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Narrar processos: Tramas da violência doméstica e
possibilidades para a educação.
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| Edla
Eggert. Prefácio
Miriam P. Grossi. 2009. 88 p. R$ 28,00
APRESENTAÇÃO
É com
muita satisfação que apresento este livro sobre Gênero e Violências. Esta é
uma obra rara, pois mais do que um novo livro teórico sobre o tema, ele traz
experiências que poderão ser muito úteis para ações concretas de quem atua no
campo da prevenção das violências de gênero em diferentes áreas de
conhecimento. Sabemos que este campo ocupa hoje parte significativa das
políticas públicas no Brasil e que há uma imensa demanda por idéias e soluções
concretas para o enfrentamento coletivo às violências de gênero. Propor ações e
dar soluções não é tarefa simples e fácil – e este livro tem este mérito. O livro
de Edla Eggert traz uma instigante análise de uma experiência de educação
popular desenvolvida junto a um grupo de promotoras legais populares por uma
ONG do Rio Grande do Sul, realizada em parceria com a Universidade do Rio dos
Sinos, sobre a temática da violência contra as mulheres em sua articulação com
a questão da religião, tema extremamente inovador no Brasil. Muitas
são as contribuições deste livro. Destaco inicialmente a proposta metodológica
apresentada. Trata-se de um modelo de educação popular feminista – campo ainda
pouco desenvolvido no Brasil – centrado na elaboração de quadros de pano
artesanais a serem feitos em coletivos de mulheres. Esta metodologia, que é
aqui apresentada com muito entusiasmo, poderá, sem dúvida, servir de modelo a
inúmeras organizações governamentais e não governamentais que atuam na área de
prevenção das violências contra as mulheres. O livro
traz também uma articulação teórica muito original sobre o papel das religiões
na manutenção dos padrões culturais de violências contra as mulheres em nossa
sociedade. Aprendemos, graças à perspectiva teológica feminista da autora,
formas de questionar os textos bíblicos e as práticas religiosas que se
constituem como formas de dominação e opressão das mulheres, reiterando,
através de mitos e de narrativas edificantes, a submissão à violência como
parte do lugar das mulheres na família e no mundo. O sofrimento é um dos temas
presentes e ocultos no texto, e a abordagem que a autora faz acerca dele nos
aproxima de outras reflexões de grande interesse sobre o lugar do sofrimento na
constituição das narrativas e das identidades femininas, processos em que o
corpo ocupa um lugar central. A culpa, associada à religião no espaço da
confissão, é também problematizada como um dos espaços simbólicos da
constituição da opressão das mulheres. Estes temas aparecem aqui de forma muito
original , na densa articulação entre teóricas feministas de vários campos
disciplinares, muitas delas latino-americanas, ainda pouco lidas e utilizadas
no Brasil. O livro
é, em parte, autobiográfico, sobretudo na sólida crítica que a autora faz ao
papel da religião na constituição do feminino e da violência, ao relembrar suas
próprias vivências. Além desta fala na primeira pessoa, as narrativas das
experiências individuais de outras mulheres face à violência, que são aqui
relatadas, funcionam como pano de fundo para a análise de situações mais
universais de enfrentamento ou submissão à violência. A recuperação do mito
grego sobre a tecelagem, mito que envolve duas mulheres, Aracne e Atenas,
ilumina a argumentação da autora sobre o vínculo entre arte/tecelagem nas
narrativas sobre violências contra mulheres. Ao relata-lo ela mostra as
contradições entre revelar e esconder as violências patriarcais, já presentes
na mitologia grega e, de alguma forma, fundantes de nossas matrizes simbólicas
ocidentais contemporâneas. Frida Kahlo, outra personagem/artista símbolo de
vários feminismos contemporâneos (o das artistas de vanguarda, o das mulheres
com deficiência, o do feminismo que antevê as questões de globalização atual),
também é lembrada no texto, através da análise de um de seus quadros produzido
como denuncia de um assassinato de mulher por seu companheiro. Circulamos
assim, na leitura deste livro, entre mitologia, arte, filosofia, teologia e
teoria feminista, e aprendemos com tantas referências que as violências de
gênero têm sido representadas e problematizadas sob diferentes dimensões. Também
recomendo a quem lê este livro que se atenha a um dos argumentos do texto: o da
importância da articulação entre trabalho manual e trabalho intelectual na vida
das mulheres. A proposta é também provocadora, uma vez que grande parte da
socialização feminina mais tradicional no Brasil passava pelo rigor do
aprendizado de técnicas como bordado, crochet ou tricot e que muitas mulheres
na contemporaneidade passaram a rejeitar estes aprendizados em nome do
feminismo. A autora reflete sobre o papel destes trabalhos manuais, feitos no
quadro das obrigações familiares e no exercício da maternidade, como tarefas
para “ocupar as mulheres”, não deixando espaço ou tempo para voos libertários
ou criativos. Na contracorrente das interpretações tradicionais que os veem
como meros instrumentos de dominação feminina, Edla mostra que eles podem ser
poderosos instrumentos de criatividade, elaboração subjetiva e produção de
conhecimento intelectual. Fiquei profundamente tocada por esta proposta
extremamente original e instigante, pois me refez pensar em meus próprios
processos de socialização feminina e no lugar em que deixei escondidos todos
estes saberes de minha infância. Ao ver as imagens dos panos e acompanhar a
elaboração do projeto, me vi instigada a retomar atividades manuais como
exercício criativo e libertador. Por
fim, considero que outro ponto de grande interesse no livro diz respeito ao que
a autora denomina “marcas pedagógicas da violência de gênero”. Nesta parte,
temos exemplos concretos de violências na sala de aula, de maneira que sua
leitura certamente poderá ajudar outras pesquisadoras e ativistas no campo da
Educação. Nesta mesma linha, o texto traz as reflexões das bolsistas de
iniciação científica envolvidas no projeto, dando voz a suas reflexões e
sentimentos. Ao incluí-las, com seus relatos, a orientadora nos revela e
compartilha conosco também seu processo pedagógico de formação de jovens
estudantes de Pedagogia, mostrando o quanto todo conhecimento é produto do
dialogo e da reflexão coletiva em uma equipe de pesquisa. Trata-se,
sem dúvida, de um texto original, que será de grande auxílio e iluminação para
este campo tão complexo e perturbador que é o da prevenção e da ação contra as
inúmeras formas de violências contra as mulheres, campo no qual o feminismo tem
lutado há várias décadas. Miriam
Pillar Grossi Lisboa,
outubro de 2009
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