Itinerário de uma viagem à Alemanha

Nísia Floresta 

 

Introdução

Constância Lima Duarte

Com o título Itinéraire d’ un Voyage en Allemagne, Nísia Floresta Brasileira publicou este livro em 1857, em Paris. Trata da primeira excursão que realizou ao país de Goethe, passando pela Bélgica e interior da França, entre agosto e setembro de 1856. Na forma de uma correspondência dirigida ao filho e aos irmãos que residiam no Brasil, a narradora descreve os momentos mais marcantes de seu percurso nesta viagem, reiterando em quase todas as páginas as saudades que sentia, o quanto desejaria fazer tal passeio com a família e não apenas em companhia de Lívia, a única filha presente. São eles, “o caro filho e irmãos do meu coração”, os leitores implícitos destas cartas. Escrevendo, ela cria a ilusão das suas presenças, auxiliada ainda pelas fotografias deles que traz consigo.

Com tais artifícios, “os entes queridos” permanecem na lembrança e no papel, este último o elo mágico que vai transportar suas emoções, o depositário concreto (e romântico) de seus pensamentos. A correspondência permite, então, a realização de outra viagem: aquela ao encontro dos familiares e, ao mesmo tempo, para dentro de si mesma. Num momento são eles que estão com a narradora; noutro, é ela que se transporta e se vê junto deles.

Ao todo, são trinta e quatro cartas escritas diariamente (apenas 4 de setembro não tem a carta correspondente), durante as cinco semanas de passeio por vinte e três cidades. A primeira é datada de Bruxelas, 26 de agosto, e a última é de 30 de setembro de 1856, escrita em Estrasburgo. O trajeto escolhido, ela nos explica: preferiu entrar na Alemanha pela Bélgica e sair por Kehl, para ir de Estrasburgo a Montbéliard.

As razões que a levaram a realizar tal viagem são reveladas logo de início: a aproximação do primeiro aniversário de morte da mãe fez com que Paris lhe parecesse “monótona e quase insuportável”, o desejo de conhecer outros países e de fazer uma peregrinação ao túmulo “do venerável amigo, o sábio e bom Duvernoy”, falecido no ano anterior, quando ela ainda se encontrava no Brasil.

A viagem para a narradora, a princípio, cumprirá, portanto, a função de um lenitivo para suas angústias, de um remédio que se mostrará eficaz para a depressão que a dominava, desde a morte da mãe um ano antes. A morte impulsionou-a para as viagens, que por sua vez conduzem-na de volta à vida. Toda a narrativa conserva uma tensão entre morte e vida, bem perceptível no clima fúnebre que preside o Itinerário: “Viajar, repito-lhes, é o meio mais seguro de aliviar o peso de uma grande dor que nos mina lentamente.”

O país escolhido não poderia ter sido outro. Quem, naquela época, buscasse “novas emoções” necessariamente ia ao berço do movimento romântico, à “velha e poética Germânia, a digna pátria de Leibnitz e Kant” que preenchia com lirismo, tradição e exotismo, na dose certa, os espíritos românticos sedentos de aventura. A Alemanha era, não só para Nísia Floresta como para os demais escritores do tempo, o país da sensibilidade e da filosofia e, também, em suas palavras, “da poesia, do devaneio e amor, tanto quanto país de maravilhas do trabalho e do gênio humano.”

A autora refaz o percurso de Mme. de Staël, Victor Hugo e outros viajantes e, como eles, também revela suas “impressões”. Realiza assim o sonho de sua época ao conhecer a “terra-modelo”, a terra de Werther, de Goethe; de Os Salteadores, de Schiller; e, mais ainda, a terra do Sturm und Drang, cujo fascínio sobre a imaginação romântica ainda não havia se esgotado.

A narrativa no tempo presente tem a intenção de provocar no leitor a ilusão de uma escrita realizada no exato momento em que cada fato ocorria, como se as cartas fossem redigidas no “calor da emoção”. A narradora revela aqui e ali que fazia exatamente assim: registrava as anotações avulsas, para não perder a “impressão” do momento, apesar de haver dito anteriormente que escreveria apenas à noite, já no hotel. Ela decide privilegiar em seu relato não a história das cidades que visita ou a descrição de cada etapa do percurso, mas a própria subjetividade, pois quer transmitir, principalmente, “uma imagem” de sua “alma”, ou as “emoções” que os objetos e os lugares lhe despertam.

A narradora se coloca de tal forma no centro da narrativa, que tudo o mais parece girar à sua volta. O que realmente importa para ela, e por conseqüência aos leitores, são as emoções e impressões que sente diante do que vê ou do que ouve. Ela não só seleciona o que vai contar, como explicita a maneira de fazê-lo: sua emoção diante dos acontecimentos funcionará quase como um filtro e só através dela conhecemos cada aspecto de sua viagem. Na descrição de um passeio, por exemplo, a narradora parece recortar a paisagem e enquadrar apenas o que lhe interessa. Pode-se quase visualizar o quadro, tal a riqueza de detalhes e o emprego de expressões que se acrescentam, tal como se fossem pinceladas numa pintura. 

Mas este não será um simples roteiro de viagem. Muito mais que o trajeto percorrido entre uma cidade e outra, este Itinerário conterá em suas páginas as diversas viagens que a narradora empreende ao mesmo tempo. A viagem propriamente dita, que configura o presente da narrativa, é feita pelas cidades e vilas e nos é comunicada através das descrições que a narradora faz das paisagens, dos castelos ou igrejas que visita. Mesmo as informações mais prosaicas aí estão: o meio de transporte utilizado, as distâncias percorridas, os preços dos bilhetes, a qualidade dos hotéis, os atropelos burocráticos das bagagens e das alfândegas. Nestes momentos vem à tona o caráter de crônica própria ao gênero.

É nesta “viagem propriamente dita”, no presente da narrativa, que melhor se percebe uma certa contradição da personagem. A mulher que se refugia no passado para fugir do presente e se mostra fascinada pelas ruínas é a mesma que, em outros momentos, se encanta com a modernidade industrial e projeta o pensamento para o futuro. Os túneis diminuindo distâncias, o burburinho das grandes metrópoles, a velocidade das ferrovias e dos barcos a vapor, tudo o que compõe o progresso técnico das nações desenvolvidas é motivo de admiração por parte da narradora.

Além desse primeiro aspecto, há outros a serem considerados. O momento presente é apenas um ponto de partida, ou o estímulo para se alcançar o passado do lugar que visita. A visão de um monumento, de uma estátua ou de uma praça, por exemplo, tem o poder de provocar na viajante a lembrança de um vulto histórico ou de uma guerra acontecida séculos antes, neste mesmo local. O momento da viagem pela história antiga da Alemanha é quando melhor se observa a erudição da cicerone e o vasto conhecimento que possui da história de vários países.

A terceira viagem realizar-se-á através de incursões para dentro de si mesma, quando reflete a respeito do que está vivenciando ou se lembra dos parentes distantes. A narradora se auto contempla romanticamente e se faz espetáculo de si mesma (e dos leitores). Busca conscientemente a solidão, preferindo sempre os recantos fora da cidade, junto aos bosques, aos campos, à margem dos rios e lagos, onde melhor dá vazão à introspecção. É o momento intimista da meditação, quando o presente interior é revelado.

Além das reflexões sobre sua condição de viajante e dos devaneios que a fazem lembrar dos parentes, esta narradora-personagem recua ainda mais para dentro de si através da memória, para procurar reminiscências da infância ou para ir ao encontro de familiares distantes, estejam eles vivos ou não, até como forma de novamente re-viver um momento de felicidade. Está configurada assim, mais uma viagem: a que conduz ao passado íntimo da personagem. Talvez seja esta a mais importante, se se considerar que é a que mais nostalgia provoca e a que permitirá à personagem elaborar analiticamente suas perdas e a própria solidão.

Da mesma forma que a visão de uma praça tem o poder de provocar a lembrança de um personagem histórico que ali esteve um dia, uma paisagem, algumas flores ou simplesmente a visão de um rio podem detonar, dentro de si, a recordação de outras paisagens, de outras flores ou de um passeio feito em outros rios, num tempo recuado ou perdido de sua infância. É o passado íntimo que volta, trazido pelas recordações, ao presente do texto. Cada uma destas viagens -- a real e a imaginária --, nos seus dois estágios -- o atual e o passado --, revelam a introspecção da personagem deste Itinerário.

Mas estas múltiplas viagens -- para as paisagens exteriores e para as paisagens íntimas -- não se dão de forma rígida e separadamente. Se em alguns momentos elas se alternam, em outros as viagens se confundem, uma conduzindo à outra, ou ainda, uma se constituindo em condição para que a outra possa ocorrer. Às vezes, conseguem até uma certa originalidade ao ocorrerem simultaneamente. Um fato qualquer observado, uma história que é lembrada, uma música ouvida ou o próprio ritmo das imagens terminam por conduzir o texto para uma outra direção, no rumo de outra viagem.

Da viagem real ela passa naturalmente para a outra, a imaginária, levada pela reminiscência a que se entrega. O passado é evocado e presentificado a partir de pequenos elementos da realidade que têm o poder de detonar as lembranças, transportando a narradora e personagem para um outro tempo: o tempo perdido da infância ou o vivido entre os familiares em outro espaço. E com a mesma facilidade com que entra no devaneio, ela retorna à realidade. O apito de um navio ou de um trem, uma chuva grossa que cai repentinamente ou a voz de um garçom são suficientes para fazê-la retornar ao presente e reassumir o papel de viajante-solitária. A narradora/personagem mantém o controle das emoções e do fluxo das lembranças, bloqueando-as, até, quando situações da realidade se impõem.

Neste Itinerário a narradora confunde-se com a autora. Aliás, é o que parece acontecer em quase todos os livros de Nísia Floresta. E em nenhum momento a narradora-autora esconde a condição biográfica de sua escritura. Ao contrário, revela-a com informações precisas de sua vida, como o nome dos filhos e irmãos, as datas de morte da mãe e do esposo, além de inúmeras outras referências passíveis de serem checadas em sua biografia. Ela estabelece, assim, com o leitor, o “pacto autobiográfico”, ao revelar a identidade comum entre a autora das cartas (do livro) e a personagem principal -- a narradora --, que conta sua experiência de viajante. Nem mesmo é necessária a menção de seu nome ao longo da narrativa, pois ele já é evidente e está escrito na capa do livro.

A moda romântica que permitia aos personagens a evasão para um tempo que imaginariamente tinha sido “perfeito” é seguida à risca pela narradora. A autora-personagem vive conforme o modelo ficcional: se o presente não é satisfatório, refugia-se nas próprias lembranças e idealiza o passado, seja ele o passado da História seja ele o seu, pessoal. Faz mais: constrói ainda sua narrativa segundo este mesmo modelo romântico.

A viajante-filósofa medita diante das ruínas históricas e das lembranças de sua infância. A visão dos túmulos de reis, de imperadores e mesmo de personalidades ilustres que um dia exerceram grande poder leva-a a reflexões sobre o passar do tempo, a vida, a vaidade humana, a ambição de poder diante da lei natural da morte. À medida que constata a presença de tantas ruínas de um tempo glorioso, mas terminado, elabora os próprios sentimentos de perda. Em sua viagem-terapia, mergulha fundo dentro de si mesma, perscruta seu interior, as próprias ruínas e sai renovada. Ao enfrentar a “morte”, termina por aceitar as mortes que vivenciou, seja a da mãe ou a do marido, seja a da infância e da ausência dos familiares mais queridos.

O acúmulo das emoções é tal que ela sente-se morrer em duas ocasiões (em Frankfurt e em Heidelberg), impressionada pelo clima lúgubre e sugestionada pela própria peregrinação. Em Frankfurt chega a esboçar uma reação a esta atração mórbida e promete a si mesma não mais visitar cemitérios. É uma opção consciente que faz pela vida, mas que só resiste durante algumas páginas e poucas cidades. Em Heidelberg, mais tarde, “idéias sombrias” a dominam, levando-a a tematizar o momento da própria morte. Ela, “a mulher de rudes provas”, estava prestes a encontrar, “na velha Germânia, o repouso do sono eterno!...”

Numa lógica romântica, a morte da personagem, seria o coroamento “perfeito” desta peregrinação. Afinal, até então ela esteve obcecada pela morte, meditando sobre o passar do tempo, convivendo com “fantasmas” e admirando locais fúnebres. Diante de alguns túmulos chega mesmo a desmaiar romanticamente, numa atitude teatral bem de acordo com as reações tantas vezes descritas em romances e peças da época. A nostalgia da infância perdida, a consciência da efemeridade dos dias felizes, as viagens em busca do exótico e pitoresco, aliadas a uma dose mórbida de atração pelo fúnebre, por um certo clima soturno e macabro, contribuem, sem dúvida, para a consideração da autora como uma militante da estética romântica e deste texto como um belo exemplo do gênero relato de viagem.  

[Este estudo faz parte de um trabalho maior sobre a autora, intitulado Nisia Floresta: vida e obra (Natal: Editora da UFRN, 1995).]

 

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