais, no interior das discussões sobre direitos humanos, conforme definidos pelos fóruns internacionais promovidos pela Organização das Nações Unidas. Analisa a questão da universalidade dos direitos individuais, no confronto com as diversidades multiculturais de práticas e valores.

O segundo bloco de trabalhos discute questões epistemológicas interdisciplinares, foco das teses de alguns de nossos doutorandos. Assim, Miriam Adelman discorre sobre os estudos de gênero e seu lugar na sociologia contemporânea, as resistências que encontram ainda nas teorias sociais, marcadas, em sua difusão, inclusive pelo gênero de seus autores.

Cristina Rocha relata surpresas encontradas em estudo etnográfico preliminar focado nas relações de gênero, que se estabelecem na complexidade das redes sociotécnicas dos ambientes presenciais e virtuais. Estas relações são provocadoras de dilemas e desafios epistemo-metodológicos, na tentativa de contemplar as alteridades e as intersubjetividades presentes no jogo da dádiva dos encontros entre pesquisadora e pesquisadas.

Tito Sena aborda, em seu artigo, a apreensão da produção intelectual de Michel Focault pelas estudiosas feministas, ao tomarem gênero como categoria discursiva, na crítica ao essencialismo e na utilização das concepções do autor sobre o poder que circula nas micro-relações cotidianas, marcadas pelas assimetrias de gênero.

Adriano Nuernberg apresenta um panorama das características da participação da psicologia social brasileira nos estudos de gênero, analisando a forma como a disciplina incorpora a categoria gênero, através da produção acadêmica de autoras protagonistas desse processo.

O terceiro bloco da publicação foi composto com os textos produzidos pelas convidadas para a mesa redonda sobre feminismo e religião. Sandra Lassak enfoca, como objeto central de sua análise, a questão das interrelações entre os desenvolvimentos da teologia eco-feminista e os processos de globalização neo-liberal, refletindo sobre diferenças e similitudes em relação à vivência do processo de globalização por mulheres dos chamados países do Sul e do Norte. Detém-se na consideração da teologia eco-feminista na América Latina.

O artigo de Mônica Tarducci destaca a importância do enfoque de gênero nos estudos de religião, descrevendo e refletindo sobre sua experiência de mulher, antropóloga, atéia, em estudo sobre mulheres pentecostais, na década de noventa, em um bairro da Grande Buenos Aires/Argentina.

O artigo produzido por Elisabete Schwade, argumenta sobre a importância do feminino no interior do fenômeno neo-esotérico, situando-o como elemento estruturante, constitutivo, concatenado com a afirmação da espiritualidade e princípios ecológicos que caracterizam o universo neo-esotérico.

A organização do “II Seminário de Estudos Interdisciplinares: a questão de gênero”, assim como a desta publicação, são devedoras do trabalho engajado, incansável, dos doutorandos Cristina Tavares da Costa Rocha, Olga Regina Zigelli Garcia e Tito Sena, proporcionando todo o apoio e esforço que tornaram possíveis estas realizações.

Agradecemos também o trabalho realizado por Rita de Cássia Flores Müller, do NIGS (Núcleo Interdisciplinar de Estudos de Gênero e Subjetividade), na correção e formatação do material deste livro.

O evento contou com o apoio da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Revista Estudos Feministas – REF, Fundacão FORD e CAPES

 

Miriam Pillar Grossi e Mara Coelho de Souza Lago

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