Narrar processos: Tramas da violência doméstica e possibilidades para a educação.                                  

Edla Eggert. Prefácio Miriam P. Grossi. 2009. 88 p. R$ 28,00

INTRODUÇÃO


TRAMAR OUTROS CONHECIMENTOS


    Este livro é resultado de uma pesquisa, originada num Programa de Pós-Graduação em Educação, que produziu uma metodologia, por meio da confecção coletiva de um pano de parede, com a tematização da violência contra as mulheres. A experiência, na educação popular, somada ao feminismo proporcionou um diálogo metodológico importante que envolveu Promotoras Legais Populares, uma Organização não governamental, o Centro de Capacitação e Assessoria (CECA)[1] e a Universidade do Vale do Rio dos Sinos.
     O primeiro capítulo do livro traz um exercício narrativo, no sentido de mostrar como essa pesquisa foi produzida e quais foram os dispositivos, ou os atravessamentos, que geraram o desejo investigativo, envolvendo esse tema, tão doloroso e complexo. Um filme “Colcha de retalhos” (1995), da diretora australiana Jocelyn Moorhou, baseado no livro de Whitney Otto (1993); uma releitura da lenda grega, de “Atená e Aracne”, por meio de duas narrativas distintas, das autoras feministas Anália Bernardo (2002) e Andréa Nye (1995); e o quadro de Frida Kahlo: “uns quantos pequetitos” (1934). Esses dispositivos proporcionaram uma reflexão, que apontou para uma rebeldia ética necessária da denúncia e, através da arte, revelaram outras possibilidades metodológicas para trabalhar com esse tema. 
    No segundo capítulo, são apresentadas questões sobre a invisibilização da violência contra mulheres numa tentativa de identificar a noção atual do androcentrismo e as marcas pedagógicas e teológicas da violência de gênero. São analisados, ainda, como o corpo e a violência andam próximos e como o trabalho manual e o conhecimento ainda são dois grandes desconhecidos, como parceria para o conhecimento científico.
    Em seguida, há um entreato que, por meio da memória autobiográfica, narra uma passagem, marcada pelo discurso religioso de um irmão marista. Ele ensinava, semanalmente, para as meninas - futuras mulheres/mães – que deveriam se ocupar com os trabalhos manuais, pois dizia que mãos paradas permitem que a cabeça fique vazia, e cabeça vazia, segundo ele, era “oficina do diabo.” 
    Na sequência, é desdobrada uma análise sobre o que a experiência, como categoria feminista em processo epistemológico, pode intercambiar com a autobiografia na pesquisa-formação de Marie-Christine Josso (2004)[2]. E, a partir dessa parte do livro, há uma entrada de diferentes autorias. Num primeiro bloco, são apresentados os panos individuais e as releituras dos textos, que as mulheres produziram, analisando o tema da violência doméstica. Depois disso, são apresentados textos relidos e analisados, com base nas reflexões das alunas, do curso de Pedagogia, bolsistas de Iniciação Científica, que experimentaram um fazer investigativo próprio, relacionado com a pesquisa realizada.  
    O alinhavo final retoma o olhar desse tipo de produção, em que a hipótese é um debate metodológico, que mistura experiências do campo da educação popular e dos movimentos feministas, para provocar novos e outros desafios epistemológicos para a Educação.
    Escrever um livro com base numa pesquisa é fazer tudo de um jeito muito misturado. Primeiro é quase esquecer todo o trabalho de dois anos de envolvimento com o tema e com as pessoas. Essas relações foram sistemáticas e intensas com o tema, com as formadoras de Promotoras Legais Populares e as bolsistas, que aceitaram o desafio de realizar encontros e produzir coletivamente. Agradeço o carinho da acolhida primeiramente do Centro Ecumênico de Capacitação e Assessoria – CECA, da Graciela Cornaglia, da Maribel [?], da Maria Inês Rodrigues Bruhm, Romi Bencke, Sandra Regina Viau, Lucienne Bambini, Terezinha ?, Josiane Cristina Schneirder, Anacir Gedoz da Silva Cardoso.

 

Este livro é um convite para pensar a experiência da violência, invisibilizada na educação das mulheres e dos homens, e, ao mesmo tempo, a experiência metodológica de produzir conhecimento, na ação coletiva da vida, que acontece em todos




[1] O CECA está situado em São Leopoldo/RS e atua nas assessorias de movimentos populares, pastorais e atividades de formação das Igrejas, fomentando o ecumenismo e o diálogo inter-religioso. Uma das linhas de ação é “Sensibilizar os diferentes grupos na valorização e luta pelos direitos humanos, buscando a superação de todas as formas de discriminação”(CECA, 2009). As mulheres são profissionais, formadas em diferentes campos das ciências humanas: uma advogada, uma assistente social, uma educadora, uma auxiliar de serviços gerais, uma teóloga, duas pedagogas, uma jornalista e uma psicóloga. A pesquisa “Mulheres tramando contra a violência” foi financiada pela UNISINOS e pela FAPERGS, durante os anos de 2005 e 2006. Foi acordado um Termo de Consentimento livre e esclarecido, aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade, para o uso de imagens e textos, produzidos a partir das falas transcritas e do pano de parede, confeccionado durante os encontros. Para a produção deste livro, opto por utilizar nomes fictícios, quando me refiro a cada uma das mulheres participantes. (CECA, 2009)

 

[2] Marie-Christine Josso, pesquisadora e membro-fundador da Associação das Histórias de Vida em Formação (ASIHVIF) ligada a área de Educação e Saúde na Suíça, França, Canadá e Brasil desenvolvendo a abordagem da formação experencial.

 

 


 

 


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