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Pilares Narrativos: a construção do eu e da nação na prosa de oito romancistas brasileiras |
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Prefácio |
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Quando um pesquisador se
depara com difíceis questões de construção da nação, formação de
identidade, e qualidade literária como um tópico para um livro
cobrindo oito autores, o leitor suspeita que a discussão ou seja cheia
de jargão contemporâneo ou tão longa a ponto de requerer uma intensa
e longa leitura. A seu favor, Débora Ferreira não optou por nenhuma
dessas abordagens. Seu livro é sucinto, apaixonado e original. A
contribuição que ele traz a qualquer revisionista das letras
brasileiras é de extraordinária importância para uma discussão
atualizada de comunidades letradas, política de identidade ou
literatura feminina. Além disso, o trabalho é imensamente envolvente.
O estilo de Ferreira é claro, conciso e um prazer de ler. Ela articula
uma trajetória entre renomadas narradoras brasileiras contemporâneas e
aquelas menos conhecidas, trajetória essa que evidencia por um lado
maestria ao tratar do seu tópico e por outro a relevância que este tem
para os estudos contemporâneos.
Na introdução do seu livro, Pilares
Narrativos, Ferreira sugere que a pluralidade do personagem
brasileiro surge de um impulso para dominar a identidade nacional em
busca do que seja a brasilidade.
Ferreira, com bastante perspicácia, aponta que o processo de formação
da identidade tem origem na Carta
de Pero Vaz de Caminha, passa por uma série de textos literários e
extra-literários, e continua até hoje. Ela também nos alerta para o
fato de que quase todos os trabalhos que descrevem a história do
intelectualismo e da ideologia brasileiros durante o século XIX e começo
do século XX foram produzidos por homens.
Em uma tentativa de ratificar uma situação em que, desde o século
XIX, se vê as mulheres brasileiras participando mais e mais em uma
sempre crescente esfera pública, Ferreira propõe-se a demonstrar como
as escritoras brasileiras do século XX negociam uma construção da
identidade e do nacionalismo brasileiros que as inclui como plenas e
engajadas cidadãs. Ela inicia sua pesquisa selecionando escritoras
cujos trabalhos estabelecem um paralelo não apenas com um reflexo do
Brasil masculino e feminino conforme testemunhado pela elite, mas um
Brasil que inclui várias vozes de vários níveis sociais. Ferreira
leva em consideração raça, origem regional, idade, gênero e lugar
das obras literárias na formação de um cânone nacional. A contribuição
mais inovadora de Ferreira é sem dúvida sua abordagem híbrida ao
combinar teoria literária feminista e construção da identidade.
Ferreira escolheu dividir seu trabalho em duas grandes seções,
escritoras das décadas de 20 e 30 e escritoras das décadas de 60 e 70.
Na primeira parte, ela examina contribuições de Ercília Nogueira
Cobra (Virgindade inútil),
Adalzira Bittencourt (Sua Excelência),
Raquel de Queiroz (O quinze) e
Patrícia Galvão (Parque
industrial). Ao justapor as várias tendências modernistas da década
de 20 com as tendências neo-regionalistas da década de 30, Ferreira
demonstra não só que essas obras dialogam com aspectos históricos e
políticos do período, mas também que nelas ressoam as diferenças
ideológicas das escritoras, revelando assim uma diversidade de posturas
que nos permitem uma visão crítica de momentos específicos na história
quando as mulheres foram ativas participantes, mesmo que elas tenham
sido na maioria dos casos apagadas da história “oficial”.
Anarquismo, marxismo, comunismo e fascismo desempenham um papel central
ao definirem as ideologias das mulheres brasileiras, segundo Ferreira
aponta.
A instabilidade política e econômica das décadas de 60 e 70
espelham, e não pouco, as preocupações das décadas de 20 e 30. A
escolha que Ferreira faz por aquele período a fim de contrastar com
estas primeiras décadas é completamente justificada no contexto ideológico
de construção da identidade. A volatilidade governamental, censura,
inquietação política, instabilidade econômica, o rápido surgimento
e crise de uma crescente classe média, a incapacidade de abordar questões
raciais e de gênero, e a necessidade do trabalho feminino fora de casa
são marcas das décadas de 60 e 70, assim como foram das décadas de 20
e 30. Há, entretanto, pequenas diferenças. Havia então mais leitores,
embora o número ainda fosse pequeno em comparação com o público em
geral e este fator contribuiu para um mercado mais agressivo e alertou
para o alcance de uma maior audiência. Havia uma maior conscientização
da intervenção internacional na política nacional e uma preocupação
crescente quanto à necessidade dos brasileiros estarem no controle de
seus próprios destinos em face a um poderio multinacional em ascensão.
A reação ao controle autoritário do governo, em grande parte
estimulada pelo sucesso da revolução cubana, pela eleição e subseqüente
assassinato do Presidente do Chile, Salvador Allende, assim como pelos
protestos testemunhados por todo o mundo das Madres
de la Plaza de Mayo na Argentina, levou aos movimentos de protestos
sociais que resultaram na repressão política e posterior exílio ou
aprisionamento de muitos intelectuais no Brasil, como tem sido bem
documentado.
Entretanto, é durante este período da história brasileira que
nós nos deparamos com uma proliferação das vozes literárias
femininas. Veja-se por exemplo, estudos feitos por Cristina
Ferreira-Pinto, Judith Payne e Earl Fitz, entre outros.
Ferreira escolheu quatro escritoras para demonstrar quatro
diferentes visões das realidades sociais do fim do último século.
Enquanto representante dos negros pobres, Ferreira inclui o testemunho
de Carolina Maria de Jesus (Quarto
de despejo). De Jesus representa uma voz marginalizada raramente
ouvida nos discursos nacionalistas, os quais tendem a privilegiar
narrativas eurocêntricas de projetos de construção da nação.
Ferreira aponta que ao passo que nós nem sempre gostamos do que
ouvimos, precisamos ouvir a fim de entender como pessoas às margens
falam por si mesmas e não apenas assunto da fala de outros.
Nélida Piñon representa a visão alegórica do que Frederick
Jameson identificou como um pastiche, uma vez que seus personagens
retratam vários níveis da sociedade atual, numa paródia alegórica de
rebelião contestatória oriunda do mais básico dos instintos humanos,
o erotismo (A casa da paixão).
A fórmula é simples: erotismo = poder = política. A diferença nos
textos de Piñon é que o poder erótico não pertence à ordem
patriarcal, e sim às mulheres.
Lygia Fagundes Telles vislumbra em seu romance, As
meninas, a face de um governo ditatorial. Publicada em 1973, a obra
trata da vida de três estudantes universitárias ao participarem ou ao
se esconderem das realidades políticas daquele período, oferecendo um
contraponto ficcional (?) da história oficial. Ferreira nos mostra
como, ao substituir eventos banais ou triviais da vida cotidiana,
Fagundes Telles desmascara a tragédia que então ocorria em todo o
Brasil. Por fim, Débora Ferreira escolhe uma obra de uma dentre os mais importantes escritores do século XX, Clarice Lispector. Seu A hora da estrela, publicado em 1971, tem deixado intelectuais estupefatos por mais de trinta anos, no sentido de que aparenta destoar de suas obras anteriores. Por que Lispector optaria por falar dos pobres, dos marginalizados, das mulheres? Ferreira nos mostra como Lispector subverteu não só a teoria feminista ao escolher falar por todas as mulheres, mas também qualquer teoria que se proponha a criar verdades. Pilares Narrativos é uma obra que posiciona as mulheres no centro da vida contemporânea e demonstra que a formação do cânone brasileiro necessita ser alterada.
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