Marcar diferenças, cruzar fronteiras

JEAN FRANCO. Marcar diferenças, cruzar fronteiras. Co-edição PUC-Minas. Tradução de Alai Garcia Diniz. 2005. 364 p.

 

Conhecida no Brasil como a autora de obra imprescindível na bibliografia de qualquer pesquisador da Literatura Hispano-Americana, Jean Franco atua na área de estudos de gênero e possui uma longa trajetória de engajamento que começa na Inglaterra, seu país de origem, como militante estudantil de esquerda na década de 40. Como figura transnacional, vivencia na América Central algumas contingências políticas da década de 50 e a ingerência interna norte-americana nos países latino-americanos que se vai arrastar por mais de duas décadas com as ditaduras no Cone Sul. Jean Franco, experimentando a crítica a partir de um espaço de luta pelo direito de interpretação, firma-se, então, no cenário dos estudos latino-americanos nos Estados Unidos como uma intelectual orgânica que traz na bagagem o lastro dos estudos culturais ingleses.

Sua obra, em geral, parte da literatura para o campo interdisciplinar, analisando não somente os discursos em papel como o papel dos discursos na luta pelo espaço político.

Os ensaios contidos na obra Marcar diferenças, cruzar  fronteiras, agora traduzida ao português a partir da publicação pela Editorial Cuarto Propio, em 1996, em Santiago do Chile, apresentam estudos que trazem em seu bojo o cruzamento entre gênero e manifestações culturais a partir de tópicos específicos em diferentes países do continente americano.

Dos vários ensaios deste livro, encontra-se, por exemplo, um sobre o movimento de mulheres e o imaginário social, “Invadir o espaço público, transformar o espaço privado”, que representa o refinamento da análise da exímia crítica que é Jean Franco ao entrecruzar uma discussão sobre o movimento feminista e o campo literário e demonstrando como os recursos estéticos, tais como a paródia e o pastiche, configuram a fragilidade das relações patriarcais em diferentes escritoras latino-americanas como Rosario Ferré, Cristina Peri Rossi; Luisa Valenzuela, Isabel Allende e Clarice Lispector, Carmen Ollé, Tununa Mercado.

Em outro artigo, "Das margens ao centro: tendências recentes na teoria feminista", a ensaísta discute no contexto americano as contribuições de Judith Butler sobre o corpo abjeto, as teorias queer e manifestações performáticas de travestismo, homossexualismo e lesbianismo como políticas de alteridades e práticas de identidades múltiplas que, no contexto chileno, fazem circular as discussões sobre sexualidade a partir de leituras de obras de José Donoso, Diamela Eltit, crônicas de Pedro Lemebel e as teorias de Nelly Richard, entre outras.

Além desses, também os demais ensaios nesta obra podem servir para inspirar outras traduções de livros de Jean Franco que partindo da literatura, enriquecem o panorama de estudos de gênero e feminismo com uma abordagem transdisciplinar que discute a cultura latino-americana, marcando diferenças e cruzando fronteiras.

Alai Garcia Diniz

 

 


| Livro || Autora | Comprar |