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(Re)descobrindo Júlia Lopes de Almeida
Construída sobre dois eixos essenciais – o da recuperação e o da
revisão – a Crítica Literária Feminista, a partir dos anos sessenta do século
XX, toma impulso no âmbito acadêmico no Brasil. A conseqüência mais importante
de um trabalho intenso por parte de pesquisadoras e pesquisadores é a
visibilidade conferida a escritoras e suas obras, do passado e do presente. A (re)
descoberta e a (re) avaliação da produção literária de autoria feminina vem
fortemente calcada em novos paradigmas de análise, bem como em conceitos
alargados de sujeito, de literatura e de história, fato que oportuniza a
leitoras e leitores o conhecimento tanto de textos atuais como daqueles que
foram sufocados por grossas camadas de poeira acumuladas pelo tempo.
Rosane Salomoni salienta-se por sua atuação na comunidade
acadêmica ao buscar o (re)conhecimento, em especial, da produção literária de
Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), “a primeira-dama da Belle Époque
brasileira”, na expressão de Peggy Sharpe, em conseqüência, traz a público o
romance Memórias de Marta. É somente por meio de uma
rigorosa escavação arqueológica realizada por esta pesquisadora no acervo
particular deixado por Júlia (cuja maior parte encontra-se na posse de seu neto,
no Rio de Janeiro) que podemos hoje fruir este primeiro romance de D. Júlia.
Dessa “narrativa”, termo utilizado pela escritora para
qualificar a própria obra, foram encontradas três edições: a primeira, de 1888,
em folhetim na Tribuna Liberal do Rio de Janeiro; a segunda, de 1899 e,
a terceira, publicada entre 1925 e 1932, ambas em livro, conforme conclui
Rosane.
A atualização do presente texto é dessa última edição, porém a
pesquisadora esclarece em seus comentários introdutórios que, além da
dificuldade em encontrar as publicações, há diferenças consistentes entre as
narrativas. A principal delas talvez seja a supressão de alguns parágrafos, na
edição de 1925-1932, que aparecem no folhetim. Nesses parágrafos, Júlia dá um
fechamento para a história, ao contar que dois anos após seu casamento teve uma
filha que muito se parece com sua mãe, a quem homenageia e enaltece como “um
exemplo sublime”, a “mais sagrada das lembranças”. A narradora, entretanto, não
deixa de enfatizar sua amargura frente à vida e sua resignação a um casamento
sem amor. Marta troca os arroubos amorosos da juventude, quando sabe que o jovem
Luis vai casar-se com outra, pela segurança que um homem mais velho e
financeiramente estável lhe oferece. Apesar do afeto do marido, Marta queixa-se
do peso de carregar um “espírito cansado de sofrer”. A “adorada Cecília”, a
filha, torna-se seu único consolo. Com tal arremate, o romance de Júlia assume
um perfil contemporâneo, na medida em que enfeixa a estrutura narrativa com um
significado novo ao lançar a idéia da existência de uma casta feminina de fibra,
além de acenar
para a
possibilidade de mudança social para acolher a mulher do futuro.
Durante os anos de aprendizagem e formação de Marta na Belle
Époque carioca, ela adquire força moral para, a exemplo de sua mãe,
suplantar dificuldades. Nessa dimensão, a voz da autora rompe e transgride, pois
oferece ao debate, em termos sociais e individuais, os limites da marginalização
da protagonista. Mais do que isso, mostra que é possível transpô-los.
Júlia Lopes de Almeida, em Memórias de Marta, consegue
entrelaçar descrições naturalistas que expõem, descaradamente, a feiúra de um
Brasil da penúria com sentimentos puros e ingênuos que dominam a jovem Marta no
momento em que desperta para o amor. A narrativa oscila entre a imagem esquálida
da mãe, a melancolia e o alastramento da doença no cortiço –
Que
distrações, que alegria podia prometer-me aquele quadro constante: uma mulher
magra, pálida, curvada sobre a tábua,engomando, engomando, continuamente?
e o lirismo da
paixão adolescente:
A comunidade acadêmica que se dedica à (re)leitura das vozes
femininas, bem como leitoras e leitores interessadas/os em desfrutar de um
romance criativo, polêmico, ousado e de inegável valor literário, podem se
sentir agraciadas/os com as Memórias de Marta. Dona Júlia,
neste momento, conduzida por Rosane Salomoni, certamente vem para iluminar
aspectos obscuros de um sujeito no/do feminino e contribuir, mais uma vez, para
a fixação da história da literatura brasileira, marcada por uma estética voltada
para os estudos de gênero.
Eliane T. A. Campello
(FURG) |