Masculino, feminino, plural
gênero na interdisciplinaridade

Organização de Joana Maria Pedro e Miriam Pillar Grossi


Prefácio

            Journey: An Anthropologist’s Year Among Brazil’s Mekranoti Indians. New York: Simon and Schuster, 1984;  Uma introdução às culturas humanas: comida, trabalho, sexo, magia e outros assuntos antropológicos. Petrópolis: Vozes, 1992. O pensamento de Não é por acaso o uso do termo “plural” para adjetivar o título desse livro. É um termo sumamente apropriado para descrever o conteúdo, rico e variado, desse volume em que especialistas dos campos mais diversos – história, literatura, ciências sociais, psicanálise, educação e direito – debatem-se dentro de uma mesma preocupação: o estudo das relações de gênero. Mas será que é “uma mesma preocupação”?

Olhando bem, vislumbramos grandes divergências nas abordagens propostas. Dennis Werner, por exemplo, no seu artigo sobre a teoria de heterozigocidade no estudo da homossexualidade masculina, considera a questão de gênero do ponto de vista da etologia e da evolução humana. Silvia Emília Espósito procura, na perspectiva psicanalítica, uma “outra legalidade não biológica” para a definição da sexualidade. Tereza Virgínia Almeida, por seu lado, propõe, dentro de um enfoque construtivista, historicizar a própria noção de corpo para pensar a invisibilidade das escritas femininas no passado. Maria Luiza Heilborn traz ao debate uma reflexão estruturalista, recorrendo à teoria de Louis Dumont para avançar na “polêmica desconstrutivista” e chegar a uma “metateoria” capaz de elucidar a persistente assimetria das relações de gênero. Uma consulta às bibliografias revela um leque enorme de referências – dos clássicos a obras da vanguarda, algumas com preocupação feminista, outras não: de Lévy-Strauss a Foucault e Giddens, de Margaret Mead a Donna Haraway e De Lauretis. Se o/a leitor/a pretender achar um cânone que una esses artigos, procurará em vão.

Certamente não é possível pleitear uma meiga complementariedade entre essas diversas abordagens. Mas tampouco fica a impressão de um “diálogo de surdos”. Ao contrário, os/as autores/as mostram-se críticos/as, irritadiços/as até, com ângulos analíticos antagônicos aos seus, mas não deixam de citá-los, concedendo a essas outras “vozes” um lugar chave no argumento. É justamente no confronto de posições diversas que esse volume afirma sua perspectiva “plural” – uma perspectiva que, segundo Marilyn Strathern (1988), está no cerne de nosso debate. O campo discursivo da pesquisa feminista cria-se no diálogo – a escuta crítica que engendra conflitos e, eventualmente, alianças. Aparentemente, há uma gama impossível de posições, mas são posições sustentadas abertamente em relação umas às outras; são verdadeiros “buracos de tatu” mas que, não obstante, constituem um campo fecundo de referência.

Coube a Margareth Rago e Claudia de Lima Costa, nos seus respectivos artigos, comentar as bases epistemológicas desse campo, explorando o que é próprio à crítica feminista. Rago sublinha princípios metodológicos que unem os/as pesquisadores/as do feminismo acadêmico. Apoiando-se em historiadores/as tais como Michelle Perrot e Paul Veyne, coloca a historiografia feminista na vanguarda das correntes intelectuais. A incorporação da subjetividade na análise científica, o foco na experiência, a ênfase na prática (que não vem mais a reboque da teoria) e a historicização dos próprios conceitos científicos seriam alguns dos marcos dessa nova abordagem. Rago constrói seu objeto relacionando a pesquisa feminista com outros projetos de ciência externos a ela, ressaltando oposições (por exemplo, aos modelos hierárquicos importados das “ciências naturais”) e convergências (com as formulações dos “filósofos da diferença” – Foucault, Lyotard, Derrida, Deleuze). Lima, por sua vez, concentra-se no confronto entre pós-estruturalismo e feminismo tal como se traduz em conflitos dentro do próprio campo. Ao mesmo tempo que reconhecem que o pós-estruturalismo tem fornecido instrumentos valiosos para desconstruir as categorias que tradicionalmente legitimam o status quo, proponentes de “um feminismo da crítica social” temem – no possível excesso de reflexões filosóficas abstratas – a dissolução do gênero e o esvaziamento de qualquer projeto político. Lima, através de uma discussão a um só tempo pormenorizada e abrangente da bibliografia recente, sublinha as ambigüidades dessa relação – entre pesquisa e militância – fundante do campo.

Depois do primeiro bloco de artigos, no qual somos expostos aos diversos debates teóricos que subjazem à pesquisa sobre relações de gênero, voltamos, no segundo bloco, a um assunto temático: a masculinidade. Nisso, as/os autoras/es respondem a um desafio lançado há tempo pelos/as teóricos/as do campo, que para estimular o estudo da masculinidade, lembram que a atenção analítica voltada exclusivamente para a “construção social” do feminino deixa a impressão de que os homens existem em algum lugar além do social, como se – mais uma vez – o masculino constituísse um parâmetro extra-histórico e englobante. Nesse volume, pelo contrário, a tônica dos estudos empíricos está nos homens. Maria Bernardete Ramos Flores, por exemplo, elege a noção de honra masculina para entender a relação entre homens e mulheres nos casais açorianos que povoaram a Ilha do Desterro (Florianópolis), ao longo do século XVIII. Justapõe imagens femininas contraditórias – por um lado, mulheres enclausuradas e, por outro, moças que não se escondem, não se cobrem de mantos e que, “de mão suave e rosto risonho, trazem a água ao sedento” – para mostrar as múltiplas respostas possíveis diante desse sistema de valores.

Para aprofundar sua análise de cangaceiros nordestinos, Ana Claudia D.R. Marques também revela a centralidade da honra masculina – na qual os homens, enquanto “guerreiros”, proclamam-se defensores da família. No seu trabalho, vemos como a “questão de gênero” estende-se bem além dos limites do espaço doméstico e exerce uma influência na organização política local. A psicóloga Maria Juracy Toneli Siqueira leva-nos para um outro extremo da conduta masculina, observando o caso aparentemente “desviante” de um homem que arca com as lidas de casa enquanto sua mulher, uma empregada doméstica, sustenta a casa com seu trabalho assalariado. Debruçando-se sobre outro universo – homens das camadas médias –, a antropóloga Maria Regina Azevedo Lisboa demonstra algo semelhante: a “crise” de identidade dos homens que não se sentem confortáveis num papel tradicional, e sua tentativa de criar novos modelos de masculinidade que se contrapõem ao patriarcal dominante.

Finalmente, Carmen Silvia Rial explora algumas práticas esportivas (as lutas marciais, o boxe e o rúgbi) como espaços de homossociabilidade que reforçam diferentes formas de masculinidade. Pensa o esporte como um processo de incorporação de um ethos masculino em que a dor, o sacrifício e o sofrimento coroam a glória do vencedor, ao mesmo tempo em que salvam a honra do derrotado.

Um último bloco de artigos trata de violência e lei. Joana Maria Pedro, vasculhando jornais e processos jurídicos em Florianópolis no início desse século, procura mapear a criminalização progressiva das práticas costumeiras do infanticídio e do aborto, mostra como a visão jurídica do feto, durante muito tempo considerado como meras “víceras maternas”, passou, com o tempo, a devassar o corpo feminino, dando “à privacidade das suas entranhas uma publicidade punitiva”. Jeanine Philippi também volta seu olhar para o aparato jurídico, colocando em relevo as contradições internas de um sistema pautado na igualdade formal que age dentro de uma sociedade, na qual, “por causa da miséria, da violência e das diversas formas de discriminação, que marcam o atual estágio de desenvolvimento da modernidade (...), os indivíduos, identificados como sujeitos do direito, não são autores de suas histórias e nem tampouco comungam o estatuto de seres livres e iguais”. Desmascarando a ilusão da neutralidade dos processos jurídicos, e usando o caso de homossexuais para ilustrar seu argumento, sugere que a própria ação classificatória da lei cria formas de discriminação. Enfim, Miriam Grossi aborda o assunto nada teórico da violência doméstica. Indo além das usuais abordagens (que procuram as causas do fenômeno ou em fatores sócio-econômicos, ou então no “sistema patriarcal”), ela propõe pensar a violência enquanto linguagem – elemento estruturante da própria relação conjugal. Ao considerar a violência doméstica também no âmbito das relações homoeróticas, a autora desloca a violência do pólo masculino, mostrando o processo conjugal enquanto “jogo”, no qual há uma circulação (antes de uma divisão estanque) de poder. Como Jeanine e outras autoras desse volume, Miriam incorpora uma perspectiva psicanalítica ao seu trabalho, colocando o desejo e o vazio ao lado de considerações sociais e históricas para repensar as relações de gênero e, com isso, transformar o próprio campo acadêmico.

Trata-se, em suma, de um volume que reflete a riqueza de uma tradição já consolidada de pesquisa – fruto da crítica feminista amadurecida, que incorpora a experiência de fases anteriores. A obsessão pela denúncia, que caracterizou a primeira geração de pesquisadoras, tem-se transformado num engajamento mais ponderado, mas não menos seguro, orientado para um projeto de transformação social. A preocupação com “o resgate” da história da mulher, tornada invisível pela ciência tradicional, começa a surtir efeito para outros elementos tradicionalmente esquecidos da nossa realidade: o cotidiano, os grupos despossuídos, a fragilidade masculina... Não existe, nestes trabalhos, a fixação em problemas da Mulher, mas em mulheres e homens interagindo segundo padrões e valores historicamente engendrados.

            Enfim, esta obra acompanha as correntes da vanguarda intelectual de além-mar, ao mesmo tempo em que reflete uma trajetória propriamente brasileira. Viemos de longe, desde os primeiros concursos lançados no fim da década de 70 pela Fundação Carlos Chagas para fomentar “pesquisas sobre a mulher”. Depois de duas décadas de Grupos de Trabalho sobre a mulher e relações de gênero, nas mais diversas reuniões nacionais – ANPUH, ANPOCS, ANPED, ANPOLL, SBPC –, depois de ver surgir centros de pesquisa de altíssima competência tais como Pagu, e nascer revistas de nível internacional tais como Estudos Feministas, a originalidade da produção brasileira nesse campo há de ser reconhecida. Do Norte ao Sul, os investimentos acadêmicos na área de gênero têm tido repercussões importantes. Em Santa Catarina, um grupo multidisciplinar de pesquisadores leva adiante seu projeto de ciência feminista, que já rendeu duas reuniões maiores, “Fazendo Gênero” I e II. Agora, com treze dos quinze colaboradores de universidades catarinenses, e seis dos sete “estudos de caso” situados no sul do país, Masculino, feminino, plural torna o fruto deste trabalho acessível ao público nacional, combinando a ciência universal com o melhor da tradição dos “saberes locais”.

Claudia Fonseca

 Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Departamento de História

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