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Morrer não é acabar para os que deixam na terra um
pensamento
Júlia Lopes de Almeida
A afirmação contida na epígrafe, retirada de uma
caderneta de anotações pessoais da publicista,[1]
concretizou-se nos diversos gêneros que praticou durante os cinqüenta e três
anos em que fez da pena literária instrumento de realização e fonte de renda.
Norma Telles, em um dos trabalhos pioneiros na área do resgate das obras de
autoria feminina de nosso passado, assim se expressou sobre aquelas que foram
precursoras nessa área: À mulher é negada a autonomia, a subjetividade
necessária à criação. O que lhe cabe é a encarnação mítica dos extremos da
alteridade, do misterioso e intransigente outro. É musa ou criatura, nunca
criadora (1987). Ter subvertido a situação exposta na sentença final da
epígrafe, ou seja, tornar-se criadora, foi um projeto levado a termo,
plenamente, por Júlia Lopes de Almeida justamente em uma época em que ser “das
letras” era prerrogativa masculina.
A produção romanesca e contística desta publicista
carioca (Rio de Janeiro 1862 - Rio de Janeiro 1934) é apontada pela crítica como
portadora de características que a colocam no rol Real/naturalista embora, em
algumas obras, com acentuado subjetivismo romântico. Essa parece ser a tônica
geral, no entanto, no mesmo período de vigência dessas escolas literárias que
proclamavam o domínio do objetivo sobre o subjetivo, [a] introspecção domina
o mundo ficcional e cada vez mais a forma romanesca é solicitada a acompanhar
esta aventura de um discurso interior.[2]
É nessa linha introspectiva que privilegia a forma autobiográfica ou de
memórias na qual se insere a primeira “narrativa” (classificação da própria
autora) - Memórias de Marta, escrita por ela entre os anos de 1885-1886,
obra ignorada ou não registrada pelos poucos críticos ou historiadores que
assinalaram sua produção nos manuais literários de seu tempo e por muitos que
sobre ela fizeram pesquisas ou escreveram artigos e trabalhos nas últimas
décadas. A omissão, em alguns casos, talvez tenha ocorrido em razão da
dificuldade de se localizarem exemplares desse romance. Somente após muitas
pesquisas, um pouco de sorte e o empenho daquelas estudiosas preocupadas com o
resgate da produção de autoria feminina referente ao século XIX e às décadas
iniciais do XX, foi que algumas edições passaram a ser encontradas, lidas,
analisadas.
O esclarecimento sobre o número de edições, no
entanto, é facilitado por três índices: o primeiro, uma nota manuscrita deixada
pela ficcionista e anexada a um exemplar em poder de seus herdeiros; o segundo,
a localização de um volume com data de 1899 e o terceiro, outra edição, sem
data, mas publicada pela Truchy-Leroy, na qual a autora anexou um depoimento de
próprio punho em que afirma: Este foi o meu primeiro ensaio de romance. Feito
em solteira, sob a impressão de certas aberrações infantis, ele só foi publicado
depois de um ano de casada. Ora, reportando-nos à biografia resumida que
acompanha esta reedição, veremos que a data do casamento é 28 de novembro de
1887, o que nos permite fixar a primeira aparição do texto em 1888. Confirmando
esta nota temos a publicação do romance, em capítulos, na seção “Folhetim”, da
Tribuna Liberal do Rio de Janeiro, a partir de 03 de dezembro de 1888 até
18 de janeiro de 1889. Nessa data, o articulista anunciava: Com este título,
que é dos que dão mais do que prometem, escreveu a Exma. Sra. D. Júlia Lopes de
Almeida uma extensa novela, em que uma mulher infeliz conta as suas memórias
(...). Por alguns dados encontrados na correspondência pessoal da romancista,
ficamos sabendo que ela a enviou diretamente para o jornal no qual localizamos a
quase totalidade dos capítulos guardados em microfilme. Assim, a primeira edição
seria o volume de 1899, editado pela Casa Durski de Sorocaba que, além deste
romance, contém mais três títulos tipo de pequenos contos, intitulados Nhá
Tudinha, Prólogo de um romance e L’embarras du Chois. Ele foi
saudado em um artigo de jornal, Chrônica literária, assinado por J. dos
Santos, publicado no jornal A notícia, do Rio de Janeiro, com data de 11
de julho de 1899, que assim começa: As Memórias de Martha, que acaba
de publicar, a autora não chamou de romance; chamou apenas de
narrativa. A história nos é referida como se a protagonista tivesse a
palavra. Em relação à terceira edição, da Livraria Francesa e Estrangeira
Truchy-Leroy - Paris, sem data e erroneamente considerada, algumas vezes, como
sendo de 1899, certificamo-nos do equívoco através de dois índices.
Primeiramente, olhando a lista de obras publicadas pela autora, constante na
segunda folha. Lá está assinalada a edição da conferência Brasil,
apresentada pela prosadora em 1922, em Buenos Aires, o que nos permite datar
essa publicação pelos idos da segunda década do século XX. Em segundo lugar, as
declarações da própria escritora e da filha Margarida em cartas trocadas quando
Júlia retorna ao Brasil após o intervalo de tempo vivido em Paris, 1925-1931,
nas quais a escritora aproveitou para reescrever algumas de suas produções.
Nessas missivas, em poder do neto da prosadora, Margarida afirma estar
embarcando e trazendo 1000 exemplares das “Memórias”. Assim há, pelo menos até o
estágio atual das pesquisas, três edições das “Memórias de Marta” materializadas
em papel, incluindo-se a de jornal, e que ao serem cotejadas entre si acabam por
revelar diferenças, uma reescritura feita de pequenos detalhes, episódios
modificados, seqüências interrompidas que, no entanto, não alteram a história
original.
São três inícios diferentes, além de alguns
parágrafos finais omitidos nas duas últimas reedições, que operam na obra
alterações de significado, dão-lhe novo sabor, mas que de forma alguma
desmerecem o texto original. Qual a razão dessas alterações? Afora a nota
escrita por Júlia, não há nenhum “prefácio” ou “palavras ao leitor” que
esclareça ou oriente o estudioso do texto almeidiano. As mudanças representam,
talvez, um amadurecimento. Júlia Lopes tinha somente vinte e quatro anos quando
publicou esta obra pela primeira vez. É aceitável, portanto, que após dez anos e
muitas experiências de vida sua visão de mundo tenha se alterado, levando-a a
modificar alguns aspectos do texto original. Afinal, ela não seria a única nem a
primeira. O enredo, no entanto, não muda. Para que o leitor possa realmente
sentir o impacto das mudanças feitas pela escritora, encontrará ao final desta
reedição um Apêndice em que transcrevemos os parágrafos finais da primeira
edição, a do jornal, e que nos parecem de fundamental importância para que esse
entenda, afinal, a quem é dedicada as “memórias” de Marta. Mas, o que conta este
romance?
Memórias de Marta traz o passado sob a ótica
subjetiva de quem o viveu e retoma-o no presente através da escrita. Ela é
sucessora das Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis
(1839-1908) e contemporânea de O Ateneu (1888), de Raul Pompéia
(1863-1895). Não tem o sarcasmo da primeira, mas aproxima-se da melancolia da
segunda sendo, entretanto, narrada por uma voz feminina em oposição às duas
primeiras. Como o livro de Pompéia, o da ficcionista também apresenta um
objetivismo bem característico do realismo-naturalismo, tal como é observável na
ficção brasileira na década de 80/90; tanto quanto uma acentuada notação
subjetiva, marcando com a presença insistente de um EU lírico ou crítico as
construções de seu imaginário (BRYNER,1979), com a predominância deste
último. Como outras obras do período, esse romance também sofrerá influência das
teorias deterministas do meio, da raça e do momento com uma tendência à
morbidez de cenas de morte (idem) não se configurando, no entanto, como um
romance de tese ao estilo Zola, pois a fatalidade naturalista será vencida pela
ideologia almeidiana de recuperação da vida através do trabalho. Assim, esse
relato subjetivo, calcado nas lembranças de Marta-adulta que relembra sua
sofrida trajetória e a busca de melhores condições de vida para ela e para sua
mãe, configura-se uma busca, não do tempo perdido, mas da felicidade, do
carinho, dos sonhos que nunca se realizarão e da aceitação de uma vida sem amor,
riqueza ou luxo.
A maior parte da trama desenvolve-se dentro de um
cortiço, na Rua de São Cristóvão, tendo como cenário principal o Rio de
Janeiro, capital do Império, espaço muito específico de um determinado período
de nossa história e do registro de nossos romancistas. Dentre eles, José de
Alencar, Machado de Assis, Carmem Dolores e Raul Pompéia. Se em O Ateneu
o colégio-internato retratado por este último guardava estreita relação com o
Colégio Abílio, onde o escritor estudara, em Memórias de Marta também se
podem estabelecer relações entre o ambiente ficcionalizado e a experiência de
vida da escritora carioca, nascida e criada no ambiente do Colégio de
Humanidades, também no Rio de Janeiro, pertencente ao seu pai e onde tivera a
irmã Adelina como mestra. A nota manuscrita afixada ao volume que lhe pertencia
confirma e reforça minha afirmação, havendo inclusive uma harmonia entre o nome
da personagem e o da adjunta que trabalhava no colégio dirigido pelo
Dr.Valentim. É reminiscência do espaço real na recriação do ficcional, do qual a
escrita de Júlia Lopes não se exime e cujo traço se fortifica através das
palavras da própria ficcionista na nota manuscrita:
A adjunta Marta não será por ventura a mesma
pobre D. Marta que ajudou minha irmã Adelina a ensinar-me as primeiras letras?
Creio bem que sim. As cenas brutas do livro, o pequeno alcoólico, foram
pressentidas através do muro que dividia o meu colégio de um movimentado cortiço
de S. Cristóvão. Aquele ambiente inspirou à minha sensibilidade de menina muita
melancolia [...].
Dada a
ótica diferenciada apresentada neste romance, resultante da visão de uma
escritora sobre um cortiço do Rio de Janeiro dos finais do século XIX, onde,
como assinala Norma Telles, os pobres não são chamados de gentalha nem
são resultado de hereditariedade, mas vítimas de um mundo desigual,
a data da primeira publicação deste romance, 1888, confere-lhe uma posição
pioneira e decisiva dentro da historiografia literária brasileira, pois ele é
cronologicamente anterior ao romance O cortiço, de Aluisio Azevedo,
publicado em 1890 e considerado como o primeiro romance brasileiro a centrar seu
enredo num cortiço. É interessante ressaltar que ao correr da leitura
encontramos muitos pontos de contato entre as duas obras, perfeitamente
aceitáveis em razão dos dois autores conviverem no mesmo espaço, na mesma época
e relacionarem-se amigavelmente, fato comprovado pela correspondência trocada
entre os dois artistas.
A narrativa apresenta-nos duas Martas, mãe e filha. A
segunda inicia seu relato na idade adulta dizendo que passados trinta e
tantos anos busca nos frangalhos da memória elementos para
reconstruir os episódios que mediaram entre a morte do pai [que] morreu de
febre amarela (na versão de 1925-32) e a da mãe, de quem o médico
afirmara que sofria de uma lesão antiga. A voz narrativa deixa claro que
o mundo de cada um é limitado pelo que abrangem os raios de sua capacidade
visual ou pelo que lhe sugere a sua imaginação e que seu relato será a
expressão fugidia de certas paisagens e de certos seres. Vistos através da
memória, lhe provocarão um prazer confuso em reviver, em levantar os {meus}
mortos. Assim, o tempo cronológico irá sucumbir diante do registro
vertiginoso do tempo psicológico que flui, feito de vívidas e permanentes
sensações e impressões.
Para sobreviver, Marta-mãe engomava para fora
desde a manhã até a noite e a filha relata o reflexo da mudança na criança
retirada de um lar saudável para o espaço degradado: Enfraqueci, mirrei,
encheu-me o pescoço de caroços linfáticos. No cortiço, onde um
matadouro nas vizinhanças infeccionava o bairro enchendo-o ao mesmo tempo de mau
cheiro, insetos e urubus, a protagonista irá conviver com lavadeiras mulatas
e bêbadas, com pretos quitandeiros, com o senhorio português, com operários
galegos, com um casal de rapazes tiroleses e com a família da ilhoa, portuguesa
bruta, cujo filho Maneco irá morrer de cirrose em razão das bebidas que lhe dá o
vendeiro, só pelo gosto de vê-lo cambalear bêbado. A preocupação e a denúncia
sobre a condição de vida das crianças, depois presentes na grande maioria de
seus livros, já marcam presença nessa obra de estréia. São páginas comovedoras,
testemunhas de que a ficcionista tinha uma consciência atilada das diferenças
sociais existentes na capital do Império no final do século XIX e da qual ela,
junto à temática do universo feminino, não poderia se eximir de retratar sob
pena de falsear a verdade.
Apesar das limitações e graças à dedicação e aos
cuidados da mãe, Marta cresce e, por insistência da mãe de Lucinda, freguesa de
Dona Marta, é matriculada na escola pública. A influência do estudo na formação
da pobre menina e a alteração que esse fator provocou no destino da protagonista
vêm assim ressaltadas: Não esperavam nada de mim, estudante medíocre e
criança tímida, e foi com surpresa que as professoras me viram responder a todas
as perguntas com desembaraço e firmeza. Acordava em meu peito outra alma, até
então ignorada (p. 30). A escritora faz no texto uma campanha didática de
valorização do estudo atribuindo a este a capacidade de promover um crescimento
interior, ao mesmo tempo em que mostra ser este o caminho para que uma moça
pobre, mas honesta, possa sustentar a si e a algum familiar. O apoio decisivo
para a mudança virá através de uma representante da comunidade de mulheres, a
mestra D. Aninha: Eu era uma coisa. Foi ao seu impulso que me tornei gente
(p. 17). Com este suporte, apesar das dificuldades financeiras e da descrença em
si e em suas potencialidades, Marta construirá um caminho diferente daquele
trilhado por sua mãe, encontrando no estudo, além de um meio de sobrevivência, o
respeito da sociedade e uma certa posição de destaque ao formar-se professora.
No entanto, preocupada com sua morte, a mãe insistirá com a filha para que
através do casamento obtenha um respaldo financeiro e moral e proteja-se das
maledicências da sociedade. Marta-mãe repete um refrão bem conhecido do discurso
androcêntrico – Ouve-me, filha: a reputação da mulher é essencialmente
melindrosa. Como o cristal puro, o mínimo sopro a enturva (Idem, p.143).
Contrariando as expectativas da mãe, da sociedade e
de seus leitores, a protagonista resiste à idéia de um casamento sem amor, ainda
mais com um velho freguês dessa, descrito como um homem de quarenta e tantos
anos, muito sério e bondoso. Nos pensamentos da jovem professora cruzam-se a
vontade férrea de defender sua autonomia - Não desejo casar-me [...] -
Alcancei uma posição independente: não precisarei do apoio de ninguém.
(p.142) - e a descrença de que pudesse “despertar o amor” em alguém:
bem cedo neste país ardente as mulheres ouvem dizer que as amam, e eu só aos
vinte e quatro anos despertava num coração cansado uma paixão sossegada e mansa
(s/d,p.143). Assim, a ideologia burguesa que consagra a mulher ao casamento e à
procriação tem, neste momento do livro, um revés. Marta recusa-se, num primeiro
momento, ao casamento sem amor e, envolta pela comunidade de mulheres, valoriza
sua posição independente. Neste ponto, o romance atinge seu ápice. Triunfa a
apologia que a escritora faz ao trabalho feminino e à capacidade das mulheres de
superarem desafios. A rebeldia da protagonista chega a entusiasmar os leitores.
Todavia, ou por estar presa ao contexto patriarcalista em que vivia ou em
virtude de precisar preservar uma imagem de escritora e senhora “bem
comportada”, ou ainda por acreditar na instituição do matrimônio, a ficcionista
acomoda a situação. A personagem, convencida da falta de atrativos físicos e
desiludida por uma experiência amorosa frustrada, finalmente concorda em se
casar, embora a narradora deixe bem claro que não se trata de uma decisão
romântica, mas de uma vingança pessoal. Ela está ciente da importância que os do
sexo masculino dão à aparência física que, para ela, reduz-lhe as possibilidades
de “viver” um grande amor.
Assim, embora a autora desconstrua o esquema
romântico do casamento por amor e reafirme, na nossa visão, um posicionamento
pessoal de crença na capacidade de profissionalização das mulheres, estes
sucumbem diante de certo conformismo em relação às regras de convivência da
sociedade. Parecem ser contradições resultantes, talvez, como já enfatizamos
antes, da falta de maturidade decorrente da pouca idade da escritora no momento
em que escreve seu romance de estréia.
No encerramento desta Introdução, transcrevemos as
palavras do articulista da Tribuna Liberal do Rio de Janeiro (1888) em
que este anunciava o romance a ser publicado e frisava alguns caracteres que
hoje, com a evolução da crítica feminista, ganham relevo pela importância que
uma visada feminina sobre a sociedade patriarcalista brasileira do século XIX
pode trazer para um conhecimento mais real dessa: Aos merecimentos que com
justiça encarecemos, reúne este trabalho literário os de ser original,
brasileiro e escrito por uma senhora.
Lamentavelmente, a romancista retirou os parágrafos
finais constantes da publicação em jornal das restantes edições. Neles, a razão
do relato: Por ela e para ela escrevi estas páginas monótonas, mas
profundamente sinceras. Para quem? Hora de desejar uma boa leitura aos
afortunados leitores e leitoras que podem usufruir deste “tesouro” literário
resgatado do “limbo” da Literatura Brasileira e descobrir para quem as
“Memórias” foram escritas...
Rosane Saint-Denis Salomoni
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