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Com
esta investigação séria e inspirada da construção da identidade
nacional na literatura brasileira moderna a partir da perspetiva–raramente
reconhecida e mais raramente ainda privilegiada na ótica tradicional
dos estudos literários–protagonizada por oito escritoras brasileiras
do século vinte (Ercília Nogueira Cobra, Adalzira Bittencourt, Rachel
de Queiroz, Patrícia Galvão, Carolina Maria de Jesus, Nélida Piñon,
Lygia Fagundes Teles e Clarice Lispector), Débora Ferreira oferece aos
leitores uma contribuição imprescindível para preencher a lacuna que
deteta na “história da intelectualidade brasileira”, constatando
que esta “está destituida das percepções das mulheres”.
O amplo contexto comparativo (compreendendo principalmente a América
Latina) e teórico (conjugando o discurso brasileiro sobre a formação
da identidade nacional com o da crítica feminista internacional)
estabelecido por Débora Ferreira fundamenta a sua discussão das oito
obras cujas autoras refletem “a multiplicidade de brasileiras segundo
raça, origem regional, idade e legitimação no cânone literário”.
Como a observação citada implica, não se trata, neste livro, de
construir uma ótica alternativa, feminina ou feminista, que seja
una e coerente, posto que marginalizada pelas perspectivas cultural e
politicamente dominantes. Pelo contrário, das análises dos romances
escolhidos pela autora para representarem a brasilidade literária
moderna no gênero feminino ressaltam precisamente as “posições
ideologicamente díspares” ocupadas por estes textos que inscrevem os
pontos de vista das mulheres–suas autoras, narradoras e/ou
personagens–na narrativa mestra da auto-reflexão intelectual e artística
dos brasileiros, resultando na construção ficcional de “diversos
Brasis”.
Tal registro de uma diversidade inegável, e por vezes até
altamente polarizada, torna substancialmente mais válida e convincente
a afirmação da autora de que o protagonismo feminino na articulação
das idéias-padrões da nação brasileira no século vinte possui, de
fato, certas caraterísticas comuns enraizadas na experiência histórica
e simbólica partilhada por todas as mulheres, por várias que fossem as
coordenadas específicas do seu estatuto social, opção ideológica,
inclinação estética, e assim por diante. Por sua vez, a trajetória
que aqui se esboça entre os anos 20 e 30 e a época dos 60 e 70 sugere
a formulação de uma genealogia literária modelada no feminino, hipótese
esta que as histórias literárias nacionais do mundo ocidental pouco ou
nada têm aproveitado para os processos de invenção e organização de
coerências, rupturas e percursos a que submetem a matéria viva da
palavra ficcionada. Constatando-se que, neste caso também, Débora
Ferreira assiduamente se empenha em considerar tanto as continuidades
quanto as fraturas que registra, sem por isso deixar de defender “a
necessidade de incorporarmos obras femininas no cânone brasileiro com
mais veemência”, nem de ressaltar que “se é verdade que a
literatura contribui para a construção da nação, reconhecer estas
obras, com a insistência nelas expressa de reformular o conceito de
Brasil, é não só imperativo como talvez inevitável”. Anna
Klobucka University
of Massachusetts Dartmouth
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