Sorrisos e prantos

Rita Barém de Melo


 

Prefácio
Rita Terezinha Schmidt (org.)

 

  

Quando se fala em poetas brasileiros do século XIX, dificilmente ocorre aos historiadores , críticos literários e especialistas e, com menos probabilidade ainda, ao leitor comum, o nome de alguma poeta. Como atesta a historiografia,[1] o corpus eleito como constitutivo da história literária e que, por isso mesmo, integra o que hoje chamamos de legado canônico, procede de autoria masculina.

 Isso não quer dizer, em absoluto, que não tivemos um número significativo de mulheres poetas , em muitos casos com mais de uma obra publicada mas,sim, que sua participação na cultura literária do país ainda é vista como menor e secundária, de parte de uma elite letrada cujo discurso crítico detém o poder de assegurar a legitimidade e a visibilidade de certas obras nos registros da produção poética brasileira considerada como maior ou como veio principal. As expressões “homens de letras” e “estilo viril” presentes com freqüência nesse discurso[2] traem um subtexto de afiliações e exclusões a partir do qual a forma do cânone literário do século XIX, tal como o conhecemos, se estabeleceu e se consagrou.  

Em se tratando da obra Sorrisos e prantos, da poeta sul-rio-grandense Rita Barém de Melo, publicada postumamente em 1868, a critica brasileira manteve-se num irredutível silêncio. É compreensível, mas não justificável, o fato da obra não ter merecido a atenção dos especialistas do centro do país, haja vista que as obras de autores sul-rio-grandenses, via de regra, têm sido marcadas historicamente por uma posição de invisibilidade no cenário da cultura nacional.[3] Mais grave, porém, é o que o crítico Guilhermino César qualifica como injustiçado esquecimento[4] de uma obra da mais pura extração romântica que em nada fica a dever às obras dos grandes poetas brasileiros, mas cujo mérito ficou obscurecido porque reduzido a referências em dicionários bibliográficos, notas de rodapé ou quadros cronológicos indicativos  da produção literária no sul. A omissão da  crítica sul-rio-grandense em relação a  Sorrisos e prantos foi, primeiramente, sinalizada pelo escritor Caldre e Fião, ao elaborar o “Esboço biográfico” da poeta na revista mensal do Partenon Literário,[5] em seu número de fevereiro de 1875. Quase um século mas tarde, Guilhermino César expressou sua perplexidade ante o descaso com que João Pinto da Silva, autor da História literária do Rio Grande do Sul (1924) tratou a poeta, acrescentado que seu nome aparece incidentalmente, numa carta de 1874 do escritor Araújo Porto Alegre, cujas palavras são citadas  por João Pinto da Silva numa nota de rodapé.[6]

Nascida em Porto Alegre a 30 de abril de 1840, Rita Barém de Melo, tal como as mulheres de seu tempo e lugar, não recebeu instrução formal além do curso primário, hoje chamado de 1o. grau. Porém, desde muito jovem, revelou um extraordinário talento para a poesia, estreando aos 16 anos no semanário O Guaíba (1856-1858) sob o pseudônimo de Juriti. Fundado por Félix da Cunha, esse semanário foi o primeiro periódico literário de destaque a ser publicado em Porto Alegre, reunindo jovens poetas e escritores que tinham algum talento e  se destacavam por suas afinidades com os românticos do centro do país. Segundo Guilhermino César, "enquanto o velho Araújo Porto Alegre, de longe trovejava as Brasilianas, campanudas e pesadas, na sua província os moços cantavam como pássaros, com naturalidade e fluência, despreocupados de tudo".[7] Foi através de um de seus colaboradores, João Vespúcio de Abreu e Silva, que Barém de Melo juntou-se ao grupo de O Guaíba.[8] Casou-se aos dezessete anos com José Corrêa de Melo,tio das poetas Revocata de Melo e Julieta de Melo Monteiro, editoras do periódico literário O corimbo, também de Rio Grande. Teve dois filhos mas os perdeu quando ainda eram pequenos, deixando, em muitos de seus poemas, a nota eloqüente de seu desalento e sua dor. Faleceu precocemente na cidade de Rio Grande (RS), a 27 de fevereiro de 1868, portanto, aos 28 anos de idade.

A personalidade poética de Rita Barém de Melo não pode ser dissociada das contingências de uma vida estigmatizada pela dor, pelo desamparo e pela solidão. Poeta voltada para si mesma, o tecido de sua vivência como mulher haveria de,forçosamente, produzir um impacto na sensibilidade romântica extremamente aguçada, determinando um lirismo de contorno singular. Em seus versos, a intensidade da experiência vivida é modulada por uma linguagem singela em que a brandura refina o desespero, tornando-o mais sereno, mais comunicável. Não é, portanto, o sentimento cru que se impõe à revelia da elaboração formal, mas a substância afetiva que se transfigura em versos alados e graciosos, sem jamais pecar por artificialismos de gosto duvidoso tais como a erudição forçada, preciosismos ou cerebralismos genéricos. Na perspectiva de Guilhermino César, o único crítico que soube apreender a força poética de Sorrisos e prantos, Rita Barém de Melo é "uma das intérpretes mais luminosas da poesia brasileira"[9], pois seu lirismo se reveste de uma forma espontânea rara, onde se mesclam a emoção e a suavidade para produzir “melodia pura”[10] O poema Que pensas? ilustra, de forma lapidar, o equilíbrio entre o sentimento e sua forma composicional. Os versos se vergam sob o peso de emoções fortes, mas se encadeiam sem exacerbações ou tresvarios. A linguagem logra acompanhar uma curva sonora cheia de leveza, ensejando a melodia e o ritmo tão caros ao romantismo.

A Poeta despontou como integrante da primeira geração romântica no Rio Grande do Sul, uma geração  cuja maior contribuição foi a de desatrelar a literatura sul-rio-grandense de uma agenda que dava primazia a elementos especificamente locais ou gaúchos, colocando-a, por assim dizer, num patamar de sintonia com as vertentes do movimento romântico do centro do país. Dessa 1a. geração faziam parte, além de Rita Barém de Melo, João Vespúcio de Abreu e Silva , Félix da Cunha, Pedro Antonio de Miranda e João Capistrano Filho, todos eles mais ou menos alinhados dentro dos princípios que dominavam o espírito romântico nacional.  Se na década de 40, o romantismo de tonalidade nacionalista foi decisivo para o processo de amadurecimento de uma tradição literária brasileira de caráter próprio, na década seguinte, a emergência da segunda geração romântica de poetas brasileiros ou os chamados “ultra-românticos”, colocou em evidência uma poesia flexionada  por um subjetivismo de natureza egótica. Sob a forte influência do spleen de Byron e do mal du siècle de Musset, essa geração de poetas cultuou, como nenhuma outra, o individualismo como fonte suprema de criatividade e, de acordo com o pathos da época, elegeu um temário emotivo de amor e morte, de evasão, desilusão e negativismo,  ou o que se convencionou chamar de morbo romântico. Dessa geração, destacaram-se, no cenário nacional, aqueles que os críticos e historiadores consideram seus três maiores representantes: Álvares de Azevedo, cuja obra Lira dos 20 anos, publicada em 1853,  constitui um marco do período; Junqueira Freire, autor de Inspirações do claustro, de 1855, e Casimiro de Abreu, cuja obra As primaveras, de 1859, registra o esquema afetivo de sua geração.[11] A rigor, os poetas dessa geração eram estudantes dados à boemia, oriundos de famílias de classes abastadas,[12] cujos padrões culturais traduziam a assimilação de padrões da cultura européia. Pode parecer contraditório o fato de que o movimento romântico, que postulava uma poesia  brasileira, de perfil autêntico e autônomo, tenha gerado poetas com tal grau de fascínio pelas vertentes da inspiração cosmopolita que, não raro, produziram uma poesia isenta de qualquer vestígio de vinculação com o meio em que viviam. Todavia, se por um lado, esse fato coloca em pauta a questão da dependência cultural a que os poetas se rendiam, num momento em que as letras nacionais se empenhavam na construção de uma identidade cultural brasileira, por outro, revela o impulso heróico de tentar superar as deficiências de um meio provinciano e acanhado e transitar, em pé de igualdade, pelos caminhos trilhados pelos escritores europeus.

Considerando esse quadro,  é ainda mais surpreendente o surgimento de uma poeta, no extremo sul, do calibre de Rita Barém de Melo. A despeito de limitar-se a uma única obra, sua poesia traz uma contribuição importante para a história cultural e para a leitura crítica do romantismo brasileiro, não só porque a poeta cultivou possibilidades temáticas que alargam o horizonte de temas trabalhados pelos poetas conhecidos e consagrados pela tradição crítica, mas também porque a sua lírica inscreve a presença da voz feminina no contexto de uma tradição secular patriarcal, em que o sujeito lírico foi tradicionalmente assumido pela voz masculina. Sorrisos e prantos reúne poemas escritos entre 1854 e 1867, sendo que sua maioria é datada de 1856. As epígrafes são uma constante e se constituem em molduras reveladoras da bagagem de leitura de Barém de Melo, o que não deixa de causar espanto visto que a Poeta não recebeu instrução formal além da básica primária, era destituída de posses e mais, estava inserida num meio provinciano que,  se já  acarretava obstáculos para os homens letrados, tanto mais para uma mulher, numa época em que sua vida estava predestinada ao casamento e à maternidade. Além dos franceses Lamartine, A. Dumas e Victor Hugo, observa-se a presença marcante de poetas portugueses, de Camões, A, Garrett e A. Herculano a outros menos conhecidos. A lusofobia que permeia o romantismo brasileiro[13] não encontra ressonância em Barém de Mello que foi, igualmente, leitora   perspicaz de seus contemporâneos brasileiros. Álvares de Azevedo, Gonçalves Dias e Casimiro de Abreu, assim como o sul-rio-grandense Félix da Cunha, comparecem também em epígrafes que operam como mote para alguns de seus mais belos poemas. Nesses casos, o eu lírico estabelece um diálogo com a voz poética do outro, num jogo intertextual onde as identidades ora se imbricam por semelhanças, ora se afastam pelas diferenças.

Rita Barém de Melo teria sido, acima de tudo, casimiriana, antes mesmo de Casimiro de Abreu começar a poetar. Efetivamente, alguns de seus poemas, como é o caso de Saudades  e de A noite, ambos de 1855, antecipam a tessitura do lirismo casimiriano, particularmente no tratamento de uma temática evocativa e saudosista da terra natal. Já poemas como Aurora da primavera (1867) e Sonhos de virgem (1863) são impregnados da tristeza langorosa e melancólica que animam As primaveras, obra de Casimiro de Abreu publicada em 1859. A Poeta certamente tinha conhecimento da obra de Casimiro e, talvez, o fato de ter adotado o pseudônimo de Juriti, nome dado a uma ave nativa e título de um poema daquele, escrito em Lisboa em 1857, seja um índice comprobatório de tal conhecimento. É no poema Num álbum, coincidentemente datado de 1857, que a Poeta assume a identidade da Juriti, cantando a diferença do tom sombrio de ave selvagem que, modestamente, rende homenagem ao cisne da Bahia. Sobre a identidade desse cisne, é possível que se trata de Junqueira Freire, uma vez que é o único poeta da geração de Barém de Melo oriundo da Bahia, falecido em 1855.

É possível identificar três vertentes temáticas em Sorrisos e prantos. A primeira delas é a temática amorosa, a qual  se desdobra em várias configurações. Raro é o amor cantado em tom leve e sonhador como nos versos de Vem e de Como te amo. Freqüente é a presença da sombra do desengano e da perda, que responde pelo negativismo dos poemas O mundo, Para que viver-se?, Maldito mundo e Desespero. A desilusão amorosa é um dos eixos em torno do qual gravita o amargor existencial  do eu lírico feminino. O contundente poema Sina de mulher adentra pelos caminhos da expressão do sentimento da mulher comum brasileira, sinalizando um momento ímpar na poesia romântica cuja ótica, inscrita no masculino, entronizou os encantos femininos via idealização da mulher como objeto amoroso. Por outro lado, uma característica marcante do romantismo que era a de associar poesia e dor da alma percorre vários poemas, destacando-se  Minha lira a suspirar, autêntica profissão de fé e uma das mais belas figurações da alma poética da Barém de Melo.  Seus versos fazem eco aos de Gonçalves de Magalhães Meus versos são suspiros de minha alma.[14]

Se para os poetas românticos, a perda da amada se constitui num dos topoi obrigatórios, para Barém de Melo a perda do objeto amoroso - no caso o amado - se estende à perda dos entes queridos: irmã, mãe, filhos. Sua visada filtra a subjetividade feminina entrelaçada nessa rede afetiva de relações familiares. O desaparecimento dos entes queridos dá origem a versos confessionais, doloridos e ternos, pontuados por uma revolta contida, por vezes expressa em versos martelados e duros. No antológico poema Minh’alma é triste (1858), Casimiro de Abreu decalca a tristeza num painel de perdas: dos amores, das ilusões, dos tempos de mocidade que não mais voltarão. Em Lágrimas de mãe  (1861), Barém de Melo sublinha sua diferença, dando vazão à consciência dilacerada da mãe diante da perda do filho, no tom justo de versos decassílabos, cadenciados e solenes. Também da expressão feminina da maternidade brotam os versos de Dor sem termo. As afiliações afetivo-emocionais entre mãe/filha ganham aqui dramaticidade, no horizonte último que é sempre de perda e morte.

Na temática voltada à natureza, a arte de Barém de Melo transparece em seu lado mais suave e elegíaco, destacando-se o apelo que a paisagem local suscita na sensibilidade plástica da Poeta. Com o advento do romantismo, alargaram-se as fontes de inspiração, até então dominadas pelos elementos greco-romanos da poética neo-clássica. A paisagem brasileira e os elementos locais da flora e da fauna, que se faziam presentes na literatura desde os tempos coloniais, deixam de ser apenas enumerados e assim cumprir uma função  decorativa, para se integrar, de maneira definitiva, no lirismo poético. E Barém de Melo cantou a sua cidade, a sua terra, como nenhum outro poeta antes dela o fizera. Seja o fluxo nostálgico do Guaíba sob o luar, as noites orvalhadas do sul nos frios de março, as ilhas da cor de esmeraldas nas tardes ardentes do rio ou  as flores singelas dobradas pela brisa, o apego da Poeta ao detalhe, apaixonadamente apreendido em versos simples e comovidos, constrói a experiência afetiva de um lugar e de um tempo. E dela a saudade transborda como um rio de águas doces e ondulantes. É nessa vertente que se inserem os poemas onde Barém de Melo canta o elemento aborígene, na esteira de Gonçalves Dias. No imaginário da Poeta, que se rende ao encanto da vida natural sem recair na retórica piegas do ufanismo patriótico, o índio é repositório  da coragem e da determinação, qualidades que inspiram o desejo que percorre os versos de Canto da Índia.

Por fim, a temática de teor patriótico reúne não somente alguns poemas panegíricos, escritos em homenagem ao Imperador D.Pedro II, mas também poemas associados a causas cívicas como a guerra contra Solano Lopes, o selvagem do Prata. O conflito de 1864 a 1870 provocou muitas manifestações da inteligência brasileira e, segundo Afrânio Coutinho, poucos foram os poetas brasileiros de então que não pagaram tributo à musa guerreira.[15] O poema Voluntários da pátria, escrito em 1865, é um hino de louvor ao heroísmo dos soldados brasileiros e se alinha ao ímpeto  do espírito romântico engajado na construção da nacionalidade. O poema O soldado do Paraguai, de 1867, constituído de quatorze quadras de metros curtos, é um poema de densidade épica alimentado pela  visão de um mundo mais democrático e igualitário.. O poema dramatiza a injustiça social através do confronto de vozes: de um lado, a voz oficial dos que comandam a guerra em função de interesses que nem sempre coincidem com os dos comandados; de outro, a voz daqueles que, limitados a cumprir ordens, sacrificam suas vidas para outros cobrirem-se de glórias.

O lirismo de Rita Barém de Melo se impõe contra clichês e roteiros prescritos. Se, por vezes, sua linguagem aparenta  certa dose de ingenuidade à visada contemporânea, é porque bebe da fonte singela de uma vida despretensiosa, circunscrita pelas condições materiais, geográficas e sócio-culturais de seu meio, assim como pela sua própria condição de mulher no mundo patriarcal de uma sociedade provinciana do Brasil meridional, de meados do século passado. Se o seu estilo não vai ao encontro das expectativas do gosto literário atual, é porque filtra o enquadramento de uma sensibilidade singular no espírito de uma época distante. O que não implica dizer, todavia, que sua poesia não consubstancie um processo encantatório, merecedor de valor em si mesmo e que, por conseguinte, não constitua um momento feliz da poesia brasileira do século XIX. Para Alfredo Bosi, o crítico paulista, Fagundes Varela é o único nome de relevo da poesia brasileira da década de 1860.[16]  Há que se levar em conta, contudo, que tal afirmação é feita em função de um determinado corpus conhecido e canonizado pelas histórias literárias, estanto, portanto, fora do alcance de seu pronunciamento, obras que, por razões nem sempre ligadas ao  mérito literário, saíram fora do domínio público e caíram no esquecimento. Não por coincidência, a grande maioria dessas obras é de autoria de mulheres.

Ao buscar explicações para a invisibilidade da Poeta, Guilhermino César refere-se aos equívocos críticos que rondaram o próprio Casemiro de Abreu e que foram desfeitos graças ao trabalho criterioso de Sousa da Silveira em suas duas edições da obra do Poeta. Após cento e trinta anos de sua publicação, a presente re-edição de Sorrisos e prantos faculta aos historiadores, críticos, professores de literatura e leitores em geral, a oportunidade de conhecer a poeta sul-rio-grandense. É de se esperar que essa oportunidade possa levar, eventual e tardiamente, ao reconhecimento da significação e valor de sua poesia bem como à  designação do lugar devido à Poeta no mapa da produção poética brasileira.

                                                                                       Rita Terezinha Schmidt

                                                                            Porto Alegre, janeiro de 1998.

   


[1] Cabe mencionar, inicialmente, as  obras  Formação da literatura brasileira, 2o. volume, de Antonio Candido (São Paulo: Martins Editora, 1959 ), História concisa da literatura brasileira, de Alfredo Bosi ( São Paulo, Editora Cultrix, 1965) e A literatura no Brasil, direção de Afranio Coutinho ( Rio de Janeiro, Editorial Sul Americana S.A., 1969) bem como a clássica obra de Sílvio Romero, História da literatura brasileira, Rio de Janeiro, José Olympio, 1953).                   .

Na Evolução da poesia brasileira, de Agrippino Grieco (São Paulo, José Olympio Editora, 1947), o crítico refere-se, en passant, a algumas poetas parnasianas agrupadas sob o título “As poetisas do segundo parnasianismo.”No Panorama da poesia brasileira, vol II, O romantismo, de Edgard Cavalheiro ( Rio de Janeiro Civilização Brasileira, 1959, há referências a uma única poeta, Narcisa Amália. Muito embora alguns dicionários bibliográficos e antologias registrem a presença feminina nas letras brasileiras (ver, por exemplo, o Dicionário bibliográfico brasileiro ( 1900) de Sacramento Blake, a Enciclopédia de literatura brasileira (1990), de direção de Afrânio Coutinho  e Vozes femininas da poesia brasileira (1959), de Domingos Carvalho da Silva) a crítica brasileira, de modo geral, ainda hoje se mantém reticente em relação à produção poética de autoria feminina no século XIX,  até porque há um desconhecimento generalizado sobre esse corpus, em parte decorrente das dificuldades de acesso a obras  cujas edições desapareceram de circulação.     

[2] Evidenciadas em linguagens críticas tão diversas e distanciadas no tempo quanto as de Araripe Junior ( Obra crítica de Araripe Junior, Afrânio Coutinho, dir. Rio de Janeiro: MEC/ Casa de Rui Barbosa, 1960), de Olívio Montenegro ( O romance brasileiro, Rio de Janeiro: José Olympio, 1938) e de Alfredo Bosi  ( História concisa da literatura brasileira, São Paulo: Cultrix, 1965).

[3] O mais recente exemplo dessa invisibilidade é o espaço reduzido reservado ao Rio Grande do Sul no segundo volume da obra História da vida privada no Brasil: a corte e a modernidade nacional, organizada por Luiz Felipe de Alencastro (1997).

[4] História da literatura do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora Globo, 1956, 100.

[5] 2o. ano, no.2, fevereiro de 1875, p.59.

[6] Assim se expressou o referido escritor: A falecida Barém, cujos versos li cheio de admiração, foi uma das organizações mais perfeitas e elevadas que é possível para a poesia. Há nas suas obras o cunho do verdadeiro engenho. ( História literária do Rio Grande do Sul, 28-29).

[7] Op. Cit.,154.

[8] Com o fim de O Guaíba, surgiu a revista Arcádia (1867-1870) na cidade de Rio Grande, que revelou, entre outros poetas, o nome de Clarinda da Costa Siqueira (1818-1867), autora de Poesias, publicada postumamente em 1881.

[9] Op. Cit.,160.

[10] Op. Cit.,237.

[11] Conforme Afrânio Coutinho, p.187.

[12] Segundo Alfredo Bosi, a inteligência brasileira, incluindo os poetas românticos de 40 a 70,em sua maioria, eram rapazes que vinham para os centros como Rio, São Paulo e Recife, para receber instrução jurídica. Filhos de oligarcas rurais, de comerciantes luso-brasileiros e de profissionais liberais, constituíam a alta classe média do país 

[13] Segundo Bosi, p.129.

[14] O canto do cisne, da obra Suspiros poéticos e saudades ( 1836), a qual é considerada a obra inaugural do movimento romântico no Brasil

[15] In: A literatura no Brasil - romantismo -  191

[16] Op. Cit., 129

 

 

Sorrisos e prantos | prefácio | crítica | excerto | comprar