Lésbia 

Maria Benedita Bormann (Délia)

 

 

 

 

Introdução
Norma Telles

 

Délia foi o nome de pena adotado por Maria Benedita Câmara Bormann em sua carreira literária durante as últimas décadas do século passado. Talentosa, jovial e irônica, publicou vários livros além de crônicas, folhetins e contos breves nos principais jornais do Rio de Janeiro, entre 1880 e 1895. Começou escrevendo em O Sorriso, passou para o jornal Cruzeiro, onde ficou um ano. Depois escreveu para a Gazeta da Tarde, de José do Patrocínio, e a Gazeta de Notícias, de Ferreira Araújo, entre outros periódicos. Foi a primeira escritora a colaborar na coluna, o que a partir daí se tornaria uma tradição, à esquerda da primeira página do jornal O País, alternando com Coelho Netto, Valentim Magalhães, e outros. Nesse jornal, onde trabalhou desde o seu começo, junto com Quintino Bocaiúva, foi contemporânea de redação de Aluízio de Azevedo, Joaquim Nabuco, Carlos de Laet e da poeta portuguesa Maria Amalia Vaz de Carvalho. Escreveu em estilo elegante, que demonstra real talento e erudição, segundo seus admiradores, ou escreveu sobre temas chocantes, eróticos, segundo seus detratores e críticos.

Maria Benedita Câmara Bormann nasceu em Porto Alegre em 25 de novembro de 1853, numa família de prestígio social e político. Estava com dez anos quando se mudaram para o Rio de Janeiro. Ao se casar, em 1872, morava com os pais em um sobrado, que ainda hoje ali se ergue, à rua do Rezende, 48. Residia nesta casa quando faleceu, em julho de 1895. Entre esses dois acontecimentos, muito pouco se sabe sobre sua vida. Recebeu uma educação esmerada, falava francês e inglês, contam os comentadores, e como demonstram seus livros, foi uma estudiosa do pensamento e da literatura de sua época. Andradina de Oliveira diz que escrevia desde pequena, tendo posteriormente selecionado o que queria conservar e destruído o que não lhe parecia ter valor. Pintava, tocava piano e cantava com bela voz de mezzo-soprano. Foi casada com José Bernardino Bormann, seu tio materno, herói da Guerra do Paraguai, engenheiro militar de talento que em 1909 tornou-se Ministro da Guerra. Foi também escritor e ensaísta, tendo deixado livros sobre as lutas no sul e a guerra do Paraguai.

Os sucintos relatos da época sobre a escritora sugerem ter sido “acidentada sua existência romanesca, e cruel o seu destino”. No entanto, nunca essas insinuações se tornam um pouco mais explícitas. Alguns comentários parecem não passar de confusão entre as personagens da autora – especialmente Lésbia – e sua vida. Algo contra o que a própria escritora alertou, várias vezes, afirmando que tal prática levava a enganos e confusões, como se poderá constatar nas páginas deste livro. Talvez Maria Benedita Bormann tenha passado a vida lendo e escrevendo no sobrado da rua do Rezende, sorrindo com a ironia que lhe atribuem das insinuações de aventura e romances. As pesquisas não desvendaram nada além dos traços conhecidos da persona pública, segundo o autor do comentário acima, “incontestavelmente uma das mais brilhantes escritoras do Brasil contemporâneo”.[1] No início do século vinte, seus livros já haviam se tornado raros, embora ainda fossem muito apreciados por aqueles que possuíam exemplares.[2] Com o passar dos anos, entretanto, o nome de Maria Benedita Câmara Bormann foi desaparecendo, assim como seus livros, da memória coletiva.

O uso de pseudônimo é uma questão interessante com relação às mulheres. A partir de meados do século dezenove, ao invés de permanecer um subterfúgio para encobrir a identidade, passa a marcar o nascimento da escritora, um poder derivado de um batismo privado, um segundo eu, um nascimento para a primazia da linguagem.[3] Reflete um esforço para se livrar de – ou transformar – o patrimônio herdado, o peso da nomeação familiar, os nomes de poder e o poder das normas presentes em sua vida.

No caso de Délia, a escolha o nome de pena não parece aleatória. Aponta para a Antigüidade clássica, o mundo dos homens eruditos e dos gabinetes vedados às mulheres, e assim assinala uma ruptura com a divisão cultural do conhecimento que se difundira na cultura através de uma linha divisória dos gêneros. Aos homens, todas as áreas do conhecimento e da produção cultural; às mulheres, um verniz de educação para uma conversa de salão, reprodução e cuidado com os filhos. Uma vida sem história própria. Ao mesmo tempo, a escolha é uma indicação do posicionamento político da autora, pois sabe-se que, nas décadas que precederam a República, nomes romanos eram adotados para assinalar essa opção. Além disso, esboça o traçado de uma genealogia própria, imaginária, uma genealogia feminina que tem início com a poeta Safo, passa pela personagem romana Délia e as denominadas Safos dos séculos subseqüentes chegando até George Sand, a Safo que dominou Paris em meados do século dezenove e de quem Maria Benedita Bormann diz, ter demonstrado “o que pode o gênio em peito feminino.”

Délia era um epíteto dos gêmeos Artemis e Apolo, que se refere ao local de seu nascimento, Delos, e aos festivais a eles dedicados. Artemis se tornou a romana Diana e na Roma antiga Délia foi o nome escolhido pelo poeta Tibulo para cantar sua amada e, através dela, homenagear o gênio de Safo. A época em que viveu o poeta nos legou imagens de mulheres independentes, assertivas, que buscavam auto-gratificação intelectual e escolhiam seus amantes. Naquele período, vários poetas cantaram assim suas amadas e, dentre essas personagens, a mais famosa foi a Lésbia dos versos de Catulo. O universo imaginário sugerido pela escolha do pseudônimo é o mesmo que nomeia as personagens do presente livro, considerado o mais importante de Maria Benedita Bormann. Ela transforma as personagens dos poetas latinos em escritoras que falam com a própria voz, numa época em que as mulheres não deveriam se afirmar nem ser escritoras: para não se deixar fixar em categorias socialmente aceitas, para escapar ao meio-dia da configuração apolínea hegemonicamente surda à multiplicidade de vozes e sons da cultura, somente freqüentando as ermas paragens de Artemis/Délia/Diana, onde as palavras podem ser selvagens ou evasivas, escorregadias e se recusam a ser domadas.[4] Selvagem e agreste referem-se a aspectos da palavra que não permitem a redução ao utilitário, ao domesticado e assim podem nomear outras paisagens.

Como pode ser observado neste livro, a escritora é extremamente cuidadosa na escolha das palavras, provocando com isso ressonâncias e encadeamentos. Ela se torna bilíngüe, multilíngüe, criando uma estrutura na qual cada língua diferente ajuda a heroína a se livrar das incursões repressivas da outra. A heroína precisa ter acesso a vários mundos lingüísticos que dialogam entre si e a ajudam a estabelecer suas próprias regras.[5] Ela emprega esse recurso através de fragmentos, recortando e fazendo bricolagens para refazer sentidos. Acaba contrapondo-se às tendências dominantes de um monólogo com as metrópoles e uma pretensa homogeneidade cultural, refazendo nas brechas idéias correntes. No emprego das várias línguas está envolvida na busca de uma segunda identidade e da revisão das produções culturais. As citações não aparecem para ilustrar uma boa educação da personagem mas como a descoberta de uma outra interpretação. É assim também que utiliza os vários saberes que, ao invés de aparecerem como reguladores, sugerem inúmeras outras possibilidades, interrogando as vozes que ordenariam que se calasse. E por não querer se deixar fixar em categorias preestabelecidas é que também recusa a denominação de “Zola de sais”, que posteriormente Inês Sabino atribui a Maria Benedita Câmara Bormann. Percorre as várias escolas literárias, retirando delas o que lhe apraz.

Lésbia é o que se denomina um Künstlerroman, um romance de artista, um gênero que enreda o contínuo processo através do qual uma pessoa progride em direção à criação de sua arte. Trata-se de uma estória que aborda o desenvolvimento, formação e problemas específicos do artista e focaliza a busca de um “eu” criador que se manifesta também em outras esferas da vida – no caso deste livro, no corpo, nas roupas, na casa, refazendo os tradicionais espaços femininos. Um romance de artista escrito por uma mulher no século dezenove é muito raro por várias razões, apontadas por estudiosos,[6] que não cabe enumerar aqui.Em breve, pode-se comentar que o campo de vivências das mulheres era muito mais limitado que o dos homens. Elas não iam à guerra, nem freqüentavam universidades ou bordéis. E raramente eram artistas. Para tornar-se criadora, a mulher precisava enfrentar as experiências a ela destinadas e criticá-las. O livro de Délia, antecipando em uma década escritoras de língua inglesa dos últimos anos do dezenove[7] e as modernistas do nosso século, estabelece a ligação entre a busca da protagonista por desenvolvimento artístico, independência financeira e amorosa, e a necessidade de um local de trabalho próprio. No caso, com um toque local de excesso, a personagem escritora realiza sua arte num palacete todo seu. A independência financeira da heroína devido a um acaso da fortuna não nos deve surpreender, pois ao percorrer os jornais do Rio de Janeiro, no período, é surpreendente o número de anúncios de loteria publicados. Além disso comentava-se muito as perdas e ganhos rápidos na bolsa de valores e a rapidez com que o dinheiro mudava de mãos.

Lésbia é um livro que entrelaça as relações e tensões entre a paixão pelo conhecimento – leitura e escritura – e a paixão erótica. Ao contrário da “mulher que desvive-se em carinho e afeto”, a escritora-heroína vive, com prazer e intenso sofrimento, os desejos da mente e do corpo. Não há cisão entre a realização pessoal na experiência e o eu artístico que deseja liberdade das exigências da vida; há alternância e interrelação entre esses dois pólos. A fronteira entre vida e arte é rompida, as duas se mesclam e se contaminam, mediadas pela imaginação que remodela a tradição recebida, as histórias contadas nos livros, alterando os desenlaces e as tramas. O onirismo aparece neste e nos outros livros de Délia, como espaço de transformação onde a ambigüidade é introduzida para que os movimentos ocorram e haja mutabilidade, troca de dimensões e irradiações. Devora os “estrangeirismos” (palavra da autora) para devolver outras idéias e vai fabricando com histórias que vêm de fora e com as que vêm de dentro, com paixão e extrema angústia, através da liberdade da criação e da repulsa à repetição de regras, uma estética mestiça onde, com audácia, mistura os profundos conflitos e tensões às supremas elevações. A paixão e o desconsolo estão presentes em seus “temas viris” combinados ao “elegante estilo feminil que desvenda os mais profundos mistérios” da psicologia das personagens.

Dentre os vários livros e autores citados, dois desempenham papel central no livro. O Werther, de Goethe, mencionado no prólogo pela autora, é um marco da sensibilidade do século. Além das razões oferecidas pela autora para essa predileção, talvez haja outra. Délia, apesar das referências a Goethe, nunca menciona o Fausto. Ora, esse é o modelo paradigmático da busca do artista e seu embate entre criação e experiências no mundo.[8] Ao não mencioná-lo ela está claramente apontando outro caminho para a formação da artista. A personagem-heroína de Délia, diferentemente do Fausto, não sai em busca de novas experiências, mas esgota as possibilidades dadas às mulheres, para, então, tentar novas perspectivas de vida. Werther, por seu lado, é um livro em que episódios da vida do autor são transformados em ficção, onde verdade e invenção se mesclam para compor um romance.  

O outro livro, citado “ao acaso” em um momento transformador da narrativa, não chama muita atenção à primeira vista. Mas seu papel é ainda mais central. Trata-se das Máximas de Epicteto, um escravo filósofo, um dos principais difusores do estoicismo, que em Roma ensinou e acabou conquistando a liberdade. Epicteto afirmava que toda criatura humana, em qualquer época e em qualquer situação, fosse homem ou mulher, escravo ou senhor, só seria verdadeiramente uma pessoa digna da razão que lhe fora outorgada, se vivesse a própria vida de acordo com o que lhe fosse a essência. Propunha o cuidado de si como arte da existência que conduziria à liberdade. Na prática do cuidado de si, as mulheres, ele alertava, deveriam ficar ainda mais atentas. Pela reação que despertavam desde meninas, por causa de sua beleza, poderiam ser levadas a prestar atenção só à aparência exclusivamente para dar prazer ao homem ao invés de cuidarem de si.

O fundamental, para o filósofo, era ser o que se é. Na paideia por ele proposta, há íntima ligação entre males físicos e males da alma, uma aproximação entre medicina e moral. O cuidado de si é um sistema de obrigações recíprocas e, em conseqüência, é prática social. A arte do cuidado de si propunha várias práticas, receitas, exercícios. Muito importante era a atividade de falar e escrever, na qual o trabalho sobre si mesmo e a comunicação com os outros se baseavam. Portanto, o ato de escrever se torna uma estratégia na constituição do eu. Prática esta bem diversa da auto-exposição preconizada pelo ethos cristão. A escrita firma a animi medicina, ou medicina para a alma, e há uma íntima relação entre o físico e o psíquico.[9] Quem estiver genuinamente interessado na saúde da alma retira-se em si mesmo, constantemente, não para se expor mas para recordar regras de ação e considerar como se conduzir. As notas escritas para o cuidado de si devem ser simples e claras, pois o estilo deve refletir a orientação ética. As orientações e concepções de Epicteto permeiam todo o livro de Délia, mesmo quando não explicitadas, assim como o estilo de parágrafos curtos que muitas vezes formam também aforismos.

Lésbia, a personagem-escritora, ao contrário das heroínas amorosas e humildes do  período, é segura e ambiciosa e tem “uma jaça em sua personalidade, é vingativa,” diz a narradora deste livro. A sugestão é de que se a mulher pode ser igual ao homem em arte e engenho, também deve ser capaz de partilhar elementos de sua vilania e fazer escolhas morais. A personagem segue um impulso inato para a afirmação de seu ser, não aceita que só as pessoas de classe média alta tenham sensibilidade estética e ética. Idéias estas que são as do filósofo estóico, como também sua ação é pautada por momentos de recolhimento, quando medita sobre os acontecimentos, traça seus rumos e escreve. A articulação da subjetividade da personagem é uma definição de fronteiras em alternâncias de luz e sombra, sonho e realidade, entre as condições de ação e a ação, entre a personagem e a sociedade num diálogo entre a necessidade e a liberdade, a vida e a morte.

Um limite importante da subjetividade é definido pela percepção dominante da masculinidade no pensamento de época. A pluralidade de figuras masculinas neste livro assinala a recusa da narradora em fixar as posições de gênero. A diferença entre o pai e o marido, por exemplo, mostra que dispersa a lógica unilateral do poder através da sucessão de figuras masculinas semelhantes. Na pluralidade de possibilidades há lugar  para brutos, tolos, vaidosos, vingativos, para homens de bem, para enganadores e para o homem sensível, o companheiro de mente e coração, um interlocutor que ouve e aprecia, bem como para o jovem que desperta a paixão adormecida na mulher mais velha, questão ainda muito discutida em nossos dias.

A morte da heroína, sua última trama, diz a autora em seu prólogo, é “a conseqüência fatal do seu tormentoso e acidentado viver”. Com ela concorda Bachelard quando afirma que o suicídio, na literatura, é fundamental para os valores dramáticos e é preparado como “um longo destino íntimo. É, literariamente, a morte mais preparada, a mais prenunciada, a mais total.” Como se a autora quase desejasse que o universo inteiro participasse da morte da heroína na água, “a verdadeira matéria da morte bem feminina”. Contemplar a água é escrever-se, dissolver-se é morrer.[10]

Lésbia recebeu resenhas elogiosas como a de O País, em 4 de novembro de 1890, e existe consenso entre os seus contemporâneos quanto a ser esta sua obra mais importante. Há uma resenha discordante, a de Araripe Júnior. Em artigo no Correio do Povo, mostra-se condescendente com “a peregrina formosura” da autora, seu olhar e tom de voz, com “a gentileza de seu sexo”. Mas não encontra nada disto – afirma – no livro, não encontrou nada que correspondesse “a tanta graça física e tão celestes dons naturais”. Ele sabe, e enumera, o que deveria ter escrito uma tão formosa mulher, “tinha o dever de manifestar-se uma artista cheia de sobressaltos, nervosa, intelectualmente violentada pela histeria tropical...” E termina dizendo: a autora lhe parece “tão pouco conhecedora do papel reservado à mulher nas sociedades do século XIX”. Ele, ao comentar outro livro de Délia, afirma ser ela uma erotômana: “É interessante observar que a pecha pelo obsceno parece ser uma prerrogativa da autoria masculina [...] É sintomático, portanto, que Délia seja condenada por ser uma escritora que ‘não perdeu a preocupação antiga da literatura brutal’”. [11] Araripe Júnior demonstra o paternalismo dispensado, em geral, às escritoras: elogios pela aparência física, beleza e graça. Mas este tipo de crítico sabe como tanta delicadeza deveria ser transposta para a escrita, as mulheres deveriam escrever só a respeito de sentimentos que considerava puros, isto é, prescritos. Erotômana, adjetivando a autora, e o tipo de juízos expressos acima foram empregados por críticos conservadores, no final do século passado, aqui e também nos países de língua inglesa, para escritoras que desafiavam as definições dominantes a respeito da mulher e de seu papel no mundo. Atributos como independência, coragem, auto-respeito, conhecimento, erudição, erotismo, cuidado com a mente e com o corpo, autodeterminação eram vistos como opostos à domesticidade e pureza desejadas na mulher e assim se tornavam elementos de incompreensão, desassossego e censura.[12] 

O obsceno não é necessariamente vulgar. A heroína-escritora é ousada, intrépida e irônica, como a autora. A ironia dissimula a intensidade dos eventos, borra os limites da noção de verdade, embora possa afirmar uma idéia. O riso impede que a personagem se identifique com a depressão, proporcionando um distanciamento, um movimento. O obsceno e o riso fazem parte dos mistérios femininos e em tempos antigos o sagrado obsceno se manifestava, por exemplo, em Elêusis. Conta-se que, quando Deméter estava profundamente deprimida por causa da ausência da filha Perséfone, Baubo foi ficar junto dela e encantou-a com seu humor ao contar-lhe histórias obscenas, gesticulando sempre até fazê-la rir. O riso faz Deméter conhecer a paixão que a devora, o que é bom para ela e o que não lhe pertence. E encontra dentro de si a centelha de humor que a leva a mudar o rumo dos eventos e passa a ensina-lo às outras mulheres, para que não sejam tão inocentes na vida, nos prazeres e na morte. Deméter ensina, pela ironia que aprendeu com Baubo, a fazer conexão com o fogo imortal, um estado de intensa consciência que inclui o erotismo e o obsceno embora não se limite a eles.[13] Lésbia ao aceitar a própria ironia e o próprio erotismo não se deixou prender, pelos sofrimentos e desalentos da vida, mas moveu-se, meio em às críticas que sem dúvida deixaram cicatrizes e também uma amarga ironia, e nos legou matérias para reflexão, “não morrendo de todo” como era seu desejo.

Esta reedição de Lésbia tornou-se possível graças à generosidade do bibliófilo Erich Gemeinder. Ele contou-me que ainda estudante leu uma pequena notícia sobre o livro e passou a procurá-lo por todo o Brasil. Depois de uns vinte e cinco anos, finalmente, em 1984, conseguiu-o na biblioteca que pertencera a Olyntho Moura. Erich permitiu que a esmerada encadernação de seu exemplar fosse desfeita, para se fazer o microfilme que serviu para o cotejo da presente edição. Recentemente, Eliane Campello, trabalhando com Rita Terezinha Schmidt, encontrou um outro exemplar na Biblioteca de Rio Grande (RS).


[1] Almanach Luso Brasileiro, 1897, p.268.

[2] Andradina de Oliveira, A mulher riograndense. I série. Porto Alegre: Officinas Graphicas da Livraria Americana, 1907.

[3] Sandra Gilbert e Susan Gubar, No man’s land. Vol I. New Haven: Yale University Press, 1981.

[4] Ver Stephen Simmer, “The Net of Artemis: Text, Complex”. Dragonflies. Dallas, p. 55-65, summer 1980.

[5] Patricia Yaeger, Honey-Mad Women. New York: Columbia University Press, 1988.

[6] Ver especialmente Grace Stewart, A New Mythos: the novel of the artist as heroine, 1877-1977. Eden Press, 1979 e Susan Gubar, “The Birth of the Artist as Heroine: (Re)production, the Künstlerroman Tradition, and the Fiction of Katherine Mansfield” in Carolyn Heilbrun (org). Representation of Women in Fiction. UMI, 1996.

[7] Ann Heillman, “Feminist Resistance, the Artist and ‘A Room of One’s Own’” in Women’s Writing, vol 2, nº 3. London: Triangle, 1995, p. 291-308 e, da mesma autora, “The ‘New Woman’ Ficition and Fin-de-Siècle” Feminism in Women’s Writing, vol 3, nº 3. London: Triangle, 1996, p.197-216.

[8] Grace Stewart, A New Mythos: the novel of the artist as heroine 1877-1977. St.Alba: Eden Press, 1979.

[9] Michel Foucault, Le souci de soi. Paris: Gallimard, 1984.

[10] Gaston Bachelard, L’eau et les rêves. Paris: Corti, 1979, p.111.

[11] Rita Terezinha Schmidt, “Cultura e Dominação” in Letras de Hoje. Porto Alegre: UFRS, 1997

[12] Ann Heilmann (1996), op.cit., p.201.

[13] Angelyn Spignesi, Mulheres famintas. SP: Summus, 1992; Clarissa Pinkola Éstés, Women who run with wolves. New York: Ballantine, 1992, cap. 11.

 

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