D. Narcisa de Villar

Ana Luísa de Azevedo Castro

 

Posfácio

Pequena história de um encontro

 Iaponan Soares

    Há muito pesquiso sobre livros e autores catarinenses. Esse trabalho tem me proporcionado algumas alegrias e muitas frustrações. Mas destas eu não falo, porque as entendo como passageiras. Já as alegrias são sempre bem-vindas e desse modo muito agradáveis de serem relacionadas. Principalmente quando se trata de descobertas de textos pouco conhecidos de nossos autores, alguns até desconhecidos totalmente da crítica que estuda essa parte de nossa historiografia literária. Nesse particular refiro-me ao romance À Massambu, de Duarte Paranhos Schutel, publicado no Rio de Janeiro, em 1860, pela Revista Popular, mas de cuja narrativa completa só há bem pouco tempo consegui uma cópia, o que me proporcionou promover sua edição em livro, graças à generosa acolhida da Editora Movimento, da Editora da UFSC e do MinC/Pró-Memória[1].

    Tomei conhecimento do romance de Ana Luísa de Azevedo Castro e de sua naturalidade catarinense por intermédio do saudoso J. Galante de Souza, quando em 1979 publicou Machado de Assis e outros estudos (Rio de Janeiro: Cátedra-MEC). Foi verdadeiramente uma grande surpresa saber da existência de mais um romancista catarinense de meados do século passado e do fato de esse romancista ser uma mulher. Sim, porque até então minhas pesquisas davam como sendo Jovita Duarte Silva, autor de Eulália, o primeiro romancista catarinense. Pois bem, a descoberta do romance de Ana Luísa de Azevedo Castro me fez recuar em três anos a data antes fixada, e assim reconhecer nessa filha de São Francisco do Sul nossa primeira romancista. Seu livro, D. Narcisa de Villar — Legenda do tempo colonial, é de 1859 e foi publicado sob o pseudônimo de Indygena do Ypiranga, em edição da Tipografia de F. de Paula Brito, do Rio de Janeiro.

    Fiquei entusiasmado com a revelação de J. Galante de Souza e quando tive oportunidade procurei-o, na esperança de por seu intermédio ter maiores informações sobre o livro. Nosso encontro foi no Museu de Literatura da Fundação Casa de Rui Barbosa e transcorreu em clima de simpatia e muita cordialidade, mas o autor de O Teatro no Brasil logo confessou que também desconhecia a obra, muito embora tivesse realizado exaustivas pesquisas nas bibliotecas públicas e particulares do Rio de Janeiro.

    Tempos depois, de passagem pela capital paulista, aproveitei a oportunidade e fui fazer uma visita à Livraria São Paulo, na Rua São Bento, 370, 9° andar, para uma conversa com seu proprietário, Olyntho de Moura, e saber das novidades em livros raros e usados. Em determinado momento de nossa conversa, Seu Olyntho perguntou-me se conhecia uma autora catarinense que assinava com o pseudônimo de Indygena do Ypiranga. Respondi-lhe que apenas sabia que ela era autora de um romance publicado em 1859, sob o título de D. Narcisa de Villar, mas não conhecia o livro. E acrescentei que nem mesmo J. Galante de Souza, que lhe identificara o pseudônimo, logrou realizar tal façanha. Por isso, eu acreditava ser o livro de Ana Luísa de Azevedo Castro de difícil localização. E concluí:

— Impossível eu não digo porque essa palavra não existe na bibliofilia. Mas quem sabe... Um dia, por um milagre...

    O livreiro, que acompanhava atentamente meu comentário, deu um leve sorriso, aguardou um momento para observar minhas reações e disparou:

— Pois eu tenho esse romance. Chegou há pouco, junto com um lote de livros antigos que eu adquiri num velho depósito.

— Sou candidato à aquisição do livro, respondi-lhe de imediato. O assunto é de meu interesse. E intimamente comentei com meus botões: agora vou ser esfolado no preço, que não deve ser dos menores. Paciência, seja o que for, vale o sacrifício.

    O livro não vendia, respondeu, pois sua intenção era mantê-lo no acervo de sua biblioteca particular. Num gesto de grande camaradagem prontificou-se, entretanto, a me fornecer uma cópia xerox, o que aceitei com muita satisfação. O mesmo ele fez com relação a J. Galante de Souza, enviando-lhe por iniciativa própria outra cópia xerográfica de D. Narcisa de Villar.

    Quando o livreiro faleceu, em abril de 1984, logo que tive oportunidade voltei a São Paulo na esperança de adquirir o livro. Por intermédio de outros alfarrabistas, fui informado de que a Livraria São Paulo continuava aberta, agora sob orientação de uma das filhas do livreiro. Falei-lhe sobre o livro, mas ela não logrou descobrir seu paradeiro, pois a biblioteca particular de seu pai era muito grande e só ele sabia onde colocava suas preciosidades.

    Como epílogo dessa história, acrescento que o exemplar de D. Narcisa de Villar que pertencera a Olyntho de Moura não ficou perdido como eu supunha. O amigo e bibliófilo paulista Erich Gemeinder me informou que adquirira o livro. E, mais tarde fui surpreendido com o presente generoso de Erich: seu exemplar de D. Narcisa de Villar, que serviu para o cotejo da presente edição.



[1] Devo a cópia desse romance ao amigo Júlio H. Petersen, cuja biblioteca particular é uma das mais importantes em assuntos do Sul do Brasil.

 

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